A Carne
Júlio Ribeiro
Capítulo VIII
Cessara a chuva, estava um tempo esplêndido. A luz
branca do sol coava-se por um ar muito fino em um céu
muito azul, sem uma nuvem. A natureza expandia-se alegre
como um enfermo que volta à vida, como um convalescente.
Lenita levantou-se de boa saúde, mas aborrecida,
contrariada. A lembrança do Manuel Barbosa torturava-a.
Ter de encontrar-se com ele a todas as horas, à mesa, na
sala, vê-lo passear pela casa, pelo terreiro, vê-lo
refestelar-se, bamboar-se nas cadeiras de balanço, com as
melenas, com as barbas grisalhas... era horroroso.
Quando a chamaram para almoçar foi cheia de displicência,
contrariadíssima. Atara os cabelos negligentemente,
envolvera-se em um xale, ao desdém, sem se espartilhar,
sem se apertar sequer. Calçara chinelos.
Entrou na varanda com os olhos baixos, resolvida a
não encarar o antipático comensal.
A mesa estava o coronel.
- Bom dia, Lenita, então, como vai isso agora? muito
desapontada com o rapaz, não? Pois olhe, ele ainda fê-la
melhor: partiu hoje de madrugada para a vila.
Tinha um negócio urgente a tratar, pelo menos foi o
que disse: chegou e saiu. A enxaqueca dele é assim,
atormenta-o que é um desespero, mas com uma hora de sono
passa sem deixar vestígios.
- Estimo muito que tenha sarado, respondeu Lenita
secamente e pensou baixo: que durma um dia até não acordar
mais. Um animal daqueles o melhor que pode fazer é morrer,
é rebentar. O mundo é da força e também da beleza,
porque
em suma a beleza é uma força. As barbas! as barbas! Que
leve o diabo a ele, mais a elas.
E ficou muito contente por não ter de ver, por não
ter de aturar Manuel Barbosa, ao menos esse dia.
Demais estava resolvida, não havia de ficar muito
tempo na fazenda, partiria logo para a cidade e de lá para
São Paulo.
Almoçou com prazer, tocou piano, deu um grande
passeio a pé, jantou, só pensou em Manuel Barbosa duas ou
três vezes, isso mesmo com menos indignação, sem
ressentimento, indiferente quase, achando-se apenas
ridícula a si própria por tê-lo arvorado um herói
durante
um longo acesso de extravagância histérica. Era um pobre
diabo, caipirão, velhusco, achacoso. Caçava por caçar,
sem
intuição poética, bestialmente, como qualquer caboclo.
Bebia pinga. Verdade era que tinha estado na Europa, mas
ter estado na Europa não muda a constituição a ninguém.
Ele era o que ela devia esperar que ele fosse, um tipo
muito sem imponência, reles, abaixo até da craveira comum.
Ao anoitecer recolheu-se, começou a arrumar os seus
bronzes, os seus bibelots de marfim, de porcelana.
Envolvia-os cuidadosamente, amorosamente em papel de seda,
arranjava-os no fundo de um enorme baú americano que
trouxera, calçava-os, protegia-os com jornais velhos
fuxicados, com guardanapos, com lenços, com pequenas
roupas. Tinha cuidados meticulosos, maternais, de amadora
apaixonada. Por vezes esquecia-se a remirar embevecida uma
jarrinha de Sévres, uma estatueta primorosa: no auge do
entusiasmo beijava-a.
Alta noite, muito tarde, estando já deitada ouviu um
tropear de animais, passos de gente, tinidos de esporas.
- Aí chega o bruto, disse consigo, e continuou a
pensar na sua ida próxima para a cidade, e de lá para São
Paulo.
O tempo estava firme: a uma noite limpa, estrelada, fria,
sucedera um dia como o da véspera, luminoso, assoalhado.
Lenita levantou-se muito cedo, tomou um copo de
leite, deu um passeio pelo pasto. De volta entrou no pomar
a ver os figuinhos novos, os cachos tenros das vides.
- De uma laranjeira-cravo, que se erguia folhuda
desde o chão, viçosa, esparramada, esfuziou de súbito
um
tico-tico.
Tem ninho, pensou consigo Lenita, e começou a
procurar, abrindo, afastando os ramos.
Deteve-se, aspirou o ar: sentia um cheiro bom de
sabonete Legrand e de charuto havana.
Deu volta à laranjeira e topou com Manuel Barbosa que
se encaminhava para ela, risonho, palacianamente curvado,
na mão direita o chapéu, na esquerda um cravo rubro,
perfumado, esplêndido.
