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A Capital Federal
Artur Azevedo


Quadro II
(Corredor. Na parede uma mão pintada, apontando para este letreiro:
"Agência de alugar casas. Preço de cada indicação, Rs.5$000, pagos
adiantados. Ao fundo um banco, encostado à parede.)

- Cena I -
Vítimas, entrando furiosas da esquerda, depois, Mota, Figueiredo

Coro
Que ladroeira!
Que maroteira!
Que bandalheira!
Pasmado estou!
Viu toda a gente
Que o tal agente
Cinicamente
Nos enganou!

Mota (Entrando da esquerda também muito zangado.) - Cinco mil-réis deitados fora!...
Cinco mil-réis roubados!... Mas deixem estar que... (Vai saindo e encontra-se com
Figueiredo, que entra da direita.)
Figueiredo - Que é isto, seu Mota? Vai furioso!
Mota - Se lhe parede que não tenho razão! Esta agência indica onde há casas vazias por
cinco mil-réis.
Figueiredo - Casas por cinco mil-réis? Barata feira!
Mota - Perdão; indica por cinco mil-réis...
Figueiredo (Sorrindo) - Bem sei, e é isso justamente o que aqui me traz. Resolvi deixar o
Grande Hotel da Capital Federal e montar casa. Esgotei todos os meios para obter
com que naquele suntuoso estabelecimento me levassem o café ao quarto às sete
horas em ponto. Como não estou para me zangar todas as manhãs, mudo-me. O
diabo é que não acho casa que me sirva. Dizem-me que nesta agência...
Mota - Volte, seu Figueiredo, volte, se não quer que lhe aconteça o mesmo que me
sucedeu e tem sucedido a muita gente! Indicaram-me uma casa no morro do Pinto,
com todas as acomodações que eu desejava... Você sabe o que é subir ao morro do
Pinto?
Figueiredo - Sei, já lá subi uma noite por causa de uma trigueira.
Mota - Pois eu subi ao morro do Pinto e encontrei a casa ocupada.
Figueiredo - Foi justamente o que me aconteceu com a trigueira.
Mota - Volto aqui, faço ver que a indicação de nada me serviu e peço que me restituam os
meus ricos cinco mil-réis. Respondem-me que a agência nada me restitui, porque
não tem culpa de que a casa se tivesse alugado.
Figueiredo - E não lhe deram outra indicação?
Mota - Deram. Cá está. (Tira um papel.)
Figueiredo (À parte.) - Vou aproveitá-la!
Mota - Mas provavelmente vale tanto como a outra!
Figueiredo (Depois de ler.) - Oh!
Mota - Que é?
Figueiredo - Esta agora não é má! Rua dos Arcos nº 100. Indicaram a casa da Minervina!
Mota - Que Minervina?
Figueiredo - Uma trigueira.
Mota - A do morro do Pinto?
Figueiredo - Não. Outra. Outra que eu lancei há quatro anos. Mudou-se para a Rua dos
Arcos não há oito dias.
Mota - Então? Quando lhe digo!
Figueiredo - As mulatas. Eu digo trigueiras por ser menos rebarbativo... Ainda agora está
lá no hotel uma família de Minas que trouxe consigo uma mucama... Ah, seu
Mota...
Mota - Pois atire-se!
Figueiredo - Não tenho feito outra coisa, mas não me tem sido possível encontrá-la a jeito.
Só hoje consegui meter-lhe uma cartinha na mão, pedindo-lhe que vá ter comigo ao
Largo da Carioca. Quero lançá-la!
Mota - Mas vamos embora! Estamos numa caverna!
Figueiredo - E é tudo assim no Rio de Janeiro... Não temos nada, nada, nada... Vamos...


