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A Capital Federal
Artur Azevedo

Ato II

Quadro V
O Largo de São Francisco

- Cena I -
Benvinda, Pessoas do Povo, depois Figueiredo
(Benvinda está exageradamente vestida à última moda e cercada por muitas pessoas do povo, que lhe fazem elogios irônicos.)

Coro
Ai, Jesus! Que mulata bonita!
Como vem tão janota e faceira!
Toda a gente por ela palpita!
Ninguém há que adorá-la não queira!
Ai, mulata!
Não há peito que ao ver-te não bata!

Benvinda
Vão andando seu caminho,
Deixe a gente assossegada!

Coro
Pára ao menos um instantinho!
Não te mostres irritada!

Benvinda
Gentes! Meu Deus! Que maçada!

Coro
Dize o teu nome, benzinho!

Coplas
Benvinda
Meu nome não digo!
Não quero, aqui está!]
Não bulam comigo!
Me deixem passar!
Jesus! Quem me acode?
Já vejo que aqui
As moça não pode
Sozinha saí!
Sai da frente,
Minha gente!
Sai da frente pro favô!
Tenho pressa!
Vou depressa!
Vou pra Rua do Ouvidô!

Coro
Sai da frente!
Minha gente!
Sai da frente pro favô!
Vai com pressa!
Vai depressa!
Vai à Rua do Ouvidor.

Benvinda
Não digo o meu nome!
Não tou de maré!
Diabo dos home
Que insurta as muié!
Quando eu vou sozinha,
Só ouço, dizê:
"Vem cá, mulatinha,
Que eu vou com você!"
Sai da frente, etc...

Coro
Sai da frente, etc...

(Figueiredo aparece e coloca-se ao lado de Benvinda.)

Figueiredo
Meus senhores, que é isto?
Perseguição assim é caso nunca visto!...
Mas saibam que esta fazenda
Tem um braço que a defenda!

Benvinda
Seu Figueiredo
- Eu tava aqui com muito medo!

Coro
( À meia voz.)
Este é o marchante...
Deixá-los, pois, no mesmo instante!
Provavelmente o tipo é tolo,
E há de querer armar um rolo!

(À toda voz, cumprimentando ironicamente Figueiredo.)
Feliz mortal, parabéns
Pelo tesouro que tens!
Ah!ah!ah!ah!ah!ah!ah!ah!
Mulher mais bela aqui não há!

(Todos se retiram. Durante as cenas que seguem, até o fim do quadro, passam
pessoas do povo.)