Perto o charuto, que ele deitara fora, desprendia uma
espiral de fumo, azulada, tênue.
Lenita parou confusa, atônita, sem saber o que
pensasse.
O homem que aí vinha não era o Barbosa da véspera,
era uma transfiguração, era um gentleman em toda a
extensão da palavra.
A testa alta, estreita, lisa, mostrava-se a
descoberto, com uma zona muito alva à raiz do cabelo:
esse, cortado, à meia cabeleira, recurvava-se a frente em
uma elegante pastinha à Capoul, a que dava certo realce
muitos fios cor de prata. O rosto era regularíssimo,
estava muito bem barbeado. À palidez da véspera sucedera
uma cor sadia de pele clara, mordida, bronzeada pelo sol.
A boca, de tipo saxônio puro, encimada por um bigode
cuidadosamente aparado e seu tanto ou quanto grisalho,
abria-se em um sorriso bondoso e franco, mostrando dentes
fortes, regulares, muito limpos. Estatura esbelta, pés
delicados, mãos muito bem feitas, muito bem tratadas.
Trazia um costume folgado de casimira dará, gravata
creme, camisa alvíssima, de colarinho deitado, mostrando
em toda a sua força o pescoço robusto. Na lapela do veston
tinha uma rosa de cheiro muito repolhuda.
Chegou-se a Lenita polidamente, graciosamente.
- Minha senhora, triste juízo há de vossa excelência
ter feito de mim anteontem. Quando estou com enxaqueca
deixo de ser homem, torno-me urso, torno-me hipopótamo.
Quer fazer-me a honra de aceitar este cravo? Olhe, dê-me
licença, eu sou um velho, podia ser seu pai.
E com uma familiaridade confiada prendeu a flor no
cabelo da moça.
Depois, afastando-se dois passos, mirou-a, entortando
a cabeça, com ares de entendedor, e disse:
- Que bem que vai esse vermelho vivo nos seus cabelos
pretos. Está linda.
O olhar que coava por entre as pálpebras semicerradas
de Barbosa era tão doce, tão paterna, a sua fala era tão
untuosa, que Lenita não se revoltou, não repeliu a
ousadia. Sorriu-se e perguntou: - Está agora perfeitamente
bom, não tem cansaço da viagem, não tem ressaibos da
moléstia?
- Oh! não. Viagens não me fatigam, e a minha enxaqueca, em
passando, passou, não deixa vestígios. Quer aceitar o meu
braço?
- Vamos dar uma volta pelo pomar, fazer horas para o
almoço?
Lenita acedeu.
Em um instante, como por ação elétrica, seus
sentimentos se tinham transformado: aos ardores pelo homem
ideal da cisma histérica, à antipatia pelo homem real da
antevéspera, entrevisto em circunstâncias desfavoráveis
todas, sucedera aí nesse lugar, repentinamente um afeto
calmo e bom que a subjugava, que a prendia a Barbosa.
Achava nele que era de bonomia superior, de familiaridade
comunicativa que lhe lembrava Lopes Matoso.
Passearam, conversaram muito. Falaram principalmente
de botânica. Barbosa estabeleceu um confronto detalhado
entre a flora do velho mundo e a do novo; entrou em
apreciações técnicas; desceu a minudências de
sua própria
observação pessoal. À alternativa matemática
das estações
do ano na Europa contrapôs a magnificência monótona da
primavera eterna brasileira. Fez notar que lá domina nas
matas o exclusivismo de uma espécie, que há bosques só
de
carvalhos, só de castanhos, só de álamos, ao passo
que cá
acotovelam-se, emaranham-se em pequeno espaço cem
famílias, diversíssimas a ponto de não se encontrarem,
muitas vezes, dois indivíduos da mesma variedade em um
raio de mil metros.
Abriu uma exceção em Minas e no Paraná para a
Araucaria brasiliensis, abriu exceções para as palmeiras
intertropicais, a que chamou legião. Lenita acompanhou-o
com interesse sumo, revelando conhecimento aprofundado da
matéria, fazendo-lhe perguntas de entendedora. Citou
Garcia D'orta, Brótero e Martius, criticou Correia de Melo
e Caminhoá, confessou-se, em relação a espécies,
sectária,
ardente de Darwin, cujas opiniões radicou a estima entre
ambos; quando entraram para almoçar estavam amigos velhos.
