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A Carne
Júlio Ribeiro

 

Capítulo XII

O feitor preto viera dizer a Lenita que uma fruiteira
na mata em frente estava ajuntando muito pássaro.
A moça mandou que abrisse uma picada desde o
carreadouro até à fruiteira, fez limpar a sua
espingardinha Galand, carregou duzentos cartuchos e, no
dia seguinte, de madrugada, seguida por sua mucama, foi
pôr-se à espera.
Não tinha caído muito orvalho, e grande era a
cerração.
O caminho coberto por uma camada veludosa de areia
fina, amarelenta, embebia-se pela neblina espessa que
afogava a terra. A selva formava um maciço negro,
compacto. Uma ou outra árvore isolada no pasto
transparecia por entre o nevoeiro, como um espectro
gigantesco.
Sentia-se um frio seco, picante, sadio. De repente
Lenita percebeu o que quer que era , retouçando na areia
levemente úmida do carninho, a vinte metros de distância.
Sustou o passo, levou a arma à cara e, rápida, quase
sem pontada, desfechou.
- Que foi que atirou, D, Lenita? perguntou a mulata.
- Vá ver, que lá está ainda bulindo, volveu a moça, e
fazendo gangorrear o cano da arma, meteu-lhe novo
cartucho.
Com efeito, um animal qualquer estrebuchava convulso,
raspava a areia, atirava-a longe.
A rapariga aproximou-se cheia de receio, retraindo o
corpo, estendendo o pescoço.
- E candimba! gritou jubilosa, e, baixando-se,
apanhou uma soberba lebre que, ferida na cabeça, ainda não
acabara de morrer.
Lenita tomou da rapariga a macia alimária, examinou-a
com volúpia orgulhosa de caçadora apaixonada e triunfante,
afagou-lhe o pêlo sedoso, passou-o de encontro ao rosto;
depois meteu-a em uma bolsa de malhas, entregou-a com
cuidado à mulata.
Ia clareando o dia; rareava o véu de neblina. O
negror indeciso da mata transmutava-se em verdura.
Distinguiam-se as moitas festivas das taquaras, os
penachos luzidios dos palmitos, as copas opulentas das
paineiras, revestidas literalmente de um tapete cor-de-
rosa, pela infloração precoce.
Perfumes agudos de orquídeas fragrantes, refrescados
pelas brisas matutinas, deliciavam o olfato, sem irritar e
sem atormentar os nervos.
Ouvia-se o gorjear dos pássaros, o zumbir dos insetos
que, em hino festivo, saudavam o despontar do dia.
Lenita e a mucama penetraram na mata: aí tudo era
escuro, tudo era treva. O diminuto orvalho, caído durante
a noite, se condensara nas folhas, e pingava, batendo
docemente, surdamente, na camada de folhas secas que
juncava o solo.
Os pulmões hauriam à larga o oxigênio puro, expirado
da vegetação ambiente.
As duas companheiras caminharam pelo largo
carreadouro, até que chegaram a uma peroveira alta, de
junto a qual partia a picada, entranhando-se pelo mato, à
esquerda. Por aí enveredaram, seguiram, até que pararam
junto de uma caneleira esguia, em frutificação temporã.
Dominava o silêncio, quebrado apenas pelo gotejar
manso e raro da orvalhada tênue.
Lenita mandou que a mucama se afastasse um pouco, que
se sentasse, que se escondesse junto de outra árvore
qualquer. Olhou para cima.
A folhagem da caneleira recortava-se indecisa no céu
obscuro: de súbito acentuou-se, amarelou em partes, como
se a tivesse borrifado um jato de ouro líquido; beijara-a
o primeiro raio de sol do dia nascente.
Por cima já luz, vida; por baixo ainda escuridade,
mistério.
Uma sombra escura cortou veloz o espaço: era um
jacuguaçu. Pousou, balançando-se, em um dos galhos baixos.
Ao assentar colheu vagaroso as asas que trazia pandas,
librou-se ainda nelas, fechou o leque formosíssimo da
longa cauda, estendeu o pescoço, cauteloso à direita e à
esquerda.
Após momentos de observação, trepou pelo galho,
marinhou aos pulos por entre a folhagem, sumiu-se, surgiu
no pino da copa, mostrando, banhada de sol, a sua barbela
rubra.
