CASA
DE PENSÃO
Aluísio
Azevedo
CAPÍTULO XVIII
Mas, no fundo, João
Coqueiro principiava a "cismar com o negócio". Segundo
os seus cálculos, a irmã, por aquela época, já
deveria estar pejada: circunstância esta que daria oportunidade
a um escândalo, de antemão preparado, forçando Amâncio
a "reparar sua falta".
E, no entanto, Amelinha "nada de aviar"! O bom irmão
sentia até como um peso na consciência por haver contribuído
diretamente para aquela situação.
- Era sempre assim!... pensava ele enraivecido. - Se não precisássemos
de um filho, é que os pestinhas haviam de aparecer aí de
enfiada!
E o receio amargo de ter sacrificado a menina, talvez sem os belos resultados
que esperava para si e para ela, invadia-lhe o coração e
punha-lhe momentos maus na vida.
Mme. Brizard já não pensava do mesmo modo. Aquela existência
pronta, inteiramente desocupada, lhe viera muito a propósito. "Ela,
coitada de si! bem precisava de um bocado de descanso!"
As coisas, de fato, iam-lhe agora admiravelmente: Tinha a sua mesa boa
e farta, um bom quarto de dormir, a mucama para lavar-lhe e engomar-lhe
a roupa, um camarote no teatro de quando em quando, aos domingos um passeio
à cidade, e lá uma vez por outra uma "soirée"
em casa de alguma amiga. "Ah! Não se podia comparar a existência
que levava agora com a peste de vida que curtira na Rua do Resende!"
É que então não havia a menor folga; não se
podia arredar pé do serviço! E todo o dia reclamações!
E todo o dia - o banho morno de fulano! O chocolate de beltrano! Este
queria ir sem pagar a conta; o outro se entendia no direito de dizer desaforos
porque pagava! Arre! Assim também não era viver! Seu corpo
há muito tempo que pedia aquele repouso! Se continuasse a labutar
como dantes - credo! - estourava por aí um dia, esfalfada!
E, com medo de perder a "pepineira", cercava Amâncio de
adulações. Tinha-o na conta de um patrão, de um amo,
com direito a todos os carinhos e desvelos. Assim jamais o contrariava,
nunca lhe opunha censuras. - Aquilo que o rapaz fizesse estava sempre
muito bem feito!
No seu entendimento mercantil de locandeira, Amâncio não
aparecia "como isto ou como aquilo", representava pura e simplesmente
"um bom arranjo". Ali não havia favores, havia negócio,
ninguém ficava a dever obrigações. - Ele despendia
tanto em dinheiro, mas recebia em carícias e bom trato um valor
correspondente. - Estavam quites!
Apenas, como o negócio era rendoso e agradava a boa mulher, esta
fazia o que estava ao seu alcance por agüentá-lo o maior tempo
possível, como de resto, qualquer um procedia com referência
a um bom emprego. Quanto à posição de Amélia,
Mme. Brizard a dava por natural e coerente. Não via na cunhada
uma vítima ou coisa que o valha, mas tão-somente um membro
solidário naquela empresa, envidando os esforços de sua
competência para o comum interesse da associação.
Isto, já se deixa ver, era o que pensava a francesa, mas não
o que ela expunha; de sorte que o marido ficou muito espantado, quando,
falando sobre a necessidade de tratar do casamento de Amélia com
o hóspede, lhe ouvia dizer:
- Homem... para falar com franqueza... acho que o melhor é deixar
seguir o barco como vai!...
- Como vai!...
E Coqueiro engoliu a frase indignado:
- Ora essa! Tu, com certeza, não estás falando a sério!
- Às vezes, quem tudo quer tudo perde!... sentenciou a mulher.
- Mas que diabo quero eu?! retrucou aquele. - Eu não quero senão
o que é de justiça! Quero apenas que eles se casem!
A outra, para quem o casamento de Amélia não trazia vantagens
imediatas e podia, aliás, comprometer o estado feliz das coisas,
saltou logo com uma bateria de opiniões contrárias: "Coqueiro
faria muito mal em precipitar os acontecimentos! Naquela situação
o mais razoável e o mais prudente era sem dúvida esperar!
A natureza não dava saltos! as coisas haviam de atingir um bom
resultado, sem ser preciso lançar mão de meios violentos!"...
