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O Cabeleira
Franklin Távora


Capítulo XV


O Cabeleira desapareceu no mato como desaparece o peixe no seio da corrente caudal.

Os milicianos, bem que homens igualmente rústicos, e conhecedores das florestas, não tinham todavia o longo uso da espessura, uso que, ainda neste particular, tornava superior a eles o valoroso malfeitor.

Espalharam-se em diferentes direções, a esmo, sem plano, e por isso sem probabilidade de bom resultado.

O piquete não era numeroso, e vinha quase debandado quando encontrou o Marcolino que denunciou o ponto onde havia deixado o fugitivo.

Poucos deram crédito às palavras do matuto, e só por desencargo da consciência alguns se prestaram a dar a busca que ele propôs, e que, a seu parecer, não podia deixar de surtir o desejado efeito.

Gastaram quase o dia inteiro na diligência.

Por fim, dissuadidos de descobrirem o assassino, cada um tomou o caminho mais curto para sua casa, dando alguns ao diabo o Marcolino por tê-los feito andar para dentro e para fora do mato inutilmente, e acreditar em esperanças que não se realizam.

- E veio você fazer-nos perder mais um dia, compadre Marcolino - disse um dos milicianos, aborrecido e fatigado do infrutífero lidar. - Nem você chegou a ver o Cabeleira. Viu algum rangedor de cachos compridos, e já pensou que era o mameluco.

- Eu não digo uma coisa por outra. Vi-o com estes olhos que a terra fria há de comer. Falei com ele como estou falando com você agora. Lá o ele ter voado como passarinho, ou Ter-se metido pela terra adentro como tatu ou jararaca, é caso à parte.

- Você viu periquito e cuidou que era arara ou canindé - replicou o miliciano.

- Compadre, você está fazendo pouco em mim. Ora, deixe-se disso, que eu não sou de lérias, como você bem sabe. É tão certo que vi o Cabeleira, que até lhe tomei o cavalo que ele me havia furtado, o meu alazão.

- Pois, então, pode montar no seu alazão e voltar à casa. De lembranças à comadre Maria e lance a bênção a meu afilhado Gazuza. Se encontrar outra vez o Cabeleira, de-lhe um abraço por mim, um beliscão e uma boquinha.

- Eu, se tivesse ainda o meu alazão, juro-lhe que havia de desencavar o Cabeleira, ou com a vida ou com a morte.

- E que fim levou o seu quartau ?

- Espaduou de muito andar. Parece que desde a hora em que o maldito demo o tirou do meu quintal não soube mais o que era comer nem beber, e andou num cortado.

- Se você quer servir-se do meu cavalo castanho, ele nos está ali ouvindo. Desta vez estou falando sério.

- Onde está ele ?

- No sítio do Felisberto, aonde o mandei com um costal de mandióca.

- Pois aceito, meu compadre, a sua proposta. Hei de mostrar-lhe que o que digo, digo. Se eu não descobrir neste matão, ou por estas beiradas de rio o Cabeleira, hei de saber notícias dele seja onde for. Também de uma coisa tenha você certeza: quando ouvir sua mulher dizer: "Aí vem o compadre Marcolino no cavalo castanho", fique logo sabendo que, se eu não deixei o Cabeleira na embira, o deixei no buraco.

Os dois matutos achavam-se na margem esquerda do Capibaribe.

Na margem oposta levantava-se, entre umas laranjeiras e uns oitizeiros, uma casa de bom parecer. Era a casa de Felisberto.

Eles atravessaram a vau o rio, e foram ter à graciosa habitação, que no meio daquele deserto atestava a existência de uma civilização rudimentar no lugar onde havia caído, sem tentativa de proveito para a sociedade que o sucedera, o gentilismo guarani digno de melhor sorte.

Do alto onde fora construída a habitação via-se o rio que corria na distancia de umas dezenas de braças, e desaparecia por entre umas lajes brancas no rumo de leste; do lado do ocidente mostravam-se as lavouras de Felisberto desde as proximidades da casa até onde a vista alcançava.

