AUTOMÓVEIS
BANCOS
CELEBRIDADES
CHAT
COLUNISTAS
COMUNIDADES
CRIANÇAS
CULINÁRIA
ENTRETENIMENTO
EDUCAÇÃO
ESPORTES
ECONOMIA
HORÓSCOPO
GAMES
INTERNET
MÚSICA
MULHERES
NOTÍCIAS
POSTAIS
SAÚDE
SERVIÇOS
SEXUALIDADE
SHOPPING
TEENS
TEMPO
TRÂNSITO
VIAGEM
  BUSCA
digite a palavra
 

  MAIL
nome:

senha

   
Carolina
Casimiro de Abreu
 

 

Capítulo V

DEUS


Nesse magnífico dia de junho de 1852 em que Carolina na sua janela olhava para o céu e parecia murmurar uma oração à Virgem, dois jovens caminhavam conversando pela mesma rua.
- Pois é como te digo, dizia um deles, o amor cá para mim resume-se no gozo. Para que diabo tem um homem dinheiro, senão para pagar com ele os seus prazeres? Um homem rico é feliz, tem tudo quanto quer.
Nada inveja, nem mesmo o sultão, porque o dinheiro também pode comprar um serralho com cem mil mulheres, que todas juntas entoem um canto imenso de voluptuosidade e d'amor, cerquem um homem de carícias e encham o espaço com um concerto mágico de beijos e suspiros.
Isso é que é vida. Se a não posso ter assim, ao menos nunca me deixei arrastar por essas torrentes de sentimentalismo estúpido, de que tantos parvos têm morrido. Cá para mim, o amor é o prazer.
- Tens razão, Fernando, replicou o outro: de que serve dar um homem o seu amor puro e sincero a uma mulher, se ela depois escarnece dele?
Tens razão; o amor é o prazer.
- Ora Augusto! disse Fernando soltando uma gargalhada do mais revoltante cinismo: então tu também caíste na asneira de amar com muito respeito alguma virgem encapotada? Hein? aposto que ela te pagou bem!
- Fugiu com outro, a pérfida! disse ele, e seu rosto cobriu-se da palidez da morte.
- É porque entendia melhor da vida do que tu.
- Oh! Fernando, tu não sabes o que eu tenho sofrido! Era a primeira mulher que amava, a única, que tenho amado. Era tão linda! parecia um anjo. Não, não! não creio que aquela mulher me traísse; foi decerto uma fraqueza d' instante.
- Histórias da vida! Ela aborreceu-se de ti e gostou doutro, eis o caso. Há quanto tempo foi?
- Há quatro anos.
- Há quatro anos e ainda tu pensas nisso! Se fosse há dois dias tinha alguma desculpa. É a primeira vez que tal vejo. Pois há mulher alguma que mereça as lágrimas dum homem? Há tantas!
- Mas eu amava-a!
- Ora amavas! Gostavas dela é que queres dizer. Pois bem, esquece-a; goza agora de vinte ao mesmo tempo e estás vingado nobremente.
- Sim, sim, quero vingar-me! bradou Augusto, e sobre seus lábios pairou um sorriso sinistro, diabólico!...
- Até que afinal! Filiei mais um campeão às minhas bandeiras. Dou-te os parabéns. Para essa vingança, à minha moda, tens quem te ajude, toca.
E estes dois homens, que deviam saldar entre si uma dívida terrível de sangue, apertaram as mãos como amigos!
- Sim, sim, quero vingar-me, continuou Augusto, hei-de perder tantas mulheres quantas as lágrimas que ela me fez verter.
- Bravo! bravo! isso é que se chama uma vingança sublime.
E assim conversando, tinham ambos chegado junto à escada do prédio onde morava Carolina.
- Oh! Augusto, para principiares a vingar-te, vamos aqui ao 4º andar.
- Não vou.
- Anda, vem! O Moreira disse-me que há aqui uma rapariga muito linda. Que diabo vais tu fazer agora ao passeio? Anda, vem.
E ambos subiram a escada, bateram ao 4º andar e entraram.
No corredor, sentiram o roçar dum vestido pelas paredes; um vulto de mulher apareceu a uma porta e fugiu de súbito.
Seguiram essa mulher e viram-na cair sobre um sofá com o rosto oculto entre as mãos, soluçando como uma criança.
Quando eles se aproximaram, a desgraçada ergueu-se e juntando as mãos para Augusto disse-lhe:
- Perdão! Perdão! Fernando é que me perdeu, e caiu sem sentidos!
- Carolina! exclamaram os dois mancebos ao mesmo tempo, recuando um passo.
E só então é que esses dois homens compreenderam o papel, que deviam representar nesse drama.
- Miserável! Foste tu! bradou Augusto lívido de cólera agarrando Fernando por um braço.
Este levou a mão ao peito, os olhos injetaram-se-lhe de sangue, sentiu vergarem-lhe as pernas e ferido por uma apoplexia fulminante caiu redondamente no chão. Na queda, roçou com a cabeça a orla do vestido de Carolina.
A justiça de Deus foi terrível!...O algoz expirou aos pés da vítima!

