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A Capital Federal
Artur Azevedo


Quadro VI
Saleta em casa de Lola

- Cena I -
Lola e Gouveia

(Lola entra furiosa. Traz vestida uma elegante bata. Gouveia acompanha-a
vem vestido de Mefistófeles.)

Lola - Não! isto não se faz! E o senhor escolheu o dia dos meus anos para me fazer essa
revelação! Devia esperar pelo menos que acabasse o baile! Com que mau humor
vou agora receber os meus convidados! (Caindo numa cadeira.) Oh! os meus pressentimentos não me enganavam!...
Gouveia - Esse casamento é inevitável; quando estive em S. João do Sabará, comprometi-
me com a família de minha noiva e não posso faltar à minha palavra!
Lola - Mas por que não me disse nada? Por que não foi franco?
Gouveia - Supus que essa dívida tivesse caído em exercícios findos; mas a pequena teve
saudades minhas, e tanto fez, tanto chorou, que o pai se viu obrigado a vir procurar-me! Como vês, é uma coisa séria!
Lola - Mas o senhor não pode procurar um subterfúgio qualquer para evitar esse
casamento? Que idéia é essa de se casar agora que está bem, que tem sido feliz no
jogo? E eu? Que papel represento eu em tudo isto?
Gouveia (Puxando uma cadeira.) - Lola, vou ser franco, vou dizer-te toda a verdade.
(Senta-se.) Há muito tempo não faço outra coisa senão perder... O outro dia tive uma aragem passageira, um sopro de fortuna, que serviu apenas para pagar as despesas da tua festa de hoje e mandar fazer esta roupa de Mefistófeles! Estou completamente perdido! As minha jóias não foram roubadas, como eu te disse. Deitei-as no prego e vendi as cautelas. Para fazer dinheiro, eu, que aqui vês coberto de seda, tenho vendido até a roupa do meu uso... nessas casas de jogo já não tenho a quem pedir dinheiro emprestado. Os banqueiros olham-me por cima dos ombros, porque eu tornei-me um piaba... Sabes o que é uma piaba? É um sujeito que vai jogar com muito pouco bago. Estou completamente perdido!
Lola (Erguendo-se.) - Bom. Prefiro essa franqueza. É muito mais razoável.
Gouveia (Erguendo-se.) - Esse casamento é a minha salvação; eu...
Lola - Não precisa dizer mais nada. Agora sou eu a primeira a aconselhar-te que te cases, e
quanto antes melhor...
Gouveia - Mas, minha boa Lola, eu sei que com isso vais padecer bastante, e...
Lola - Eu? Ah! ah! ah! ah!... Sé esta me faria rir!... Ah! ah! ah! ah!... Sempre me
saíste um grande tolo! Pois entrou-te na cabeça que eu algum dia quisesse de ti outra coisa que não fosse o teu dinheiro?
Gouveia (Horrorizado.) - Oh!
Lola - E realmente supunhas que eu te tivesse amor?
Gouveia ( Caindo em si.) - Compreendo e agradeço o teu sacrifício, minha boa Lola. Tu
estás a fingir uma perversidade e um cinismo que não tens, para que eu saia desta casa sem remorsos! Tu és a Madalena, de Pinheiro Chagas!
Lola - E tu és um asno! - O que te estou dizendo é sincero! Estava eu bem aviada se me
apaixonasse por quem quer que fosse!
Gouveia - Dar-se-á caso que te saíssem do coração todos aqueles horrores?
Lola - Do coração? Sei lá o que isso é. O que afianço é que sou tão sincera, que me
comprometo a amar-te ainda com mais veemência que da primeira vez no dia em que resolveres dar cabo do dote da tua futura esposa!
Gouveia (Com uma explosão.) - Cala-te, víbora danada! Olha que nem o jogo, nem os teus
beijos me tiraram totalmente o brio! Eu posso fazer-te pagar bem caro os teus insultos!
Lola - Ora, vai te catar! Se julgas amedrontar-me com esses ares de galã de dramalhão,
enganas-te redondamente! Depois, repara que estás vestido de Mefistófeles! Esse traje prejudica os teus efeitos dramáticos! Vai, vai ter com a tua roceira. Casem-se, sejam muito felizes, tenham muitos Gouveiazinhos, e não me amoles mais! (Gouveia avança, quer dizer alguma coisa, mas não acha uma palavra. Encolhe os ombros e sai. )

