O
Cabeleira
Franklin Távora
Capítulo IV
Segundo as tradições
mais correntes e autorizadas o Cabeleira trouxe do seio materno
um natural brando e um coração benévolo. A
depravação, que tão funesta lhe foi depois,
operou?se dia por dia, durante os primeiros anos, sob a ação
ora lenta ora violenta do poder paterno, o qual em lugar de desenvolver
e fortalecer os seus belos pendores, desencaminhou o menino como
veremos, e o reduziu a uma máquina de cometer crimes.
Como é
possível porém que se houvesse abastardado por tal
forma a obra que saiu sem defeito das mãos da natureza ?
Como se compreende que uma organização sã se
tivesse corrompido ao ponto de exceder, no desprezo da espécie
humana, a fera cerval que se alimenta de sangue e carnes fumegantes,
não por uma aberração, mas por uma lei da sua
mesma animalidade ?
É que
a mais forte das constituições, ou índoles,
está sujeita a alterar?se sempre que as forças estranhas,
que atuam sobre a existência, vêm a achar?se em luta
com suas inclinações. Por mais enérgicas que
tais inclinações sejam, não poderão
resistir a estas três ordens de móveis das ações
humanas - o temor, o conselho e o exemplo - , que formam a base
da educação, segunda natureza, porventura mais poderosa
do que a primeira.
No caminho da
vida veio encontrar o Cabeleira a seu lado Joana, exemplo vivo e
edificante pela ternura, pela bondade, pelo espírito de religião
que a caracterizava. Em contraposição porém
a este salutar elemento de edificação, do outro lado
da criança achava?se Joaquim, não só naturalmente
mau, mas também obcecado desde a mais tenra idade na prática
das torpezas e dos crimes.
Boa mãe
era Joana, mas era fraca. Que podia a sua doçura contrastado
pela ameaça, pelo rigor, pela brutal crueldade daquele que
estava destinado a ser o primeiro algoz do próprio ente a
quem dera a existência ?
A mulher é
tanto mais forte, e a sua influência direta e decisiva na
formação dos costumes, quanto mais puro é somente
uma providência - sobretudo, ambiente do meio social onde
ela respira, e esclarecidos são os entes com quem coexiste.
Colocada em um tal centro, a mulher não é somente
uma providencia - sobretudo, uma divindade. As suas forças
elevam?se à altura das potências de primeira ordem,
e ordinariamente são potências triunfantes, onde quer
que seja o mundo moral, não um caos, mas uma criação
grandiosa e harmônica, em conformidade às leis da estética
cristã e às altas conquistas da civilização
que possuímos. As suas qualidades delicadas, fontes de grandezas
ímpares, tornam?se porém nulas ou são vencidas
sempre que entram em luta com a ignorância, com o vício,
com o crime.
Infelizmente
para o Cabeleira, grande animo que poderia ter vindo a ser uma das
glórias da pátria se a sua bravura e a sua firmeza
houvessem servido antes a causas nobres que a reprovados interesses
e cruéis necessidades, sua mãe dócil, posto
que ignorante, de bonitas ações, posto que nascida
de gente humilde, não só não pode exercitar
no infeliz lar a ação benéfica que à
esposa e mãe reservou a natureza, mas até foi, como
seu filho, uma vítima, não menos do que ele digna
de compaixão, um joguete dos caprichos e instintos brutais
daquele a quem ela havia ligado o seu destino, não para que
fosse o seu tirano mas para que a ajudasse a carregar a cruz da
pobreza.
Pela sua organização, pelos seus predicados naturais,
o Cabeleira não estava destinado a ser o que foi, nós
o repetimos. Os maus conselhos e os péssimos exemplos que
lhe foram dados pelo desnaturado pai converteram seu coração,
acessível em começo ao bem e ao amor, em um músculo
bastardo que só pulsava por fim a paixões condenadas.