Lenita, pálida de emoção, com o seio a arfar, com os
nervos frouxos, sentindo dobrarem-se-lhes as pernas,
olhava, contemplava extática a ave elegantíssima.
Fazendo um esforço de vontade, aperrou a arma,
ergueu-a lentamente, molemente, pô-la em mira.

Não desfechou, não teve ânimo: retirou-a da cara, e
pôs-se de novo a contemplar o alector.
De repente seus olhos brilharam em um como relâmpago
negro, contraíram-se-lhe as feições, seus dentes brancos
morderam o lábio rubro, e, fria, resoluta, ela encarou
pela segunda vez a espingarda, fez pontaria, puxou o
gatilho, o tiro partiu.
O jacu, fulminado, revirou, despencou, veio bater no
chão com um som baço, abafado.
Saltando como um felino, Lenita empolgou-o trêmula de
felicidade e prazer; ergueu-o à altura do rosto, soprou-
lhe as penas salmilhadas do peito, queria ver-lhe os
ferimentos. Com volúpia indizível sentia umedecerem-se-lhe
os dedos no sangue tépido que escorria.
A arma ainda estava descarregada, quando ouviu-se um
vôo forte, sacudido, estalado.
Lenita levantou o olhar.
No mesmo galho, de onde derrubara o jacu, uma pomba
legítima fazia brilhar ao sol em reflexos furta-cores o
seu colo gracioso.
Lenita abriu ligeiro a espingarda, carregou-a, levou-
a à cara, fez fogo, e a nova vítima caiu ferida,
pererecando em desespero, nas vascas da agonia.
A mucama, com os olhos brilhantes, com as feições
expandidas pelo entusiasmo, acudiu a meter na bolsa os
pássaros mortos.
- Uma pomba e um jacu, D. Lenita! exclamou cheia de
júbilo.
- Silêncio!
No galho fatal um tucano acabava de pousar: virava e
revirava, para um e para outro lado, o seu grande bico
esponjoso. Era uma maravilha o efeito de suas penas
dorsais a contrastarem negras com o alaranjado soberbo da
gorja, com o vermelho-vivo do peito: ao vê-lo ostentando
ao sol ardente do trópico os esplendores dos seus matizes,
dir-se-ia um ente fantástico, uma flor animada, viva, que
viera voando de uma região desconhecida, que se fixara
naquela árvore.
Um tiro certeiro de Lenit fê-lo tombar, e depois a
outro, mais outro e a araçaris, e a pavôs, e a aves de
bico redondo - uma carnificina, uma devastação.
Eram quase dez horas: o sol ia em alto, derramando
torrentes de luz, enlanguescendo, a beijos de fogo, as
folhas largas do caetê, as folhas cordiformes da
periparoba. No céu muito azul esgarçavam-se nuvens muito
brancas, e nesse festival de cores alegres punha uma nota
negra um corvo solitário, perdido na amplidão.
Fazia calor.
- São horas, já passa até de horas de almoçar, disse
Lenita. Vamo-nos embora, amanhã voltaremos.
- Que caçadão, D. Lenita. Dezenove pássaros grandes e
uma lebre. Não perdeu um tiro.
- Eu nunca perco tiro, respondeu a moça com
fatuidade.
- Então é como eu, disse urna voz por trás de ambas,
também não perco tiro.
Era Barbosa.
A espingarda caiu das mãos de Lenita: com o coração
relaxado, incapaz de injetar sangue nas artérias,
descorada, quase sem ver, ela teve de encostar-se ao
tronco liso da caneleira, para não tombar desamparada.
- Que é isto, minha senhora; que é isto, Lenita?
acudiu Barbosa, segurando-a solícito.
- Tive um tal susto... murmurou a moça mal recobrada.
- Perdoe-me, fui imprudente. O desejo que tinha de
vê-la, o prazer de causar-lhe uma surpresa.., perdoe-me,
sim?
E tomou-lhe as mãos frias que apertou nas suas.
- Perdoar-lhe ? Se eu lhe agradeço tanto o ter-me
antecipado um pouco o gosto de vê-lo. Como pôde chegar a
esta hora da tarde?
- É que vim a cavalo, para ganhar algumas horas.
