CASA
DE PENSÃO
Aluísio
Azevedo
CAPÍTULO XII
Dias depois, o médico
declarou que Amâncio estava livre do maior perigo. - As bexigas
foram boas e secariam prontamente, sem quase deixar sinal na pele.
Dentre em pouco abria-se a janela, do n.º 6, recolhia-se a última
roupa que servira à moléstia, defumava-se o quarto pela
última vez, e o mimalho entrava afinal na convalescença.
Logo, porém, que deixou a cama, apareceram-lhes dores reumáticas
na caixa do peito e nas articulações de uma das pernas.
Era o sangue de sua ama-de-leite que principiava a rabear. Bem dizia outrora
o médico a seu pai, quando este o encarregou de amamentar o filho.
E, pois, vieram os remédios para a nova enfermidade, e Amâncio,
a despeito de sua impaciência por ganhar a rua, continuou encurralado
na casa de pensão e submetido a uma dieta rigorosa. Sabino, que
Campos lhe remetera na véspera, tomou conta do lugar que o copeiro
exercia durante a noite.
Nesses dias, Lúcia muito pouco se chegou para o estudante, receava
com isso provocar da parte do Coqueiro alguma violência contra si.
- Ah! ela bem sabia que era guardada à vista; toda aquela família
já nem ao menos disfarçavam a vigilância em que a
trazia; andavam todos eles, desde a velha até o pequeno, a fariscar
os passos, descaradamente empenhados em afastá-la o mais possível
de Amâncio. - Súcia de bandidos!
Com efeito, nunca mais lhe foi possível até aí fazer
ao rapaz uma outra visita noturna. Mas, justamente no dia em que se arejou
o quarto, estava Amâncio estendido na cama, a reler um esfacelado
volume de Alencar, quando de repente se abriu a porta e Lúcia surgiu,
aflita e apressada, correndo para ele num formidável alvoroço.
Seriam mais de onze horas da noite e a família de Coqueiro estava
já recolhida.
Amâncio assustou-se com a visita, mas nem por isso a estimou menos.
Quis, antes de tudo, saber que terrores eram aqueles.
- Que diabo havia acontecido? - Mas se alguma coisa ruim acabava de suceder,
era, com certeza, por castigo, que ela estava uma ingrata muito grande;
já não aparecia aos infelizes; naturalmente tinha medo das
bexigas!...
- Oh! não! não! vozeou a ilustrada senhora, agarrando-lhe
ambas as mãos com transporte. - Não! Tudo que vier de ti,
Amâncio! tudo que te pertence e te diz respeito é bom e sublime
para mim!
E correu de novo à porta, certificou-se de que a casa estava bem
sossegada, e tornou para junto do estudante, apalpando dos lados e circunvegando
olhares inquietos.
Sabino já se havia esgueirado discretamente pelo corredor; enquanto
o senhor-moço, ainda meio aturdido com a agressão melodramática
de que fora vítima, apanhava, uma por uma, as folhas do Alencar,
que se tinham espalhado aos pés da cama.
- Pois olhe, ninguém o acreditaria!... disse ele voltando, afinal,
do seu espanto e pousando o livro sobre o velador.
- Por quê? interrogou Lúcia muito séria e muito dura
defronte do rapaz.
- Ora, porque!... porque já não há quem a veja! porque
a senhora arribou deste quarto, como se aqui alguém lhe quisesse
fazer mal!
Ela respondeu com um sorriso de tristeza e um resignado sacudimento de
cabeça.
- Os fatos, pelo menos, assim o afirmam... acrescentou o doente.
- Mas, valha-me Deus! tornou a outra. - Pois não vês a perseguição
que sofro aqui por tua causa?! Não vês que estou espiada,
seguida e vigiada a todos os instantes! Não vês o ciúme
que Mme. Brizard, Coqueiro, a tal Amélia, Nini, o diabo! afetam
por ti?!
- O ciúme?... perguntou Amâncio, deveras espantado. - Mas
o ciúme, como? por quê?
- Criança!... disse ela. E passou a mão na testa. - Estás
na aldeia e não vês as casas!
- Eu?!
- Sim tu!
E, assentando-se à beira da cama, para lhe ficar mais perto, continuou
diminuindo o tom da voz:
- Pois não percebes, filho, que toda esta gente quer fazer de ti
uma propriedade sua; que esta gente te considera um tesouro precioso e
teme que lho furtem? Não percebes, meu Amâncio, que há
aqui um plano velho, tramado para te fazer casar com Amelinha, isso porque
és rico e, na tua qualidade de homem de espírito, pouca
importância ligas ao dinheiro?!...