- Cena II -
Figueiredo, Benvinda
Figueiredo (Repreensivo.) - Já vejo que há de ser muito difícil fazer alguma coisa de ti!
Benvinda - Eu não tenho curpa que esse diabo...
Figueiredo (Atalhando.) - Tens culpa, sim! Em primeiro lugar, essa toalete é escandalosa!
Esse chapéu é descomunal!
Benvinda - Foi o sinhô que escolheu ele!
Figueiredo - Escolhi mal! Depois, tu abusas do face-en-main!
Benvinda - Do... do quê?
Figueiredo - Disto, da luneta! Em francês chama-se face-en-main. Não é preciso estar a
todo o instante... ( Faz o gesto de quem leva aos olhos o face-en-main.) Basta que te
sirvas disso lá uma vez por outra, e assim, olha, assim, com certo ar de sobranceria.
(Indica.) E não sorrias a todo instante, como uma bailarina... A mulher que sorri sem cessar é como o pescador quando atira a rede: os homens vêm aos cardumes, como ainda agora! - E esse andar? Por que gingas tanto? Por que te remexes assim?
Benvinda (Chorosa.) - Oh! Meu Deus! Eu ando bem direitinha... não olho pra ninguém...
Estes diabo é que intica comigo. - Vem cá, mulatinha! Meu bem, ouve aqui uma
coisa!
Figueiredo - Pois não respondas! Vai olhando sempre para a frente! Não tires os olhos de
um ponto fixo, como os acrobatas, que andam na corda bamba... Olha, eu te
mostro... Faze de conta que eu sou tu e estou passando... Tu é um gaiato e me dizes
uma gracinha quando eu passar por ti. ( Afasta-se, e passa pela frente de Benvinda
muito sério.) Vamos, dize alguma coisa!...
Benvinda - Dizê o quê?
Figueiredo (À parte.) - Não compreendeu! (Alto.) Qualquer coisa! Adeus, meu bem!
Aonde vai com tanta pressa! Olha o lenço caiu!
Benvinda - Ah! Bem!
Figueiredo - Vamos, outra vez. ( Repete o movimento.)
Benvinda - Adeus, seu Figueiredo.
Figueiredo - Que Figueiredo! Eu agora sou Benvinda! E a propósito: hei de arranjar-te um
nome de guerra.
Benvinda - De guerra? Uê!...
Figueiredo - Sim, um nome de guerra. É como se diz. Benvinda é nome de preta velha.
Mas não se trata agora disso. Vou passar de novo. Não te esqueças de que eu sou tu.
Já compreendeste?
Benvinda - Já, sim sinhô.
Figueiredo - Ora muito bem! - Lá vou eu. (Repete o movimento.)
Benvinda (Enquanto ele passa.) - Ouve uma coisa, mulata! Vem cá, meu coração!...
Figueiredo (Que tem passado imperturbável.) - Viste? Não se dá troco! Arranja-se um
olhar de mãe de família! E diante desse olhas, o mais atrevido se desarma! -
Vamos! Anda um bocadinho até ali! Quero ver se aprendeste alguma coisa!
Benvinda - Sim sinhô. (Anda.)
Figueiredo - Que o quê! Não é nada disso! Não é preciso fazer projeções do holofote para
todos os lados! Assim, olha... (Anda.) Um movimento gracioso e quase
imperceptível dos quadris...
Benvinda (Rindo.) - Que home danado!
Figueiredo - É preciso também corrigir o teu modo de falar, mas a seu tempo trataremos
desse ponto, que é essencial. Por enquanto o melhor que tens a fazer é abrir a boca o
menor número de vezes possível, para não dizeres home em vez de homem e
quejandas parvoíces... Não há elegância sem boa prosódia - Aonde ias tu?
Benvinda - Ia na Rua do Ouvidô.
Figueiredo (Emendando.) - Ouvidorr... Ouvidorr... Não faças economia nos erres, porque
apesar da carestia geral, eles não aumentarão de preço. E sibila bem os esses -
Assim... Bom. Vai e até logo! Mas vê lá: nada de olhadelas, nada de respostas! Vai!
Benvinda - Inté logo.
Figueiredo - Que inté logo! Até logo é que é! Olha, em vez de inté logo, dize: Au revoir!
Tem muita graça de vez em quando uma palavra ou uma expressão francesa.
Benvinda - Ô revoá!
Figueiredo - Antes isso! (Benvinda afasta-se.) Não te mexa tanto, rapariga! Ai! Isso!
Agora foi demais! Ai! (Benvinda desaparece.) De quantas tenho lançado, nenhuma
me deu tanto trabalho! Não pode estar ao pé de gente! (Lola vai atravessando a
cena; vendo Figueiredo encaminha-se para ele.)

- Cena III -
Figueiredo, Lola

Lola - Oh! Estimo encontrá-lo! Pode dar-me uma palavra?
Figueiredo - Pois não, minha filha!
Lola - Não o comprometo?
Figueiredo - De forma alguma! Vossemecê já está lançada!
Lola - Como?
Figueiredo - Vossemecês só envergonham a gente antes de lançadas.
Lola - Não entendo.
Figueiredo - Nem é preciso entender. Que desejava?
Lola - Lembra-se de mim?
Figueiredo - Perfeitamente. Encontramo-nos um dia no vestíbulo do Grande Hotel da
Capital Federal.
Lola ( Apertando-lhe a mão.) - Nunca mais me esqueci da sua fisionomia. O senhor não é
bonito... oh! não! mas é muito insinuante.
Figueiredo (Modestamente.) - Oh! filha! ...
Lola - lembra-se do motivo que me levava àquele hotel?
Figueiredo - Lembra-me. Vossemecê ia à procura de um moço que apontava na primeira
dúzia.
Lola - Vejo que tem boa memória. Pois é na sua qualidade de hóspede do Grande Hotel da
Capital Federal que me atrevo a pedir-lhe uma informação.
Figueiredo - Mas eu há muitos dias já lá não moro! Era um bom hotel, não nego, mas que
quer? - Não me levavam o café ao quarto às sete horas em ponto! - Entretanto, se for coisa que eu saiba...
Lola -Queria apenas que me desse notícias do Gouveia.
Figueiredo - Do Gouveia?
Lola - O tal da primeira dúzia.
Figueiredo - Mas eu não o conheço.
Lola - Deveras?
Figueiredo - Nunca o vi mais gordo!
Lola - Que pena! Supus que o conhecesse!
Figueiredo - Pode ser que o conheça de vista, mas não ligo o nome à pessoa.
Lola - Tenho-o procurado inúmeras vezes no hotel... e não há meio ! Não está! Saiu! Há
três dias não aparece cá! Um inferno!...
Figueiredo - Continua a amá-lo?
Lola - Sim, continuo, porque a primeira dúzia, pelo menos até a última vez que lhe falei,
não tinha ainda falhado; mas como não o vejo há muitos dias, receio que a sorte
afinal se cansasse.
Figueiredo - Então o seu amor regula-se pelos caprichos da bola da roleta?
Lola - É como diz. Ah! Eu cá sou franca!
Figueiredo - Vê-se!