Felisberto aplicava-se quase exclusivamente à cultura da roça. No perímetro de vinte léguas em derredor era o lavrador que desmanchava mais mandioca no fabrico da farinha, que era de tão boa qualidade que competia no mercado do Recife com a farinha de Moribeca, já então afamada. Havia anos em que ele mandava para o Recife cerca de duzentos alqueires.

Um negro, uma negra, duas negrotas e três molecotes filhos dos dois primeiros faziam prodígios de valor na cultura das terras. Amanheciam no cabo da enxada e só se recolhiam quando faltava uma braça para o sol se esconder no horizonte. Estes escravos viviam porém felizes tanto quanto é possível viver feliz na escravidão. Não lhes faltava que comer e que vestir. Dormiam bem, e nos domingos trabalhavam nos seus roçados. Em algum dia grande faziam seu batuque, ao qual concorriam os negros das vizinhanças.

Quando o Felisberto se casou com a filha de Lourenço Ribeiro, mestre de açúcar do engenho Curcuranas, teve a feliz idéia de ir estabelecer-se naquele sítio que comprara com algumas economias que lhe legara um tio que vivera de arrematar dízimos de gado. Essas economias deram-lhe também para comprar duas moradinhas de casas e o negro André. Com a negra Maria, que a mulher lhe trouxera em dote, casou Felisberto o seu negro, na esperança de que em poucos anos a família escrava estaria aumentada, e por conseguinte aumentada também a fortuna do casal. Essa esperança foi brilhantemente confirmada.

Felisberto não estava em casa à chegada dos dois matutos. Havia ido à vila a negócio e ninguém sabia quando ele estaria de volta.

Eles tiraram para a casa de farinha, que ficava a um lado da casa de morada, e apresentava nesse momento um aspecto que não era o usual.

Estava-se fazendo farinha para ser a toda pressa mandada ao Recife, onde a grande falta que havia deste gênero assegurava pingue lucro ao vendedor.

Frutos do trabalho honesto e esforçado, o qual é sempre favorecido pela Providencia, não tinham sido de todo destruídos pela grande seca os roçados do Felisberto. Ele já enumerava muitos prejuízos, mas olhando em torno de si via ainda muito com que contar na tremenda crise que reduzira o geral da população da província a extrema penúria.

Era quase noite, e ainda chegavam animais com caçuás cheios de mandiocas que eram despejados nas tulhas já formadas destas raízes.

Mulheres sentadas pelo chão ou em cepos, ao pé dessas tulhas, tiravam as mandiocas uma a uma, e as iam raspando a quicé, e, atirando depois dentro de cestos que eram conduzidos para junto das rodas a fim de serem elas passadas pelos ralos que circulam estas.

A casa de farinha não era mais do que um vasto alpendre aberto por todos os lados e coberto de palhas de pindoba.

No centro via-se o forno onde tinha de ser cozida a massa já apertada pela prensa e livre da manipueira. Parte dela porém, tanto que saía do pé das rodas, era lavada em gamelas e alguidares onde deixava o resíduo ou goma para os beijus e tapiocas.

A prensa estava armada a um dos lados do alpendre; no outro viam-se as duas rodas que não cessavam de girar. Quando cansavam os matutos ou escravos que as moviam eram logo substituídos por gente fresca.

Os dois matutos ali bem conhecidos, foram saudados pelas pessoas que estavam trabalhando, e, como é costume em tais ocasiões ainda hoje, trataram eles de concorrer gratuitamente com o auxílio dos seus braços descansados, o que a muitos não deixou de ser agradável.

- Venha para cá, seu Marcolino. Pegue no veio da roda, e desmanche-me esta mandioca que está custosa de acabar - disse um.

- E eu ponho de boa vontade em sua mão, Marciano, este rodo. Não precisa mexer muito a massa: o forno não está muito quente e não há risco de queimar-se a farinha - disse outro.

- Prepara os beijus Mariquinhas - disse o Marciano a uma rapariguinha morena e cacheada que, com as mangas arregaçadas, lavava em um alguidar uma porção de massa.

Mariquinhas sorriu e continuou no seu trabalho que lhe absorvia toda a atenção.

Pouco depois chegaram dois cunhados de Felisberto, que tinham feito parte do regimento volante da freguesia.

- Então que fizeram ? - perguntaram muitos a uma voz logo que os viram entrar.

