O
BISPO NEGRO (1130)
Alexandre Herculano
CAPÍTULO IV
Solene era
o espectáculo que apresentava a crasta da Sé de Coimbra.
O sol dava, com todo o brilho de manhã puríssimo,
por entre os pilares que sustinham as abóbadas dos cobertos
que cercavam o pátio interior. Ao longo desses cobertos caminhavam
os cónegos com passos lentos, e as largas roupas ondeavam-lhes
ao bago suave do vento matutino. No topo da crasta estava o príncipe
em pé, encostado ao punho da espada, e, um pouco atrás
dele, Lourenço Viegas e os dois pajens. Os cónegos
iam chegando e formavam um semicírculo a pouco distância
de el-rei, em cuja cervilheira de malha de ferro ferviam buliçosos
os raios do sol.
Toda a clerezia da Sé estava ali apinhada, e o príncipe,
sem dar palavra e com os olhos fitos no chão, parecia envolto
em fundo pensar. O silêncio era completo.
Por fim Afonso Henriques ergue o rosto carrancudo e ameaçador
e disse:
- Cónegos da Sé de Coimbra, sabeis a que vem aqui
o infante de Portugal?
Ninguém respondeu palavra.
- Se não sabeis, dir-vo-lo-ei eu - prosseguiu o príncipe
-: vem assistir à eleição do bispo de Coimbra.
- Senhor, bispo havemos. Não cabe aí nova eleição
- disse o mais e velho e autorizado dos cónegos que estavam
presentes e que era o adaião.
- Ámen - responderam os outros.
Esse que vós dizeis - bradou o infante cheio de cólera
-, esse jamais o será. Tirar-me quis ele o nome de filho
de Deus; eu lhe tirarei o nome do seu vigário. Juro que nunca
em meus dias porá Dom Bernardo pés em Coimbra: nunca
mais da cadeira episcopal ensinará um rebelde a fé
das santas escrituras! Elegei outro: eu aprovarei vossa escolha.
- Senhor, bispo havemos. Não cabe aí nova eleição
- repetiu o adaião.
- Ámen - responderam os mais.
O furor de Afonso Henriques subiu de ponto com esta resistência.
- Pois bem! - disse ele, com a voz presa na garganta, depois de
olhar terrível que lançou pela assembléia,
e de alguns momentos de silêncio. - Pois bem! Saí daqui,
gente orgulhosa e má! Saí, vos digo eu! Alguém
por vós elegerá um bispo...
Os cónegos, fazendo profundas reverências, encaminharam-se
para as suas celas, ao longo das arcarias da crasta.
Entre os que ali se achavam, um negro, vestido de hábitos
clericais, tinha estado encostado a um dos pilares, observando aquela
cena; os seus cabelos revoltos contrastavam pela alvura com a pretidão
da tez. Quando o príncipe falava, ele sorria-se e meneava
a cabeça, como quem aprovava o dito. Os cónegos começavam
a retirar-se, e o negro ia após eles. Afonso Henriques fez-lhe
um sinal com a mão. O negro voltou para trás.
- Como hás nome? - perguntou-lhe o príncipe.
- Senhor, hei nome Çoleima.
- És bom clérigo?
- Na companhia não há dois que sejam melhores.
- Bispo serás, Dom Çoleima. Vai tomar teus guisamentos,
que hoje me cantarás missa.
O clérigo recuou: naquela face tisnada viu-se uma contracção
de susto.
- Missa não vos cantarei eu, senhor - respondeu o negro com
voz trémula -, que para tal auto não tenho as ordens
requeridas.
- Dom Çoleima, repara bem no que te digo! Sou eu que te mando
vás vestir as vestiduras de missa. Escolhe: ou hoje tu subirás
os degraus do altar-mor da Sé de Coimbra, ou a cabeça
te descerá de cima dos ombros e rolará pelas lájeas
deste pavimento.
O clérigo curvou a fronte.
- Kirie-eleyson... Kirie-eleyson... Kirie-eleysom! - garganteava
daí a pouco Dom Çoleima, revestido dos hábitos
episcopais, junto ao altar da capela-mor. O infante Afonso Henriques,
o Espadeiro e os dois pajens, de joelhos, ouviam missa com profunda
devoção.
CAPÍTULO
V
Era noite.
Em uma das salas mouriscas dos nobres paços de Coimbra havia
grande sarau. Donas e donzelas, assentadas ao redor do aposento,
ouviam os trovadores repetindo ao som da viola e em tom monótono
suas magoadas endechas, ou folgavam e riam com os arremedilhos satíricos
dos truões e farsistas. Os cavaleiros, em pé, ou falavam
de aventuras amorosas, de justas e de bofordos, ou de fossados e
lides por terras de mouros fronteiros. Para um dos lados, porém,
entre um labirinto de colunas, que dava saída para uma galeria
exterior, quatro personagens pareciam entretidas em negócio
mais grave do que os prazeres de noite de folguedo o permitiam.