- Mas é que ele nos pode escapar!... argumentou Coqueiro.
- Não creias! retorquiu a velha com um gesto arraigado na experiência.
- Mas filha, vem cá! - Não vês como o Amâncio
está ultimamente? Já não é o mesmo! Amelinha
já não tem sobre ele domínio de espécie alguma!
O maroto já não pensa nela, é todo da Hortênsia!
- E que tem isso? O que tem que ele farisque a Hortênsia? Está
no seu direito - é moço, tem dinheiro!
- Ora essa!... exclamou de novo Coqueiro, ainda mais indignado que da
outra vez. - O que tem isso?!...
E cruzando os braços:
- É muito boa!...
Mas tornou logo:
- Tem, que ele deve uma reparação à minha irmã!
Tem, que ele, apaixonado pela Hortênsia, pode virar as costas à
pobre menina e abandoná-la no estado em que a pôs! - desonrada,
perdida! "Que tem isso?!" Ora faça-me o favor!
- Tolo! disse a francesa com um riso cheio de filosofia, cuja tranqüilidade
contrastava com as irritações do marido. - Tolo! Bem que
se vê que não conheces os homens!... Pois acredites lá
que o Amâncio despreze a rapariga por ter agora um capricho pela
outra?... Não sabes que a única mulher capaz de prender
o homem é aquela com quem ele convive dia e noite; aquela com quem
ele se habituou; aquela que já lhe conhece as fraquezas, os ridículos,
as pequeninas misérias da intimidade?! Abandoná-la!... Digo-te
mais: - Hortênsia é até necessária! Deixa que
ele a persiga, que ele a conquiste à força de mil sacrifícios
e de mil sofrimentos; deixe que ele a possua, que a tenha inteira na mão!
Deixa, porque ele há de voltar, e voltar farto!... Meu amigo, paixão
é fogo de palha! - não dura! Nas ocasiões de fadiga
e abatimento é com o amorzinho de casa que a gente se acha! E,
fica então sabendo que, para um homem amar deveras uma mulher,
é preciso que ele se tenha já desiludido com muitas outras!
Tristes de nós, se assim não fosse! Há maridos que,
ao voltar de suas correrias, apaixonam-se pelas mesmas esposas, a quem
dantes só se chegavam por obrigação!
E a francesa velha, saboreando o silêncio que cavara no adversário,
concluiu depois de tomar fôlego:
- O rapaz quer, por graça, dar cabeçadas?... Pois deixa-as
dar! Que ele, quando partir a cabeça, há de fazer justiça
à tua irmã. Este fato da mulher de Campos, crê tu,
foi uma providência, foi um atalho que se abriu nos teus planos!
* * *
E o fato é
que Coqueiro acabou por concordar com a mulher. "Amélia, desde
que se convertesse numa necessidade para a vida de Amâncio, este,
com certeza seria o mais interessado em fazer dela sua esposa; por conseguinte,
agora o que convinha era que a rapariga também ajudasse de sua
parte, empregando todo o jeito e boa vontade de que pudesse dispor: devia
mostrar-se cordata, simples nos seus gostos, bem arranjadinha, amiga do
asseio, honesta, digna, enfim, de um marido!"
E dominado por esta idéia, aconselhou logo à irmã
que se fizesse meiga com o "noivo", dócil, boa companheira
e fiel principalmente, fiel quanto possível, que todo o futuro
dela, bom ou mau, só disso dependia!
Mas a rapariga, com uma pontinha de desânimo, contrapunha-lhe o
feio procedimento de Amâncio para com ela naqueles últimos
tempos. Apontou as cenas de altercação que mais a humilharam;
disse as frases grosseiras que ouvira do amante, as ameaças que
recebera, as palavras que lhe escaparam, a ele, na febre das contendas;
palavras, onde se enxergavam claramente o fastio e a má vontade!
- Não faças caso! discreteou o irmão. - Isto não
vale nada!... fecha por enquanto os olhos a todas essas coisas! Não
convém o menor espalhafato antes que o tenha seguro de pés
e mãos! Nada de espantar a caça!... Lembra-te, minha rica,
de que, no estado em que te achas, só ele te poderá proporcionar
uma posição legítima e definida!
Depois desta conferência, Coqueiro ficou mais tranqüilo. Agora,
a sua maior preocupação era o sobrado da Rua do Resende.
