A Capital Federal
Artur Azevedo
Quadro III
( O Largo da Carioca. Muitas pessoas estão à
espera de bonde. Outras passeiam.)
- Cena I -
Figueiredo, Rodrigues, Pessoas do Povo
Coro
À espera do bonde elétrico
Estamos há meia hora!
Tão desusada demora
Não sabemos explicar!
Talvez haja algum obstáculo,
Algum descarrilamento,
Que assim possa o impedimento
Da linha determinar!
(Figueiredo e Rodrigues vêm ao proscênio. Rodrigues está
carregado
de pequenos embrulhos.)
Rodrigues - Que estopada,
hein?
Figueiredo - É tudo assim no Rio de Janeiro! Este serviço
de bondes é terrivelmente
malfeito! Não temos nada, nada, absolutamente nada!
Rodrigues - Que diabo! Não sejamos tão exigentes! Esta companhia
não serve mal. Não é
por culpa dela esse atraso. Ali na estação me disseram.
Na Rua do Passeio está
uma fila de bondes parados diante de um enorme caminhão, que levava
uma
máquina descomunal não sei para onde, e quadrou as rodas.
É ter um pouco de
paciência.
Figueiredo - Eu felizmente não estou à espera de bonde,
mas de coisa melhor.
(Consultando o relógio.) Estamos na hora.
Rodrigues - Ah! Seu maganão ... alguma mulher... Você nunca
há de tomar juízo!
Figueiredo - Uma trigueira... uma deliciosa trigueira!
Rodrigues - Continua então a ser um grande apreciador de mulatas?
Figueiredo - Continuo, mas eu digo trigueiras por ser menos rebarbativo.
Rodrigues - Pois eu cá sou o homem da família, porque entendo
que a família é a pedra
angular de uma sociedade bem organizada.
Figueiredo - Bonito!
Rodrigues - Reprovo incondicionalmente esse amores escandalosos, que ofendem
a moral
e os bons costumes.
Figueiredo - Ora não amola! Eu sou solteiro... não tenho
que dar satisfações a ninguém.
Rodrigues - Pois eu sou casado, e todos os dias agradeço a Deus
a santa esposa e os
adoráveis filhinhos que me deu! Vivo exclusivamente para a família.
Veja como
vou para casa cheio de embrulhos! E é isto todos os dias! Vão
aqui empadinhas,
doces, queijo, chocolate, andaluza, sorvetes de viagem, o diabo!... Tudo
gulodices!...
Figueiredo (Que preocupado, não lhe tem prestado grande atenção.)
- Não imagina você
como estou impaciente! É curioso! Não varia aos quarenta
anos esta sensação
esquisita de esperar uma mulher pela primeira vez! Note-se que não
tenho certeza
de que ela venha, mas sinto uns formigueiros subirem-me pelas pernas!
(Vendo
Benvinda.) Oh! Diabo! Não me engano! Afaste-se, afaste-se, que
lá vem ela!...
Rodrigues - Seja feliz. Para mim não há nada como a família.
(Afasta-se e fica
observando de longe.)
- Cena II -
Os mesmos, Benvinda
Benvinda (Aproximando-se
com uma pequena trouxa na mão.) - Aqui estou.
Figueiredo (Disfarçando o olhar para o céu.) _ Disfarça,
meu bem. (Pausa.) - Estás
pronta a acompanhar-me?
Benvinda (Disfarçando e olhando também para o céu.)
- Sim, sinhô, mas eu quero sabê se
é verdade o que o sinhô disse na sua carta...
Figueiredo (Disfarçando por ver um conhecido que passa e o cumprimenta.)
- Como
passam todos lá por casa? As senhoras estão boas?
Benvinda (Compreendendo.) - Boas, muito obrigado... Sinhá Miloca
é que tem andado
com enxaqueca.
Figueiredo (À parte.) - Fala mal, mas é inteligente.
Benvinda - O sinhô me dá memo casa pra mim morá?
Figueiredo - Uma casa muito chique, muito bem mobiliada, e uns vestidos
muito bonitos.
(Passa outro conhecido. O mesmo jogo de cena.) - Mas por que esta demora
com
a minha roupa lavada?
Benvinda - É porque choveu munto... não se pôde corá...
(Outro tom.) Não me fartará
nada?
Figueiredo - Nada! Não te faltará nada! Mas aqui não
podemos ficar. Passa muita gente
conhecida, e eu não quero que me vejam contigo enquanto não
tiveres outra
encadernação. Acompanha-me e toma o mesmo bonde que eu.
(Vai se afastando
pela direita e Benvinda também.) Espera um pouco, para não
darmos na vista.
