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A Carne
Júlio Ribeiro

 

Capítulo XVIII

Seis dias depois da partida de Lenita chegou Barbosa.
De nada sabia ele: o coronel não lhe tinha escrito.
Desde que transpusera a crista do morro, vinha
alongando os olhares, à espera, a todo o momento, de
divulgar o vulto da moça uma janela no terreiro, em
qualquer parte. Antegozava o prazer de vê-la estremecer do
júbilo ao enxergá-lo, de vê-la correr-lhe ao encontro
pálida, trêmula, convulsionada pela emoção.
Lembrava-se da noite, e tinha calafrios; afastava,
expediu da mente a lembrança do gozo, para também esquecer
que lhe era preciso esperar tantas horas.
E às janelas ninguém assomava. No pardo sujo do
terreiro esburgado, agitavam-se, passavam rápidas de uma
para outra parte manchas azuis e encarnadas: era um lote
de crioulinhos a correr, a bancar, vestidos de camisolas
do baeta. Mais nada.
- Melhor, disse Barbosa consigo, vou surpreendê-la na
varanda, em prosa com o velho
Desceu, chegou à porteira.
A crioulada reuniu-se em um magote, e, alçando as
mãos e tripudiando, começou de gritar uma melopéia cadente,
afinada:
- Ai vem nhonhô! aí vem!
- Cala o bico, canalha! Barbosa, cruzando nos lábios
índice da mão direita.
A crioulada afeita a obedecer, emudeceu.
Ele apeou-se, descalçou as esporas, atravessou o
terreiro, entrou em casa, foi andando nas pontas dos pés
até à varanda.
Estava deserta.
Dirigiu-se ao quarto do pai. Encontrou o coronel
deitado, a gemer com o reumatismo. N chaise-longhe do
costume cabeceava a velha entrevada.
- Como vai, meu pai? Como está, minha mãe?
E beijou a mão de um e a testa de outra.
- Na forma do louvável...respondeu o coronel,
sofrendo sempre... ai!... Este maldito reumatismo não
larga... Como foi você de viagem?
- Muito bem.
- O engenho?
- Vem aí, chega amanhã a estação.
- Assim, pois, é preciso que sigam os carroções a
esperá-lo, hoje mesmo?
- Basta que sigam amanhã.
- E veio coisa boa?
- Ótima. Algumas peças foram fundidas especialmente;
fizeram-se os moldes sob meu risco.
- Muito bem, e quanto custou?
- Ficou barato; não anda em mais de três contos.
- Ai !... Você já jantou?
- Não, senhor.
O coronel sentou-se com esforço, tirou de sob o
travesseiro uma chavinha, levou-a aos lábios, arrancou um
assobio estridente, prolongado.
- Sinhô, gritou de dentro uma escrava, que logo assomou
à porta do quarto.
- Nhonhô está aqui, e ainda não jantou.
- Sim sinhô, meu sinhô.
E, voltando-se rápida, desapareceu.
Barbosa não quis perguntar por Lenita. Ela estava de
certo no quarto. Ele lá iria ter com ela. Pediu licença ao
pai para sair: que se não demoraria, disse: que voltaria
logo, para conversarem.
Chegou à sala de Lenita e sentiu um grande aperto do
coração ao ver os consolos despidos, sem um bronze, sem
uma estatueta, sem uma jarra de Sèvres, sem um defumador
de Satzuma.
Foi à porta do quarto dormir, empurrou-a, estava
fechada a chave; foi ao outro quarto, vazio. Empalideceu-
se, encostou-se à ombreira da porta para não cair. Que era
aquilo? perguntou-se. Para onde tinha ido a moça?
Voltou aos aposentos do pai.
- Meu pai, onde está D. Lenita?
- Se realizou o que tinha na intenção, está em São
Paulo, em casa de um parente, do Fernandes Faria, ou
qualquer hotel. Aquilo é uma doidinha.
- Pois D. Lenita foi para São Paulo?! exclamou
Barbosa, como que recusando a evidência, como que fugindo
à brutalidade do fato.
- Se foi! Você a conhece pelo menos tão bem como eu:
e desencabritando, desencabrita mesmo: não há pegar-lhe.
Barbosa deixou-se cair em uma cadeira.
Não estava pálido, não estava lívido: estava uma e
outra coisa: tinha manchas cor de chumbo no rosto cor de
terra.
Em suas feições havia alguma coisa da expressão que
deve Ter uma máscara de bronze, que, caída em uma
fogueira, começa a entrar em fusão.
Conservou-se sentado por muito tempo, mal respondendo
às perguntas do pai.
Chamaram-no para jantar; foi, sentou-se à mesa,
cruzou os braços sobre ela, afundou a cabeça no ângulo
formado pelo braço esquerdo, deixou-se ficar, imóvel.
Refletia.
Lenita ali não estava, não estava na sala, não estava
no quarto, não estava no terreiro, não estava no pomar,