- Não! Dou-te a minha palavra em como, até aqui nada percebia
de tudo isto!...
- Pois fica, então, sabendo que há uma grande conspiração
contra ti ou, por outra, contra os teus bens!
- Ora essa! disse ele em voz baixa.
- Todos esses carinhos que eles ostentam, todos esses cuidados e desvelos,
artísticos, são laços armados à tua ingenuidade!
- Estão bem arranjados!... respondeu Amâncio, - se esperam
que eu case com Amelinha!
- Não sejas hipócrita!... acudiu a outra. - Tu gostas dela;
não negues!
- Ah! gosto, não nego. Mas gosto, sem intenção de
espécie alguma; gosto, coitada, porque ela nunca me fez mal, porque
até lhe sou grato aos seus obséquios! Mas daí para
casar!...
E, depois de um assovio de grande esperteza:
- Não é o meu tipo, o meu ideal. Demais, ainda não
penso em casamento, nem sei se algum dia pensarei nisso!
- Por quê?
- Ora, respondeu ele - não vale a pena a gente se casar! Há
por aí tanta desgraça, tanta decepção que,
para falar com franqueza, não tenho ânimo...
- Julgas assim tão mal as mulheres?...
- Com franqueza, é exato, filha! Não digo que não
haja mulheres virtuosas; isto, porém, é tão raro!...
Prefiro não arriscar!...
- Desconfio de tanto ceticismo na tua idade!
Ele agitou os ombros.
- Um homem com esses princípios é incapaz de amar... ajuntou
ela.
- Tens em mim a prova do contrário... retorquiu Amâncio sorrindo.
- Em ti?...
- Sim, e sabes disso perfeitamente!
- Disso, o quê?
- Que te amo...
- Não creio...
- Nesse caso, o cético não sou eu!
- Se me amasses, já mo terias provado...
- Provado?
- Está claro. Não acredito nesse amor cauteloso e metódico,
que de tudo se arreceia, que se não quer expor, que tem calma para
medir todas as conveniências, que teme os olhares, os ditos, as
considerações de todo o mundo, que vem finalmente muito
mais da cabeça que do coração!
- Não creditas, então, que eu te ame?...
- Não, decerto! Não te crimino por isso!... És ainda
muito criança, para sentires o verdadeiro amor, a verdadeira paixão.
Essa que não conhece obstáculos; que tudo pode e tudo vence;
que é capaz de todos os sacrifícios, sejam do bem ou sejam
do mal; essa que levanta os grandes crimes ou os grandes heroísmos!
Amar, tu! E porventura saberás ao menos o que é o amor?!
Algum dia experimente, por acaso, o ciúme, o desespero, a loucura,
a que nos conduz o objeto amado! Não! Não queiras amesquinhar
o único sentimento que até hoje se tem conservado puro!
não queiras amesquinhar a coisa única respeitável
que resta sobre a Terra! Para que possas falar a esse respeito, primeiro
é necessário que ames! é preciso que dês alma,
vida, futuro, esperanças, tudo, a uma mulher! é preciso
primeiro que te esqueças de teus sonhos mais queridos, de tuas
melhores aspirações, para só cuidares nela viveres
dela e para ela! Então, sim! eu acreditaria em ti!
E Lúcia apoderou-se novamente das mãos de Amâncio,
e as palavras borbulharam-lhe com mais febre:
- Amor é o que sinto por ti, entendes?! Amor é o que me
faz esquecer a minha responsabilidade, o meu destino, o meu dever, para
estar aqui a teus pés, alheia a tudo, esquecida do passado, descuidosa
do futuro; só para te ver, só para te ouvir, só para
me saturar toda de tua presença!...
- Entretanto... disse Amâncio, procurando afinar a voz pelo tom
enfático com que falava a outra - entretanto, nunca me permitiste
fruir contigo os verdadeiros e mais saborosos proveitos do amor! Tiveste
a cruel habilidade de transformar um manancial de gozos em fonte perene
de tormentos e dissabores! Se me amas, digo-te eu agora, porque evitas
a todo transe que eu vá além dos nossos beijos?... Se me
amas, por que impões o suplício do teu rigor? Ah! eu só
acreditaria na sinceridade de tais protestos se fosses mais generosa comigo...