- Nada. Vocês pensam que pegar o Cabeleira é o mesmo que raspar mandioca, ou comer farinha mole ?

- Não o viram nem com os olhos, seu Quinquim ?

- Qual, senhor ! Cabeleira de minha vida !

- Encontramos muita onça, e muita cascavel, mas do Cabeleira nem novas nem mandado. Há quem diga que ele a esta hora já está nos sertões dos Cairiris.

- Qual Cairiris, senhor ! Amanhã hei de dar com esse dunga - disse o Marcolino.

- O compadre Marcolino jura que o viu hoje junto das cachoeiras do rio - acrescentou o Marciano.

- Mas não nos mostrou o cabra durante todo o dia - respondeu Agostinho.

- Está bem, senhores, não falemos mais nisso. Os senhores estão desfazendo agora no meu dizer, talvez amanhã a coisa já seja outra. Eu sou um pé-rapado, é certo, mas muito verdadeiro.

- Ninguém duvida de sua palavra, Marcolino.

Um negro que estava metendo lenha no forno virou-se então para o matuto, e, de improviso, lhe dirigiu este verso:

Vosmecê, seu Marcolino,
Vai atrás do Cabeleira ?
Se quiser pegar o cabra,
Monte na basta louceira.

Ainda bem não tinha terminado o seu repente, quando um caboclo que, a um canto do alpendre estava lavando em um cocho uma porção de mandioca, se saiu com esta resposta:

Monte na besta fouveira,
Ou no cavalo cardão,
Não há de pegar o cabra
No meio desse mundão.

Reinou então silêncio no alpendre para só se ouvirem os dois repentistas. Estava travado um desses desafios que são tão comuns nos sertões do Norte, e, muitas vezes, pela facilidade das rimas e originalidade dos conceitos, chegaram a oferecer versos que podem figurar entre os mais primorosos monumentos da literatura natal. O negro replicou:

Se você gosta do bicho
Porque rouba, e mata gente,
Veja que alguém não lhe tire
As orelhas pra presente.

O caboclo respondeu:

Mete, negro, a tua lenha
No teu forno, caladinho;
Mas não te metas com o homem;
Podes ficar sem focinho.
O negro:

Eu que sou negro nas cores
Mas não negro nas ações,
Se fosse atrás do malvado,
Cortava-lhe os esporões.

O caboclo:

Para o negro que se mete
Onde não lhe dão entrada
Não tem faca o Cabeleira,
Tem uma peia ensebada.

O negro:

Eu respeito a meus senhores
E senhoras que aqui estão;
Mas porém não levo em conta
Quem não teve criação.

O caboclo:

Caboclo do pé da serra,
Criado à beira do rio,
Eu sempre tratei com gente,
Porque sustento o meu brio.

O desafio, tão bem encaminhado, foi interrompido pela chegada de um cavaleiro. Era o Felisberto que voltava da vila.

A lida na casa de farinha continuou não obstante até alta noite, entre risos e cantigas.

O luar inundava o vasto pátio do sítio, e ia pratear as margens e águas do Capibaribe.

Viração intermitente agitava as folhas das macaibeiras e dendezeiros que se levantavam pela extrema das terras de Felisberto.

Cortava os ares o suave murmúrio das águas casado com o canto monótono dos curiangos, que pulavam pelos caminhos.

Pela madrugada, o Marcolino montou no cavalo castanho, atravessou o rio, e meteu
se no vasto deserto, ainda adormecido. Como quase todos os homens rústicos, era caprichoso, e entendia que se não cumprisse a sua palavra solenemente empenhada, ficaria sendo o ludíbrio de todos os que o conheciam. Preferia, a este extremo, morrer de fome e sede no mato, ou comido das onças, coisa em que, para dizermos, pouco cuidava. Todas suas idéias estavam voltadas para um centro único: descobrir o Cabeleira. Era este o seu ponto de honra.

Sabendo que o Cabeleira ordinariamente, quando se ausentava das matas de Santo Antão, aparecia nas de Pau d'Alho, tomou a direção desta povoação.