- Já lá se iam meses, sem que o conseguisse alugar; o diabo
do prédio era grande demais para família e, na disposição
em que estavam os quartos só mesmo podia servir para casa de pensão.
Nesta conjuntura, resolveu alugá-lo a várias pessoas; mas,
para isso, tinha de fazer obras e faltava-lhe um homem de confiança,
que estivesse disposto a ir para lá e tomar conta de tudo. - Ah!
Se não fora a família!... ninguém mais se encarregava
disso senão o próprio Coqueiro! E fá-lo-ia até
por gosto!
Encontrou, porém, o seu homem num velho conhecido empregado no
correio e que, já em algum tempo, tomara a seu cargo, nas mesmas
condições, a casa de um outro amigo. Chamava-se Damião.
- bom rapaz, ativo e zeloso. Estava talhado para a coisa.
Damião, mediante a faculdade de não pagar a parte que ocupasse
na casa, comprometia-se a cobrar o aluguel dos outros inquilinos e entregá-lo
pontualmente ao senhorio; obrigava-se a fiscalizar a conservação
do prédio, a pregar escritos quando houvesse cômodos desabitados
e administraria enfim o serviço da pessoa que se encarregasse de
fazer a limpeza dos quartos, de varrer os corredores, encher os jarros
e moringues, tomar conta da chavaria e ter olho sobre quem entrasse e
quem saísse.
Para estes últimos cuidados arranjou-se um homenzinho meio corcunda,
português, rafeiro, esperto como um rato, um pouco falador, mas
muito experimentado naqueles serviços. Coqueiro dar-lhe-ia alguma
coisa por mês e um canto da casa para dormir. "Uma pechincha!"
Fechado o negócio, tratou o proprietário de dividir a sala
de visitas e a varanda do sobrado em pequenos repartimentos de tabique,
forrados de papel nacional. É inútil dizer que neste ponto
foi indispensável a intervenção pecuniária
de Amâncio, que ficou por conseguinte com direito sobre uma parte
dos rendimentos do prédio.
E também não é menos útil declarar que o provinciano,
nem de longe, sentiu jamais o cheiro de tais rendimentos.
* * *
Mas o certo é
que as obras se fizeram, e a célebre casa de pensão de Mme.
Brizard, outrora tão animada e concorrida, transformou-se num desses
melancólicos sobradões de alugar quartos, que se observam
a cada canto do Rio de Janeiro e onde, promiscuamente, se aninha toda
a sorte de indivíduo, mas de indivíduos que já foram
alguma coisa ou de indivíduos que ainda são nada.
Aí, as mais belas e atrevidas ilusões vivem paredes-meias
com o mais denso e absoluto ceticismo. Velhos boêmios, curtidos
no veneno de todos os vícios e no segredo de todas as misérias,
encontram-se diariamente, ombro a ombro, com os visionários estudantes
de preparatórios.
É nessas praias desamparadas à ventania da sorte que a sociedade
costuma arrevessar o destroço dos que naufragam nas suas águas,
mas é daí também que ela pesca às vezes novas
pérolas para o seu diadema. Há de tudo - homens de todas
as nacionalidades, sujeitos de vida misteriosa, solteiros libertinos e
neutralizados pelo venéreo, artistas completamente desconhecidos
que se imaginam vítimas do meio, e supostos talentos que vivem
para amaldiçoar a fortuna dos que conseguiram vencer a onda.
Quase todos eles têm na sua vida um fato, uma época, uma
coisa extraordinária, para contar: um, apresenta a honra de lhe
haver morrido nos braços tal homem célebre; outro, diz que
foi amante da senhora condessa de tal; outro, afiança e jura ser
o verdadeiro, se bem que obscuro, promotor de tal acontecimento histórico;
outro revela um romance de amor que lhe cortou a carreira, mas que o imortalizará
em vendo a luz da publicidade; outro, confia numa invenção,
"é o seu segredo", um projeto mecânico, ou industrial
ou econômico-político; outro, não aceita emprego nenhum
do atual governo, e espera a ocasião de "pegar numa espingarda
e fuzilar as velhas instituições de seu miserando país";
outros, enfim (e são os menos raros), têm apenas para exibir
em honra própria a circunstância de algum parentesco ilustre.