Eram estas personagens Afonso Henriques, Gonçalo Mendes da
Maia, Lourenço Viegas e Gonçalo de Sousa, o Bom. Os
gestos dos quatro cavaleiros davam mostras de que eles estavam vivamente
agitados.
- É o que afirma, senhor, o mensageiro - dizia Gonçalo
de Sousa - que me enviou o abade do mosteiro de Tibães, onde
o cardeal dormiu uma noite para não entrar em Braga. Dizem
que o papa o envia a vós, porque vos supõe herege.
Em todas as partes por onde o legado passou, em França e
em Espanha, vinham a lhe beijar a mão reis, príncipes
e senhores: a eleição de Dom Çoleima não
pode, por certo, ir avante...
- Irá, irá - respondeu o príncipe em voz tão
alta que as palavras reboaram pelas abóbadas do vasto aposento.
- Que o legado tenha tento em si! Não sei eu se haveria aí
cardeal ou apostólico que me estendesse a mão para
eu lha beijar, que pelo cotovelo lha não cortasse fora a
minha boa espada. Que me importam a mim vilezas dos outros reis
e senhores? Vilezas, não as farei eu!
Isto foi o que se ouviu daquela conversação: os três
cavaleiros falaram com o príncipe ainda por muito tempo;
mas em voz tão baixa, que ninguém percebeu mais nada.
CAPÍTULO
VI
Dois dias depois,
o legado do papa chegava a Coimbra: mas o bom do cardeal tremia
em cima da sua nédia mula, como se maleitas o houvessem tomado.
As palavras do infante tinham sido ouvidas por muitos, e alguém
as havia repetido ao legado.
Todavia, apenas passou a porta da cidade, revestindo-se de ânimo,
encaminhou-se direto ao alcáter real.
O príncipe saiu a recebê-lo acompanhado de senhores
e cavaleiros. Com modos corteses, guiou-o à sala do seu conselho,
e aí se passou o que ora ouvireis contar.
O infante estava assentado em uma cadeira de espaldas: diante dele
o legado, em um assento raso, posto em cima de um estrado mais elevado:
os senhores e cavaleiros cercavam o filho do conde Henrique.
- Dom cardeal - começou o príncipe -, que viestes
vós fazer a minha terra? Posto que de Roma só mal
me tenha vindo, creio me trazeis agora algum ouro, que de seus grandes
haveres me manda o senhor papa para estas hostes que faço
e com que guerreio, noite e dia, os infiéis da fronteira.
Se isto trazeis, aceitar-vos-ei: depois, desembaraçadamente
podeis seguir vossa viagem.
No ânimo do legado a cólera sobrepujou o temor, quando
ouviu as palavras do príncipe, que eram de amargo escárnio.
- Não a trazer-vos riquezas - atalhou ele -, mas a ensinar-vos
a fé vim eu; que dela parece vos esquecestes, tratando violentamente
o bispo Dom Bernardo e pondo em seu lugar um bispo sagrado com vossas
manoplas, vitoriado só por vós com palavras blasfemas
e malditas...
- Calai-vos, dom cardeal - gritou Afonso Henriques - que mentis
pela gorja! Ensinar-me a fé? Tão bem em Portugal como
em Roma sabemos que Cristo nasceu da Virgem; tão certo, como
vós outros romãos, cremos na Santa Trindade. Se a
outra cousa vindes, amanhã vos ouvirei: hoje ir-vos podeis
a vossa pousada.
E ergueu-se: os olhos chamejavam-lhe de furror. Toda a ousadia do
legado desapareceu como fumo; e, sem atinar com resposta, saiu do
alcácer.
CAPÍTULO
VII
O galo tinha
cantado três vezes: pelo arrebol da manhã, o cardeal
partia aforradamente de Coimbra, cujos habitantes dormiam ainda
repousadamente.
O príncipe foi um dos que despertaram mais cedo. Os sinos
harmoniosos da Sé costumavam acordá-lo tocando as
ave-marias: mas naquele dia ficaram mudos; e, quando ele se ergueu,
havia mais de uma hora que o Sol subia para o alto dos céus
da banda do Oriente.
- Misericórdia!, misericórdia! - gritavam devotamente
homens e mulheres à porta do alcácer, com alarido
infernal. O príncipe ouviu aquele ruído.
- Que vozes são estas que soam? - perguntou ele a um pajem.
O pajem respondeu-lhe chorando:
- Senhor, o cardeal excomungou esta noite a cidade e partiu: as
igrejas estão fechadas; os sinos já não há
quem os toque; os clérigos fecham-se em suas pousadas. A
maldição do santo padre de Roma caiu sobre nossas
cabeças.
Outras voz soou à porta do alcácer:
- Misericórdia!, misericórdia!
- Que enfreiem e selem o meu cavalo de batalha. Pajem, que enfreiem
e selem o meu melhor corredor.
Isto dizia o príncipe encaminhando-se para a sala de armas.