não estava na fazenda. Ele a não veria mais, não lhe
ouviria mais a voz suave, não lhe beijaria mais os lábios
corados, não lhe beberia mais a frescura do hálito...
Só... só... estava só !
Ela o provocara, ela se lhe oferecera, ela o
procurara, ela se lhe entregara, ela se prestara a todos
os seus caprichos, mansa, dócil, submissa, para depois
assim abandoná-lo, a sós com as lembranças, entregue à
tortura da saudade!
Não, não era possível: Lenita ali estava, do outro
lado da mesa; não se fora...
Ergueu a cabeça, abriu os olhos esgazeados e só viu
diante de si a crioulinha servente, que abanava moscas,
movendo preguiçosa e mole, para a direita e para a
esquerda, um ramo de alecrim bravo.
Barbosa deixou cair de novo a cabeça, continuou no
cismar doloroso, como quem se praz a revolver em uma
ferida o ferro que a produziu.
Louco que fora!
Tinha tido dezenas de amantes, tinha sido, era ainda
casado, conhecia a fundo a natureza, a organização
caprichosa, nevrótica, inconstante, ilógica, falha,
absurda, da fêmea da espécie humana; conhecia a mulher,
conhecia-lhe o útero, conhecia-lhe a carne, conhecia-lhe o
cérebro fraco, escravizado pela carne, dominado pelo
útero; e, estolidamente , estupidamente, como um fedelho
sem experiência, fora se deixar prender nos laços de uma
paixão por mulher!
O tempo ia passando: o jantar arrefecera.
Barbosa levantou-se.
- Nhonhô não janta? perguntou triste a preta
cozinheira que o observava da porta do corredor.
- Não, Rita, estou sem vontade, estou doente.
Saiu, chegou à porta do terreiro, circunspecionou os
arredores.
Parecia-lhe morta a natureza: a paisagem figurava-se-
lhe um cadáver, vasto, enorme.
Do diafragma subia-lhe para o coração um aperto
constante, ininterrompido, doloroso, que lhe tolhia o
fôlego, que o sufocava.
Queria chorar; o pranto, julgava, far-lhe-ia bem,
seria um desabafo: impossível. Um ardor seco, febril,
queimava-lhe os olhos.
No imóvel do arvoredo secular, na calma impassível
das encostas amareladas, havia, ele pelo menos sentia, o
que quer que era de hostil: essa indiferença majestosa
irritava-o, era como um escárnio à angústia em que se
estorcia seu espírito.
E tudo lhe fazia lembrar Lenita; na ante-sala, a cuja
porta estava, a vira ele pela vez primeira por entre as
torturas de uma enxaqueca; no pomar, de que avistava um
ângulo, com ela tivera a primeira entrevista; no pasto,
que se lhe estendia entre os olhos, quantas vezes não
tinham passeado juntos; a mata fronteira, as caçadas, os
pássaros, a cutia, os porcos, a cascavel... ah! a
cascavel! Por que não sucumbira Lenita ao veneno da cobra?
Por que a fizera ele viver? ! Morta naquele tempo, ela
seria apenas uma saudade doce, e não a lembrança voraz que
o havia de matar.
Anoiteceu.
A escuridade, o silêncio, reprodução cruel da
escuridade e do silêncio das noites de outrora, das noites
de amor, que não mais voltariam acenderam-lhe,
exacerbaram-lhe o pungir do sofrimento, o rolar da
soledade.
Lembrou-lhe o suicídio.
- Ainda não, disse: esperemos.
Entrou para o seu quarto, deitou-se, fez uma injeção
de morfina, dormiu.
No dia em que era esperado chegou o maquinismo.
Barbosa desenvolveu uma atividade febril.
Desengradou-o, armou-o, ele próprio. Multiplicou-se,
dividiu-se: fez-se carpinteiro, pedreiro, serralheiro,
maquinista.
Queria esquecer de dia, hipnotizava-se com trabalho,
de noite, com morfina.
Pronto o engenho, a moagem continuou.
Barbosa tomou-a a si, dirigiu o serviço. O açúcar da
fazenda criou fama.
- Eta! rapazinho destorcido! dizia o coronel, é pau
para toda a obra! Quem havia de dizer que ele entende mais
de fabricação do que eu que lido com cana desde que me
conheço por gente? Quem estuda sabe mesmo.
Mas...eu não ando contente com ele: estes modos que
ele agora tem não são naturais, ele não os tinha. Aquela
Lenita...
Em um dos dias da primeira quinzena de outubro, o
moleque trouxe da vila, na correspondência, duas cartas
sobrescritas por uma letra redonda, fina, bonita letra,
letra de mulher.
Era de Lenita.
Barbosa a conheceu imediatamente.
Uma lhe era endereçada, outra ao coronel.
Barbosa tomou a sua, abriu-a e, pálido, muito pálido,
com um ligeiro tremor a agitar-lhe as mãos, começou a
leitura.
Dizia:

São Paulo, 5 de outubro de 1887.
Ao Sr. Manuel Barbosa envio muito saudar.
Mestre.
Ao chegar à fazenda, surpreendeu-se de cerro com a
minha partida um tanto brusca.
Procurou-lhe explicação, não achou: nem eu. Lembro-
lhe o que diz Spinoza: "A nossa ilusão do livre-arbítrio
vem de ignorarmos nós os motivos que nos dirigem ". No
caso desta minha partida, eu poderia bem crer que tinha
livre-arbítrio. Demais sou mulher, sou fantasque Quem vai
discutir, explicar caprichos de mulher? Vale infinitamente
mais non ragionar di lor, guardar, passar.
Qual tem sido a minha vida desde que vim da fazenda?
Nem eu mesma sei.
Estudar, não tenho estudado; fui sábia, fui preciosa
tanto tempo, que achei de justiça dar-me o luxo de ser
ignorante, de ser mulher um poucochinho.
Mas, qual! ninguém é sábio impunemente. A ciência é
uma túnica de Dejanira: uma vez vestida, gruda-se à pele,
não sai mais. Quando se tenta arrancar, deixa pedaços de
forro, que é o pedantismo.
E a prova é estar-lhe eu escrevendo, por não poder
resistir ao prurido de comunicar as minhas impressões, de
conversar um bocadinho com quem me entenda.
Que saudades não tenho eu às vezes das nossas
palestras, das nossas lições, nas quais tanto se dissipava
a treva da minha ignorância à luz do seu profundo saber.
O passado, passado: fomos como dois astros vagabundos
que se encontraram em um recanto do espaço, que caminharam
juntos, enquanto foram paralelas as suas órbitas, e que
ora estão separados, seguindo cada qual o seu destino.
Vamos ao que serve.
São Paulo é hoje uma grande cidade, dou-lhe, sem
receio de erro, sessenta mil habitantes.
Dia a dia, para nome, para sul, para leste, para
oeste, está crescendo, está-se alastrando, é o que mais é,
está-se aformoseando.
Os horríveis casebres dos fins do século passado e
dos princípios deste vão sendo demolidos para dar lugar a
habitações higiênicas, confortáveis, modernas. Os
palacetes do período de transição, à fazendeira, à
cosmopolita, sem arte, sem gosto, chatos, pesados, mas
solidamente construídos, constituem um defeito grave que
não mais desaparecerá. Obras, porém, há feitas, nestes
últimos cinco anos, pelo arquiteto Ramos de Azevedo, pelo
italiano Pucci e por outros estrangeiros, que são
realmente primores de arte. Gosto imenso da Tesouraria da
Fazenda que está construindo Ramos de Azevedo: é um
edifício que honra São Paulo pela severidade e elegância
do estilo, pela robustez que ostenta desde os
profundíssimos alicerces até o levantado coruchéu. Aquela
mole enorme forma um todo compacto, homogêneo, sem o
mínimo defeito, sem uma trinca sequer de tassement. Quem
viu o que ali estava.. cruzes!.'.' Para se avaliar o que
era basta que se veja o anual Palácio do Governo, da mesma
procedência. Os manes do Sr. Florêncio de Abreu podem se
limpar as mãos à parede dos Campos Elísios, se é que os
Campos Elísios têm parede. Desmanchar a velha, a maciça,
a histórica, a legendária construção dos Jesuítas, para
estender por ali fora aquele pardieiro medonho Não sei por
que não mandou botar abaixo também a capela... O Sr. de
Parnaíba desvendou os mistérios da cripta dos padres de
Loyola, rasgando uma porta no andar da torre dessa capela.
À esquerda de quem entra, vêem-se distintamente seis covas
sepulcrais, seis catacumbas, superpostas, em duas ordens,
de três cada uma, praticadas na grossura enorme da parede.
Entraram já cadáveres os que ali jazem, ou foram
emparedados vivos, segundo a lei terrível do código
secreto da Companhia? Ao governo, ao bispo diocesano,