(Passa um conhecido.) Adeus, hein? Lembranças à Baronesa.
Benvinda - Sim, sinhô, farei presente. (Figueiredo afasta-se, disfarçando
e desaparece
pela direita. Durante a fala que se segue, Rodrigues a pouco e pouco se
aproxima
de Benvinda.) Ora! isto sempre deve sê mió que aquela vida
enjoada lá da roça!
Ah! seu Borge! Seu Borge! Você abusou proque era feitô lá
da fazenda; fez o que
fez e me prometeu casamento... Mas casará ou não? Sinhá
e nhanhã ontem ficá
danada... Pois que fique!... Quero a minha liberdade! (Vai afastar-se
na direção
que tomou Figueiredo e é abordada pelo Rodrigues, que não
a tem perdido de
vista um momento.)
Rodrigues - Adeus, mulata!
Benvinda - Viva!
Rodrigues (Disfarçando.) - Dá-me uma palavrinha?
Benvinda - Agora não posso.
Rodrigues - Olhe, aqui tem o meu cartão... Se precisar de um homem
sério... de um
homem que é todo família...
Benvinda (Tomando disfarçadamente o cartão.) - Pois sim.
(Saindo, à parte) - O que não
farta é home... Assim queira uma muié... (Sai.)
Rodrigues (Consigo.) - Sim... lá de vez em quando... para variar...
não quero dizer que...
(Outro tom.) E o maldito bonde que não chega! (Afasta-se pela direita
e
desaparece.)
- Cena III -
Lola, Mercedes, Blanchette, Dolores, Gouveia, Pessoas do Povo
(As quatro mulheres entram da esquerda, trazendo
Gouveia quase à força.)
Quinteto
As mulheres
Ande pra frente,
Faça favor!
Está filado,
Caro senhor!
Queria ou não queira,
Daqui não sai!
Janta conosco!
Conosco vai!
Lola
Há tantos dias
Tu não me vias,
E agora qu'rias
Deixar-me só!
A tua Lola,
Meu bem, consola!
Dá-me uma esmola!
De mim tem dó!
As outras
Há tantos dias
Tu não a vias,
E agora qu'rias
Deixá-lo só!
A tua Lola,
Meu bem, consola!
Dá-lhe uma esmola!
Tem dó, tem dó!
Gouveia
Não me aborreçam!
Não me enfureçam!
Desapareçam!
Quero estar só!
Isto me amola!
Perco esta bola!
Querida Lola,
De mim tem dó!
Lola
Ingrato - já não me queres!
Tu já não gostas de mim!
Gouveia
São terríveis as mulheres!
Gosto de ti, gosto, sim!
Mas não serve este lugar
Pra tais assuntos tratar!
Lola
Então daqui saiamos!
Vamos!
Todas
Vamos!
Há tantos dias, etc...
Lola - Vamos a saber:
por que não tens aparecido?
Gouveia - Tu bem saber por quê.
Lola - A primeira dúzia falhou?
Gouveia - Oh! Não! Ainda não falhou, graças a Deus,
e por isso mesmo é que não a tenho
abandonado noite e dia! Não vês como estou pálido?
Como tenho as faces
desbotadas e os olhos encovados? É porque já não
durmo, é porque já me não alimento, é porque
não penso noutra coisa que não seja a roleta!
Lola - Mas é preciso que descanses, que te distraias, que espaireças
o espírito. Por isso
mesmo exijo que venhas jantar hoje comigo, quero dizer, conosco, porque,
como
vês, terei à mesa estas amigas, que tu conheces: a Dolores,
a Mercedes e a
Blanchette.
As Três - Então, Gouveia? Venha, venha jantar!...
Gouveia - Já deve Ter começado a primeira banca!
Lola - Deixa lá a primeira banca! Tenho um pressentimento de que
hoje não dá a primeira
dúzia.
Gouveia (Esquivando-se.) - Que é isto? Vocês estão
doidas! Reparem que estamos no
Largo da Carioca!
Lola - Vem! Não te faças de rogado!
As Três (Implorando.) - Gouveia!...
Gouveia - Pois sim, vamos lá! Vocês são o diabo!
Lola - Ai! E o meu leque?! Trouxeste-o, Dolores?
Dolores - Não.
Blanchette - Nem eu.
Mercedes - Tu deixaste-o ficar sobre a mesa, no Braço de Ouro.
Gouveia - Que foi?
Lola - Um magnífico leque, comprado, não há uma hora,
no Palais-Royal! Querem ver que
o perdi?
Gouveia - Pois sim, faze-me esse favor. (Arrependendo-se.) Não!
se tu vais à Rua do
Ouvidor, és capaz de encontrar lá algum amigo que leve para
o jogo.