- Não! não! contrapôs ela, abraçando-o. - Nunca
faltarei aos meu deveres! nunca trairei meu marido! Sou capaz de uma loucura;
não, porém, de uma infâmia! Seria capaz de fugir contigo,
abandonar tudo por tua causa; mas introduzir-te covardemente na minha
alcova, nunca! Aceitaria um crime, sim! mas havia de aceitá-lo
sob todas as responsabilidades, com todas as conseqüências,
que ele viesse a produzir! Seria tua, mas não enganando a outro;
seria tua, mas toda, inteira, lealmente! Abandonaria por tua causa meu
marido; antes, porém, de o fazer, dir-lhe-ia com franqueza: "Fulano!
Amo um outro! Não posso continuar ao teu lado, sem que te engane
todos os dias e a todos os instantes! Por isso - vou! Amaldiçoa-me,
se quiseres, mas não perturbes a minha felicidade!" Deixaria
de ser esposa, para ser concubina! Trocaria meu nome, minha posição,
por algumas horas de delírio, por algumas horas de sonho; mas,
em todo o caso, a consciência nunca me acusaria, o coração
jamais se teria de maldizer!
- Vês?! disse ela, esfolegando cansada de falar. - É por
isso que até hoje me tenho portado deste modo contigo; é
por isso que domo os meus impulsos e os meus arrebatamentos! - Sou de
outro, não me possuo, não posso dispor disto!
E sacudia todo o corpo, com uma obstinação provocadora e
canalha.
Amâncio olhava para ela, mordendo os beiços:
- Se é verdade que me queres possuir... disse a intransigente,
depois de uma pausa em que se ouvia a respiração dos dois.
- Arranca-me das mãos de meu marido e leva-me para onde bem quiseres,
faze de mim o que entenderes! Serei tua amante, tua companheira, tua escrava;
serei tudo que ordenares, contanto que eu tenha comprado com o risco de
minha vida a felicidade de nós ambos!
E Lúcia, agitando romanticamente os cabelos, que ela por cálculo
trazia soltos essas noites, perguntou com ímpeto:
- Compreendes agora a minha reserva?! Compreendes que, apesar de minhas
reclusas, eu te adoro, meu Amâncio, meu amor, minha vida?!
- Entretanto, acrescentou ela, quando se convenceu de que Amâncio
não queria cair no laço - tenho fatalmente de abafar todos
os meus sentimentos, tenho de calcar todos os meus desejos, porque amanhã
nos separamos.
Amâncio ergueu-se, pasmado.
- Como nos separamos?... interrogou.
- Eu amanhã retiro-me desta casa... esclareceu Lúcia, sem
erguer os olhos. - Vou, e ainda nem sei para onde! Mas não posso
deixar de ir: manda-me a dignidade que aqui não fique nem mais
um instante!
- Como assim? explica-te!
- Oh! não me perguntes nada! Não me perguntes nada, porque
só o que te posso afirmar é que esta súcia... E indicava
o andar debaixo com um gesto trágico. - Esta súcia, receosa
de que eu te dispute à Amelinha, obriga-me a sair, obriga-me a
separar-me de ti! Ah! os miseráveis sabem o quanto eu te amo meu
Amâncio! Temem que eu seja um estorvo ao teu casamento com ela.
- Mas, filha, como te podem eles constranger a sair?...
- Não me obrigues a falar, por amor de Deus! Eu não quero,
não devo dizer mais nada!
- Ora! Isso não é generoso de tua parte! Se não podes
usar de franqueza, para que então me excitas deste modo a curiosidade?
- Não! Não te posso dizer mais nada! Repele-me, se assim
entendes, manda-me embora, mas, por piedade não me obrigues a corar
em tua presença!...
- Corar em minha presença?... Não entendo, filha! Fala por
uma vez. Abre o coração!
- Nunca! nunca!
- Mas é que tu me torturas, Lúcia!
E acarinhando-a:
- Vamos! não sejas criança, fala com franqueza... Dize o
que te fizeram! Não acreditas então que sou teu amigo? teu
amiguinho? Não crês que representas em minha vida uma preocupação
constante, um sonho, uma esperança?...
- Sim, sim, acredito, meu amor, mas não mo obrigues a tratar de
coisas, nas quais ainda não tenho o direito de te falar!...