incumbe, corre o dever de mandar abrir aqueles jazigos,
onde talvez se encontrem documentos importantes para a
história da província.
O Chá, lembra-se bem, era mato quando eu estive com
meu pai em São Paulo, pela primeira ver hoje é um bairro
populoso, constituído por um vasto enxadrezamento de ruas
direitas e largas, arejadas e mordidas de luz.
Há na cidade vários calçamentos a paralelepípedos. O
antigo, famoso largo de São Francisco está que é um
brinco.
A academia foi reformada.
Talvez eu não tenha razão; mas o caso é que eu a
preferia exteriormente como ela era outrora. Tinha pelo
menos o mérito de representar o gosto arquitetônico dos
religiosos que dirigiram a colonização do Brasil. Hoje não
representa coisa nenhuma, tem uma aparência limpa, mas
desgraciosa e até caturra.
No alastrar da cidade, bairros unem-se, vão
desaparecendo as soluções de continuidade predial: a Luz
já pega com o Brás pela rua de São Caetano.
O comércio tem-se desenvolvido de modo assombroso, e
a indústria segue-o de perto.
Há em São Paulo fábricas de móveis, de chapéus, de
chitas, de bordados, de luvas, que rivalizam com as do
Rio, e que estabelecem concorrência séria aos produtos
europeus.
Nas ruas de São Bento e da imperatriz é enorme o
acervo de lojas, e de armazéns, de casas bancárias, de
estabelecimentos de todo o gênero.
As vitrines das casas de jóias entram em compita de
riqueza e gosto: aqui a relojoaria suíça, delicada,
elegantíssima, ostenta os seus primores, os seus
inexcedíveis "Patek Philippe", a par dos artefatos sólidos
da relojoaria americana, dos "Waltham" feitos a máquina,
grossos, esparramados, angulosos, profusa e
desgraciosissimamente ornamentados. Ali a prata do Porto,
aereamente, maravilhosamente filigranada, casa sua alvura
mate aos reflexos fúlvos da ourivesaria francesa, às
cintilações mágicas dos brilhantes puríssimos do Brasil,
dos diamantes coloridos do Cabo, dos rubis, das safiras,
dos topázios, das ametistas, das opalas irisadas. A luz
brinca nos lavores dos metais e nas facetas das pedrarias
em um tal deboche de magnificência, que faz lembrar os
contos de fadas, a caverna de Aladim.
Entrei ontem em uma casa de modas, a Mascote.
Atraíram-me a atenção bronzes de Barbedienne,
expostos em uma vitrine interior.
Alguns eram reproduções dos que eu possuo, o
hoplitodromo conhecido por gladiador Borghése, a Vênus de
Milo, a Vênus de Salona: outros eu ainda não conhecia, o
menino da cesta, por Barrias; a bacante do cacho, por
Clodion.
Que bronze adorável este; que verdade nos
panejamentos! Que morbidez suave de postura.! No rosto o
metal parece ter o emaciamento, a transparência fosca da
pele viva. Os olhos como se cerram em um êxtase de
volúpia...
Encomenda de Júlio Ribeiro, um gramático que se pode
parecer com tudo menos um gramático: não usa simonte, nem
lenço de Alcobaça, nem pince-nez, nem sequer cartola.
Gosta de porcelanas, de marfins, de bronzes artísticos, de
moedas antigas. Tem, ao que me dizem, uma qualidade
adorável, um verdadeiro título de benemerência - nunca
fala, nunca disserta sobre coisas de gramático.
Veio receber-me um dos proprietários da loja, rapaz
afável, parisiense nos modos, flor na botoeira do paletó,
sorriso engatilhado.
Fiz alguns pedidos: tomou nota deles, para mandar-nos
a casa, o outro sócio, irmão creio, do primeiro; moço grave,
sério, de fisionomia leal, sempre ao bureau, sempre a
escrever, tipo acabado do português antigo, trabalhador,
honesto, pontual, pé de boi.