Mercedes - E esta é a hora do recrutamento.
Lola - Vamos nós mesmas buscar o leque. Fica tu aqui muito quietinho
à nossa espera. É
um instante.
Gouveia - Pois vão e voltem.
Lola - Vamos! (Sai com as três amigas.)
- Cena IV -
Gouveia, depois, Eusébio, Fortunata, Quinota e Juquinha
Gouveia - Com esta
não contava eu. Daí - quem sabe? - como ando em maré
de
felicidade, talvez seja uma providência lá não ir
hoje. (Eusébio entra descuidado
acompanhado pela família, e, ao ver Gouveia, solta um grande grito.)
Eusébio - Oh!seu Gouveia! (Chamando.) Dona Fortunata!... Quinota!...
(Cercam
Gouveia.)
As Senhoras e Juquinha - Oh! seu Gouveia! (Apertam-lhe a mão.)
Eusébio - Seu Gouveia! ( Abraça-o . )
Gouveia (Atrapalhado.) - Sr. Eusébio... Minha senhora... Dona Quinota...
(À parte.)
Maldito encontro!...
Quarteto
Eusébio, Fortunata, Quinota e Juquinha
Seu Gouveia, finalmente,
Seu Gouveia apareceu!
Seu Gouveia está presente!
Seu Gouveia não morreu!
Eusébio
Andei por todas as rua,
Toda a cidade bati;
Mas de tê notícias sua
As esperança perdi!
Quinota
Mas ao meu anjo da guarda
Em sonhos dizer ouvi:
Sossega, que ele não tarda
A aparecer por aí!
Todos - Seu Gouveia,
finalmente, etc...
Fortunata - Ora, seu Gouveia! O sinhô chegou lá na fazenda
feito cometa, e começou a
namorá Quinota. Pediu ela em casamento, veio se embora dizendo
que vinha tratá
dos papé, e nunca mais deu siná de si! Isto se faz, seu
Gouveia?
Quinota - Mamãe...
Eusébio - Como Quinota andava apaixonada, coitadinha! Que não
comia, nem bebia, nem
dromia, nem nada, nós arresorvemo vi le procurá... porque
le escrevi três carta que
ficou sem resposta...
Gouveia - Não recebi nenhuma.
Eusébio - Então entreguei a fazenda a seu Borge, que é
home em que a gente pode confiá,
e aqui estemo!
Fortunata - O sinhô sabe que com moça de família não
se brinca... Se seu Eusébio não
soubé sê pai, aqui estou eu que hei de sabê sê
mãe!
Quinota - Mamãe, tenha calma... seu Gouveia é um moço
sério...
Gouveia - Obrigado, Dona Quinota. Sou, realmente, um moço sério,
e hei de justificar
plenamente o meu silêncio. Espero ser perdoado.
Quinota - Eu há muito tempo lhe perdoei.
Gouveia (À parte.) - Está ainda muito bonita! (Alto) Onde
moram?
Eusébio - No Grande Hoté da Capitá Federá.
Gouveia (À parte.) - Oh! Diabo! No meu hotel!!... Mas eu nunca
os vi!
Quinota -Mas andamos à procura de casa: não podemos ficar
ali.
Fortunata - É muito caro.
Gouveia - Sim, aquilo não convém.
Eusébio - Mas é muito difice achá casa. Uma agência
nos indicou uma, na Praia Fermosa...
Fortunata - Que chiqueiro, seu Gouveia!
Eusébio - Paguemo cinco mil-réis pra nos enchê de
purga!
Quinota - E era muito longe.
Gouveia - Descansem, há de se arranjar casa. (À parte.)
- E a Lola não tarda!
Eusébio - Como diz?
Gouveia - Nada... Mas, ao que vejo, veio toda a família?
Eusébio - Toda! - Dona Fortunata... Quinota ... o Juquinha...
Juquinha - A Benvinda.
Eusébio - Ah! É verdade! nos aconteceu uma desgraça!
Fortunata - Uma grande desgraça!
Gouveia - Que foi? Ah! Já sei... o senhor foi vítima do
conto do vigário!
Eusébio - Eu?... Então eu sou argum matuto?... Não
sinhô, não foi isso.
Juquinha - Foi a Benvinda que fugiu.
Quinota - Cale a boca!
Juquinha - Fugiu dum home!
Eusébio - Cala a boca, menino!
Juquinha - Foi Quinota que disse!
Fortunata - Cala a boca, diabo!
Eusébio - O sinhô se lembra da Benvinda.
Fortunata - Aquela mulatinha? Cria da fazenda?
Gouveia - Lembra-me.
