A Carne
Júlio Ribeiro
Capítulo X
Já tinha anoitecido.
Não havia luar, mas a noite estava clara. Na
transparência escura do céu tropical as estrelas
empastavam-se em um amontoamento inverossímil, como
punhados de farinha luminosa em tela muito negra.
No terreiro, varado, em frente às senzalas, uma
fogueira crepitava alegre, espancando a escuridão com seu
brasido candente, com suas línguas de chamas multiformes,
irrequietas.
Os negros tinham acabado uma carpa nesse dia, e o
coronel dera-lhes permissão para folgar, mandando ao mesmo
tempo que o administrador lhes fizesse uma larga
distribuição de aguardente.
Ao som de instrumentos grosseiros dançavam: eram
esses instrumentos dois atabaques e vários adufes.
Acocorados, segurando os atabaques entre as pemas,
encarapitados, debruçados neles, dois africanos velhos,
mas ainda robustos, faziam-nos ressoar, batendo-lhes nos
couros, retesados, às mãos ambas, com um ritmo, sacudido,
nervoso, feroz, infrene.
Negros e negras formavam um vasto círculo agitavam-
se, permeavam, compassadamente, rufavam adufes aqui e ali.
Um figurante, no meio, saltava, volteava, baixava-se,
erguia-se, retorcia os braços, contorcia o pescoço,
rebolia os quadris, sapateava em um frenesi indescritível,
com uma tal prodigalidade de movimentos, com um tal
desperdício de ação nervosa e muscular, que teria estafado
um homem branco em menos de cinco minutos.
E cantava:
Serena pomba, serena;
Não cansa de serená!
O sereno desta pomba
Lumeia que nem meta!
Eh! Pomba! eh!
E a turba repetia em coro:
Eh! Pomba! eh!
A voz do cantor, fresca modulada de um timbre
sombrio, coberto, tinha uma doçura infinita, um encanto
inexprimível.
Fechando-se os olhos, não se podia crer que sons tão
puros saísse a garganta de um preto, sujo, desconforme,
hediondo, repugnante.
A resposta coral, melopéia inarmônica, mas cadenciada
em quebros de uma tristeza suavíssima, repercutia pelas
matas no silêncio da noite, com uma grandiosidade
melancólica e estranha.
A letra nada dizia; a toada, o canto era tudo.
E os atabaques retumbavam, rufavam os adufes,
desesperadamente.
O dançarino, sempre a cantar, sempre naquela
agitação, naquela coreomania estupenda, percorria a roda
sem sustar-se para retomar alento, sem dar mostras de
cansado. Em sua testa baça não brilhava uma baga de suor.
De repente, vendo um tição inflamado na mão de um
companheiro, asiu-o, entrou a descrever com ele no ar
figuras caprichosas, círculos, elipses, oitos de
algarismo. Bateu-o no chão, espalhou na roda milhares de
faúlas... O entusiasmo ascendeu ao delírio.
O dançarino deitou fora o tição, arrojando-o longe
com impulso vigorosíssimo. Depois afrouxou, moderou um
pouco os movimentos. Entreparou ante um dos da roda,
bamboando-se, fazendo-lhe gaifonas, como que reptando-o
para que saísse ao terreiro.
O desafiado aceitou a provocação, saiu-lhe ao
encontro, dançando, saracoteando-se, também.
Eh! Pomba! eh! - gemia o coro.
Os figurantes, que eram então os dois, começaram de
girar em torno do outro, atacando-se perseguindo-se,
fugindo, como duas borboletas amorosas. Recuaram, depois
avançaram de frente, lento, medindo-se. Deixaram pender os
braços, afastaram as cabeças, protraíram os ventres,
curvando as pemas, fizeram estalar uma embigada artística,
sonora, retumbante, que se ouviu longe.
Eh! pomba! eh! - continuava a gemer o coro.
O primeiro figurante embarafustou-se por entre os
companheiros, rompeu a roda, sumiu-se, deixando só o
sucessor que continuou na faina com a mesma galhardia.