- Ora! que segredo pode ser esse, tão negro, tão repugnante,
que não mo queiras dizer?... É preciso que eu mereça
muito pouco da tua confiança!...
- Não, não é isso, mas é que me falta o ânimo
para confessá-lo... Mudemos de conversa...
- Não queres dizer? Bem! Acabou-se!
- Oh! não me fales desse modo, meu querido!
- Então dize o que é.
- E prometes que não me acharás ridícula?... prometes
que a revelação do que te vou dizer não me amesquinhará
aos teus olhos?...
- Juro!
Lúcia tirou uma carta do seio e entregou-a ao estudante.
Logo que este principiou a leitura, ela cobriu o rosto com as mãos,
como para esconder a vergonha.
Amâncio leu o seguinte em voz baixa:
"Sr.ª D.
Lúcia Pereira. Há quatro dias que entreguei a seu marido
uma segunda conta do mês passado e deste mês, e, visto que
até agora não tenho recebido senão desculpas e promessas,
tomo a liberdade de participar-lhes que, de hoje em diante, não
posso continuar a lhes oferecer comida e que preciso urgentemente de cômodo
ocupado pela senhora e seu marido. Espero, pois, que até amanhã
esteja o quarto n.º 8 desembaraçado e a minha conta selada
e assinada pelo Sr. Pereira; sem o que, pesa-me dizê-lo, não
consinto que VV. SS. levem consigo a sua mulata, que é o único
bem de que posso lançar mão para garantir a dívida."
Estava assinado por
extenso o nome de João Coqueiro.
Amâncio dobrou a carta silenciosamente, ao passo que Lúcia
continuava a esconder o rosto.
- Em quanto importa?... perguntou ele depois.
Ela conversando uma das mãos nos olhos, tirou com a outra a conta
do seio, e passou-lhe, sem dizer nada.
-"Quatrocentos e sessenta mil-réis", leu o moço
para si. E fez um trejeito com os olhos.
Lúcia, ao lado, soluçava, sempre de rosto coberto.
Amâncio pensou um instante, e disse:
- Não te aflijas... Eu posso, se quiseres, arranjar o dinheiro
para amanhã...
Ela, então, descobriu a cara e, sem uma palavra, abraçou-se
ao rapaz e começou a chorar.
- E hoje, perguntou ele, quando Lúcia já se dispunha a sair
- hoje mereço um beijo?...
Ela correu para Amâncio, sorrindo, e com os olhos fechados, estendeu-lhe
os lábios.
O estudante, com as duas mãos abertas, segurou-lhe a nuca e principiou
a sorver o "seu beijo", demoradamente, voluptuosamente, como
se estivesse bebendo por um canjirão.
Lúcia, porém, ao perceber que a coisa se demorava muito,
arrancou a cabeça das mãos do rapaz e fugiu.
* * *
Às nove horas da manhã subseqüente, voltava Sabino
da casa de Campos com a resposta de uma carta em que o senhor-moço
pedia o dinheiro necessário para satisfazer as dívidas de
Lúcia.
João Coqueiro ficou assombrado quando recebeu a quantia; correu
logo em busca da mulher.
- Sabes? disse, assim que a viu. - Pagaram!
- Hein?! fez Mme. Brizard, com espanto. - Pagaram?! Tudo?!...
- Integralmente! Cá está o cobre!
E, depois do silêncio da admiração:
- E que te parece, a ti, hein, Loló?!...
- Parece-me bom... A metade está feita; agora já não
se trata de receber-lhe a conta, é só de os pôr fora
de casa!
- Sim... mastigou o marido - mas agora também é mais difícil
fazê-los desarvorar! Já não temos um pretexto para
isso!...
-Pretextos não faltarão... respondeu a francesa, e acrescentou:
- O que me faz cismar é este dinheiro arranjado assim à
última hora... porque eles, ainda ontem, estavam bem apertados
e Pereira não arredou pé de casa durante o dia!
O marido refletiu um instante, e depois exclamou, com vislumbres de quem
se sente roubado:
- Ora, querem ver que aquela raposa arrancou estes cobres ao Amâncio?!...
Mme. Brizard confirmou o alvitre com um gesto de cabeça.
- E olha que não é outra coisa! repetiu Coqueiro. - Que
hoje Sabino, desde muito cedo, tinha já que fazer à rua!
- Ora essa!... resmungou Brizard, indignada e ressentida, como se aquele
desfalque na carteira do estudante lhe trouxesse um prejuízo imediato.