- Olá? disse o coronel, da porta, ao vê-los chegar de
braço dado. Muito bom dia ! Leve o diabo as tristezas. Com
que amiguinhos, era o que eu esperava. Mas vamos, vamos
para dentro, que já não é sem tempo; o almoço
arrefece de
uma vez; há meia hora que está na mesa.
- Sim, senhor, meu pai, a Exrna. senhora dona Helena
é para mim uma surpresa, uma revelação. Sabia-a muito
bem
educada, mas supunha-a bem educada, como o são em geral as
moças com especialidade as brasileiras - piano, canto,
quatro dedos de francês, dois de inglês, dois de
geografia e... pronto! Pois enganei-me: a Exma. senhora
dona Helena dispõe de erudição assombrosa, mais ainda,
tem
ciência, verdadeira, é um espírito superior,
admiravelmente cultivado.
- É por demais bondoso o : senhor Manuel Barbosa,
volveu Lenita visivelmente satisfeita.
- Olhem vocês uma coisa, acabem-me com essas
excelências, com essas senhorias. É Lenita para cá,
Manduca para lá e...toca! Cerimônias só para a igreja:
a
num me fazem elas mal aos nervos, até agravam-me o
reumatismo. Vamos almoçar.
Daí em diante Lenita e Barbosa não se deixaram: liam
juntos, estudavam juntos, passeavam juntos, tocavam piano
a quatro mãos.
Na sala do coronel armaram um gabinete de física
eletrológica.
A velha quadra de paredes corcovadas, carequentas,
povoou-se estranhamente de instrumentos científicos
moderníssimos, nos quais o brilho fulvo do latão
envernizado se casava ao preto baço das partes
enegrecidas, à transparência cristalina dos tubos de vidro
multiformes, ao lustroso da madeira brumida dos suportes,
à verdura fresca da seda das bobinas.
Botelhas de Leyde, jarras enormes, agrupadas em
baterias formidáveis, máquinas de Ramsden e Holtez, pilhas
compartimentos Kruikshank e de Wollanston, pilhas enérgica
de Grove, de Bunsen, de Daniell, de Leclanché; pilhas
elegantíssimas de bicromato de potassa, acumuladores de
Planté, bobinas de Ruhrnkorf, tubos de Geissler,
reguladores de Foucault e Duboscq, bugias de Jablochkff,
lâmpadas de Edson, telefones, telégrafos, tudo isso por aí
protraía as formas esquisitas, fosco, diáfano,
reverberante a um tempo; absorvendo, refrangendo,
refletindo a luz de mil modos diferentes.
A eletricidade sussurrava, multiplicavam-se por toda
parte faíscas azuladas, ouviam-se estalidos secos,
tintinações sonoras de campainhas.
O ar estava picado de um cheiro acre, irritante, de
ácido azótico e de ozone.
Barbosa e Lenita, ocupados, embebidos em experiências,
trocavam palavras rápidas, quase ásperas, como dois
velhos colegas.
Davam-se um ao outro ordens breves, imperiosas. De
repente um deles batia o pé, contraía o rosto, piscava
duro, sacudia o braço: era que tinha havido um descuido,
punido logo por um choque. O coronel espiava da porta.
- Que a sua sala estava convertida em senzala de
feitiçarias, afirmava ele, que de repente havia de vir um
raio e espatifar aquelas burundangas todas.
Aos convites instantes de Lenita e do filho para que
chegasse a ver de perto os efeitos luminosos da
eletricidade no vácuo, as colorações brilhantes produzidas
nos tubos de Geissler, recusava-se - que lá não entraria
nem por um decreto; que para livrar-se por toda a sua
santa vida do desejo de investigar eletricidades, bem lhe
bastavam dois choques que apanhara uma feita, na estação
telegráfica.
A observação de que a eletricidade lhe podia ser útil
para a cura do reumatismo, contestava que se curasse quem
quisesse com tal medicina, que ele não.
Satisfeita a curiosidade científica de Lenita quanto
ao estudo experimental da eletrologia, que ela dantes só
aprendera teoricamente, passaram à química e à fisiologia.
Depois foram à glótica, estudaram línguas, grego e
latim
com especialidade: traduziram os fragmentos de Epicuro, o
De Natura Reram de Lucrécio.
Em estudos, em conversações que eram prolongamentos
dos estudos, em passeios e excursões campestres, voava o
tempo. Levantavam-se muito cedo, estendiam os serões até
muito tarde. Uma vez o moleque, que fora buscar o correio,
trouxe para Barbosa um volume lacrado. Era a exposição das
teorias transformistas de Darwin e Haeckel por Viana de
Lima. Lenita ficou doida de contente com a novidade
escrita em francês por um brasileiro. Começaram a leitura
depois da ceia, prolongaram-na pela noite adiante, e
embeveceram-se a tal ponto que o dia os surpreendeu.