Coplas
Lola
- I -
Este afeto incandescente
Pela bola se regula
Que vertiginosamente
Na roleta salta e pula!

Figueiredo
Vossemecê o moço estima
Dando a bola de um a doze;
Mas de treze para cima
Ce n'est pas la même chose!

- II -
É Gouveia um bom pateta
Se supõe que inda o quisesse
Quando a bola da roleta
A primeira já não desse!

Figueiredo
A mulata brasileira
De carinhos é fecunda,
Embora dando a primeira,
Embora dando a segunda!


Lola - E, por outro lado, ando apreensiva...
Figueiredo - Por quê?
Lola - Porquê... O senhor não estranhe estas confidências por parte de uma mulher que
nem ao menos sabe o seu nome.
Figueiredo - Figueiredo...
Lola - Mas, como já disse, a sua fisionomia é tão insinuante... simpatizo muito com o
senhor.
Figueiredo - Creia que lhe pago na mesma moeda. Digo-lhe mais: se eu não tivesse a
minha especialidade ... (À parte.) Deixem lá! Se o moreno fosse mais carregado...
Lola - Ando apreensiva porque a Mercedes me contou que há dias viu o Gouveia no teatro
com uma família que pelos modos parecia gente da roça... e ele conversava muito
com uma moça que não era nada feia... Tenho eu que ver se o tratante se apanha com uma boa bolada arranja casório e eu fico a chuchar o dedo!
Figueiredo (À parte.) - Ela exprime-se com muita elegância!
Lola - Dos homens tudo há que esperar!
Figueiredo - Tudo, principalmente quando dá a primeira dúzia.
Lola (Estendendo a mão que ele aperta.) - Adeus, Figueiredo.
Figueiredo - Adeus... Como te chamas?
Lola - Lola.
Figueiredo - Adeus, Lola.
Lola (Com uma idéia.) - Ah! uma coisa: você é homem que vá a uma festa?
Figueiredo - Conforme.
Lola - Eu faço anos sábado...
Figueiredo - Este agora?
Lola -Não; o outro.
Figueiredo - Sábado de aleluia?
Lola - Sábado de aleluia, sim. Faço anos e dou um baile à fantasia.
Figueiredo - Bravo! Não faltarei!
Lola - Contanto que vá fantasiado! Se não vai, não entra!
Figueiredo - Irei fantasiado.
Lola - Aqui tem você a minha morada. ( Dá-lhe um cartão.)
Figueiredo - Aceito com muito prazer, mas olhe que não vou sozinho...
Lola - Vai com quem quiseres.
Figueiredo - Levo comigo uma trigueira que estou lançando, e que precisa justamente de
ocasiões como essa para civilizar-se.
Lola - Aquela casa é tua, meu velho! (Vendo Gouveia que entra do outro lado, cabisbaixo,
e não repara nela.) Olha quem vem ali!
Figueiredo - Quem?
Lola - Aquele é que é o Gouveia.
Figueiredo - Ah! é aquele?.... Conheço-o de vista... É um moço do comércio.
Lola - Foi. Hoje não faz outra coisa senão jogar. Mas como está cabisbaixo e pensativo!
Querem ver que a primeira dúzia...
Figueiredo - Adeus! Deixo-te com ele. Até sábado de aleluia!
Lola - Não faltes, meu velho! (Apertam-se as mãos.)
Figueiredo (À parte.) - Dir-se-ia que andamos juntos na escola! ( Sai.)