Desgraçadamente estas paixões que nele escandalizaram
a sociedade coeva não desceram com seu corpo à sepultura.
Elas estão aí exercitando em nossos dias o seu terrível
império à sombra da ignorância que ainda nos
assoberba, e que em todas as terras e em todas as idades tem sido
considerada com razão a origem das principais desgraças
que afligem e destroem as famílias e os Estados.
Joana, a mãe
boa e fraca, viveu em luta incessante com Joaquim, o pai sem alma
nem coração. José foi sempre o motivo, a causa
desse combate sem tréguas, José, o filho sem sorte
que estava fadado a legar à posteridade um eloqüente
exemplo para provar que sem educação e sem moralidade
é impossível a família; e que a sociedade tem
o dever, primeiro que o direito, de obrigar o pai a proporcionar
à prole, ou de proporcioná?lo ela quando ele o não
possa, o ensino que forma os costumes domésticos nos quais
os costumes públicos se firmam e pelos quais se modelam.
Aos sete anos
de idade o pequeno já sabia matar passarinhos com seu bodoque,
presente que lhe fizera o pai com expressa recomendação
de amestrar?se em seu uso para que viesse a ser mais tarde um escopeteiro
consumado.
- Ó José,
ouve bem o que te vou dizer. Quando o sanhaçu ou bem?te?vi
não cair morto da bala do bodoque, mas só com uma
perna ou uma asa quebrada, não lhe apertes o pescoço
para que não esteja penando. Faze um espetinho de cabuatã,
e crava?o na titela do passarinho. Tu não sabes que os passarinhos
são diabinhos que nos perseguem, furando as laranjas e destruindo
as bananas do quintal ?
- Tenho pena,
papai, e não farei isso aos pobrezinhos - respondeu o menino.
- Tens pena,
tu, José ? Pois sabe que é preciso que percas esta
pena e que te vás acostumando a ser homem. Se hoje cravas
o espeto na titela do bem?te?vi, amanhã terás necessidade
de cravar a faca no peito de um homem; e se no momento da execução
tiveres a mesma pena, ai de ti ! que a mão te fraqueará,
e o homem te matará.
Uma manhã
José entrou saltando de contente, e trazendo um preá
que o fojo tinha apanhado.
- Ó papai,
como é que hei de matar este preá ?
Joana chamou
o menino para junto de si, tomou?lhe a presa que ele trazia, e pôs?se
a mirá?la com ternura.
- Olha, meu
filho, olha bem para ele. Não achas vivos e bonitos os olhos
do preazinho ? Que lindo pescoço ! Que mãos bem?feitas
! Que dizes, José ?
- É,
mamãe. Acho tudo bonitinho.
- E se o achas
bonitinho, para que o queres matar, meu filho ?
- Para aprender
a matar gente quando eu for grande.
- Matar gente!
José, José ! Quem te ensinou esta barbaridade ? Virgem
da Conceição !
- Foi papai,
mamãe.
- Não,
eu não consentirei, nem o céu permitirá que
levantes em tempo algum a tua mão para ofender a alguém.
Que desgraça, Mãe Santíssima! Como é
que Joaquim ensina semelhantes coisas ao filho ?
- De?me o meu
preá, mamãe. Quero espetá?lo vivo como fiz
ontem com o papa?capim.
- Ainda me vens
falar nisso ? - exclamou Joana consternada.
E levada de
uma inspiração ou de um repente irresistível,
chegou à porta que dava para o pequeno cercado onde o capinzal
crescia, e aí soltou o inocente prisioneiro.
José
chorou, gritou, esperneou, rolou pelo chão com raiva. Irritada
por este procedimento, para o qual ela foi buscar explicação
antes na inconveniente direção que a José ia
dando Joaquim que no impulso de reprovadas paixões de que
julgava isento o filho naturalmente dócil e terno, puxou?lhe
de leve pelas orelhas, dizendo?lhe que se outra vez judiasse com
os passarinhos lhe daria uma surra que ele havia de agradecer.
