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O Cabeleira
Franklin Távora


Capítulo XIII

O Cabeleira entretanto atravessava matos, riachos e tabuleiros por novos caminhos que, infatigável e ousado, ia abrindo, em direitura ao lugar do seu nascimento.

Sentia-se atraído para esse lugar por uma saudade infinda, por uma confiança enganosa e fatal.

Parecia-lhe que ninguém, nem a justiça dos homens nem a de Deus, na qual desde os mais verdes anos o tinham ensinado a não acreditar, teriam poder para arrancá-lo desses sombrios e protetores esconderijos, dessas grutas insondáveis, perpetuamente abertas às onças e a ele, perpetuamente fechadas ao restante dos animais e dos homens que não se animavam a transpor-lhes o escuro limiar com receio de ficarem sepultados para sempre em tão medonhos sarcófagos.

Tendo-se afastado do pé da mata onde haviam sido vencidos e capturados em seus redutos os outros malfeitores, descreveu uma oblíqua de cerca de uma légua no rumo do ocidente e desceu depois a uma distancia donde pudesse ter debaixo das vistas o Tapacurá, que lhe servia de guia através do sertão.

Estava em pleno deserto. Do lado direito protegiam-no estendidos tabocais e profundas gargantas de serra inacessíveis, sem habitação, sem viva alma; do outro lado do rio um espinhal basto, alguns serrotes escalvados, catingas sem fim, brejos combustos do calor do sol completavam o largo amparo que lhe abria em seu seio a natureza.

Com a seca abrasadora essa região, que nunca fora amena, ainda na forca do verde, estava inóspita, árida, cruel.

Via-se a espaços um pé de xiquexique perdido nos alvos tabuleiros, ou entre serros alcantilados, e junto do rio uma ingazeira com a folhagem coberta de samambaia, um juazeiro solitário e sem fruto.

Seria meio dia.

Bem que o Cabeleira pelo longo hábito de jornadear por dentro dos matos, e pelo cuidado que tinha de escusar importunos encontros, só à sombra das árvores fazia a travessa do deserto; contudo entraram ele e Luísa a experimentar o cansaço que o excessivo calor gera máxime durante uma viagem de muitas horas.

Luísa mal se podia ter sobre o cavalo, que nem ao menos oferecia o cômodo de uma regular montaria. A marcha do pobre animal tanto mais penosa tornava para os fugitivos quanto as forças lhe iam faltando em conseqüência do longo jejum, e da puxada viagem.

Desde muito tempo afeito a viver no deserto, tinha o Cabeleira adquirido uma virtude - sóbria, obra de longas privações, e fonte de admirável heroísmo; não assim Luísa, pobre menina, criada com grande afeto, e maternal solicitude.

Não tivera ela uma existência de gozos e grandezas, mas nunca lhe faltaram os cômodos que assegura a vida regrada da família, que, embora pobre, encontra no trabalho e na economia recursos folgados para todas as necessidades até alguns confortos. A sombra de um jatobá o Cabeleira parou, e, lançando o olhar por toda a natureza, que os abraçava como a imensidade abraça um ponto:

- Estamos fora de perigo - disse para Luísa.

Esta chorava em silêncio. Em seu rosto abatido, mas sempre belo transparecia a mágoa profunda que lhe minava o coração, onde se refletia a viva lembrança das cenas da noite anterior.

- De que chora, Luisinha ? - perguntou-lhe o bandido com doçura.

Só com a mudez e as lágrimas lhe respondeu a moça, em cujo espírito se haviam concentrado todas as sombras da tristeza, sombras espessas em que o sol a pino não pode lançar um raio de luz sequer.

- Está cansada, não é, meu amor? - perguntou o Cabeleira. - Estou para morrer. Sinto uma pena imensa no coração, e dores insuportáveis na cabeça.

- Não me queira mal, Luisinha, por eu ter sido a causa de todo este destroço.

- Não lhe quero mal; quero-lhe bem, muito bem, Cabeleira. Mas não posso esquecer-me de minha mãe, nem poderei resistir à minha desgraça, que eu considero muito maior do que a sua.

- Descansemos um pouco à sombra deste jatobá. Terei tempo de procurar algumas frutas para você comer.

- Não tenho fome, só tenho sede.

- Vamos então arranchar-nos debaixo daquela ingazeira, que fica a poucos passos do rio.

Tendo-se apeado ao pé da árvore indicada, o Cabeleira peou o cavalo em uma baixa que formava a margem, da qual não havia desaparecido de todo a grama nascida com o último inverno; e sem demora desceu ao poço contíguo para apanhar água em uma casca de sapucaia que descobriu por acaso entre umas folhas secas.

Notou que quanto mais se estendia a depressão do terreno para o lado do rio, mais aumentava a verdura que a revestia. Conheceu por fim que havia dado em uma vazante.

Semelhante achado pareceu-lhe coisa extraordinária naquelas alturas ínvias e desertas. Mas não se tinha enganado; a região que se lhe oferecia à vista não era de todo desabitada; ali brilhavam vestígios da mão do homem; ali havia o cunho de um esforço de que ele nunca fora capaz, o cunho do trabalho.