Em frente - a Casa Garraux, vasta Babel, livraria em
nome, mas verdadeiramente bazar de luxo, onde se encontra
tudo, desde o livro raro até a pasta de aço feita,
passando pelo Cliquot legítimo e pelos cofres a prova de
fogo.
Lá fui ver a exposição permanente.
Mal tinha eu entrado, entrou também um grupo de
homens, três ou quatro, se bem me lembra.

Era um sujeito corpulento, coroado, limpo, no
descambar da idade viril, ou melhor, no verdor da velhice.
O bigode farto, betado aqui e ali por um fio de prata, e
as longas costeletas acentuavam-se com nitidez no rosto
fresco, caprichosamente escanhoado. O cabelo dividia-se em
pastinhas despretensiosas no alto da testa vasta,
ligeiramente redonda. Colarinho de pontas quebradas,
gravata branca de nó, colete fechado até o nó da gravata,
fraque, flor enorme na lapela, calças de casimira preta
com listinha de seda branca, chapéu preto, alto, mole,
sapatos Clark, pince-nez.
Belo homem, Ramalho Ortigão, já adivinhou.
Um dos que o acompanhavam era um rapaz alto, cheio de
corpo, alvo de cabelos castanho-claros, quase louros,
ondeados, de bigode crespo, de lábio inferior coroado,
úmido; um causeur adorável, que o mestre disse-me ter
encontrado uma vez em Campinas, e a quem eu fui
apresentada um dia destes, em uma festa de anos, Gaspar da
Silva.

Ramalho entrou em conversas com um dos sócios da Casa
Garraux: eu, fingindo que examinava um livro, prestei-lhe
toda atenção. Apanhei, dissequei, analisei cada uma de sua
palavras.
Voz agradável, bem timbrada; pronúncia distinta,
corretíssima; sotaque alfacinha puro, estranho, muito
estranho a ouvidos paulistas.

Ramalho Ortigão é incontestavelmente um homem de
combate, um grande escritor. Eu, porém, não gosto dele.
Acho-o trabalhado, limado, castigado demais; acho qu'il
pose toujours. Não escreve como Garrett, vazando a alma no
papel: calcula o efeito de cada palavra, de cada frase,
como um jogador de xadrez calcula o alcance do movimento
de cada peça. Nos seus escritos há notas, há quantidades
constantes, que reaparecem fatalmente. Encontra-se sempre
uma admiração exagerada por tudo quanto é vigor muscular,
por tudo quanto é manifestação de força humana física. O
estadulho, a bengala grossa são fato imprescindíveis das
suas teorias de moralização social. Afeta pelo asseio,
pelo cuidado do corpo um culto que chega a se tomar
impertinente. Não perde ensejo de contar que se banhou,
que se barbeou, que mudou a roupa branca. Tanto repete,
tanto insiste, que até parece ter um secreto receio de que
o não acreditem. Escreve ele um livro novo: os seus
leitores habituais já lhe conhecem, já lhe esperam as
ficelles. Há de falar por força nas malas, nos apeiros de
toilette, nos desinfetantes, na abundância de cuecas e
peúgas. Tem frases feitas, uma por exemplo - todos os seus
estandartes, todas as suas bandeiras, todas as suas
flâmulas, todos os seus galhardetes, estão sempre a
palpitar gloriosamente, estão sempre a bater em
palpitações gloriosas.
Os livros de Ramalho Ortigão são excelentes, não há
negá-lo, quer pelo fundo, quer pela forma. Bom senso e
correção de linguagem até ali: ensinam a pensar, e ensinam
Português.
O que eu não creio é que eles sejam um espelho, uma
câmara escura para se estudar a individualidade do autor.
Entendo que não se pode ficar conhecendo a Ramalho
Ortigão nem no Em Paris, nem nas Farpas, nem na sua parte
de Mistério da Estrada de Cintra, nem nas Caldas e Praias,
nem nas Impressões de Viagem, nem na Holanda, nem no John
Bull: melhor do que em isso, fotografa-se ele nos seus
depoimentos sobre a questão Vieira de Castro.
Seja como for, ontem foi para mim um grande dia:
conheci um grande homem.

Agora, nós: o que mais de perto nos toca...

Seguiam-se algumas linhas criptográficas, em uma
cifra que Barbosa e Lenita tinham combinado, desde os
primeiros tempos de convivência.

Estou grávida de três meses mais ou menos.
Preciso de um pai oficial para nosso filho: ora pater
est is quem instae nuptiae demonstrant.
Se tu fosses livre, fazíamos justas na igreja as
nossas nuptias naturais, e tudo estava pronto. Mas tu és
casado, e a lei de divórcio, aqui no Brasil não permite
novo enlace: tive de procurar outro.
"Tive de procurar" é um modo de dizer: o outro
deparou-se-me, ofereceu-se-me; eu me limitei a aceitá-lo e
ainda impus-lhe condições.
É o Dr. Mendes Maia.
Ao chegar aqui, escrevi-lhe para a corte; ele veio
imediatamente, tivemos trina conferência larga, eu fui
franca, contei-lhe tudo e... e... e nós nos casamos
amanhã, às 5 horas da madrugada.. Pelo trem do Norte, que
parte às 6, seguimos para a corte, e da corte para a
Europa no primeiro vapor.
Sei que te hás de lembrar sempre de mim, como eu
sempre hei de lembrar de ti: calembour à parte, o que
entre nós passou não se ouvida.
Não me guardes rancor. Fomos um para o outro o que
podíamos ter sido; nada mais, nada menos.