Os que não dançavam, que não tomavam parte no samba,
grupavam-se aos magotes, acotovelando-se; olhavam em
silêncio, enlevados, absortos.
Do solo batido pelo tripudiar de tanta gente erguia-
se uma nuvem de pó, avermelhada pelo clarão da fogueira.
A garrafa de aguardente andava de mão em mão: não
havia copos; bebiam pelo gargalo.
Ao cheiro de terra pisada, de cachaça, de sarro de
pito, sobrelevava dominante um cheiro humano áspero,
aliáceo, um odor almiscarado forte, uma catinga africana,
indefinível, que doía ao olfato, que cortava os nervos,
que entontecia o cérebro, sufocante, insuportável.
Enquanto se dançava no terreiro, Joaquim Cambinda,
escravo octogenário, inútil para o trabalho, estava
sozinho, sentado em um cepo, ao pé de um fogo de lenha de
perova, no paiol velho abandonado, que a rogo seu lhe fora
concedido para morada.
Era horroroso esse preto: calvo, beiçudo, maxilares
enormes, com as escleróticas amarelas, raiadas de laivos
sangüíneos, a destacarem-se na pele muito preta. Curvado
pela idade, tardo, trôpego, quando se erguia e, envolto na
sua coberta de lã parda, dava alguns passos, similhava uma
hiena fusca, vagarosa, covarde, feroz, repelente. Tinha as
mãos secas, aduncas; os dedos dos pés reviravam-se-lhe
para dentro, desunhados, medonhos.
O paiol velho formava uma vasta quadra de telha vã de
chão de terra, esburacado. A um canto um chalo de paus
roliços, com uma esteira, um travesseiro negro e lustroso,
umas traparias imundas: era a cama do africano. Por baixo
do chalo, no desvão escuro, punha uma nota branca um
urinol velho de louça ordinária, desbeiçado, com um
arquipélago de incrustações úricas no fundo
muito fétido,
nauseabundo. Junto do chalo, uma caixa de pinho, cuja
fechadura nova, envernizada, destacava-se muito lustrosa
na madeira carunchada, enegrecida pela fumaça. Em outro
canto, fronteiro ao chalo, sobre uma mesa coxa, um
oratório vetusto, de gonzos enferrujados, gastos, roído de
ratos em vários lugares, muito ensebado. Pelas paredes,
saquinhos de boca amarrada, samburás, porungas de pescoço,
guampas boi cartolas antiquíssimas, sobrecasacas arcaicas,
de três pontas na lapela, do tempo do rei. Por todo o
chão, abóboras, pepinos maduros, espiga de milho com
casca, cabos de instrumentos de lavoura, cepos de madeira,
cascas de ovos, talos de couve, montes de cisco.
A porta estava apenas cerrada: abriu-se e entrou uma
negra ainda moça, magra, baixinha, de olhos fundos, olhar
febril. Estava vestida de cores muito espantadas, saia
amarela, casaco vermelho. Tomou a bênção a Joaquim
Cambinda, e foi sentar-se em silêncio junto do fogo.
Um a um, vieram outros pretos e pretas. Entravam,
davam louvado ao velho, e, silenciosos, acomodavam-se
sobre cepos, ao pé do fogo: ao todo dez.
Quando completo esse número, Joaquim Cambinda disse:
- Féssa póta1.
A negra que primeiro chegara levantou-se, cumpriu a
ordem, voltou a sentar-se em seu lugar.
Reinou silêncio por largo espaço.
Fora ouvia-se o coro retumbando na noite:
Eh! Pomba! eh!
Joaquim Cambinda acendera um cachimbo de longo
canudo, e fumava tranqüilo, sem parecer dar fé dos
circunstantes.
Cerca de meia hora levou absorto, com os olhos
cerrados meditando, cochilando, a puxar fumaças,
morosamente, preguiçosamente.