Caminhei a noite toda. Quando cheguei a Jundiaí, ontem, já
não alcancei o trem. Tinha de estar lá, à espera, até
agora: não tive paciência.
- Não escreveu, não deu parte de que vinha...
- Eu não esperava terminar os negócios anteontem,
como terminei. Os homens estavam teimosos, tinham-se
encastelado na sua proposta. De repente, quando eu menos
esperava, mudaram de acordo, cederam, aceitaram as minhas
condições, e ficou tudo acabado.
- Satisfatoriamente?
- O mais satisfatoriamente que era possível esperar.
- Meus parabéns sinceros.
- Obrigado. Mas que mortandade, que São Bartolomeu!
Arrasou a passarada. Cáspite! Araçaris, tucanos, pombas,
sabiacis, um jacu e um serelepe... não, não é serelepe, um
candimba, uma lebre, e grande! Sim senhora! É uma Diana.
E com ares de amador entusiasta examinava as peças de
caça.
- Diga-me, perguntou-lhe a moça, como se chamam estes
pássaros verdes, de bico redondo?
- Chamam-se sabiacis.
- No Brasil os psitacídios serão representados
somente por arás e papagaios?
- Em São Paulo, pelo menos, são.
- Quantas espécies temos de papagaios ?
- Ao certo, que eu saiba, seis: tuins, periquitos,
cuiús, sabiacis, que são estes, baitacas e papagaios
propriamente ditos.
- E de arás?
- Quatro: tirivas, araguaris, maracanãs e araras.
- Ao todo, dez?
- Que eu conheço; no sertão pode haver mais.
- Lá ia eu com a minha marotte científica! Basta,
basta de ornitologia. Deve ter chegado cansadíssimo e
morto de fome.
- Cansado, não; com algum apetite, sim.
- Pois vamos, vamos almoçar.
- Confesso que almoçarei com prazer.
E seguiram. Era imensa a alegria de Lenita, a
gratidão mesmo em que se achava para com Barbosa por tê-la
vindo surpreender na mata, por não tê-la esperado em casa.
Sentia-se lisonjeada em seu orgulho de mulher. E mais,
Barbosa esquecera ou fingira esquecer os justos, mas
injustificáveis arrufos da véspera da partida. Amava e
adquirira a convicção de que era correspondida.
No percurso da picada que mundo, que infinidade de
pequenos gozos! Aqui um tronco podre, deitado, a transpor;
ali, um ramo espinhoso a evitar; uma ladeira íngreme,
escorregadia a subir. Barbosa, nessas dificuldades,
ajudava-a, tomava-lhe a espingarda, dava-lhe a mão. Ela
deixava-o fazer, aceitava-lhe o auxilio, não porque se
sentisse fraca, porque precisasse; mas para dar-lhe a ele
o papel de forte, de protetor. Achava uma delícia inefável
em ser mulher para que Barbosa fosse homem. A voz máscula,
doce, de Barbosa acariciava-lhe o ouvido, acalentava-lhe o
cérebro, envolvia-a em uma como atmosfera de harmonia e
amor.
Insensivelmente, sem darem fé da distância chegaram à
casa. Esperava-os na porta o coronel.
- Com que então não foi difícil encontrar a Lenita,
gritou ele.
E atentando na caça: Deixa ver isso, rapariga! Ih!
que razoural No mato não ficou pássaro! Esta menina! Olhe,
você devia ter nascido homem... e quem sabe se você não é
mesmo homem?
Lenita corou até às orelhas.
O coronel não se deu por achado da inconveniência.
- Vamos, vamos almoçar, que Manduca deve estar a
tinir: fez a loucura de caminhar a cavalo a noite toda.
Vamos!
O almoço correu bem, mas terminou desagradavelmente.
Quando estavam tomando café com leite, terminação
obrigatória do almoço rural paulista, entrou na sala uma
preta velha, assustada.
- Acuda, sinhô! disse, Maria. Bugra está morrendo!
- Onde está ela? Que é que tem? perguntou surpreso o
coronel.
- O que ela tem eu não sei. Está aí na sala de fora,
eu a mandei trazer para aí.
O coronel levantou-se, saiu a ver, aflito, trôpego.
Barbosa e Lenita seguiram-no.
Na sala de entrada, sobre urna marquesa forrada de
couro, encostando-se a um travesseiro de marroquim que
fora encarnado, estava uma preta fula ainda moça.