Ah! Não se encontram aí notabilidades de nenhuma espécie,
mas sim os parentes. Este, é o sobrinho de tal poeta ilustre; aquele
é irmão do ministro tal, que deu o nome a tal rua; este
outro, cunhado ou primo em terceiro grau do glorioso artista Fulano dos
anzóis.
E os tipos, quando lhe tocam nisso, enchem-se de orgulho, como se participassem
das glórias do festejado parente; pelo menos, ninguém os
apresenta a qualquer pessoa, sem acrescentar logo, com assombro: "Irmão
de Sicrano!... cunhado de Beltrano!"...
Então o apresentado costuma abaixar os olhos, sorrindo modestamente,
como se dissesse: "Ó senhor! Por quem é... não
me confunda!"
É também desses viveiros sombrios e malcheirosos que surgem
certas figuras que, às vezes, nos espantam na rua - a tossicar
dentro de um sobretudo enorme, um xale-manta em volta do pescoço,
um bengalão entre os dedos e na fisionomia um ar melancólico
e ao mesmo tempo irritado.
É daí, desses quartos silenciosos, úmidos e tristonhos,
como sepulturas vazias, que surgem com o seu passo inalterável
e pausado os sinistros aranhões, que vemos passar estranhamente
pelos jardins públicos, ao sol das boas manhãs de inverno.
Coitados! São em geral homens sem meios de vida, protegidos por
algum figurão qualquer, de quem, ou foram colegas na academia,
ou ainda continuam a ser parentes com a mais cruel pertinácia.
Quando falam desse protetor feliz e rico não se animam a dizer
mal, mas a sua fisionomia acode um invencível sorriso cheio de
velha bílis acumulada e sôfrega por transbordar. Uns vão
regularmente comer a certas casas comerciais, outros se arranjam pelas
impossíveis casa de pasto da Cidade Nova, os "freges",
onde as refeições não passam de duzentos réis.
Alguns têm almoço seguro à mesa de um velo amigo de
melhores tempos, o jantar em casa de outro; às sextas-feiras são
infalíveis nas comezainas gratuitas dos frades de São Bento.
Uns, passam a noite na jogatina, percorrendo espeluncas, tomando café
nos quiosques às quatro e meia da manhã e então,
durante o dia seguinte, dormem a fartar; outros, recebem donativos de
alguma irmandade religiosa, à qual se filiaram em épocas
de prosperidade.
São sempre vistos, em horas determinadas, no jardim do Rocio, no
Passeio Público, assentados no banco de pedra, lendo jornais à
sombra das amendoeiras, às vezes têm ao lado a botina que
descalçaram por amor dos calos; são vistos igualmente nos
edifícios públicos em construção, acompanhando
as obras com interesse, como se estivessem encarregados disso, fazendo
perguntas, ralhando com os operários, numa necessidade irresistível
de aplicar, seja como fôr, a sua atividade desocupada e vadia. Não
há motim, não há incidente de rua, por mais ligeiro,
em que eles não intervenham, tomando logo a parte principal na
coisa, repreendendo o agressor, conciliando o agredido, fazendo enfim
acreditar que ali está uma autoridade civil em pleno exercício
de suas funções.
São violentos quando lhes falam de política e só
se referem aos homens de poder com palavrões brutais e desabridos;
a alguns nomeiam sempre com alcunhas determinadas e todos os outros, que
ainda não receberam o batismo de sua cólera invejosa, são
indistintamente "os ladrões, os patoteiros, os vis, os traidores,
os capachos do rei!" Através dos cerrados negrumes naquela
miséria e daquele ressentimento, nada enxergam de bom e de legítimo.
Coqueiro, não obstante, se mostrava satisfeito com os seus inquilinos
e dizia ter encontrado no Damião o "homem que lhe convinha".
Aparecia por lá constantemente; gostava de ver como ia o prédio,
gostava de dar um vista de olhos pelos cantos da casa, em silêncio,
de mãos no bolso, e sentia uma verdadeiro prazer sempre que encontrava
alguma coisinha para consertar - algum pedaço de papel solto da
parede, alguma régua despregada, alguma tábua fora do lugar.
A existência nunca lhe parecera tão corredia e tão
fácil; só faltava, para complemento da ventura, que o maçante
do colega desembuchasse por uma vez com aquele maldito casamento.
- Ah! então é que seriam elas!...