- Cena IV -
Lola, Gouveia

Gouveia (Descendo cabisbaixo ao proscênio.) -Há três dias dá a segunda dúzia...
Consultei hoje a escrita: pedi em noventa e cinco bolas o que tinha ganho em perto de mil e duzentas! Decididamente aquele famoso padre do Pará tinha razão quando dizia que não se deve apontar a roleta nem com o dedo, porque o próprio dedo pode lá ficar!
Lola (À parte, do outro lado.) - Fala sozinho!
Gouveia - Hei de achar a forra! O diabo é que fui obrigado a pôr as jóias no prego. Venho
neste instante da casa do judeu. É sempre pelas jóias que começa a esbodegação...
Lola (À parte.) - Continua... Aquilo é coisa...
Gouveia - Com certeza vão dar por falta dos meus brilhantes... Pobre Quinota! Se ela
soubesse! Ela, tão simples, tão ingênua, tão sincera!
Lola (Aproximando-se inopinadamente) - Tu estás maluco?
Gouveia - Heim?... Eu... Ah! és tu? Como vais?...
Lola - Estavas falando sozinho?
Gouveia - Fazendo uns cálculos...
Lola - Aconteceu-te alguma coisa desagradável? Tu não estás no teu natural!
Gouveia - Sim... aconteceu-me... fui roubado... um gatuno levou as minhas jóias... e eu
estava aqui planejando deixar hoje a primeira dúzia e atacar dois esguichos, o
esguicho de 7 a 12 e o esguicho de 25 a 30, a dobrar, a dobrar!
Lola (Num ímpeto.) - A primeira dúzia falhou?
Gouveia - Falhou... ( A gesto de Lola.) Mas descansa: eu já a tinha abandonado antes que
ela me abandonasse.
Lola - Tens então continuado a ganhar?
Gouveia - Escandalosamente!
Lola - Ainda bem, porque sábado de aleluia faço anos...
Gouveia - É verdade... fazes anos no sábado de aleluia...
Lola - É preciso gastas muito dinheiro! Tenho te procurado um milhão de vezes! No hotel
dizem-me que lá nem apareces!
Gouveia - Exageração.
Lola - E outra coisa: quem era uma família com quem estavas uma noite destas no S.
Pedro? Uma família da roça?
Gouveia - Quem te disse?
Lola -Disseram-me. Que gente é essa?
Gouveia - Uma família muito respeitável que eu conheci quando andei por Minas.
Lola - Gouveia, Gouveia, tu enganas-me!
Gouveia - Eu? Oh! Lola! Nunca te autorizei a duvidares de mim!...
Lola - Nessa família há uma moça que... Oh! o meu coração adivinha uma desgraça, e ...
(Desata a chorar.)
Gouveia ( À parte.) - É preciso, realmente, que ela me ame muito, para ter um
pressentimento assim! (Alto.) Então? Que é isso? Não chores! Vê que estamos na rua!...
Lola (À parte.) - Pedaço d'asno!
Gouveia - Eu irei logo lá à casa, e conversaremos.
Lola - Não! não te deixo! Hás de ir agora comigo, hás de acompanhar-me, senão
desapareces como aquela vez, no Largo da Carioca!
Gouveia - Mas...
Lola - Ou tu me acompanhas, ou dou um escândalo!
Gouveia - Bom, bom, vamos. Tens aí o carro?
Lola - Não, que o Lourenço, coitado, foi passar uns dias em Caxambu. Vamos a pé. Bem
sei que tu tens vergonha de andar comigo em público, mas isso são luxos que deves perder!
Gouveia - Vamos! (À parte.) Hei de achar meio de escapulir...
Lola - Vamos (À parte.) Ou eu me engano, ou está liquidado! (Afastam-se. Entram pelo
outro lado Eusébio, Fortunata e Quinota, que os vêem sem serem vistos por eles.)