- Ora essa!...
- Mas deixa estar que hei de saber de tudo!... prometeu o locandeiro.
E, com efeito, daí a pouco o próprio Sabino lhe confessava
que fora pela manhã à casa de Campos levar uma carta e que
voltara com outra, recheadinha de dinheiro em papel.
O locandeiro revoltou-se, mas a sua indignação subiu verdadeiramente
ao cúmulo, foi quando lhe constou que o bom do Amâncio, para
ter ocasião de estar mais a tempo com Lúcia, recorria a
todos os meios e modos de afastar Amélia do quarto.
- Diz que não quer ser importuno, contou a rapariga - que já
bastam os incômodos que me tem dado, que não se acha com
o direito de fazer de mim uma irmã de caridade, e de obrigar-me
a suportar as suas amolações! E que eu viesse aqui para
baixo, rir e conversar com os outros, que ele teria nisso muito mais prazer!
- E tu, que lhe disseste? perguntou o irmão.
- Eu disse que sentia o maior gosto em prestar ao Sr. Amâncio aquela
insignificância de serviço; que, se os fazia, era por motu
próprio!
- E ele?
- Ele disse que não, que não admitia, e que ficava até
muito contrariado, se eu não me viesse embora!
- Vês?! perguntou João Coqueiro à esposa, apontando
para a irmã. - Vês?! Tudo isto é obra da Sr.ª
D. Lúcia!
E, depois de uma pausa, aflita:
- Aquela mulher não nos pode ficar em casa! Haja o que houver preciso
que ela se vá daqui quanto antes!
E deu a sua palavra de honra em como havia de pôr cobro a semelhante
patifaria.
Não sossegou essa noite. Enquanto os mais dormiam, andava ele lá
por cima, a farejar nas trevas, grudando-se contra as paredes e escondendo-se
pelos cantos.
Passou assim algumas horas; mas, afinal, viu Lúcia sair do quarto,
pé ante pé, atravessar a medo o corredor e sumir-se, às
apalpadelas, na porta do n.º 6.
A sua primeira idéia foi chamar Pereira e mostrar-lhe a mulher
no latíbulo do amante, mas considerou que o homem seria capaz de
romper com ela e, nesse caso, a ligação de Lúcia
com o provinciano tornar-se-ia inevitável! - Nada! pensou ele.
Deixemo-nos disso.
Mas, também, não convinha esperdiçar uma questão
tão boa para desmascarar a velhaca.
Encaminhou-se, pois, na direção do quarto do estudante.
Lúcia, ao sentir que alguém se aproximava, correu a fechar
a porta por dentro, e fez sinal de silêncio ao enfermo.
Coqueiro parou defronte do n.º 6 e bateu.
- Quem é? perguntou Amâncio, no fim de pequena pausa, com
a voz levemente alterada.
- Sou eu, disse o outro. Precisava dar-te duas palavras... como vi luz
no quarto...
- Desculpa! respondeu o doente. - Mas agora não me posso levantar.
Até logo!
- Boa noite! resmungou o dono da casa, e afastou-se.
Lúcia fingiu-se muito assustada com aquilo: - Coqueiro, se veio
ali, foi para mostrar que sabia de tudo! Naturalmente espiara pela fechadura!
E pendurou logo uma toalha na chave.
- É o que se chama ter fama sem proveito!... observou Amâncio,
a quem as negaças da mulher de Pereira já impacientavam.
- Está em tuas mãos!... volveu ela. - Já te expus
com franqueza as circunstâncias...
- Tira-te do marido...
- Está claro!
- Isso por ora é impossível... Mais tarde, não digo
que não, mas por enquanto...
- É porque não me amas, disse a ilustrada senhora, abaixando
os olhos.
- Se te amo, minha vida! se te amo!...
E ameigava-a, procurando beijá-la.
Ela fugia com o rosto, dizendo aflitivamente que preferia nunca o ter
visto. "Antes de conhecê-lo, ainda conseguia suportar o marido
abominável a que a prendera o destino, mas, depois que fantasiara
a possibilidade de viver com Amâncio, de possuí-lo, todo,
sem que outra o disputasse, não mais podia entestar com a miserável
existência que levava e com os dilacerantes sacrifícios que
lhe cumpriam!"
Dito este fraseado, foi-se do quarto, como das outras vezes, a fazer-se
rogada, a medir os beijos que dava, a prometer que não voltaria
mais, se Amâncio persistisse nas costumadas exigências.