Quando Joaquim
voltou à casa, o menino correu a relatar?lhe o que tinha
acontecido. O mau marido, o péssimo pai ralhou com Joana
em quem por um triz não bateu; e para completar a lição
e o exemplo pernicioso, prometeu a José que o primeiro preá
que c fojo pegasse havia de ser sujeito a um gênero de morte
que ele ainda não conhecia.
O menino mal
pode dormir aquela noite. Nunca desejou tanto que a armadilha lhe
desse caça. A curiosidade de conhecer a nova forma de matar
os animais, prometida ao primeiro que tivesse a sorte de se deixar
apanhar, o teve por muito tempo na maior excitação
e vigília.
Pela manhã
correu José ao fojo, onde encontrou, em lugar de preá,
um coelho.
Era uma lindeza
o animal. Gordo, coberto de macio pelo em que se divisavam ligeiras
malhas tão alvas como o algodão que pendia dos capulhos
estalados acima de sua masmorra, o filho do campo despertava, pela
beleza das formas, e pela harmonia dos contornos, todos os sentimentos
benévolos de que é capaz o humano coração.
Os olhos reluziam como dois coquinhos polidos. O coração
batia?lhe precípite qual se quisesse sair?lhe pela boca.
E essa criatura tão cândida e inofensiva ia morrer!
Oh, meu Deus, por que extravagante e bárbara interpretação
das leis naturais há de o homem julgar?se com direito à
vida de semelhantes entes que mais merecem a sua proteção
do que desafiam a sua cobardia ?
Quando José,
irresistivelmente cativo da formosura da inocente criaturinha, estava
ainda admirando os seus encantos, um movimento violento arrancou?lhe
das mãos.
- Meu coelho
! - gritou o menino sentido de lhe terem arrebatado a graciosa presa.
- Ah, supunhas
que havias de por?me terra nos olhos, José ? Não,
este lindo animal não morrerá.
- Sim, sim,
mamãe; eu não o levarei a papai para o matar como
ele disse; não quero que o meu coelho morra. Ele é
tão bonitinho, que faz gosto. Quero criá?lo para mim,
para mim só, já ouviu, mamãe ? Meu coelhinho
tão bonitinho!
José
estava fortemente comovido, e Joana, fixando nele olhos perscrutadores,
leu em seu rosto a pureza e a sinceridade da sua comoção,
indício irrecusável, senão prova convincente,
da excelência das inclinações do filho. Todas
as hesitações que traziam seu espírito em contínua
inquietação dissiparam?se diante do enternecimento
do menino de cuja brandura e natural bondade já não
lhe foi lícito duvidar.
- Dê-me o meu bichinho, mamãe - Ó pediu José
quase chorando.
- Ele é
teu, José, e ninguém, ainda que seja teu pai, te privará
dele. Mas, antes que o tenhas contigo, quero saber por curiosidade
o que vais fazer do coelhinho.
- Ora ! Vou
levá?lo para casa. Levo logo daqui capim bem verde para ele
comer, e faço lá uma caminha no canto do meu quarto
para ele dormir junto de mim.
- E se teu pai
o quiser matar ?
- Pedirei a
papai que o não mate, não. Olhe, mamãe: o melhor
é eu ir esconder o coelhinho no mato sempre que meu pai estiver
para chegar. Deus me livre de ver meu coelho morrer.
- Deus te livre,
atrevido ! - Ó gritou ao pé da mulher e do filho o
mau marido, o pai desnaturado, carrasco da família antes
de sê?lo da sociedade e de si próprio.
E arrebatando
com rudeza bruta das mãos de Joana o pobre animal, fez gesto
de lhe quebrar a cabeça contra uma pedra que lhe ficava fronteira.
- Que queres
fazer, Joaquim ? - Ó interrogou Joana, não obstante
achar?se aterrada pela presença do marido.