Eusébio - Hoje de menhã, a gente se acorda-se... precura...
Fortunata - Quê dê Benvinda?
Gouveia - Pode ser que ainda a encontrem.
Fortunata - Mas em que estado, seu Gouveia!
Eusébio - E seu Borge já esta arresorvido a casá
com ela... Mas não fiquemo aqui...
Gouveia (Inquieto.) - Sim, não fiquemos aqui.
Eusébio - Temo muito que conversá, seu Gouveia. Não
quero que Dona Fortunata diga
que não sei sê pai... Quero sabê se o sinhô está
ou não está disposto a cumprir o que
tratou!
Gouveia - Certamente. Se Dona Quinota ainda gosta de mim...
Quinota ( Baixando os olhos.) - Eu gosto.
Gouveia - Mas vamos! Em caminho conversaremos. São contos largos!
Eusébio - Vamos jantá lá no hoté.
Eusébio - No hotel? Não! A linha está interrompida.
(À parte.) Era o que faltava! Ela lá
iria! (Alto.) Vamos ao Internacional.
Eusébio - Onde é isso?
Gouveia - Em Santa Teresa. Toma-se aqui o bonde elétrico.
Fortunata - O tá que vai pro cima do arco?
Gouveia - Sim, senhora.
Fortunata - Xi!
Gouveia - Não há perigo. Mas vamos! Vamos! (Dá o
braço a Quinota.)
Fortunata (Querendo separá-los.) - Mas...
Eusébio - Deixe. Isto aqui é moda. A senhora se alembre
que não estamo em S. João do
Sabará.
Juquinha - Eu quero i co Quinota!
Fortunata - Principia! Principia! Que menino, minha Nossa Senhora!
Gouveia (Vendo Lola.) - Ela. Vamos! Vamos! (Retira-se precipitadamente.)
Eusébio - Espere aí, seu Gouveia! Ande, Dona Fortunata!
Juquinha (Chorando.) - Eu quero i co Quinota! (Saem todos a correr pela
direita.)
- Cena V -
Lola, Mercedes, Dolores, Blanchette, Rodrigues, Pessoa do Povo
Lola - Então?
O Gouveia? Não lhes disse? Bem me arrependi de o Ter deixado ficar!
Não
teve mão em si e lá se foi para o jogo!
Mercedes - Que tratante!
Dolores - Que malcriado!
Blanchette - Que grosseirão!
Lola - E nada de bondes!
Mercedes - Que fizeste do teu carro?
Lola - Pois não te disse já que o meu cocheiro, o Lourenço,
amanheceu hoje com uma
pontinha de dor de cabeça?
Blanchette (Maliciosa.) - Poupas muito o teu cocheiro.
Lola - Coitado! É tão bom rapaz! (Vendo Rodrigues que se
tem aproximado aos poucos.)
Olá, como vai você?
Rodrigues (Disfarçando.) - Vou indo, vou indo... Mas que bonito
ramilhete franco-
espanhol! A Dolores... a Mercedes... a Blanchette... Viva la gracia!
Lola (Às outras.) - Uma idéia, uma fantasia: vamos levar
este tipo para jantar conosco?
As Outras - Vamos! Vamos!
Blanchette - Substituirá o Gouveia! Bravo!
Lola ( A Rodrigues.) - Você faz-nos um favor? Venha jantar com ramilhete
franco-
espanhol!!
Rodrigues - Eu?! Não posso, filha: tenho a família à
minha espera.
Lola - Manda-se um portador à casa com esses embrulhos.
Mercedes - os embrulhos ficam, se é coisa que se coma.
Rodrigues - Vocês estão me tentando, seus demônios
!
Lola - Vamos! Anda! Um dia não são dias!
Rodrigues - Eu sou um chefe de família!
Todas - Não faz mal!
Rodrigues - Ora adeus! Vamos! (Olhando para a esquerda.) Ali está
um carro. O próprio
cocheiro levará depois um recado à minha santa esposa...
disfarcemos... Vou alugar
o carro. (Sai.)
Todas - Vamos! (Acompanham-no.)
Pessoas do Povo - Lá vem afinal um bonde! Tomemo-lo! Avança!
(Correm todos. Música
na orquestra até o fim do ato. Mutação.)
Quadro IV
( A passagem de um bonde elétrico sobre os arcos. Vão dentro
do
bonde entre outros passageiros, Eusébio, Gouveia, D. Fortunata,
Quinota e Ju-
quinha. Ao passar o bonde em frente ao público, Eusébio
levanta-se entusias -
mado pela beleza do panorama.)
Eusébio - Oh! A Capitá Federá! A Capitá Federá!...
PANO