- Ora bolas!... praguejou este, quando se achou só. - Desta forma
é melhor mesmo que não venha! Põe-me neste estado
e afinal musca-se, ainda por cima emburrada! Gaitas!
Mas a idéia de que aquela resistência talvez não durasse
mais do que o tempo da moléstia o consolava em parte. - Sim, porque,
em ficando bom, as coisas seriam de outro feitio! Tinha graça que
ele estivesse a pagar contas de quatrocentos e tantos mil-réis,
só para desfrutar a certeza de que a Sr.ª D. Lúcia
o amava com todo o ardor de que é capaz uma alma pura e apaixonada!
Qual! Por semelhante preço preferi não ser amado!
E adormeceu, impaciente por sair da moléstia e entrar no gozo da
felicidade que ele acabava de pagar adiantado, como se abrisse para todo
o ano uma assinatura de amor.
A ilustrada senhora conseguira o que esperava: as suas negaças
faziam-na mais desejada pelo rapaz e davam-lhe, aos olhos deste, irresistíveis
fascinações de coisa proibida.
Certas mulheres, quando se negam, estão como a onça recuando
para melhor armar o salto sobre a presa.
* * *
Logo pela manhã do dia seguinte, já Coqueiro se apresentava
no quarto do provinciano, mas com o aspecto muito ressentido, os gestos
duros, o olhar cheio de recriminações.
- Então, ontem à noite, tinhas aqui a Lúcia?... inquiriu
de chofre, depois de cumprimentar Amâncio secamente.
O interrogado fez uma cara de espanto.
- Não podes negar! Eu a vi sair!...
- É exato, respondeu o doente, franzindo as sobrancelhas.
- Há, porém, de permitir que eu te diga que andaste muito
mal!... repontou Coqueiro. - Tens de concordar que eu não posso,
nem devo consentir em casa semelhante coisa!
E foi até a janela, olhou a rua pelas vidraças. Amâncio
não dava uma palavra.
O outro voltou, muito comprometido:
- Isto aqui é uma casa de família! Sabes perfeitamente que
temos conosco uma menina solteira - uma virgem! Não é por
mim, nem por ti, nem tampouco pela Lúcia; mas é por ela,
sebo! por - minha irmã! - a quem sirvo de pai! é por minha
mulher, é por minha enteada e pelo menino, é pelos hóspedes
enfim!...
- Pois acredita que não houve nada demais!... balbuciou Amâncio.
- Não, filho, tem paciência! Lá fora o que quiseres,
mas daquela porta para dentro, não admito, nem posso admitir!...
E passeando pelo quarto com as mãos nas algibeiras: - Que diabo!
Eu te preveni!...
- Ora o quê! resmungou Amâncio, indignado com a hipocrisia
do colega, mas sem coragem para dizer o que sabia a respeito dele e dos
costumes da casa. - Não abro o exemplo!... acrescentou.
- O que queres dizer com isso?
- Quero dizer que sei, tão bem como tu, que aqui nem todos são
santos!...
- Não te percebo...
- E é melhor justamente que não percebas...
Mas, como o outro ainda se quisesse fazer de desentendido, ele declarou,
frisando as palavras, que nem sempre ficava a dormir no quarto durante
as noite e que então enxergava, às vezes, melhor do que
mesmo de dia... E falou indiretamente nas entrevistas do médico
do n.º 11 e no que sabia do próprio Coqueiro com referência
à mucama.
- Olha! concluiu: - O que te posso afiançar é que a mulher
de Pereira só vem aqui ao quarto depois que me acho doente, e,
longe de ser com mau fim, coitada, é até com muita boa intenção!
- Entra, cavaqueia um pouco, dá-me a tomar o remédio e assim
como veio se vai embora, entendes tu?!
- Não há dúvida... gaguejou o hoteleiro, cuja fúria
se esvaziara de repente às bicadas do outro, que nem um balãozinho
de borracha. - Não há dúvida que tu és incapaz
de cometer qualquer leviandade dentro de uma casa de família; mas,
a questão são as aparências, são as más-línguas,
são os outros hóspedes! Não os conheces, filho! Nenhum
deles acreditará que Lúcia venha ao teu quarto só
para te dar o remédio e meio dedo de palestra!... Sei perfeitamente
que isso é exato, basta que o digas; eles, porém, não
terão a mesma boa fé! muito mais sabendo, como sabem, de
quanto é capaz aquela sujeita! Logo quem!...