Quando se consumiu o carrego do cachimbo, sacudiu as
cinzas, bateu-o bem, cuidadosamente, soprou-lhe o canudo,
encostou-o à parede. Ergueu-se e, lento, titubeante,
monstruoso, caminhou para o oratório, chegou, abriu-lhe as
folhas da porta de par em par, tirou para fora duas velas
de cera que estavam dentro, em castiçais de latão, riscou
fósforos, acendeu-as, iluminou o interior do nicho,
revestido de papel de prata, mareado.
Dois eram os divos desse mesquinho e sórdido laranjo:
um São Miguel de gesso, cambuto, retaco, muito feio, muito
pintado de excretos de moscas; e um manipanço, tecido
inteirinho de cordas finíssimas de embira, hediondo,
pavoroso, mas admirável pelos detalhes anatômicos,
estupendo como obra de paciência.
Os negros ergueram-se todos, reverentes.
- Zelómo, disse Joaquim
Cambinda, ussê penso bê nu quê ussê vai fazê,
lapássi?
- Penso, mganga.
- Intonsi, ussê qué mêmo si rissá ni rimanári
ri San
Migué rizáma? - Qué, mganga.
Que era muito bom, explicou Joaquim Cambinda na sua
meia língua, pertencer um preto à irmandade de São
Miguel
das Almas, mas que também era perigoso; que quem não tinha
peito não tomava mandinga; que o branco queria, por força,
saber o segredo dos irmãos de São Miguel, e que para isso
surrava o preto, mas que o preto que revelava o segredo de
São Miguel morria sem saber de quê. Fez o neófito beijar
os pés de São Miguel, fê-lo beijar os cornos do Satanás
a
ele sotoposto, fê-lo beijar as partes genitais do
manipanço; ditou-lhe juramentos solenes, cominou-lhe penas
terríveis no caso de infração. Recebeu dele dinheiro,
trinta mil-réis, seis notas de cinco mil-réis, que estavam
no bolso da calça, muito enleadas em um lenço de chita
muito sujo. Passou à parte doutrinaria, entrou a iniciá-lo
na arte terrível dos feitiços e dos contras, a dar-lhe
meios de matar, de curar. Ensinou-lhe que a semente do
mamoninho bravo (Datura stramonium), socada, macerada em
aguardente, cega, enlouquece, mata dentro de poucas horas;
que osso de defunto, cuja carne caiu de podre, raspado e
posto em uma comida qualquer, produz amarelão incurável;
que o sapo verde do mato virgem, sufocado a fogo lento,
dentro de uma panela nova coberta por testo novo, morre
largando uma espumarada branca, com a qual, diluída em
água, se produz uma hidropisia necessariamente mortal; que
as folhas do jaborandi (Pilacarpus pinnatifolius),
pisadas, reduzidas a massa, aplicadas aos sovacos,
produzem suares e salivação, curam muitas moléstias;
que a
raiz de Guiné (Mappa graveolens ) e a nhandirova
(Fieuillea cordifolia) são contras poderosíssimos para
todas as coisas feitas.
Ensinou mais uma infinidade de superstições, medonhas
umas, outras muito ridículas: que a mão ressequida de uma
criancinha morta sem batismo é um talismã precioso para
conciliar o amor; que uma lasca de pedra de ara, furtada a
uma igreja, fecha o corpo, toma-o invulnerável a tiros de
arma de fogo, a pontaços de arma branca; que café coado
com água de banho por fralda de camisa de mulher, ou por
fundilho de ceroula de homem, sem lavar, capta a simpatia,
amansa o gênio bravo; que corda de enforcado faz ganhar
dinheiro ao jogo; que uma figa de raiz de arruda,
arrancada em sexta-feira maior, é remédio soberano de
quebranto, de mal de olhado; que, para inutilizar um
mestre feiticeiro, para tirar-lhe o poder, é preciso
surrá-lo com uma vara de fumo e quebrar-lhe na cabeça três
ovos chocos.
Passou a curar o neófito, fechar-lhe o corpo, a
anestesiá-lo para não sentir castigos físicos: mandou
que
se despisse, que se pusesse de quatro pés, como uma besta.