* * *
Mas o "maçante
do colega" estava bem longe de pensar em casamento; todo ele era
pouco para sofrer a cáustica impassibilidade de Hortênsia.
A caprichosa continuava no seu terrível sistema de não aviar
nem desaviar. Amâncio fizera-lhe ir ter às mãos uma
segunda cópia da carta subtraída, e ela em resposta aconselhou-o
a que não escrevesse outra, sob pena de entregá-la ao marido.
- Pois que vá para o diabo que a carregue! pensou o estudante,
furioso, e resolveu dar o negócio por acabado.
Com efeito, durante um mês inteiro, nas poucas vezes em que teve
de falar ao Campos sobre questões de interesses materiais, não
passou do escritório.
- Homem! dizia-lhe o negociante. - Você só aparece aqui por
fruta, e faz visitinhas de médico! Não há meios de
apanhá-lo lá em cima! Neném até já
se queixou!
Amâncio defendia-se com os seus estudos e com os sobressaltos em
que andava depois das últimas cartas do norte.
- Por quê? Há alguma novidade?!... perguntou o amigo, cheio
de solicitude.
- A velha não está boa!... explicou o rapaz. - Desde que
morreu meu pai, a pobre de Cristo ainda não levantou a cabeça!
confesso-lhe que tenho meus receios, tenho!...
E quedava-se abstrato, a fitar o chão, com a fisionomia paralisada
por uma tristeza vidente e ao mesmo tempo irresoluta.
O outro não se animava a interromper aquele silêncio doloroso
e respeitável. Mas, por fim, lembrou discretamente, com delicadeza,
que não seria mau uma viagem à província; talvez
com isso se evitasse um desgosto maior... Amâncio era a menina dos
olhos de D. Ângela... bem podia ser que, só com a presença
dele, a pobre senhora melhorasse!...
O estudante mostrou-lhe a última carta da mãe; e os dois,
tendo ainda conversado com o mesmo recolhimento, vieram a concordar em
que era indispensável um passeio ao Maranhão; Amâncio
retirou-se fazendo os planos da viagem.
- Oh! exclamava ele por dentro. - Vou! não tem que ver! vou definitivamente!
E provo àquela mulher que não ligo a menor importância
ao que ela me fez! Hei de provar-lhe que o seu procedimento em nada me
alterou. Que até sigo muito satisfeito e muito senhor de mim.
E via-se já na ocasião das despedidas - frio, indiferente,
sorrindo às lágrimas de Hortênsia. E sua fantasia,
gozando do efeito desses devaneios, armava-lhe ao sabor da vaidade, cenas
muito espetaculosas, nas quais representava ele sempre o papel mais brilhante
e mais elevado.
Via Hortênsia a seus pés, lacrimosa e mísera, suplicando-lhe
por piedade que não se fosse, que a perdoasse, que se compadecesse
de tamanho desespero. "Ela ali estava submissa e arrependida, pronta
a cumprir de olhos fechados as ordens de seu querido Amâncio, do
seu senhor, de seu Deus, do seu tudo!"
Ele então, com um riso cruel, voltando-lhe o rosto e acendendo
um charuto: "Não, filha, tem paciência! E se insistes,
vai tudo às mãos de Campos!"...
Hortênsia, ao ouvir estas palavras, estorcia-se numa aflição
teatral, e logo que Amâncio se dispunha a partir, desabava de costas,
quase morta, justamente como as heroínas dos romances que ele devorava
aos quinze anos.
Mas a terrível concupiscência do nortista, sobrepujando logo
a fantasia do vaidoso, não resistia à tentação
de possuir, ao menos em sonho, aquele belo corpo desfalecido e, como dantes,
começava mentalmente a despi-lo, peça por peça, até
deixá-lo em pleno escândalo da carne.
Entrou em casa resolvido a levantar o vôo, custasse o que custasse.
- Sim, era preciso ir! por Hortênsia, por sua mãe, por Amélia,
por mera distração, por tudo! Precisava afastar-se daquele
inferno, onde duas mulheres, como duas sombras, o torturavam; uma fugindo
e a outra perseguindo. Desde que recebeu a tremenda resposta de Hortênsia,
sentia-se muito nervoso e irascível; Amélia suportava-o,
sabe Deus como, fazendo milagres de paciência para não se
afastar dos conselhos que lhe dera o irmão. Quase que já
se não podiam sofrer um ao outro. Além disso, as cartas
de Ângela repetiam-se agora desesperadamente. "Estaria a pobre
mãe com efeito em risco de vida?... pensava Amâncio. "Dependeria
dele o salvá-la?... E os seus interesses que havia tanto tempo
o reclamavam?... E as saudades da pátria? e os prazeres que encontraria
à volta do primeiro ano acadêmico?"