- Oh! interjeicionou Amâncio. - Uma senhora casada!...
- Casada o quê!... Da missa não sabes nem a metade!
- Ela, então, não é casada com Pereira?...
- Nunca o foi! com ele, nem com pessoa alguma! Conheço até
a mulher do Pereira, a legítima - uma velhusca, de óculos,
gorda, com um olho agachado, cheio d'água. Mora na Rua da Pedreira.
Amâncio estava tão pasmo quanto indignado; aquela denúncia
do colega produzia-lhe o mau efeito que experimentado ao dar por falta
do relógio. - Pois o demônio da mulher nem ao menos era casada?...
Ele, então, que diabo de papel representara?!...
- Cínica! disse em voz alta.
- Ora! fez o outro. - Não trates de abrir os olhos e dir-me-ás
depois as conseqüências!...
No Rio de Janeiro, prosseguiu - havia muito artista daquela força!
Amâncio precisava acautelar-se, se não queria ser esfolado
completamente. Lúcia o que desejava era agarrá-lo para amante:
farejava-lhe os cobres! Ele, porém, que não fosse tolo!
que se não deixasse fisgar por uma tipa de tão baixa espécie!
O provinciano jurava que, até ali, jamais conseguiria coisa alguma
das mãos dela.
- Isso sei eu!... tornou Coqueiro, com um riso de velha experiência
- isso não é necessário que me digas, porque já
conheço a tática das Lúcias! Negam-se, fingem-se
difíceis, para valer mais! Quer obrigar-te a cair, toleirão!
- Está bem aviada! exclamou Amâncio, justamente como ainda
na véspera havia respondido à Lúcia, quando esta
lhe falou a respeito de Amélia.
Ainda nesse dia Coqueiro aproveitou a ocasião em que Pereira fazia
a sesta e foi se entender com Lúcia.
Disse-lhe o que sabia a respeito das visitas noturnas ao quarto de Amâncio
e declarou terminantemente que não estava disposto a consentir
em casa semelhantes escândalos. Ela, que tivesse paciência,
mas fosse tratando de fazer as malas e cuidando de pôr-se ao fresco,
se não queria sofrer alguma decepção maior!
A ilustrada senhora ficou lívida, e disparou sobre o locandeiro
o mais terrível dos seus olhares. Uma cólera massuda principiou
a entupir-lhe a garganta. - Não queria acreditar em tamanho atrevimento!
É! gritou por fim, trincando as palavras. - Você põe-me
fora de casa, porque tem medo que eu lhe tome o amante da irmã!
- Insolente! bradou Coqueiro, avançando um passo.
- Não te tenho medo, ordinário! retrucou Lúcia empinando
o peito contra ele. - Sairei daqui se bem quiser! Não te devo nada,
entendes tu?! Nada!
- Ah! Não deve porque ele pagou!
- E que tem você com isso?! Que tem você com o dinheiro dos
outros?! Ou, quem sabe se a donzela da irmã passou-lhe procuração!...
- Seja lá pelo que for! eu é que não a quero aqui,
nem mais um instante. É fazer a trouxa e - rua!
- Também não preciso ficar nesse bordel! exclamou ela, e
rabanou com direção ao segundo andar.
- Que diz você, sua aquela?! assistiu Mme. Brizard, cortando-lhe
o caminho.
- É isso mesmo! respondeu Lúcia, escarrando no chão
com desdém. E as duas mulheres ficaram alguns segundos a olhar
em silêncio uma para a outra, de mãos nas cadeiras.
Coqueiro e Dr. Tavares meteram-se entre elas.
Lúcia subiu ao n.º 8, aprontou as malas num abrir e fechar
de olhos, em seguida vestiu-se para sair, e já de chapéu,
a sombrinha na mão, o indispensável enfiado no braço,
correu ao quarto de Amâncio.
- Sabes? bradou logo ao entrar, empurrando a porta com fúria. -
Aquela bêbada e o marido acabam de me enxotar daqui por tua causa!
Têm medo que eu te coma! Não posso ficar nem mais um instante!
Desejo que me emprestes o Sabino!
- O Sabino estava às ordens, mas para onde se atirava ela com tanta
precipitação?
- Não sabia! Havia, porém, de encontrar um canto, onde se
metesse! Havia de descobrir um buraco, ainda que fosse no cemitério!