- Cena II -
Lola, depois Lourenço

Lola (Só.) - Faltou-lhe uma frase, para o final da cena - coitado! A respeito de imaginação,
este pobre rapaz foi sempre uma lástima! - os homens não compreendem que o seu único atrativo é o dinheiro! Este pascácio devia ser o primeiro a fazer uma retirada em regra, e não se sujeitar a tais sensaborias! Bastavam quatro linhas pelo correio. - Oh! também a mim, quando eu ficar velha e feia, ninguém me há de querer! Os homens têm o dinheiro, nós temos a beleza; sem aquele e sem esta, nem eles nem nós valemos coisa nenhuma. ( Entra Lourenço trajando uma libré de cocheiro. Vem a rir-se.)
Lourenço - Que foi aquilo?
Lola - Aquilo o quê?
Lourenço - O Gouveia! Veio zunindo pela escada abaixo e, no saguão, quando eu me
curvei respeitosamente diante dele, mandou-me ao diabo, e foi pela rua fora, a pé, vestido de Satanás de mágica! Ah! ah! ah!
Lola - Daquele estou livre!
Lourenço - Eu não dizia a você? Aquilo é bananeira que já deu cacho!
Lola - Que vieste fazer aqui? Não te disse que ficasses lá embaixo?
Lourenço - Disse, sim, mas é que está aí um matuto, pelos modos fazendeiro, que deseja
falar a você.
Lola - A ocasião é imprópria. São quase horas, ainda tenho que me vestir!
Lourenço - Coitado! O pobre-diabo já aqui veio um ror de vezes a semana passada, e
parece ter muito interesse nesta visita. Demais... você bem sabe que nunca se manda embora um fazendeiro.
Lola - Que horas são?
Lourenço - Oito e meia. Já estão na sala alguns convidados.
Lola - Bem! Num quarto de hora eu despacho esse matuto. Faze-o entrar.
Lourenço - É já. (Sai assoviando.)
Lola (Só.) - Como anda agora lépido o Lourenço! Voltou de Caxambu que nem parece o
mesmo! - Ele tem razão: um fazendeiro nunca se manda embora.
Lourenço (Introduzindo Eusébio muito corretamente.) - Tenha V. Exa. a bondade de entrar. (Eusébio entra muito encafifado e Lourenço sai fechando a porta.)