 

Capítulo VI

PERDÃO!


Augusto fugiu espavorido daquela casa onde deixava um cadáver; o cadáver de Fernando, punido pela cólera do Senhor!...
E ele conviveu com esse homem durante tantos anos e chamava-lhe seu amigo!...
E a mulher que ele amara pediu-lhe perdão, confessando o seu erro e o seu arrependimento!...
Ela ainda o amava...talvez! e com esta lembrança ele sentia reviver todo o amor que lhe jurara nos seus dias felizes. Cem vezes quis voltar para trás e levar nos seus braços Carolina desfalecida, que ele reanimaria com o seu hálito abrasador, mas a cabeça andava-lhe à roda, as casas pareciam cair e as pernas tremiam-lhe. Uma febre ardente devorava-lhe o cérebro.
Uma hora depois, dois médicos contemplavam-no estendido sobre a cama.
Erguia meio corpo, apoiava-se com os cotovelos, e espraiando os olhos desvairados, perguntava com uma voz terrível: "Onde está Carolina?"
Depois...seus punhos cerravam-se, seus dentes rangiam e murmurando: Fernando! Fernando! caía de novo sobre o travesseiro. Era o delírio.
À claridade das velas, aquele rosto pálido, que se debatia na cama, parecia o dum espectro agitando-se sobre um túmulo.
À meia noite cessou-lhe a febre e um sono tranqüilo e longo o conservou deitado até às 10 da manhã.
Apenas acordou, contra a ordem expressa dos médicos, vestiu-se e saiu.
Quem o visse na rua diria ser um fantasma. Estava desfigurado como um cadáver; só seus olhos tinham um brilho imenso.
Dirigia-se apressado para a casa onde se desenrolara a seus olhos o drama da véspera: queria ver Carolina.
- Quero falar à menina Carolina, disse ele à dona da casa, apenas entrou.
- O senhor certamente enganou-se com a casa, aqui não há nenhuma Carolina.
- Pois ela não estava aqui ontem?
- Carolina!...não senhor.
- Se eu estava aqui quando ela desmaiou ontem à tarde!
- Ah! é verdade, mas ela chama-se Amélia.
- Mudou de nome! disse consigo o mancebo, tinha vergonha que a conhecessem! Depois dirigindo-se à mulher: Não lhe podia falar agora?
- Ela já cá não está. Saiu ontem mesmo quase à noite, deixando-me uma carta para entregá-la a uma pessoa que a devia vir aqui procurar ontem ou hoje. Talvez seja o senhor. Queira ter a bondade de me dizer o seu nome?
- Augusto ***.
- Justamente. Vou já buscá-la.
- Esperava que eu viesse ontem ou hoje e não quis que eu a visse! murmurou ele apenas a mulher saíra da sala. Compreendo-te, Carolina; tu ainda me amas e receavas que eu te repelisse agora que estás manchada, quando te havia deixado pura. Não, não! não te repilo, porque o meu coração bate da mesma maneira que batia há quatro anos; porque para mim sempre serás a mesma Carolina virgem, inocente, que eu respeitei como irmã; porque terias de mim o perdão voluntário dessas faltas que o mundo te fez cometer. Oh! para que me separei de ti? para que fiz aquela viagem?...
E abafou com o lenço as lágrimas que lhe saltaram dos olhos.
- Aqui está a carta, disse a mulher entrando.
Augusto recebeu-a e desceu precipitadamente as escadas. Queria lê-la em casa, porque aí ninguém viria perturbar-lhe a sua dor.
Meia hora depois, sentado a uma mesa, lia ele a carta de Carolina.