E Lúcia levantou os punhos até às fontes, como para
se esmurrar, mas cobriu o rosto com as mãos e abriu num pranto
muito nervoso. Era a reação que chegava.
Amâncio saltou da cama e correu para ela. Desembaraçou-a
do chapéu, da bolsa e da sombrinha e puxou-a depois sobre si.
- Não te consumas... disse - não te mortifiques desse modo.
- Sou uma desgraçada! respondeu a mulher, assoando as lágrimas.
- Nada se cumpre do que eu desejo! Nada! O melhor é dar cabo desta
vida miserável!
E soluçava com o rosto escondido no peito do rapaz.
Na febre daquele choro agitado, os seus movimentos transformavam-se em
carícias. Amâncio sentia-lhe as lágrimas quentes e
o contato carnal dos lábios, que elas ensopavam. Os desejos assanhavam-se-lhe
de novo pelo corpo, como insetos que voltam com o calor.
E tornava a cobiçá-la com os mesmos ardores primitivos.
- Não me queria separar de ti... queixou-se ela, afinal, virgulando
as suas frases com soluços suspirados. - Em ti havia firmado todas
as minhas esperanças de ventura, todos os sonhos de minha vida!
Amava agora a existência, só porque alguma coisa me fazia
acreditar que ainda um dia seríamos felizes!...
- E por que não havemos de ser?... perguntou Amâncio condolentemente.
- Ora!... prosseguiu ela -tudo me persegue, tudo me sai contrário...
Foi bastante que eu te amasse, foi bastante pensar que poderíamos
ser um do outro, para que aqui se levantassem todos contra mim e ferissem
a guerra que tens visto!
E, desagarrando-se de Amâncio, para segurar de novo a cabeça,
num movimento de embaraço doloroso:
- Mas, imagina tu, que estou inteiramente sem recursos!... Tenho que fazer
a mudança e ainda não sei como pagar o carreto das malas!...
Vê tu que situação, que triste situação!
Amâncio beijou-a na boca e perguntou se ela não lhe dava
uma esperançazinha para depois que se mudasse.
Lúcia respondeu que dava, não uma esperança, mas
"uma certeza". E, sem desprender os lábios dos lábios
do rapaz, afiançou - que lhe mandaria dizer por escrito o lugar
onde seria encontrada; e que ele fosse por lá as vezes que entendesse.
- Aí ao menos estariam livres de Coqueiro e das outras pestes!
- Prometes então?... insistiu ele, procurando garantir o compromisso.
- Prometo, prometo o que quiseres, tudo! disse ela, ainda chorosa.
Amâncio foi à algibeira do fraque, abriu a carteira. Havia
trezentos mil-réis, tomou uma nota de cem e entregou-a a Lúcia,
dizendo com pesar que era o único dinheiro que possuía na
ocasião.
- Talvez te façam falta... considerou ela escrupulosamente, sem
querer tocar na cédula.
- Não! não! apressou-se a declarar o rapaz. - Desculpa não
te poder ser mais agradável.
Lúcia beijou-o de novo, e desceu enfim ao primeiro andar, acompanhada
pelo Sabino que já estava à sua disposição.
Ordenou ao moleque de buscar, num pulo, uma carrocinha, e logo que esta
chegou fez embarcar as malas e mandou chamar uma carruagem.
Enquanto esperava, reclamou a sua conta, atirou com o dinheiro sem olhar
para quem o recebia, embolsou o troco e, em seguida, foi acordar Pereira.
- Onde vamos? perguntou este entre dois bocejos, assim que a viu em trajes
de sair.
- Venha daí homem! E deixe-se de perguntas!
Pereira levantou-se espreguiçando-se e acompanhou a mulher.
Esta o fez entrar na carruagem que já havia chegado, assentou-se
junto dele e disse ao cocheiro que tocasse para a Tijuca. Deu-lhe o número.
Era o número de uma outra hospedaria nas mesmas condições
da que deixavam. Lúcia, que já pressupunha aquelas rápidas
mudanças, tinha por cautela, uma lista das principais casa de pensão
da Corte e, à medida que se servia de cada uma, riscava-a da coleção.
A de Coqueiro era no rol a sexta inutilizada com o traço enérgico
de seu lápis.
Entretanto, ia Pereira silenciosamente se atufando nas almofadas e, aos
balanços monótonos do carro, procurava reatar o sono interrompido.