Era pequena a plantação, mas tida, ao que parecia, em alta conta por quem quer lhe consagrava os seus cuidados e vigilância.

Estava verde, limpa, matizada de frutos. Com os ramos do jerimunzeiro se confundiam as folhas lanceoladas do batateiral. Ao lado da melancia lourejava o melão, de que recendia suave cheiro; e dentre o entretecido de verdura formado pelo conjunto dos ramos rasteiros em que se achavam presos estes deliciosos presentes da terra, levantavam-se ao céu, de covas eqüidistantes, os pés de milho com seus pendões inclinados e suas corpulentas espigas, em torno das quais se esparziam os fulvos cabelos que costumavam adornar estes abençoados frutos.

É indescritível o prazer que sentiu o bandido ao deparar com aquele tesouro.

Tinha a seu alcance com que matar a fome, cujos efeitos começava a sentir, tinha um presente que oferecer à sua companheira, extenuada de fadiga.

Separar do pé com a faca, duas melancias, e quebrar algumas espigas foram operações que o Cabeleira praticou em menos de um minuto. O estalar do milho despertou um rapazito, que, achando-se ali para enxotar as maracanãs que destroem os milharais, adormecera ao calor do meio dia na extremidade da vazante debaixo de uma latada formada pelos ramos de um pé de maracujá que, com a frescura do solo, se mostrava verdejante e florido.

- Ladrão ! Ladrão ! - gritou o rapazito com valor e força superiores aos que o seu corpo e estatura prometiam.

E armado com um pau, investiu contra o Cabeleira, que a inesperada aparição deixara um instante perplexo com parte do furto em uma mão, e a faca nua na outra.

O rapaz ganhou em poucos passos a distância que o separava do bandido, e descarregou sobre a cabeça deste, sem dizer tir-te nem guar-te, o pau que trazia alçado. O Cabeleira em represália atirou-lhe um golpe com o intuito de cortá-lo de meio a meio, intuito que foi burlado por Luísa que-lhe havia pegado do braço a tempo de evitar a desgraça iminente.

- Cabeleira ! Queria fazer uma morte ainda ? Meu Deus, abrandai-lhe o coração.

- Luisinha, eu não sei bem o que queria fazer - disse o moço caindo em si. - Mas este dorminhoco deu-me com o seu graveto como se eu fosse algum pinto.

- Quero-lhe muito bem, meu amor - acrescentou a moça com a profunda ternura que, quando verdadeiramente quer e sente o que quer, a mulher sabe ter no olhar, no gesto, na voz. - Mas quando o vejo como agora de arma em punho, ameaçando com certeiros quais são os seus, a vida de alguém, sinto tão grande dor, que você não pode compreender o meu padecimento.

Cabeleira inclinou os olhos ao chão, meteu a faca na bainha e deu a andar com os frutos debaixo do braço.

- Para que traz você estes frutos consigo ? - perguntoulhe Luísa. - Eles não nos pertencem, e não podemos apossarnos, contra a vontade de seu dono, daquilo que não é nosso.

- Que vamos comer ? - perguntou muito naturalmente o mancebo.

- Comeremos o que nos der o mato. Deus está em toda parte, e não se esquece dos que invocam a sua proteção.

Cabeleira submisso e humildemente depôs as frutas no chão sem mais reparo. Quanto ao rapazito, guarda da vazante, havia desaparecido desde que ouvira pronunciar o nome, que de sul a norte significava, para grandes e pequenos, roubo e atrocidade.

Nova surpresa os esperava na margem, onde o bandido foi dar com dois indivíduos que de pé o olhavam do alto de uma pedra, tendo um deles pelo cabresto o árdego alazão, já livre da peia com que o atirara ao campo o Cabeleira.

Defronte da árvore, a cuja sombra os fugitivos haviam descansado, formava o terreno uma grande ribanceira.

Os desconhecidos estavam aí com a frente voltada para a vazante, o lado direito para o continente, e o esquerdo para o rio, que nessa altura era largo e profundo.

- Parece que você veio enganado, camarada - disse o Cabeleira, saltando em um minuto aos pés daquele que tinha pela mão o cavalo. - Este animal não lhe pertence.

- Este animal é meu no céu e na terra. Há dois dias o furtaram do meu roçado no Angico Torto. Pus-me na batida do ladrão, e finalmente vim dar com o meu cavalo. Ele é meu, tão certo como estou aqui. Tem o meu ferro na anca direita, e você o pode ver, se ainda não se quis dar a esse trabalho.

- Pois o que eu lhe digo, camarada, é que fosse ele de quem fosse, por mais homem que seja, ninguém será capaz de tirá-lo do meu poder.

- Isto agora é que havemos de ver - disse o desconhecido, batendo mão da faca que trazia no cós da ceroula e fazendo-se prestes para lutar pela reivindicação da sua propriedade.

- Monta no teu cavalo, Marcolino - gritou o outro desconhecido ao companheiro; - monta no teu cavalo e vai-te embora, que eu só sou demais para lamber este cabra.