Ao empalidecer a luz das velas com os primeiros
albores do dia, foi que deram acordo de si. Riam muito,
recolheram-se desapontados aos seus aposentos, não
dormiram. Compareceram ao almoço e depois dele continuaram
com a leitura.
À noite, quando depois de despedir-se de Barbosa,
entrava para o quarto, Lenita despia-se, concentrando o
pensamento, refletindo sobre o seu estado de espírito,
achava-se feliz, notava que tinha afetos brandos por tudo
que a rodeava, que via a natureza por um prisma novo.
Sentia, com uma ponta de remorso, que lhe ia esquecendo o
pai. E parecia-lhe interminável o que restava da noite, o
que ainda faltava para tomar a ver Barbosa.
Deitava-se, aconchegava-se, procurava adormentar o
cérebro, repelindo, baralhando as idéias que se
apresentavam. Adormecia.
Cedo, muito cedo, ao amiudar dos galos, acordava:
erguia-se de pronto, alegríssima; escovava os dentes
cuidadosamente, mirava-os com desvanecimento ao espelho,
chegando muito a luz à boca, arregaçando muito os beiços
para ver as gengivas; refrescava a epiderme do busto com
uma larga ablução fria, umedecia, perfumava o cabelo com
água de violetas, penteava-os com esmero, substituía a
camisola de dormir por uma camisa finíssima de cambraia
crivada; apertava-se, vestia-se com garridice; limava,
espontava, alisava, coloria, brunia as unhas.
E tudo isso pensando em Barbosa, antegostando a
delícia do momento de vê-lo, de ouvir-lhe a voz em um bom
dia afetuosíssimo, jubiloso; de apertar-lhe a mão, de
sentir-lhe o contato quente.
Barbosa já não era moço, pouco dormia, poucas horas
de sono lhe bastavam.
Deitava-se, procurava ler, mas debalde. A imagem de
Lenita interpunha-se entre ele e o impresso. Via-a junto
de si, absorvia-se em contemplá-la nessa semi-alucinação,
falava-lhe em voz alta, desesperava, depunha o livro ou o
jornal, estendia-se, virava-se, revirava-se, adormecia,
acordava, riscava fósforo, olhava o relógio, via que era
noite, tomava a adormecer, tomava a acordar, e assim
continuava até que amanhecia, até que chegava a hora de
levantar-se.
- Que não sabia o que aquilo era, pensava. Admiração
por talento real em uma moça, por faculdades inegavelmente
superiores em uma mulher? Possível. Mas em Paris
trabalhara ele muito tempo com madame Brunet, a tradutora
sapientíssima de Huxley; com ela fizera centenares de
dissecações anatômicas, com ela aprofundara estudos
de
embriogenia; respeitava-a, admirava-a; e nunca sentia
junto dela o que sentia junto de Lenita. E todavia madame
Brunet não era feia, bem ao contrário. Não, aquilo
não era
simples admiração. Mas que diabos, era aquilo então?
Amor
verdadeiro, com objetivo definido, carnal também não era:
ao pé de Lenita ainda não tivera desejo algum lascivo,
ainda não sofrera o pungir do espinho da caule. Tivera em
tempo uma paixão que o levara à tolice suprema do
casamento, mas isso passara; tinha-se até divorciado da
mulher com cujo gênio se não tinha podido harmonizar.
Casto, era-o até certo ponto: só procurava relações
genésicas, quando as exigências fisiológicas do seu
organismo de macho se faziam sentir, imperiosas,
ameaçando-lhe a saúde. E não ligava a isso mais
importância do que o exercício de uma outra função
qualquer, do que satisfação de uma simples necessidade
orgânica. Mas que era então o que sentia por Lenita?
Amizade no rigor do termo, como de homem para homem, e até
de mulher para mulher, não era: a amizade é impossível
entre pessoas de sexo diferente, a não ser que tenham
perdido todo o caráter de sexualidade. Amor ideal,
romântico, platônico? Era de certo isso. Mas ridículo,
santo Deus? que oceano de ridículo! Quebradeiras
sentimentais na casa dos quarenta, quando a enduração do
cérebro já não permite fantasias, quando a luta pela
vida
já tem morto as ilusões?
O caso era que não podia estar longe da moça, que só
junto dela vivia, pensava, estudava, era homem. Estava
preso, estava aniquilado.
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