Estertorava com a face tumefata, com os tendões do
pescoço retesados; os olhos protraíam-se das órbitas; as
pupilas enormemente dilatadas tinham feito desaparecer os
limbos do íris. Das comissuras dos lábios contraídos e
deformados escorriam fios de baba, viscosos, resistentes,
translúcidos.
O coronel abeirou-se da enferma, tomou-lhe o pulso.
- Veja isto, Manduca, que pensa você?
Barbosa aproximou-se por sua vez, procurou sentir o
calor da preta na pele do rosto, encostando-lhe o dorso da
mão, achou-a fria; tateou-lhe o pulso, encontrou-o débil,
espaçadíssimo; beliscou-a, ela não pareceu dar acordo
disso.
- Como principiou esta moléstia? perguntou ele à
preta que tinha ido dar parte.
Eh! sinhô moço! Maria estava no paiol, debulhando
milho, muito sossegada. De repente entrou a queixar de
ansiedade, levantou, andou vira-virando, entrou a gritar,
a falar as coisas à toa. Batia com a cabeça, escumava,
queria morder gente, parecia mesmo que estava louca.
Depois perdeu o sentido, caiu, ficou assim como está. Eu
mandei trazer para aqui, fui chamar sinhô.
- Sim ! Faz muito tempo?
- Não, sinhô moço, foi agora mesmo.
- Comeu ela ou bebeu alguma coisa?
- Ela almoçou, há de fazer duas horas.
- Não bebeu nada?
- Bebeu café, uma meia tigela.
- Donde veio o café?
- Veio da senzala de pai Joaquim.
- Joaquim Cambinda?
- Sim, sinhô moço.
Barbosa foi ao seu quarto e, após breve demora,
voltou com um frasquinho a meio de um líquido claro como
água. Pediu uma colher; trouxeram-lha. Chamou e enferma,
junto do ouvido:
- Maria!
A negra não respondeu.
- Maria! repetiu ele em voz mais alta.
A preta tentou sair do estado soporoso em que se
achava, procurou levantar a cabeça, não conseguiu; deixou-
a recair pesadamente no travesseiro, proferindo uns sons
inconexos, semi-inarticulados. De sob as suas roupas
exalava-se um cheiro fétido de matérias fecais.
Barbosa, vendo que nada poderia obter, que a vontade
estava ali aniquilada, passou o frasquinho ao coronel.
- Vou abri-lhe a boca com a colher; vossa mercê
despejará dentro o conteúdo deste vidro.
- Todo?
- Todo; é uma dose forte de emético; convém fazê-la
vomitar. Introduziu com algum custo o cabo da colher entre
as arcadas dentárias da doente, e, fazendo dele uma
alavanca, descerrou-lhe os queixos.
- Agora, meu pai !
O coronel vazou dentro da boca, entreaberta à força,
o líquido do vidrinho.
- Engula! gritou Barbosa.
A negra fez um esforço, deu um safanão violento, a
colher saltou longe, e o líquido, revessado, caiu sobre a
marquesa, correu para o soalho. A deglutição era
impossível.
- Não será bom mandar chamar o doutor Guimarães?
- Inútil, meu pai; nada há a fazer neste caso.
- Assim mesmo...
- O doutor Guimarães só poderia estar aqui à noite, e
dentro de uma hora a preta já terá morrido.
- Manduca, olhe...
- Sei o que isto é, meu pai; não há mesmo nada a
fazer.
O coronel voltou triste para a sala de jantar; Lenita
e Barbosa com ele.
Sentaram-se junto de uma uma janela abatidos: a
moléstia da preta lançara-os em um desânimo profundo, em
uma apreensão de vagas ameaça de perigos desconhecidos.
Entreolhavam-se, não ousando arriscar um dito, uma
palavra.
E todavia essa reserva pesava-lhes, era-lhes
incomportável o silêncio.
Quebrou-o Barbosa.
- Meu pai, a Maria Bugra morre, e sabe vossa mercê de
que morre ela?
- Tenho medo de o saber.
- Vejo que me compreendeu.
- Morre do que têm morrido vários escravos aqui na
fazenda, morre envenenada.
- É bem possível.
- Não é possível, é certo.