Murmurando palavras inconexas, frases de engrimanço,
untou-o com uma pomada rançosa que tirou de uma latinha
muito oxidada, borrifou-o com uma água de uma porunga que
desprendeu da parede. Disse-lhe que era preciso repetir a
operação em mais seis sextas-feiras, para que o encanto
ficasse completo, e o corpo insensível de uma vez.
Para provar com fatos o seu poder, para demonstrar a
eficácia dos seus sortilégios, chamou a preta magra, a
primeira que viera. Acudiu ela, aproximando-se ligeira,
muito contente.
Passou-se uma cena estranha.
Joaquim Cambinda tirou do oratório uma agulha de
coser sacos, comprida, acerada e, tomando o braço esquerdo
da preta, atravessou-o de parte a parte, em vários
lugares, por várias vezes, sem que ressumasse uma pinga de
sangue: a paciente olhava curiosa para o braço, sem dar a
mínima mostra de dor.
Joaquim Cambinda largou a agulha, afastou-se um
pouco, baixou-se, fitou-a de modo particular, por sob a
pálpebra, com a pupila brilhante, fixa como a de um
réptil.
A rapariga soltou um grande grito, e levou as mãos
ambas ao peito.
A bola! a bola! Sufoco! exclamou.
E caiu desamparada, com os olhos esbugalhados, em
alvo, com a boca torta, com os membros contorcidos por
convulsões tetânicas.
Estenderam-se-lhe, inteiriçaram-se os braços, os
punhos viraram-se para fora; os dedos fecharam-se,
penetrando quase as unhas nas palmas das mãos; a língua
estava negra e pendente, betada aqui e ali por fios de
baba escumosa.
E revolvia no solo, aos saltos, como uma cobra
cortada aos pedaços.
De súbito largou um berro entrecortado, gutural,
rouco, que nada tinha de humano. Deu uma estremeção,
curvou-se para trás, assumiu a forma de um bodoque
retesado, quedou-se imóvel, dura, firme, em uma posição
impossível: por uma parte tinha o alto da cabeça apoiado
ao solo, e, por outra, os dois pés que assentavam em
cheio, um pouco separados; ao todo três pontos de apoio.
Os punhos continuavam cerrados, e os braços tesos, ao
longo do corpo. A rigidez era cadavérica mais ainda,
marmórea, metálica.
Joaquim Cambinda sorria-se medonhamente.
Com uma agilidade que desmentia o seu vagar, o seu
tolhimento costumeiro, e de que ninguém o teria julgado
capaz, trepou de um salto sobre essa esquisita ponte
humana.
Com os olhos reluzentes; como o clarão do fogo a
refletires-lhe na calva negra, polida mostrando os dentes
amarelos em esgares diabólicos, ele pulava, tripudiava
sobre o estômago, sobre o ventre, sobre o púbis da
convulsionada.
Ela não se abalava, não se mexia sob o impulso dos
pés, sob a ação do peso do monstro: semelhava uma ponte
de
arco, feita de cantaria.
Joaquim Cambinda desceu, foi a um canto buscar um
cabo de picareta, e com ele entrou a bater-lhe duro no
peito, no ventre.
Os golpes sucediam-se, crebros, com um som baço,
abafado, como se fossem dados em um saco de trapos.
De súbito a vítima desinteiriçou-se, recobrou moleza
vital, recaiu no solo pesadamente, em atitude humana.
Inundavam-lhe o rosto grossas camarinhas de suor.
Os assistentes estavam aterrados.
O tétrico hierofante desses horrendos mistérios tinha
apagado rapidamente as velas, tinha fechado o oratório,
estava de novo silencioso, sentado em um cepo, atiçando o
fogo.
A rapariga dormia, dormia profundamente, respirando
alto, em estertores.
Fora, o samba continuava; ouvia-se tutucar dos
atabaques, e o estrupido surdo dos pés; sonoro,
melancólico, plangente, repercutiu o estribilho:
Eh! Pomba! eh!
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