- Cena II -
Os mesmos, Uma Senhora, depois Um proprietário

A Senhora (Vindo da esquerda.) - Um desaforo! Uma pouca vergonha!
Mota - Foi também vítima, minha senhora?
A Senhora - Roubaram-me cinco mil-réis!
Figueiredo - Também - justiça se lhes faça - eles nunca roubam mais do que isso!
A Senhora - Indicaram-me uma casa... Vou lá, e encontro um tipo que me pergunta se
quero um quarto mobiliado! Vou queixar-me...
Mota - Ao bispo, minha senhora! Queixemo-nos todos ao bispo!... (O proprietário entra e
vai atravessando a cena da direita para a esquerda, cumprimentando as pessoas
presentes.)
Figueiredo (Embargando-lhe a passagem.) - Não vá lá, não vá lá, meu caro senhor! Olhe
que lhe roubam cinco mil-réis.
O Proprietário - Nada! Eu não pretendo casa. O que eu quero é alugar a minha.
Os Três - Ah! (Cercam-no.)
A Senhora - Talvez não seja preciso ir à agência. Eu procuro uma casa.
Mota - E eu.
Figueiredo - E eu também.
A Senhora - A sua onde é?
O Proprietário - Se querem a indicação, venham cinco mil-réis de cada um!
Os Três - Hein?
O Proprietário - Ora essa! Por que é que a agência há de cobrar e eu não?
Mota - A agência paga impostos e é, apesar dos pesares, um estabelecimento legalmente
autorizado.
O Proprietário - Bem; como eu não sou um estabelecimento legalmente autorizado, dou a
indicação por três mil-réis.
Mota - Guarde-a!
Figueiredo - Dispenso-a!
A Senhora - Aqui tem os três mil-réis. A necessidade é tão grande que me submeto a todas
as patifarias!
O Proprietário (Calmo.) - Patifaria é forte, mas como a senhora paga... (Guarda o
dinheiro.)
A Senhora - Vamos!
O Proprietário - A minha casa é na Praia Formosa.
Mota e Figueiredo - Que horror!
O Proprietário - Um sobrado com três janelas de peitoril. Os baixos estão ocupados por
um açougue.
Mota e Figueiredo - Xi!
A Senhora - Deve haver muito mosquito!
O Proprietário - Mosquitos há em toda a parte. Sala, três quartos, sala de jantar, despensa,
cozinha, latrina na cozinha, água, gás, quintal, tanque de lavar e galinheiro.
A Senhora - Não tem banheiro?
O Proprietário - Terá, se o inquilino o fizer. A casa foi pintada e forrada há dez anos; está
muito suja. Aluguel, duzentos e cinqüenta mil-réis por mês. Carta de fiança
passada por negociante matriculado, trezentos mil-réis de posse e contrato por três
anos. O imposto predial e de pena d'água é pago pelo inquilino.
A Senhora - Com os três mil-réis que me surrupiou compre uma corda e enforque-se!
(Sai.)
Figueiredo (Enquanto ela passa.) - Muito bem respondido, minha senhora!
Mota - Com efeito!
O Proprietário - Mas os senhores...
Figueiredo (Tirando um apito do bolso.) - Se diz mais uma palavra, apito para chamar a
polícia.
O Proprietário - Ora vá se catar! (Vai saindo.)
Figueiredo - Que é? Que é? ... (Segue-o .)
O Proprietário - Largue-me!
Figueiredo - Este tipo merecia uma lição! (Empurrando-o .) Vamos embora! Deixá-lo!
Mota - Vamos!
O Proprietário (Voltando e avançando para eles.) - Mas eu...
Os Dois - Hein? (Atiram-se ao Proprietário, que foge, desaparecendo pela esquerda. Mota
e Figueiredo encolhem os ombros e saem pela direita, encontrando-se à porta com
Eusébio, que entra. O Proprietário volta e, enganado, dá com o guarda-chuva em
Eusébio, e foge. Eusébio tira o casaco para persegui-lo.)


- Cena III -
Eusébio, só; depois, Fortunata, Quinota, Juca, Benvinda

Eusébio - Tratante! Se eu te agarro, tu havia de vê o que é purso de mineiro! Que terra
esta, Minha Nossa Senhora, que terra esta em que um home apanha sem sabê por
quê? Mas onde ficou esta gente? Aquela Dona Fortunata não presta para subir
escada! (Indo à porta da direita.) Entra! É aqui! (Entra a família.)
Fortunata (Entrando apoiada no braço de Quinota.) - Deixe-me arrespirá um bocadinho!
Virge Maria! Quanta escada!
Eusébio - E ainda é no outro andá! Olhe! (Aponta para o letreiro.)
Juca (Vendo Eusébio a vestir o casaco.) - Mamãe, papai se despiu!
As Três - É verdade!
Eusébio - Tirei o casaco pra brigá! Não foi nada.
Fortunata - Não posso mais co'esta história de casa!
Quinota - É um inferno!
Benvinda - Uma desgraça!
Eusébio - Paciência. Nós não podemo ficá naquele hoté... Aquilo é luxo de mais e custa os
óio da cara! Como temo que ficá argum tempo na Capitá Federá, o mió é precurá
uma casa. A gente compra uns traste e alguma louça... Benvinda vai pra cozinha...
Benvinda (À parte.) - Pois sim!
Eusébio - E Quinota trata dos arranjo da casa.
Quinota - Mas a coisa é que não se arranja casa.
Eusébio - Desta vez tenho esperança de arranjá. Diz que essa agência é muito séria. Vamo!
Fortunata - Eu não subo mais escada! Espero aqui no corredô.
Eusébio - Tudo fica! Eu vou e vorto (Vai saindo.)
Juca (Chorando e batendo o pé.) - Eu quero i com papai! eu quero i com papai!
Fortunata - Pois vai, diabo!...
Eusébio - Vem! vem! Não chora! Dá cá a mão! (Sai com o filho pela esquerda.)