" Augusto:

"Perdão! perdão! é de joelhos que to imploro. Não me amaldiçoes; por piedade, ouve-me primeiro. Bem sei que te rasguei o coração, porque tu me amavas deveras, mas já tenho expiado de sobra o mal que te fiz. Para que me deixastes tu, para fazer aquela viagem? Antes não fosses. Chorava todas as tardes debaixo do caramanchão, por ti; chorei três meses. Um dia vi Fernando. Um dia... Perdão! perdão! foi fraqueza; manchei o corpo, mas a alma ficou pura. Não amava senão a ti. Desde esse dia a tua imagem perseguiu-me sempre. Tremia diante da minha família, tremia diante de Deus, tremia diante de tudo! Era culpada! Uma noite, enfim, seduzida por aquele homem, que prometera desposar-me, reparando a falta, deixei a casa onde nascera para nunca mais voltar. Passei essa última tarde com minha mãe, que eu abracei e beijei mil vezes. Minha pobre mãe! que nunca mais te hás-de sorrir para mim! Meu pobre pai, que nunca mais me chamarás a tua Carolina!
"Oh! Augusto! Augusto! eu tenho sofrido muito.
"Depois, meu filho foi-me arrancado dos braços, e quando pedi a Fernando os meus dias felizes, a minha honra, as carícias de minha mãe e os afagos de meu pai... ele respondeu-me com uma gargalhada e abandonou-me.
"Para onde havia de ir? Para casa de meus pais? Eles fechariam a porta à filha indigna que lhes manchara o nome. Não tinha coragem bastante para suicidar-me...arrojei-me no abismo!...
Mas todas as noites pedia a Deus nas minhas orações, que te pudesse ver ainda uma vez antes de morrer, a ti, o único que tenho amado. Deus ouviu-me, Deus puniu Fernando.
"Adeus! parto para longe de ti; nunca mais me verás. Não, nunca mais, porque é impossível que o coração de um homem possa amar a mulher que o traiu. Mas ao menos lembra-te que Cristo perdoou a seus algozes, perdoa-me também. Oh! sim, Augusto, perdão! perdão para

CAROLINA."

Sim, sim, perdôo-te, exclamou o mancebo deixando cair a carta das mãos: perdôo-te, porque sinto renascer todo o amor que eu julgava extinto. Carolina! Carolina! bradou ele, erguendo-se, vem a meus braços, vem, que eu te dou todo o amor que encerra o coração de um homem.
Meu Deus! meu Deus! dai-me a minha Carolina, que eu nunca amei outra mulher no mundo...