- Ainda mo perguntas,
mãe cobarde que só sabes dar a teu filho lições
de mofineza ? Eu não quero meu filho para chorão.
- Mas eu também
não o quero para assassino.
- Hei de ensiná?lo
a ser valente. Há de aprender comigo jogar a faca, a não
desmaiar diante de sangue como desmaias tu, mulher sem espírito
que não tens animo para matar um bacorinho. Não sabes
que o assassino é respeitado e temido ? Queres que não
haja quem faça caso de teu filho ?
- Mas eu não
quero que meu coelhinho morra, papai.
- Que estás
tu a dizer, mal?ensinado ?
O menino quis
chorar, com o que se mostrou escandalizado por extremo o tirano
da família, que, para o fazer chorar com gosto, segundo disse,
lhe deu três ou quatro cipoadas fortes, depois das quais José
mal se pôde ter em pé. Joana, não podendo ver
o filho apanhar sem razão, partiu para Joaquim, a fim de
lhe tirar das mãos o pequeno, mas Joaquim repeliu?a com tanta
força, que a fez cair por terra; e voltando?se imediatamente
para José, perguntou?lhe com gesto e voz de aterrar:
- Então,
mata?se ou não se mata o coelho, José ?
- Mata?se, papai
- respondeu o pequeno com as faces banhadas de lágrimas ainda.
- Não
quero que chores. Quem é homem não chora; quem é
homem faz chorar.
E dando o andar
para a casa, com o filho pela mão:
- Vais ver agora
de que modo morre o coelho - disse com expressão que se não
pode descrever.
- Meus Deus, meu Deus ! Que desgraça esta, que desgraça
a minha! - exclamou Joana quando os viu desaparecer na volta do
caminho.
Os corações
maternais tem inspirações angélicas e grandes.
Joana, que não se havia levantado ainda, pôs?se de
joelhos no meio da natureza verde e esplêndida que a tinha
recebido em sua queda, e, elevando os olhos úmidos e tristes
ao céu profundo e belo que se estendia a perder de vista
acima de sua cabeça, enviou a Deus esta súplica cheia
de amor e filosofia:
- Senhor, Senhor,
protegei meu filho. Inspirai?lhe sentimentos brandos por quem sois,
meu Deus. Que ele seja bom, e que vos conheça e tema.
Não pode
ir adiante a desventurada mãe cuja voz fora embargada por
lágrimas violentas que lhe saltaram dos olhos contra o seu
querer. Mas de repente, como se tornasse em si de um sonho penoso
e achasse de novo todas as suas idéias um instante obliteradas
pela intensa dor, Joana fez em pedaços a tábua, e
entupiu com pedras e maravalhas o buraco que com aquela armava ciladas
aos inofensivos filhos do deserto. Tendo destruído a armadilha,
tomou o caminho de casa na qual se lhe deparou um espetáculo
em que ela nunca imaginara e que por um triz não abateu de
todo o seu cansado espírito. Uma forca havia sido levantada
com ramos verdes no terreiro em sua ausência, e dela pendia
por uma embira o coelho, minutos atrás cheio de vida, agora
morto, o pescoço distendido, os belos olhos empanados. José
não só não chorava mas até se mostrava
indiferente ao espetáculo repugnante, como se já não
fosse o mesmo que poucos instantes antes havia manifestado os mais
generosos sentimentos a favor da vítima. O reverso deste
recente passado representava?se agora aos olhos de Joana: o pequeno
prorrompia em aplausos a cada balanço que dava o corpo inanimado
do animal que Joaquim, por entre chutas grosseiras e de mau gosto,
impelia de quando em quando com a mão ensangüentada
e torpe.
Joana não
pôde conter, diante da cena final daquela tragédia
infame, a sua justa e bela indignação.
- Homem cruel,
onde aprendestes esta lição indigna que acabas de
ensinar a teu filho ?