Ainda bem não tinha acabado, quando cortava os ares um corpo semelhante a tronco de árvore que o furacão arrebata às florestas e arroja a distancias incomensuráveis. O fanfarrão fora jogado com todos seus bélicos aprestos dentro do poço pelas mãos possantes do famoso matador.

- Cabeleira ! - gritou Luísa, correndo ao lugar onde em menos de um instante se passara a inesperada cena.

Marcolino, que a esse tempo se achava montado no alazão, tendo ouvido este fatal apelido, deu de pernas ao cavalo e fugiu evidentemente aterrado como se a seus pés houvesse visto cair um raio.

O Cabeleira, entretanto, tinha corrido ao pé da ingazeira onde havia deixado o bacamarte quando se apeara. Mas não logrou levá-lo ao rosto para dispará-lo como pretendia, contra o fugitivo, porque Luísa, unindo-se com ele, e buscando arrancar-lhe a arma das mãos, lhe disse com voz magoada, entre exprobração e pranto:

- Por que não me tira a vida de uma só vez, Cabeleira ?

Diria que Luísa estava possuída de um espírito angélico.

- De ontem para cá - prosseguiu ela - tem jurado milhares de vezes não derramar mais sangue sobre a terra, e milhares de vezes tem quebrado seus juramentos ! Sempre que falta à sua palavra, atravessa sem o suspeitar o meu coração com sua faca. Não demore mais o meu penar, mate-me de uma vez. Perdôo-lhe a morte, por Deus lhe juro, por Deus que nos está ouvindo no meio desta solidão.

Luísa tinha-se insensivelmente ajoelhado aos pesdo bandido, e lhe abraçava as pernas com mostras de irrepreensível afeto. Dos olhos rolavam-lhe lágrimas como contas de rosário espedaçado.

Estático, e confuso, não achou José palavras para responder à exprobração e rogativas que aquele coração generoso ditava inspirado pela piedade de uma alma grande e terna.

- Não me fale assim, Luisinha - respondeu enfim o bandido, levantando-a e abraçando-a.-Quando eu a vejo chorar, sinto-me enfraquecer; quando você me pede alguma coisa, sou incapaz de negar-lhe, ou de resistir à sua vontade.

- Mas de que serve o que me diz, se não se esquece da sua vida tão triste e infeliz ? Cabeleira, por que não se há de tornar brando e terno como Luísa ? Olhe. A morte está mais perto de mim do que...

- A morte ! - exclamou o bandido.

- Sim; dentro em pouco eu o deixarei, mas enquanto não nos separarmos, poupe-me estas cenas que me transpassam o coração. Quando eu desaparecer de seus olhos, não se considere só no mundo. No lugar que meu corpo deixar vazio ao pé de si, há de ver sempre a alma benévola da pobre Luísa; ela o acompanhará por toda parte para inspirar-lhe os bons pensamentos e aconselhar-lhe a prática das boas ações. Por que não me dá consolação de reconhecer em você desde já um espírito arrependido dos passados erros ?

- Ah! Luisinha! Você me abranda com suas palavras, em sua presença eu me considero uma criança.

- É Deus que me ajuda a quebrar seus ímpetos, a moderar sua cólera. Ele há de ouvir todos meus rogos, há de inspirar-lhe horror ao sangue e aos instrumentos que o derramam.

Cabeleira, como se tivesse recebido nestas palavras aviso celeste, replicou:

- Não levantarei mais minha mão contra ninguém, Luisinha. Quer uma prova desta resolução ? Veja. É a maior que lhe posso dar.

Tirou o fuzil e a pedra do bacamarte, os quais meteu na algibeira da véstia.

E por um desses sublimes impulsos que só visitam o ho mem uma vez na vida, arremessou a arma dentro do rio. Este ato foi seguido de outro que o completou e confirmou. Batendo com a faca sobre uma pedra que ficava na ribanceira, fez saltar dentro da água metade da folha de aço que tinha cortado o fio de muitas vidas preciosas, e feito correr muito sangue inocente sobre a terra.

O bandido obrou estas duas ações com tanta fé e grandeza d'alma, que Luísa correu a ele dominada de peregrina comoção, e o apertou em seus braços.

Só o deserto foi testemunha desta grande cena, porque eles estavam, como havia poucos, sós.

O menino que guardava a vazante havia desaparecido logo que ouvira pronunciar o nome do Cabeleira.

Os dois desconhecidos, um salvo das águas, outro salvo do tiro iminente, tinham corrido a refugiar-se no seio da espessura.

- E agora, Luisinha, terá ainda alguma coisa que dizer de mim ? - perguntou José com ingenuidade infantil.

- Os meus rogos foram ouvidos por aquele que dali nos vê e ouve como pai misericordioso. O medo que eu tenho agora é que as tropas o peguem e o roubem de meus braços ! Oh ! fujamos já deste lugar. Quem sabe se aqueles homens não correram a denunciá-lo ! Misericórdia, meu Deus ! Que fazemos ainda aqui ?

Puseram-se no mesmo instante a caminho na direção do ocidente.

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