Os prazeres, sim. Amâncio, pelo derradeiro paquete, recebera em
uma das principais folhas diárias de sua província a seguinte
notícia:
"MARANHENSE DISTINTO. - Acaba de fazer brilhantemente o primeiro
ano de seu curso na Escola de Medicina na Corte o nosso talentoso comprovinciano,
Amâncio da Silva Bastos e Vasconcelos, filho do há pouco
falecido e sempre chorado Comendador Manuel Pedro de Vasconcelos, um dos
mais estimados negociantes que foi desta praça. Enquanto não
podemos pessoalmente abraçar o digno jovem e esperançoso
discípulo de Hipócrates, apressamo-nos a enviar-lhe daqui
os nossos sinceros parabéns, futurando em S. S., mais uma glória
legítima para a nossa Atenas, já tão rica, aliás,
em talentos privilegiados!"
* * *
Ninguém poderá
imaginar o efeito que produziram tais palavras no espírito presunçoso
de Amâncio. Era a primeira vez que ele via o seu nome em letra redonda,
seguido de alguns adjetivos laudatórios.
Por detrás daquela notícia pressentia o rapaz um paraíso
de novas considerações que o esperava na província;
antevia o sorriso das damas, a reverência dos pais de família
e a inveja dos ex-colegas do Liceu.
- Não! não podia deixar de ir. O Maranhão, naquele
momento, e por todos os motivos, representava para ele uma necessidade
urgente. - Havia de meter a cabeça e varar por quantos obstáculos
se lhe antepusessem.
* * *
Amélia ficou
estonteada quando o amante lhe deu parte dos seus projetos de viagem,
tão calmo e resoluto foi o tom em que o fez; mas, voltando do primeiro
choque, rompeu um grande pranto e atirou-se de bruços na cama,
soluçando muito aflita. "Que era uma desgraçada! Que
Amâncio a queria abandonar, depois de a ter desonrado e perdido!"
- Eu volto, filha! disse ele, procurando fazer-se meigo. - Vou tratar
de meus interesses, ver minha mãe, e volto para o teu lado! Não
tenhas receio de que te engane! Eu ainda se quisesse, não podia
ficar por lá, já não digo por ti, mas, que diabo!
pelos meus estudos. Pois acreditas que eu cairia na asneira de abandoná-los,
agora que estou tão bem encaminhado?...
- Não sei! respondeu a rapariga, erguendo-se rapidamente, com feições
sumidas na vermelhidão do choro. - Você, é impossível
que não tenha no Maranhão alguém à sua espera!...
E essa com certeza não há de ser pobre como eu, não
terá a boa fé que eu tive!... com essa você não
porá dúvida nenhuma para casar!...
E voltaram-lhe os soluços, como um temporal que recresce.
- Estás a dizer tolices, filha! Dou-te a minha palavra de honra
em como nunca esquecerei de ti! Que mais queres?!
- Pois então casemo-nos e partirás depois!...
- Isso é impossível! Já te disse um milhão
de vezes! Oh! - Minha mãe espera-me há quatro vapores seguidos!
Imagina tu como não estará ela, coitada, com a morte do
velho! Não hei de agora, em, vez de minha pessoa, lhe apresentar
uma carta pedindo licença para casar!... Que espécie de
filho seria eu nesse caso?! "Enquanto a pobre viúva se desfaz
em lágrimas; enquanto na família tudo é luto e desgosto,
o bom do filho pensa em casamento e, sem dúvida, prepara as festas
do noivado!" Não! gritou ele energicamente. - Isso não
faria eu, nem se me cosessem a facadas! Pelo menos, enquanto estiver com
esta roupa sobre o corpo...
E sacudiu com força a aba do seu fraque de lustrina.
- Enquanto estiver com esta roupa, não penso em mulher! Nada! Antes
de tudo, sou filho! Percebes?! Antes de tudo, tenho de olhar por minha
pobre mãe, que é muito capaz de morrer se não me
ver ao seu lado!