Pau d'Alho fazia então parte da freguesia de Iguaraçu, da qual foi desmembrada em 1799 para ser elevada a freguesia por proposta do visitador Joaquim Saldanha Marinho, nome que traz hoje com invejável brilho um dos maiores espíritos que conta o Brasil moderno. Passou a vila por alvará de 27 de julho de 1811, e a comarca pela lei provincial de 5 de maio de 1840.

Marcolino subiu pela margem do Capibaribe, e antes do meio
dia entrou na povoação que fica em terreno plano à beira deste rio. Nada lhe constou a respeito do Cabeleira.

Demorou-se o tempo estritamente necessário ao descanso do cavalo, e quando o sol quebrou pos-se novamente a caminho para Goitá, que fica quatro léguas distante de Pau d'Alho, e nesse tempo era um lugarejo de nenhuma importância, pertencente a Santo Antão.

Há loucuras transitórias que por tal modo revolucionam o espírito do homem, que o tornam capaz assim de grandes baixezas, como de virtudes ímpares. Feliz aquele que, sob a influencia de loucuras semelhantes, põe os seus esforços e sacrifícios ao serviço da humanidade ou de uma causa nobre.

Marcolino estava possuído de uma dessas loucuras.

Sem o pensar nem querer, tinha fatalmente arriscado a sua palavra, o seu brio, a sua honra. Estava apaixonado pelo lance, e era inevitavelmente arrastado a seu destino.

Deixando mulher e filhos, em duelo com a necessidade, vinha, como um cruzado, um peregrino, um apóstolo do bem, ou um visionário em busca de um ente que fazia tremer povoações inteiras, que preocupava o governo, que aparecia como fantasma, e desaparecia como uma sombra.

Este ente tinha à sua disposição o mato para o receber, os ecos para o avisarem da aproximação dos que o buscavam, os rios para encherem depois de sua passagem, as grutas para o esconderem, a natureza enfim para o disputar tenazmente aos homens, ao poder público, às leis, à justiça, ao próprio Deus segundo parecia.

A tardinha Marcolino estava no lugarejo. Debalde perguntou, debalde indagou. Não houve quem lhe desse novas do famoso bandido.

Aí pernoitou, mas não dormiu.

Muito cedo meteu-se nas matas.

A cabo de dois dias, consumidos sem resultado, entrou a cair em si. A razão tinha-se libertado da alucinação que a prendera em suas redes de aço. A sua doce luz reapareceram os caminhos que as trevas da paixão tinham encoberto ao olhos da vítima do sonho fatal.

Marcolino caíra em si no meio do deserto, ouvindo o rugir das feras, lutando com a fome.

Desanimado, envergonhado da sua fraqueza, resolveu voltar ao seio da família.

Então a imagem dos filhos e da mulher lhe apareceu na mente. Ele teve saudades da casa e quis partir à mesma hora; mas conhecendo os perigos a que se expunha se o fizesse, aguardou sôfrego a madrugada. Quando os horizontes começaram a desmaiar, e o brilho das estrelas a embranquecer, Marcolino pos-se a caminho.

Estava inteiramente outro.

A vergonha cobria-lhe o rosto, o medo dominava-lhe o espírito, na consciência doía-lhe o remorso de haver, sem o menor interesse pessoal, desamparado mulher e filhos nas garras da miséria.

O dono da casa onde ele havia pernoitado dois dias antes, ao qual devia, além desta, outras muitas obrigações, dera-lhe uma carta para ser entregue por ele ao senhor do Engenho Novo que de presente faz parte da freguesia de Pau d'Alho, e pertencia naquele tempo a Goiana.

Quando Marcolino chegou a Pau d'Alho, o cavalo estava cansado da viagem, e do mau passar durante ela. Para levar a carta a seu destino, teve o matuto de caminhar a pé. Ele viu nisso uma nova tribulação com que a sorte o punia da sua loucura.

Ao anoitecer, de um alto por onde passava o caminho antes de sair da mata que cercava o engenho pelo lado do sul, viu ele um homem correr gacheiro e cauteloso pelo aceiro afora, e entrar adiante no canavial.

Marcolino por um triz não caiu fulminado de espanto, sobressalto e satisfação ao mesmo tempo.

Tinha reconhecido nesse homem o Cabeleira.

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