 

Capítulo VII

A ÚLTIMA HORA


Um mês depois, nos últimos dias de agosto, Carolina gemia agonizante em Setúbal.
Que coração de mulher resistiria a tantas comoções?
Com a cabeça formosa recostada no travesseiro, firme e resignada, ouvia ela da boca do sacerdote as doces e consoladoras palavras do Evangelho.
Sobre uma pequena mesa via-se um crucifixo entre duas velas acesas, que espalhavam pelo quarto a sua claridade mortuária.
Oh! triste e solene hora do passamento! Como se patenteia então eloqüente o nada das grandezas humanas!...
- Filha, dizia-lhe o padre, com sua voz suave; lembrai-vos só de Deus, diante do Qual ides em breve comparecer. Arrependei-vos, filha, e Ele que é um Deus de bondade e misericórdia há-de perdoar-vos.
- Deus perdoa-me, padre?
- Perdoa-vos, sim, filha.
- Então morro contente; mas eu também queria levar outro perdão da terra.
- Dizei, filha.
- É o de meus pais, que eu abandonei, padre; mas eu amava-os muito.
- Também te devem perdoar, filha, porque Deus manda que se perdoe.
- Ainda falta outro, padre.
- Dizei, filha.
- É um homem que eu amei muito, padre, e que ainda amo.
- Fizestes-lhe mal, filha?
- Traí-o, padre, disse ela chorando.
- Descansa, filha, ele também te há-de perdoar.
- Meu padre, queria pedir-vos um favor.
- Falai, filha.
- É de enviardes para Lisboa a carta que está sobre aquela mesa; é o último adeus que eu digo àquele homem.
- Eu enviarei a carta, filha. Mas por que chorais? são ainda lembranças deste mundo, que vos pungem? Já vos arrependestes sinceramente de tudo: pois bem; desligai o pensamento de tudo que é terrestre, mesquinho e pequeno, e pensai em Deus, sublime e grande.
- Padre, padre, eu vou morrer! repeti-me que Deus me perdoa.
O padre aproximou-se e curvado sobre o leito dizia-lhe:
- Minha filha, Deus é bom, Deus perdoa quando Seus filhos se arrependem como vós vos arrependestes.
- Minha pobre mãe, adeus! murmurava a agonizante, perdoa a tua filha, meu pai!
Depois um tremor percorreu-lhe os membros, um soluço saiu de seu peito e fazendo um último esforço disse: adeus... Au... gus... e a voz expirou-lhe nos lábios e a cabeça pendeu para o lado, sem um gemido.
Estava morta.
O padre contemplou-a um instante, mudo e enternecido.
- Morreu! disse ele enxugando uma lágrima, ainda tão jovem! Foi o mundo que a matou.

EPÍLOGO


Alguns dias depois, Augusto, trêmulo, abria uma carta fechada com obreia preta, e lia:

" Adeus, Augusto: quando leres esta carta já estarei morta. Consola meu pai e minha mãe, se os vires. Não amaldiçoes a minha memória! Morro beijando o teu retrato, que levo comigo ao túmulo. Adeus! ora por mim!

CAROLINA".


- Sim, sim, disse o mancebo, caindo de joelhos e juntando as mãos, eu oro por ti. Que Deus te perdoe como eu te perdoei.


( O Progresso, números 351 e 352, respectivamente
de Lisboa, 12 e 13 de março de 1856).


Carolina, de Casimiro de Abreu

Fonte:
ABREU, Casimiro de. Carolina. in SILVEIRA, Sousa da (org.). Obras de Casimiro de Abreu. 2ª ed. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura -MEC, 1955.

Texto proveniente de:
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro <http://www.bibvirt.futuro.usp.br>
A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo
Permitido o uso apenas para fins educacionais.

Texto-base digitalizado por:
Fernanda Duarte, Rio de Janeiro - RJ

Este material pode ser redistribuído livremente, desde que não seja alterado, e que as informações acima sejam mantidas. Para maiores informações, escreva para <bibvirt@futuro.usp.br>.

Estamos em busca de patrocinadores e voluntários para nos ajudar a manter este projeto. Se você quer ajudar de alguma forma, mande um e-mail para <bibvirt@futuro.usp.br> e saiba como isso é possível.

Capítulo I à Capítulo IV
Capítulo V à Epílogo