E foi, cheio de excitação, debruçar-se no peitoril
da janela, fitando as plantas do jardim, a roer as unhas.
Houve um silêncio. Amélia já não chorava; imóvel,
apoiando-se ao espaldar da cama, entontecia a vista contra as ramagens
cruas do tapete.
- Nesse caso, ela que venha ter contigo... disse afinal, sem erguer os
olhos.
- Ora! resmungou Amâncio, voltando-se vivamente na janela.
- Ou então iremos nós... acrescentou a rapariga, fazendo
um biquinho de enfado. E depois, com pieguice: - Tenho muito medo das
maranhenses!...
O estudante não respondeu, foi ter com ela, tomou-lhe meigamente
a cabeça entre as mãos.
- Esta cabecinha!... - disse - esta cabecinha não sei quando terá
juízo!...
E, passando a falar em tom sério, protestou que era até
injustiça supô-lo capaz de cometer uma perfídia daquela
ordem! Amélia já devia estar perfeitamente convencida de
que ele a amava deveras; de que ele não seria tão mau que
a abandonasse, depois de receber tantos carinhos. Ela que não estivesse
a descobrir perigos, onde nem sombras disso havia!... A tal viagem ao
norte, no fim de contas, era uma questão de dois ou três
meses, e ele deixaria uma mesada regular e escreveria por todos os vapores!...
- Não acreditas ainda que te estou falando com sinceridade?...
concluiu, a beijá-la nos olhos. - Que precisão tinha eu
de te enganar?...
- Sim, creio, creio que por ora assim seja, não há dúvida!
Mas também estou persuadida de que, logo que passes a barra, tudo
muda de figura!... Nos primeiros dias ainda te lembrarás da infeliz
que aqui deixaste, mas depois... com a presença de outras, com
os novos passatempos que te esperam... até hás de perguntar
aos teus botões "como foi que em algum dia chegaste a pensar
a sério neste casamento?"...
- Bem se vê que não me conheces!... retorquiu o rapaz.
- Não! não! não irás! sustentou Amélia.
- Adoto-te, és meu, não te quero perder! Ora essa!
- Mas, filha, observou Amâncio impacientando-se - lembra-te de que
é mais decente fazermos a coisa por bons modos... Afinal, tu não
me podes constranger a ficar, e, eu, em vez de ir, deixando um compromisso
de cavalheiro, sou capaz de ir, sem deixar coisa alguma! Ora aí
tens!
- Hein?! bradou ela, transformando-se a contragosto. - Cai nessa! Experimenta
só, para veres o gosto que lhes achas!
Amâncio respondeu com um gesto desabrido, enterrou o chapéu
na cabeça, e saiu à toa, sem destino, com um fúria
surda a espezinhar-lhe o coração.
Mas, ao voltar, encontrou Amélia no mesmo estado. E a questão
reapareceu à noite, reapareceu na manhã seguinte, e todos
os dias, tomando um caráter de rezinga permanente.
Amâncio perdeu de todo a paciência.
- Era demais! Sebo! Ele, no fim de contas, não tinha obrigação
nenhuma de aturar semelhante gaita nos ouvidos! Que mastigação!
Arre! Amélia que fosse atenazar o pai!
Ela respondeu possessa, deixando escapar palavrões, "Supunha
ter encontrado um homem, mas encontrara um quidam, um canalha, um desfrutador!"
- Desfrutadores são vocês todos! - Percebes tu?! berrou ele,
colérico. - Desfrutadores - é teu irmão - é
tua madrasta e és tu! que só faltam me arrancar a pele!
Súcia de filantes!
E lembrou o que até aí gastara com eles, o que lhes dera,
o que comprara e o que lhe desaparecia das algibeiras.
- Não me estás de graça, não! exclamou, saindo
afinal do quarto como da outra vez.
Desta, porém, quando voltou a casa vinha com o ar mais despreocupado
que se pode desejar. E logo que Amélia lhe falou na questão
da viagem, ele respondeu tranqüilamente que já não
havia nada a esse respeito. "Resolvera ficar."
A rapariga compreendeu o disfarce e, no dia seguinte, tratou de prevenir
o irmão de que abrisse os olhos, se não queria ver o Sr.
Amâncio escapar-lhe por entre os dedos.
João Coqueiro ficou de orelha em pé.