A criança, se for menino, chamar-se-á Manuel; se for
menina, Manuela.

A carta ainda continuava.
Barbosa, lívido, com as feições horrivelmente
contraídas, rasgou-a em dois movimentos, atirou-a em um
lamaçal, onde, com gáudio infinito, chafurdavam alguns
porcos.
- Rameira! Prostituta vil ! exclamou ele.
- Sabe você que mais? perguntou-lhe o coronel, que se
aproximava. A Lenita casa-se! Escreveu-me, participando.
- A mim também escreveu ela.
- Sim? E ela a dizer que se não queria casar... Fiem-
se lá em mulheres! Aquela partida repentina não teve outra
causa.
- Não teve, não, volveu Barbosa.
A tarde levou-a ele toda a pensar, a malucar só
consigo.
À noite não fez injeção de morfina, passou em claro,
nem sequer se deitou.
No dia seguinte, cedo, saiu, deu uma volta pelo
pomar, foi à mata, chegou à cova, demorou-se a contemplar
os destroços do reparo, as do milho que tinham nascido e
morrido estioladas pela sombra, sem produzir. Viu ainda
por entre as folhas secas algumas vértebras, algumas
espinhas da cascavel.
Voltou, passou pela fruiteira, em cuja copa uma
araponga serrava estridulosa.
Viu no chão uma pena de jacu, desbotada pela umidade,
suja de barro.
Ergueu-se, contemplou-a muito tempo, deixou-a cair.
Voltou para casa, não quis almoçar, pediu um banho.
Despiu-se, entrou na banheira, deitou-se, revolveu-se
com delícia, na água tépida, aromatizada com vinagre de
Lubin.
Após muito tempo saiu, enxugou-se com esmero, calçou
ceroulas de linho, passadas a ferro, cheirosas, frescas,
muito macias.
Chamou dois pretos, mandou esvaziar, retirar a
banheira.
Foi à mesa, tomou uma garrafa de vinho húngaro, doce,
perfumoso, Rusti-Aszú; abriu-a, encheu um cálice, examinou
de encontro à luz a transparência cor de topázio queimado
do precioso líquido, cheirou-o, hauriu-lhe o bouquet,
bebeu-o como fino entendedor, aos golinhos, dando estalos
com a língua.
Puxou uma gaveta, e dela tirou uma caixinha oblonga
de charão: abriu-a. Havia dentro uma seringuinha de vidro,
uma cápsula de porcelana, um escarificador de dez lâminas
e um pequeno pote, esquisito, bojudo, de barro preto,
arrolhado cuidadosamente com um batoque de madeira. Uma
etiqueta em letras vermelhas sobre fundo amarelo
denunciava-lhe o conteúdo.
Barbosa dispôs tudo isso sobre o mármore do criado.
Tomou o escarificador, fê-lo funcionar. Nove das
lâminas tinham sido quebradas de adrede: uma só estava
intacta, e essa cortava como uma navalha.
Barbosa largou o escarificador, pegou no potinho, fez
cair dele, na cápsula, uns grãos irregulares, escuros, com
quebraduras lustrosas.
Era curare.
De sobre a mesa tirou um moringue, deitou na cápsula
cerca de duas colheres de água, e, com o bico da seringa,
foi agitando, fazendo com que se dissolvesse o terrível
veneno.
Quando inspissou-se a solução, assumindo a cor
carregada de café forte, Barbosa encheu com ela a seringa.
Tomou de novo o escarificador, engatilhou-o, aplicou-
o sobre a face interna do antebraço esquerdo, premiu o
botão.
Ouviu-se um estalo abafado.
Barbosa retirou o escarificador.
Um pequeno traço, fino como um cabelo, desenhava-se-
lhe negro na alvura da cútis.
Uma gotazinha de sangue ressumou, marejou, redonda,
rubro, brilhante, como um rubim.
Barbosa largou o escarificador e, a sorrir, sem
empalidecer pegou, segurou a seringa entre o índice e o
médio da mão direita, introduziu-lhe o bico afilado na
cesura, meteu o polegar no anel da haste, calcou firme,