A esta angélica
exprobração Joaquim respondeu com uma gargalhada de
desprezo que retumbou por toda a vizinhança.
- Quem matou
o coelho, José ? - perguntou Joana ao menino, para o qual
tinha a autoridade que não podia exercitar sobre o principal
responsável do estranho delito.
- Fui eu, mamãe.
Papai mandou que eu matasse, e por isso matei o coelho.
Joana volveu
novamente os olhos entristecidos a Joaquim, o qual não se
demorou a retorquir com a imprudência que o caracterizava:
- Fui eu mesmo
que o mandei. Que tens com isso ? Quererás tomar?me contas,
Joana ?
- Eu não,
Deus sim; Deus há de tomar?tas um dia, homem sem coração.
- Deus ! Quem
é Deus, toleirona ? Quem já o viu? Quem já
ouviu a sua voz ? Estás caducando, mulher.
Sem ter para
o seu tirano outra resposta que o silencio, Joana resignou?se a
dar?lha, e foi cair sobre um tamborete, com o rosto inundado novamente
de lágrimas.
Tempos depois
entrou José em casa gritando e chorando. Foi o caso, que,
tendo ele querido tomar de um menino do vizinho uma xícara
de arroz doce, o menino, que tinha mais idade, mais corpo e mais
forca do que ele, não só não se deixou esbulhar
de sua propriedade, mas até bateu em José com vontade,
sem contudo se sair ileso, porque José lhe pôs a cara
em sangue com as unhas, e lhe arrancou da coxa um pedaço
de carne com os dentes.
Sabendo do acontecido,
Joaquim fez de uma folha de facão velho um punhalzinho e,
chamando o filho, entregou?lhe a nova arma, mediante este discurso:
- Sabes para
que fim te dou este ferro José ? É para não
sofreres desaforo de ninguém, seja menino ou menina, homem
ou mulher, velho ou moço, branco ou preto o que te ofender.
Se alguma vez entrares em casa, como entraste hoje, apanhado, chorando,
ouve bem o que te estou dizendo, dou?te uma surra de tirar pele
e cabelo, e corto?te uma orelha para ficares assinalado. Toma o
ferro.
José
tinha então seus nove para dez anos, e ouviu a advertência
do pai com toda atenção, prometendo cumprir fielmente
as suas órdens.
Joana, que tudo
presenciara, e de certo tempo atrás adotara o alvitre de
não contrariar abertamente o marido para o não incitar
a maiores excessos, aguardou a sua ausência, e quando foi
tempo pregou a José as lições de moral que
seguem:
- Meu filho,
Deus, nosso pai, que está no céu, não pode
receber bem os feios atos a que teu pai, que está na terra,
te aconselhou há pouco. Para os mais velhos não tenhas
nunca expressões descorteses e muito menos ações
ofensivas; ainda que seja um negro, deves ter, embora não
sejas de sua qualidade, respeito pela idade dele. Seja a tua única
vingança, quando alguém te ofender, pacifica retirada;
não há vingança maior, nem mais digna: procedendo
deste modo, terás, meu filho, agradado a Deus e dado aos
homens mais bonito exemplo do que se houveres preferido, em resposta,
palavras injuriosas ou insultosas contra o teu ofensor. As armas
só servem para excitar à prática de crimes;
os homens bons não trazem consigo armas. Dá?me o punhal,
de que teu pai te fez presente e recebe em troca este rosário
que te dou para tua consolação nas tribulações.
Reza por estas contas, e encomenda?te todas as manhãs e todas
as noites a Deus. Assim praticando, virá a ser estimado de
todos e darás prazer a tua mãe que morreria de dor
e vergonha se te visse apartado do caminho do bem.
De que serviram
porém estes bons conselhos, se Joaquim, vendo mais tarde
o rosário no pescoço do filho, fez em pedaços
a enfiadura, espalhou as contas pelo chão, e chamou a mulher
feiticeira ?