- Cena III -
Lola, Eusébio
Eusébio - Boa nôte, madama! Deus esteja nesta casa!
Lola - Faz favor de entrar, sentar-se e dizer o que deseja. (Oferece-lhe uma cadeira.
Sentam-se ambos.)
Eusébio - Na sumana passada eu precurei a madama um bandão de vez sem conseguir le
falá...
Lola - E por que não veio esta semana?
Eusébio - Dona Fortunata não quis, por sê sumana santa... Eu então esperei que rompesse
as aleluia! (Uma pausa.) - Eu pensei que a madama embrulhasse língua comigo, e eu não entendesse nada que a madama dissesse, mas tô vendo que fala muito bem o português...
Lola - Eu sou espanhola e... o senhor sabe... o espanhol parece-se muito com o português;
por exemplo: hombre, homem; mujer, mulher.
Eusébio (Mostrando o chapéu que tem na mão.) - E como é chapéu, madama?
Lola - Sombrero.
Eusébio - E guarda-chuva?
Lola -Paraguas.
Eusébio - É! Parece quase a mesma coisa! - E cadeira?
Lola - Silla.
Eusébio - E janela?
Lola - Ventana.
Eusébio - Muito parecida!
Lola - Mas, perdão, creio que não foi para aprender espanhol que o senhor veio à minha
casa...
Eusébio - Não, madama, não foi para aprendê espanhol: foi para tratá de coisa munto
séria!
Lola - De coisa séria? Comigo! É esquisito!...
Eusébio - Não é esquisito, não madama; eu sou o pai da noiva de seu Gouveia!...
Lola - Ah!
Eusébio - Cumo minha fia anda munto desgostosa pru via da madama, eu me alembrei de
vi na sua casa para sabê... sim, para sabê se é possive a madama se separá de seu Gouveia. Se fô possive, munto que bem; se não fô, paciência: a gente arruma as mala, e amenhã memo vorta pra fazenda. Minha fia é bonita e é rica: não há de sê defunto sem choro!...
Lola - Compreendeo: o senhor vem pedir a liberdade de seu futuro genro!
Eusébio - Sim, madama; eu quero o moço livre e desembaraçado de quaqué ônus! (Lola
levanta-se fingindo uma comoção extraordinária; quer falar, não pode, e acaba numa explosão de lágrimas. Eusébio levanta-se.) Que é isso? A madama está chorando?!...
Lola (Entre lágrimas.) - Perder o meu adorado Gouveia! Oh! o senhor pede-me um
sacrifício terrível! (Pausa.) Mas eu compreendo... Assim é necessário... Entre a mulher perdida e a menina casta e pura; entre o vício e a virtude, é o vício que deve ceder... Mas o senhor não imagina como eu amo aquele moço e quantas lágrimas preciso verter para apagar a lembrança do meu amor desgraçado! (Abraça Eusébio, escondendo o rosto nos ombros dele, e soluça.) Sou muito infeliz!
Eusébio (Depois de uma pausa, em que faz muitas caretas.) - Então, madama?...
sossegue... A Madama não perde nada... (À parte.) Que cangote cheiroso!...
Lola (Olhando para ele, sem tirar a cabeça do ombro.) - Não perco nada? Que quer o
senhor dizer com isso!
Eusébio - Quero dizê que... sim... quero dizê... Home, madama, tira a cabeça daí, porque
assim eu não acerto as palavras!
Lola (Sem tirar a cabeça.) - Sim, a minha porta se fechará ao Gouveia... Juro-lhe que
nunca mais o verei... mas onde irei achar consolação? ... Onde encontrarei uma alma que me compreenda, um peito que me abrigue, um coração que vibre harmonizado com o meu?
Eusébio - Nós podemo entrá num ajuste.
Lola (Afastando-se dele com ímpeto.) - Um ajuste?! Que ajuste?! O senhor quer talvez
propor-me dinheiro!... Oh! por amor dessa inocente menina, que é sua filha, não insulte, senhor, os meus sentimentos, não ofenda o que eu tenho de mais sagrado!...
Eusébio (À parte.) - É um pancadão! Seu Gouveia teve bom-gosto!...
Lola - O senhor quer que eu deixe o Gouveia porque sua filha o ama e é amada por ele,
não é assim? Pois bem: é seu Gouveia; dou-lho, mas dou-lho de graça, não exijo a menor retribuição!
Eusébio - Mas o que vinha propô à madama não era um pagamento, mas uma... Cumo
chama aquilo que se falou quando foi o 13 de Maio? Uma... Ora, sinhô! (Lembrando-se.) Ah! uma indenização! O caso muda muito de figura!
Lola - Não! - nenhuma indenização pretendo! Mas de ora em diante fecharei o meu
coração aos mancebos da capital, e só amarei (Enquanto fala vai arranjando o laço da gravata e a barba de Eusébio.) algum homem sério... de meia-idade... filho do campo... ingênuo... sincero... incapaz de um embuste... (Alisando-lhe o cabelo.) - Oh! Não exigirei que ele seja belo... Quanto mais feio for, menos ciúmes terei! (Eusébio cai como desfalecido numa cadeira, e Lola senta-se no colo dele.) A esse hei de amar com frenesi... com delírio!... (Enche-o de beijos.)
Eusébio (Resistindo e gritando.) - Eu quero i me embora! (Ergue-se.)
Lola - Cala-te, criança louca!...
Eusébio - Criança louca! Uê!...
Lola (Com veemência.) - Desde que transpuseste aquela porta, senti que uma força
misteriosa e magnética me impelia para os teus braços! Ora o Gouveia! Que me importa a mim o Gouveia se és meu, se está preso pela tua Lola, que não te deixará fugir?
Eusébio - Isso tudo é verdade?
Lola - Estes sentimentos não se fingem! Eu adoro-te!
Eusébio - Eu me conheço... já sou um home de idade... não sei falá como os doutô da
Capitá Federá...
Lola - Mas é isso mesmo o que mais me encanta na tua pessoa!
Eusébio - Quando a esmola é munto, o pobre desconfia.
Lola - Põe à prova o meu amor! Já te não sacrifiquei o Gouveia?
Eusébio - Isso é verdade.
Lola - Pois sacrifico-te o resto!... Queres que me desfaça de tudo quanto possuo, e que vá
viver contigo numa ilha deserta? ... Oh! bastam-me o teu amor e uma choupana! (Abraça-o.) Dá-me um beijo! Dá-mo como um presente do céu! (Eusébio limpa a boca com o braço e beija-a .) Ah! (Lola fecha os olhos e fica como num êxtase.)
Eusébio (À parte.) - Seu Eusébio tá perdido! (Dá-lhe outro beijo.)
Lola (Sem abrir os olhos. ) - Outro... outro beijo ainda... (Eusébio beija-a e ela afasta-se,
esfregando os olhos.) Oh! Não será isto um sonho?
Eusébio - Bom, madama, com sua licença: eu vou me embora...
Lola - Não; não consinto! Faço hoje anos e dou uma festa. A minha sala já está cheia de
convidados.
Eusébio - Ah! por isso é que, quando eu entrei, subia uns mascarado...
Lola - Sim; é um baile à fantasia. Precisas de um vestuário.
Eusébio - Que vestuário, madama?
Lola -Espera. Tudo se arranjará. (Vai à porta.) Lourenço!
Eusébio - Que vai fazê, madama?
Lola - Vais ver.