- Cena IV -
Fortunata, Quinota e Benvinda

Quinota - Mamãe, por que não se senta naquele banco?
Fortunata - Ah! É verdade! não tinha arreparado. Estou moída. (Senta-se e fecha os
olhos.)
Benvinda - Sinhá vai dromi.
Quinota - Deixa.
Benvinda (Em tom confidencial.) - Ó nhanhã?
Quinota - Que é?
Benvinda - Nhanhã arreparou naquele home que ia descendo pra baixo quando a gente
vinha subindo pra cima?
Quinota - Não. Que homem?
Benvinda - Aquele que mora lá no hoté em que a gente mora...
Quinota - Olha mamãe! (D. Fortunata ressona.)
Benvinda - Já está dromindo. Nhanhã arreparou?
Quinota - Reparei,sim.
Benvinda - Sabe o que ele fez hoje de menhã? Me meteu esta carta na mão!
Quinota - Uma carta? E tu ficaste com ela? Ah! Benvinda! (Pausa.) É para mim?
Benvinda - Pra quem havera de sê?
Quinota - Não está sobrescritada.
Benvinda (À parte, enquanto Quinota se certifica de que Fortunata dorme.) - Bem sei que
a carta é minha... O que eu quero é que ela leia pra eu ouvi.
Quinota - Dá cá. (Toma a carta e vai abri-la, mas arrepende-se.) Que asneira ia eu
fazendo!

Duetino
Quinota
Eu gosto do seu Gouveia:
Com ele quero casar;
O meu coração anseia
Pertinho dele pulsar;

Portanto a epístola
Não posso abrir!
Sérios escrúpulos
Devo sentir!

Benvinda
Está longe seu Gouveia;
Aqui agora não vem...
Abra a carta, a carta leia...
Não digo nada a ninguém!

Quinota
Não! não! a epístola
Não posso abrir!
Sérios escrúpulos
Devo sentir!

Entretanto, é verdade
Que tenho tal ou qual curiosidade,
Mamãe - eu tremo!
Dormindo está?

Benvinda
Sim, e ela memo
Respondeu já. (Fortunata tem ressonado)

Quinota
É feio,
Mas que importa? Abro e leio! (Abre a carta.)

Juntas
Quinota Benvinda
Eu sou curiosa! É bem curiosa!
Não sei me conter! Não há que dizê!
A carta amorosa A carta amorosa
Depressa vou ler! Depressa vai lê...

Ambas - Uê!...
Quinota (Lendo a carta.) - "Minha bela mulata."
Ambas - Uê!
Quinota (Lendo) - "Minha bela mulata. Desde que está morando neste hotel, tenho debalde
procurado falar-te. Tu não passas de uma simples mucama..." ( Dá a carta a
Benvinda.) A carta é para ti. (À parte.) Fui bem castigada.
Benvinda - Leia pra eu ouvi, nhanhã.
Quinota (Lendo.) - "Se queres Ter uma posição independente e uma casa tua..."
Benvinda - Gentes!
Quinota - "... deixa o hotel e vai ter comigo terça-feira, às quatro horas da tarde, no
Largo da Carioca, ao pé da charutaria do Machado."
Benvinda (À parte.) - Terça-feira... quatro hora...
Quinota - "Nada te faltará. Eu chamo-me Figueiredo."
Benvinda - Rasga essa carta, nhanhã! Veja só que sem-vergonha de home!
Quinota (Rasgando a carta.) - Se papai soubesse...
Benvinda (À parte.) - Figueiredo...

- Cena V -
As mesmas, Eusébio, Juquinha

Eusébio - Já tenho uma indicação!
D. Fortunata (Despertando.) - Ah! Quase pego no sono! (Erguendo-se.) Já temo casa?
Eusébio - Parece. O dono dela é o home com quem eu briguei indagorinha. Tinha me
tomado por outro. Vamo à Praia Fermosa pra vê se a casa serve.
D. Fortunata - Ora graça!
Benvinda (À parte.) - Perto da charutaria.
Eusébio ( Que ouviu.) - Não sei se é perto da charutaria, mas diz que o logá é aprazive; a
casa muito boa... Fica pro cima de um açougue, o que qué dizê que nunca fartará
carne! Vamo!
Quinota - É muito longe?
Eusébio - É; mas a gente vai no bonde...
Benvinda (À parte.) - Que Largo da Carioca! É os bondinho da Rua Direita! Vamo!
Juquinha - Eu quero i co Benvinda!
Fortunata - Vai co Benvinda. É perciso munta paciência para aturá este demônio deste
menino! (Saem todos.)
Benvinda (Saindo por último, com Juquinha pela mão.) - Terça-feira... quatro hora...
Figueiredo...

- Cena VI -

O Proprietário (Vindo da esquerda.) - Queira Deus que o mineiro fique com a casa... mas
não lhe dou dois meses para apanhar uma febre palustre! (Sai pela direita.
Mutação.)


Quadro I
Quadro II
Quadro III e IV<

Quadro V
Quadro VI
Quadro VII


Quadro VIII
Quadro IX
Quadro X
Quadro XI e XII