- Lembra-se da morte do Carlos, da do Chico Carreiro,
da do Antônio Mulato, da Maria Baiana?
- Perfeitamente!
- Não apresentaram eles os mesmos sintomas que
apresentou e está apresentando agora a Maria Bugra?
- Homem, com efeito! Apresentaram.
- Excitação violenta mas passageira, delírio, depois
paralisia quase completa, face túmida, conjuntivas
injetadas, olhos saltados, dilatação de pupilas,
deglutição impossível, queda de pulso, esfriamento geral,
incontinência de urina e de fezes?
- Exato.
- Pois tudo isso, estou convencido, é conseqüência da
ingestão de um veneno terrível, infelizmente muito comum
entre nós, a atropina.
- Muito comum entre nós, a atropina?!
- Sim senhor.
- Pois a atropina não se tira da beladona?
- Também se tira da beladona.
- E onde encontrar a beladona? No Brasil só pode
haver beladona em algum horto botânico.
- Meu pai não conhece aquilo que ali está? E Barbosa
apontou para um vasto trato de terreno, coberto de plantas
baixas, escuras, de folhas repicadas, de flores brancas,
em forma de trombeta.
- Conheço, respondeu o coronel, é figueira do
inferno, mamoninho bravo, um veneno terrível, dizem. Mas
você falou em atropina.
- Cientificamente a figueira do inferno chama-se
Dotura stramonium: extrai-se dela um alcalóide
venenosíssimo, a que se chama doturina: Ladenburg, porém,
e Schmidt verificaram nestes últimos tempos que a daturina
é pura e simplesmente a atropina, a mesma letal atropina
que se obtém da beladona.
- E a sua convicção é...
- Que Maria Bugra morre envenenada por uma decocção
fortíssima de sementes de datura, e, conseqüentemente, por
atropina.
E tem suspeita de quem tenha sido o propinador do
veneno?
Não tenho suspeita, tenho certeza.
- Quem pensa que foi?
- Joaquim Cambinda.
A esta acusação precisa, formal, convicta, o coronel
baixou a cabeça. Pensava Barbosa tinha razão. Perdera a
fazenda vários escravos mortos todos de uma moléstia
esquisita, que apresentava invariavelmente o mesmo cortejo
de sintomas. E isso começara depois de que viera Joaquim
Cambinda. Esse preto, tinha-o ele recebido com outros em
herança de uma tia, já velho, incapaz de trabalhar. Nunca
exigira dele serviço; dera-lhe até para morar, a pedido
seu, um paiol largado, independente, no fundo do terreiro.
Tempos havia, morrera na fazenda um feitor branco: a
viúva, lembrava-lhe bem, tinha feito um berreiro enorme,
infernal, dissera que o marido sucumbira a coisa feita,
acusara terminantemente a Joaquim Cambinda. Não dera ele,
coronel, importância à acusação, e essa acusação
ressurgia, feita agora por seu filho, homem inteligente,
ilustrado, muito sisudo.
- Em que se estriba você para inculpar o negro velho?
perguntou após minutos de meditação.
- Em muita coisa. Primeiro, os fatos, os envenenamentos
indiscutíveis, e que só começaram de dez anos a esta parte,
depois que Joaquim Cambinda veio para a fazenda: eu cá não
estava, mas por informações acho-me ao corrente de tudo.
Em segundo lugar a fama de mestre feiticeiro que tem ele
em todo o município: varias pessoas de critério têm-se
interrogado a esse respeito. Depois, surpreendi-o eu mesmo,
outro dia, a secar cabeças de cobra, raízes de cicuta e
de guiné, sementes de datura. E mais... ele tinha seus
agravos de Maria Bugra...E Barbosa acentuou estas palavras,
olhando para Lenita.
- É verdade, sei, até já tive de tomar providências
por causa disso. Mas são presunções apenas...
- Que, reunidas, fazem convicção.
- Precisamos de tirar isto a limpo.
- É o meu modo de entender: não podemos deixar correr
à revelia uma coisa de tanta gravidade.
Realizaram-se as previsões de Barbosa: o estado
soporoso de Maria Bugra passou para coma, e o coma para
morte.
À tarde, ao escurecer, depois da revista, o coronel
mandou chamar Joaquim Cambinda.