empurrou com força o pistão. O excesso do líquido injetado
espandanou, desenhando-lhe na brancura da pele um como
aracnide sinistro.
Barbosa lançou no ourinol o resto do conteúdo da
cápsula, meteu-a com o potinho, com o escarificador, com a
seringa na caixa de charão, escreveu em um bilhete de
visita - Cuidado, que
isto é veneno - pôs também o bilhete dentro, fechou a
caixa, guardou-a na gaveta, foi ao lavatório, molhou uma
toalha, limpou o braço, voltou para a cama, deitou-se de
costas, ao comprido.
Passaram-se dois minutos.
Barbosa nada sentia, absolutamente nada.
Quis ver a cesura, tentou chegar o braço à altura dos
olhos. Não pôde. O membro paralisado recusava-se à ordem
do cérebro.
Tentou o mesmo com o braço direito, quis mover as
pernas: igual impossibilidade.
Tentou sacudir a cabeça, fechar e abrir os olhos:
sacudiu a cabeça, fechou e abriu os olhos.
Passaram-se mais alguns minutos.
Tentou de novo sacudir a cabeça, fechar e abrir os
olhos. Impossível. A paralisia era já quase completa,
quase total.
E não sofria dor, constrangimento de espécie alguma.
No terreiro abaixo, ao pé do engenho, os pretos
estavam a malhar um resto de fegão que ficara de julho.
Cantavam. A toada distante chegava a Barbosa, amortecida,
em quebros suaves, como os das vozes angélicas de um
harmônium. Do teto pendia uma jardineira de vidro com um
epidendron fragans: Barbosa hauria com delícias os
eflúvios embriagantes das flores da orquídea.
Na boca tinha ainda o ressaíbo suave, quente do vinho
húngaro generoso.
A um canto do forro, aranhas domésticas fabricavam as
teias: Barbosa distinguia-lhes bem os movimentos hábeis
das pernas longas, esguias, nodosas, verdadeiros dedos de
tísico.
Veio uma mosca, e pousou-lhe na face: com uma
hiperestesia que chegava a ser um padecimento, ele sentia
o prurido das patas do inseto. Quis enrugar a pele do
rosto para afugentá-lo, não pôde.
E a percepção de tudo era clara, a inteligência
perfeita.
Lembravam-lhe, acudiam-lhe de tropel à memória as
metamorfoses mitológicas de homens, de mulheres em
árvores, em rochedos.
O sonho extravagante da imaginação doentia dos poetas
helenos era traduzido em realidade palpitante, era
excedido no domínio dos fatos pela ação misteriosa do
veneno americano.
- Oh pensava Barbosa, não poder eu ditar a alguém o
que em mim se está passando, descrever o gosto desta morte
gradual, em que a vida esvai-se como um líquido que se
escoa. Que sou eu neste momento? Uma inteligência que
sente e quer, presa em um invólucro morto, cativa em um
bloco inerte... O espírito, o conjunto das funções do
cérebro, está vivo, dá ordens; o corpo está morto, não
obedece. Tenho um pé na existência e outro no não-ser.
Alguns minutos mais, e tudo estará acabado, sem
sofrimento, sem dor... Já entrevejo o nirvana búdico, o
repouso do aniquilamento...
- Manduca! Manduca!
Era a voz do pai que o chamava.
Barbosa ficou triste: queria responder e não podia.
- Teresa!
- Sinhô!
- Onde está Manduca? Você não o viu?
- Vi, meu sinhô. Ele está aí no quarto dele. Estava
se banhando. Ainda há pouco Pedro e José saíram com a
banheira.
- Que diabo, não responde... Só se está dormindo.
E o coronel dirigiu- se ao quarto, entrou.
Ao dar com o filho nu da cintura para cima, estendido
de costas na cama, pálido, imóvel, olhos abertos, fixos, o
coronel deu um salto.
- Manduca! Que é isso Manduca?!
E agarrando, abraçando o filho, sacudia-o nervosamente.
O corpo de Barbosa, flácido, quente, cedia aos