- Cena V -
Eusébio, Fortunata, Quinota

Fortunata - Olhe. Lá vai! É ele! É seu Gouveia com a mesma espanhola com quem estava
aquela noite no jardim do Recreio! ( Correndo a gritar.) - Seu Gouveia! Seu Gouveia!...
Eusébio (Agarrando-a pela saia.) - Ó senhora! Não faça escândalo! Que maluquice de
muié!...
Quinota (Abraçando o pai, chorosa.) - Papai, eu sou muito infeliz!
Eusébio - Aqui está! É o que a senhora queria!]
Fortunata - Aquilo é um desaforo que eu não posso admiti! O diabo do home é noivo de
nossa filha e anda por toda a parte cuma pilantra!
Eusébio - Que pelintra, que nada!... Não acredita, fia da minha bença. É uma prima dele.
Coitadinha! Chorando! (Beija-lhe os olhos.)
Quinota - Eu gosto tanto daquele ingrato!
Eusébio - Ele também gosta de ti... e há de casá contigo... e há de sê um bom marido!
Fortunata (Puxando Eusébio de lado.) - É perciso que você tome uma porvidência
quaqué, seu Eusébio - senão, faço uma estralada!...
Eusébio(Baixo.) - Descanse... Eu já tomei informação... Já sei onde mora essas espanhola...
Agora mesmo vou procurá ela. Vá as duas. Vá para casa! Eu já vou.
Fortunata - E Juquinha? Por onde anda aquele menino?
Eusébio - Deixe, que o pequeno não se perde... Está lá no tal Belódromo, aprendendo a
andá naquela coisa... Cumo chama?
Quinota - Bicicleta.
Eusébio - É. - Diz que é bom pra desenvorvê os músquios!
Fortunata - Desenvorvê a vadiação, é que é!
Quinota - Ele é tão criança!
Eusébio - Deixa o menino se adiverti. - Vão pra casa.
Quinota - Lá vamos para aquele forno!
Eusébio - Tem paciência, Quinota! Enquanto não se arranja coisa mió, a gente deve se
contentá c'aquele sote.
Fortunata - Vamo, Quinota!
Quinota - Não se demore, papai!
Eusébio - Não.
Fortunata (Saindo.) - Eu tô mas é doida pra me apanhá na fazenda! ( Eusébio leva ase
senhoras até o bastidor e, voltando-se, vê pelas costas Benvinda.)


- Cena VI -
Eusébio, Benvinda

Benvinda (Consigo.) - Parece que assim o meu andá tá direito...
Eusébio (Consigo.) - Xi que tentação! (Seguindo Benvinda.) Psiu!... Ó Dona... Dona!...
Benvinda (À parte.) - Esta voz... (Volta-se.) Sinhô Eusébio!
Eusébio - Benvinda!...
Benvinda (Assentando o face-en-main.) - Ó revoá.
Eusébio - A mulata de luneta, minha Nossa Senhora! Este mundo tá perdido!...
Benvinda ( Dando-se ares e sibilando os esses.) - Deseja alguma coisa? Estou as suas
ordes!
Eusébio - Ah! ah! ah! que mulata pernóstica! Quem havia de dizê! Vem cá, diabo, vem cá;
me conta tua vida!
Benvinda (Mudando de tom.) - Vam'cê não tá zangado comigo?
Eusébio - Eu não! Tu era senhora do teu nariz! O que tu podia tê feito era se despedi da
gente... Dona Fortunata não te perdoa! E seu Borge, quando soubé, há de ficá
danado, porque ele gosta de ti.
Benvinda - Se ele gostasse de mim, tinha se casado comigo.
Eusébio - Ele um dia me deu a entendê que se eu te desse um dote...
Benvinda - Vamcês ainda mora no hoté?
Eusébio - Não. Nós mudemo para um sote da Rua dos Inválido. Paguemo sessenta mil-réis.
Benvinda - Seu Gouveia já apareceu?
Eusébio - Apareceu e tudo tá combinado... (À parte.) O diabo é a espanhola!
Benvinda - Sinhá? nhãnhã? nhô Juquinha? tudo tá bom?
Eusébio - Tudo! Tudo tá bom!
Benvinda - Nhô Juquinha eu vejo ele às vez passá na Rua do Lavradio... com outros
menino...
Eusébio - Tá aprendendo a andá no... n... nesses carro de duas roda, uma atrás outra
adiante, que a gente trepa em cima e tem um nome esquisito...
Benvinda - Eu sei.
Eusébio - E tu, mulata?
Benvinda - Eu tô com seu Figueiredo.
Eusébio - Sei lá quem é seu Figueiredo.
Benvinda - Tou morando na Rua do Lavradio, canto da Rua da Relação. (Assentando o
face-en-main.) Se quisé aparecê não faça cerimônia. ( Sai requebrando-se.) Ó revoá!
Eusébio - Aí, mulata!


- Cena VII -
Eusébio, depois Juquinha

Eusébio - O curpado fui eu... Quando me alembro que seu Borge queria casá com ela...
bastava um dote, quaqué coisa... dois ou três conto de réis... mas deixa está: ele não
sabe de nada, e tarvez que a coisa ainda se arranje. Quem não sabe é como quem
não vê. (Vendo passar Juquinha montado numa bicicleta.) Eh! Juquinha... Menino,
vem cá!
Juquinha - Agora não posso, não, sinhô! (Desaparece.)
Eusébio - Ah! menino! Espera lá! (Corre atrás do Juquinha. Gargalhada dos circunstantes. Mutação.)


Quadro I
Quadro II
Quadro III e IV

Quadro V
Quadro VI
Quadro VII


Quadro VIII
Quadro IX
Quadro X
Quadro XI e XII