O medonho negro veio arrastando os pés, escorando-se
em um bordão, a rojar pelo solo a imunda coberta parda, de
que sempre usava.
Chegou, entrou na ante-sala, largou o bordão a um
canto. O cadáver de Maria Bugra aí estava, sobre a
marquesa, no meio da quadra, inteiriçado, coberto por um
lençol fino que lhe desenhava as formas duras, angulosas.
Quatro velas de cera alumiavam-no lugubremente, casando os
seus clarões aos últimos clarões do dia.
Por entre o cheiro acre de vinagre ferrado e o cheiro
enjoativo da alfazema queimada, percebia-se um cheiro
fétido, um fartum de carne podre, de decomposição
cadavérica.
Joaquim Cambinda entrou, olhou com indiferença para a
defunta, dirigiu-se ao coronel que, junto com Barbosa, aí
o esperava.
- Vá sãos cristo, sinhô. Sinhô mandou chamar negro
velho, negro velho está aqui, disse na sua algaravia
bárbara, horripilante, impossível de reproduzir.
- Sabe quem está ali morta, Joaquim?
- Sei, é Maria Bugra.
- De que morreu, não sabe?
- De suas moléstias dela.
- Que moléstias?
- Eu não sei, eu não sou doutor.
- Então você não sabe, não é doutor? Não sabe Também
de que morreu a Maria Baiana, o Antônio, o Carlos, o Chico
Carreiro?
- Como quer sinhô que eu saiba?
- Se você não confessar tudo o que tem feito, aqui,
direitinho mando-o acabar a bacalhau, sô feiticeiro do
diabo!
- Ah! Sinhô! Feiticeiro, negro velho, que não tarda a
ir dar contas a Deus do feijão que ele comeu!
- Deixe-se de histórias, de mamparras, vamos ! Com
que matou você a Maria Bugra?
- Não matei com coisa alguma, sinhô. Como hei de eu
confessar uma coisa que eu não fiz?
- Se fez ou se não fez é o que vamos já saber. Pedro,
João, venham cá, agarrem-me este patife.
À porta a negrada acotovelava-se curiosa estendendo
uns o pescoço por sobre os ombros dos outros.
Os dois pretos chamados abriram caminho, empurrando
os companheiros, entraram na ante-sala.
- Segurem-me este tratante, conduzam-no à casa do
tronco.
Eu já lá vou. Levem o bacalhau e uma salmoura forte.
- Que é que sinhô vai fazer comigo ? inquiriu rápido
Joaquim Cambinda.
- Você vai ver.
- Sinhô, Joaquim Cambinda nunca apanhou de
bacalhau...
- Vai apanhar agora; será então a primeira vez.
Operou-se uma revolução medonha em Joaquim Cambinda.
Atirou ele para longe de si a coberta esfarrapada,
endireitou o busto derreado, ergueu a cabeça, cerrou os
punhos e encarou o coronel. Cintilavam-lhe os olhos, os
beiços arregaçados deixavam ver os dentes.
- Ahl você quer saber, eu digo: fui eu mesmo que
matei Maria Bugra.
- E por que a matou você?
- Porque ela comia o meu dinheiro, e me enganava com
a crioulada nova.
- E os outros, o Carlos, a Maria Baiana, o Chico
Carreiro, Antônio Mulato?
- Fui eu mesmo que matei a todos.
- E por quê?
- Maria Baiana pelo mesmo motivo que me fez matar
Maria Bugra. Os outros para fazer mal a sinhô.
- Para me fazer mal? Por quê? Pois você não é o mesmo
que forro? Exijo eu algum serviço de você? Não lhe dou
moradia, roupa, comida? Por que me quer mal?
- Já que principiei a falar, irei até o fim. Sinhô é
bom para mim, é verdade, mas sinhô é branco, e obrigação
de preto é fazer mal a branco sempre que pode.
- Matar-me cinco escravos !
- Cinco ! Só crioulinhos mandei eu embora dezessete.
Negro grande, nem se fala: Manuel Pedreiro, Tomaz, Simeão,
Liberato, Gervásio, Chico Carapina, José Grande, José
Pequeno, Quitéria, Jacinta, Margarida, de que é que
morreram? Fui eu que matei todos.
Ergueu-se grande sussurro de entre o grupo de negros.
Ouviam-se gritos, imprecações.