- Cena IV -
Os mesmos, Lourenço

Lola (A Lourenço que se apresenta muito respeitosamente.) - Vá com este senhor a uma casa de alugar vestimentas à fantasia a fim de que ele se prepare para o baile.
Eusébio - Mas...
Lola (Súplice.) - Oh! Não me digas que não! ( A Lourenço.) Dê ordem ao porteiro para não deixar entrar o Sr. Gouveia. Esse moço morreu para mim!
Lourenço (À parte.) - Que diabo disto será aquilo?
Lola (Baixo a Eusébio.) - Estás satisfeito? (Antes que ele responda.) Vou preparar-me também. Até logo! (Sai pela direita.)

- Cena V -
Eusébio, Lourenço
Eusébio (Consigo.) - Sim, sinhô; isto é o que se chama vi buscá lã e saí tosquiado! - Se
Dona Fortunata soubesse... (Dando com o Lourenço.) Vamos lá, seu... cumo o sinhô se chama?
Lourenço - Lourenço, para servir a V.Exa.
Eusébio - Vamos lá, seu Lourenço... (Sem arredar pé de onde está.) Isto é o diabo!
Enfim!... Mas que espanhola danada! (Encaminha-se para a porta e faz lugar para
Lourenço passar.) Faz favô!
Lourenço (Inclinando-se.) - Oh! Meu senhor... isso nunca... eu, um cocheiro!... Então. Por
obséquio!
Eusébio - Passe, seu Lourenço, passe, que o sinhô é de casa e está fardado! (Lourenço
passa e Eusébio acompanha-o . Mutação.)


Quadro I
Quadro II
Quadro III e IV

Quadro V
Quadro VI
Quadro VII


Quadro VIII
Quadro IX
Quadro X
Quadro XI e XII