Não ficou
aí a manifestação do seu desagrado. Voltando?se
para Joana:
- Se continuares
a fazer asneiras como esta - disse ele - , acabas queimada, bruxa;
e eu não respondo pelo que venha a praticar para impedir
que continues a contrariar as minhas determinações.
Quem avisa amigo é.
O pároco,
a cujo conhecimento chegou, por portas travessas, o escândalo,
mandou chamar Joaquim à sua presença, e lhe disse
que se ele repetisse a cena do rosário, ou obrasse ato idêntico,
seria ele Joaquim quem deveria de morrer queimado por crime de heresia.
Joaquim tornou à casa tão furioso, que puxou pela
faca para matar Joana, a quem atribuiu o mexerico; esta, porém.
não correu nem pediu que a socorressem; limitou?se a chorar
em silêncio a sua desgraça e a apelar para Deus a quem
não cessava de encomendar o filho em suas orações.
Depois de haver
esgotado o vocabulário dos epítetos infamantes contra
sua mulher, e dos convícios imundos contra o vigário,
determinou Joaquim de deixar a casa para se ir meter com José
no oco do mundo, palavras suas.
Que noite passou
Joana !
Não houve
rogativa, não houve lágrimas que abrandassem o coração
do mameluco. Desgraçada mãe, que pediste e choraste
em vão, em vão como sempre !
- Vai só,
Joaquim, já que me queres deixar; deixa porém comigo
meu filho; peço?te esta graça por tudo quanto há
sagrado na terra e no céu - disse ao marido a infeliz mulher
com angelical doçura, momentos antes da partida fatal.
- Nessa não
cai ! eu - replicou Joaquim. - Se José ficasse em tua companhia,
quando eu voltasse um dia por aqui, achava?o servindo ao vigário,
ou, pelo menos, feito sacristão.
José
entretanto, como querendo escusar?se às saudades da despedida,
encaminhou?se para o quintal donde se pôs a olhar para os
araçazeiros e goiabeiras em que ele foi encontrar novo motivo
de pesar com que não contava. Eis que uma menina de longos
cabelos castanhos, que estava brincando em um dos quintais contíguos,
foi tirá?lo da sua contemplação.
- Que está
você fazendo, José ?
- Ora ! Não
sabes que vou sair de casa, Luisinha ?
- Não
sabia, não.
- Pois vou,
e não sei quando voltarei. Estou triste. Tenho pena de deixar
mamãe.
- E de mim não
tem também pena ? - perguntou ela com suave ingenuidade.
- Tenho também,
sim; eu estava lembrando?me de você agora mesmo. Olhe, Luisinha:
se eu algum dia voltar você me quer para seu marido ?
- Eu lhe quero
muito bem, José. Mas não gosto quando você judia
com os passarinhos e dá pancadas nos meninos.
- Pois eu lhe
digo uma coisa: se algum dia eu chegar aqui de volta, tenha logo
por certo que não faço mais mal a ninguém.
Se pareço mau, Luisinha, não é por mim.
Deste inocente
colóquio os veio tirar a voz de Joaquim que chamava por José
para partirem. Pouco depois o pai e o filho deram as costas à
povoação. Joana ficou de cama.
Data desse dia
a vida que levaram até o momento de caírem no poder
da justiça. Não foi ela nada menos do que uma longa
série de atentados que dificilmente se acreditam. O número
destes atentados e as circunstâncias que os revestiram, não
há quem os saiba com individuação e clareza.
Muitos deles foram de todo esquecidos, na longa travessa de mais
de um século que se conta de sua perpetração;
e dos que assim se não perderam chegou aos nossos dias uma
notícia vaga, incompleta e por vezes tão escura, ou
tão confusa, que temos lutado com grandes dificuldades para,
por ela, recompor esta história.
É que as tradições do crime são menos
duradouras que as da virtude.
Há nisto uma lei salutar da Providência.