- Agora também você está mentindo: José Pequeno
morreu picado de cobra.
- Qual cobra! A cobra que o picou não tinha veneno. E
ele morreu, mas da beberagem que eu lhe dei para curar.
- Mas todos esses pobre diabos eram pretos como você.
para que os matou?
- Para sinhô ficar pobre: eu queria ver sinhô se
servir por suas mãos.
- E a mim nunca pretendeu você matar?
- Matar, não : fazer penar só.
- Então sempre me queria fazer alguma coisa?
- Queria fazer! Eu fiz mesmo.
- Fez? Que é que me fez você?
- Esse seu reumatismo, sinhô, então que é?
Entrevamento de sinhá velha donde vem? E o negro deu uma
gargalhada feroz.
O coronel ficou aterrado.
- Levem, levem daqui esta serpente ! gritou Barbosa.Metam-
no no tronco, não quero mais vê-lo. Vai para a vila amanhã.
Os negros apoderaram-se de Joaquim Cambinda, que não
ofereceu resistência, rodearam-no, levaram-no a empurrões
para o meio do terreiro!
- Então foi você que matou meu pai ! dizia um.
- Minha mãe ! bradava outro.
- Meus três filhinhos tão bonitos, que entraram a
inchar de repente, na cabeça e na barriga, a amarelar e
que morreram com as perninhas finas como pernas de rã!
lamuriou uma negra e, tomando do chão um caco de telha,
bateu com ele na cara do feiticeiro.
Foi como que um sinal.
Os negros todos achegaram-se a Joaquim Cambinda, uns
davam-lhe punhadas, outros escarravam-lhe, outros
atiravam-lhe areia nos olhos.
- Peste do diabo ! Coisa ruim !
- Feiticeiro do inferno!
- Enforque-se já este demônio !
- O melhor é queimar!
- Que se queime! Que se queime!
E numa confusão horrorosa foram arrastando o
desgraçado.
Ao pé do paiol estava um montão de sapé seco, e junto
dele uma mesa velha de carro, com uma roda só,
desconjuntada, meio podre.
Em um momento amarraram o mísero sobre essa mesa de
carro, apesar da resistência louca que ele então procurou
fazer, a pontapés, a coices, a dentadas.
Trouxeram sapé, aos feixes, encheram com ele o vão
que ficava por baixo da mesa.
- Querosene! gritou uma voz, tragam querosene!
Um moleque correu ao engenho, e de lá voltou com uma
lata quase cheia.
Um preto tomou-lha, subiu à mesa do carro, começou a
despejar petróleo sobre Joaquim Cambinda: o líquido corria
em fio farto, claro, transparente, com reflexos azulados,
ressaltava do peito piloso do negro, da sua calva
lustrosa, embebia-se-lhe nas roupas imundas, misturado,
confundindo com o suor que manava em camarinhas. Os olhos
do miserável revolviam-se sangrentos, seus dentes rangiam,
ele bufava.
- Fósforos! Fósforos! Quem tem fósforos? perguntou o
preto, depois que esvaziou a lata, e que fez desaparecer
Joaquim Cambinda sob um montão de sapé.
- Eu! acudiu a negra que dera princípio ao motim, e
estende-lhe uma caixa de fósforos.
O preto saltou abaixo, tomou-a, abaixou-se, riscou um
fósforo, protegeu-lhe a chama com a mão em forma de
concha, encostou-o ao sapé, junto do chão.
Ergueu-se uma fumarada espessa, azul-claro por cima,
cor de ferrugem por baixo; a chama cintilou em compridas
línguas gulosas, lambeu, rodeou a mesa do carro, chegou ao
sapé de cima e ao corpo do negro. As roupas deste,
embebidas em petróleo, fizeram uma como explosão,
inflamaram-se repentinamente. Ele soltou um mugido rouco,
sufocado, retorceu-se frenético...
Tudo desapareceu num turbilhão crepitante de fogo e
de fumo.
As faúlas voavam longe, e o vento carregava a
distâncias enormes as moinhas carbonizadas.
Sentia-se um cheiro acre, nauseabundo de chamusco, de
gorduras fritas, de carnes sapecadas.
CapítuloI
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI
Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII
Capítulo XIV
Capítulo XV
Capítulo XVI
Capítulo XVII
Capítulo XVIII