Aí envergou à pressa um saio de malha e pegou em um
montante que dois portugueses dos de hoje apenas valeriam a alevantar
do chão. O pajem tinha saído, e dali a pouco o melhor
cavalo de batalha que havia em Coimbra tropeava e rinchava à
porta do alcácer.
CAPÍTULO VIII
Um clérigo
velho, montado em uma alentada mula branca, vindo de Coimbra seguia
o caminho da Vimieira e, de instante a instante, espicaçava
os ilhais da cavalgadura com seus acicates de prata. Em outras duas
mulas iam ao lado dele dois mancebos com caras e meneios de beatos,
vestidos de opas e tonsurados, mostrando em seu porte e idade que
aprendiam ainda as pueris ou ouviam as gramaticais. Eram o cardeal,
que se ia a Roma, e dois sobrinhos seus, que o haviam acompanhado.
Entretanto o príncipe partida de Coimbra sozinho. Quando
pela manhã Gonçalo de Sousa e Lourenço Viegas
o procuraram em seus paços, souberam que era partido após
o legado. Temendo o carácter violento de Afonso Henriques,
os dois cavaleiros seguiram-lhe a pista à rédea solta,
e iam já muito longe quando viram o pó que ele alevantava,
correndo ao longo da estrada, e o cintilar do sol, batendo-lhe de
chapa na cervilheira, semelhante ao dorso de um crocodilho.
Os dois fidalgos esporearam com mais força os ginetes, e
breve alcançaram o infante.
- Senhor, senhor; aonde ides sem vossos leais cavaleiros, tão
cedo e açodadamente?
- Vou pedir ao legado do papa que se amerceie de mim...
A estas palavras, os cavaleiros transpunham uma assomada que encobria
o caminho: pela encosta abaixo ia o cardeal com os dois mancebos
das opas e cabelos tonsurados.
- Oh! ... - disse o príncipe. Esta única interjeição
lhe fugiu da boca; mas que discurso houvera aí que a igualasse?
Era o rugido de prazer do tigre, no momento em que salta do fojo
sobre a preia descuidada.
- Memento mei, Domine, secundum magnam misericordiam tuam! - rezou
o cardeal em voz baixa e trémula, quando, ouvindo o tropear
dos cavalos, voltou os olhos e conheceu Afonso Henriques.
Em um instante este o havia alcançado. Ao perpassar por ele,
travou-lhe do cabeção do vestido e, de relance, ergueu
o monante: felizmente os dois cavaleiros arrancaram as espadas e
cruzaram-nas debaixo do golpe, que já descia sobre a cabeça
do legado. Os três ferros feriram fogo; mas a pancada deu
em vão, aliás i crânio do pobre clérico
teria ido fazer mais de quadro redemoinhos nos ares.
- Senhor, que vos perdeis e nos perdeis, ferindo o ungido de Deus
- gritaram os dois fidalgos, com vozes aflitas.
- Príncipe - disse o velho, chorando -, não me faças
mal; que estou à tua mercê! - Os dois mancebos também
choravam.
Afonso Henriques deixou descair o montante, e ficou em silêncio
alguns momentos.
- Estás à minha mercê? - disse ele por fim.
- Pois bem! Viverás, se desfizeres o mal que causaste. Que
seja alevantada a excomunhão lançada sobre Coimbra,
e jura-me, em nome do apostólico, que nunca mais em meus
dias será posto interdito nesta terra portuguesa, conquistada
aos Mouros por preço de tanto sangue. Em reféns deste
pacto ficarão teus sobrinhos. Se, no fim de quatro meses,
de Roma não vierem letras de bênção,
tem tu por certo que as cabeças lhes voarão de cima
dos ombros. Apraz-te este contrato?
- Sim, sim! - respondeu o legado com voz sumida.
- Juras?
- Juro.
- Mancebos, acompanhai-me.
Dizendo isto, o infante fez um aceno aos sobrinhos do legado, que,
com muitas lágrimas, se despediu deles, e sòzinho
seguiu o caminho da terra de Santa Maria.
Daí a quatro meses, D. Çoleima dizia missa pontifical
na capela-mor da Sé de Coimbra, e os sinos da cidade repicavam
alegremente. Tinham chegado letras de bênção
de Roma; e os sobrinhos do cardeal, montados em boas mulas, iam
cantando devotamente pelo caminho da Vimieira o salmo que começa:
In exitu Israel de AEgypto.
Conta-se, todavia, que o papa levara a mal, no princípio,
o pacto feito pelo legado; mas que, por fim, tivera dó do
pobre velho, que muitas vezes lhe dizia:
- Se tu, santo padre, viras sobre ti um cavaleiro tão bravo
ter-te pelo cabeção, e a espada nua para te cortar
a cabeça, e seu cavalo, tão feroz, arranhar a terra,
que já te fazia a cova para ter enterrar, não sòmente
deras as letras, mas também o papado e a cadeira apostolical.