esforços do pai, como um cadáver antes da rigidez.
E o cérebro, ativo, lúcido, em exercício pleno de
funções, vivia, compreendia, sentia, tinha vontade, queria
falar, queria responder ao pai; mas já não tinha orgão,
estava isolado do mundo.
- Meu filho morreu! Meu filho morreu! bradou o
coronel, e saiu desatinado, correndo com as mãos na
cabeça.
A esses gritos deu-se um como milagre.
A velha entrevada firmou as mãos nas guardas da
chaise-longue, fez um esforço supremo, ergueu-se, caiu de
joelhos e começou a engatinhar para o quarto do filho,
movendo as juntas quase anquilosadas de um modo que seria
ridículo, se não fosse horroroso.
Em camisa, em uma seminudez indecente, escorregando
pelo assoalho, às sacadas, aos solavancos, como um inseto
mutilado, foi, chegou onde estava o filho, abeirou-se-lhe
da cama, levantou-se; agarrou-se no colchão, guindou-se
com dificuldade dolorosa, abraçou o corpo por sua vez,
colocou-lhe nos lábios os seus lábios de velha, moles,
franzidos, frios.
Aos beijos da mãe, beijos que não podia retribuir,
Barbosa sentiu-se tomado de um sentimento estranho de uma
ternura filial que nunca dantes conhecera.
Mãe! Pai!
Por que se não devotara com todas as suas poderosas
faculdades a minorar os sofrimentos daquele casal de
velhos, a suavizar-lhes as misérias da senectude?!
Descrente de amigos, descrente de amantes, descrente
da esposa, ateu, farto do mundo, enjoado até de si, fora
pedir aos gelos da ciência exclusivista a morte, a
extinção dos últimos afetos.
Tomara-se egoísta, tomara-se cruel.
E tinha ainda o que lhe prendesse ao mundo: tinha
pai, tinha mãe, tinha a quem se devotar, tinha para quem
viver!
Que vingança cruel a da natureza!
Entregara-o de mãos atadas aos caprichos de uma
mulher histérica que se lhe oferecera, que se lhe dera,
como se teria oferecido, como se teria dado a qualquer
outro, a um negro, a um escravo de roça, não por amor
psíquico, mas para satisfazer a carne faminta...
Repleta, farta, essa mulher o abandonara.
Nas cinzas quase frias das suas crenças mortas
ateara-se o lume do amor, o fogo da fé brilhara um
momento, mas prestes se extinguira, e a escuridão voltara
mais tétrica.
Lenita fora procurar e achara um homem vil que lhe
vendia o nome para coberta do erro, que a aceitava por
esposa, desonrada, grávida...
Grávida... Ela estava grávida, ele ia ser pai...
E ela fugia dele, levava-lhe o filho e ainda o
ludibriava, descrevia-lhe em cínica missiva as suas
observações de viajante, as suas impressões de artista!
Fazia ainda mais, dava-lhe parte do seu enlace com o
minotauro prévio e consciente, informava-o de que o seu
filho, o filho dele, Barbosa, tinha de dar o nome augusto
de pai a um homem sem brios, a um chatim refece de honra.
E ele morria, por amor dessa mulher, morria porque
ela lhe quebrantara o caráter, morria porque ela o
prendera nos liames da carne, morria porque sem ela a vida
se lhe tomara impossível... Covarde!
O remorso personificado na figura lastimosa e quase
hedionda de sua desgraçada mãe ali estava sobre ele,
abraçando-o, devorando-o, bebendo-lhe os últimos alentos.
Oh ! ele queria viver!
E não era impossível.
Se houvesse quem entendesse de fisiologia, quem
estabelecesse a respiração artificial, até que fosse
completamente eliminado o veneno, arredar-se-ia a morte, a
vida voltaria.
Mudassem as circunstâncias, outrem fosse o paciente,
e Barbosa salvava-o.
Mas por si, para si, nada podia fazer: enclausurado
no corpo, como o lepidóptero na crisálida, estava
impotente, estava aniquilado: nem sequer lhe era concedido
o consolo triste de pedir, de implorar o perdão da pobre
mãe, da mísera entrevada, a quem a angústia curara em um
momento.
A placidez da morte sem dor, da morte pela paralisia
dos nervos motores, converteu-se em um suplício atroz,
pavoroso, para cuja descrição não tem palavras a linguagem
humana.
Morto e vivo!
Tudo morrera: só vivia o cérebro, só vivia a
consciência e vivia para a tortura...
Por que não ter despedaçado o crânio com uma bala?
A paralisia invadiu os últimos redutos do organismo,
o coração, os pulmões, sístole e diástole cessaram, a
hematose deixou de se fazer. Um como véu abafou, escureceu
a inteligência de Barbosa, e ele caiu de vez no sono
profundo de que ninguém acorda.


F I M


Fonte: RIBEIRO, Júlio. A Carne. São Paulo: Martin Claret,
1999. (A Obra Prima de Cada Autor)

Texto proveniente de:
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro
<http://www.bibvirt/futuro.usp.br>
A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo
Permitido o uso apenas para fins educacionais.

Texto-base digitalizado por:
Neurício Ricardo de Azevedo, Goiânia, GO.
CapítuloI
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI
Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII
Capítulo XIV
Capítulo XV
Capítulo XVI
Capítulo XVII
Capítulo XVIII