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Auto Representado na Festa de São Lourenço
José de Anchieta
 



TERCEIRO ATO


Depois de São Lourenço morto na grelha o Anjo fica em sua
guarda, e chama os dois diabos, Aimbirê e Saravaia, que
venham sufocar os imperadores Décio e Valeriano que estão
sentados em seus tronos.

ANJO

Aimbirê!
Estou chamando você.
Apressa-te ! Corre! Já!

AIMBIRÊ

Aqui estou! Pronto! O que há!
Será que vai me pender
de novo este passarão?

ANJO

Reservei-te uma surpresa:
tenho dois imperadores
para dar-te como presa.
De Lourenço, em chama acesa,
foram ele os matadores.

AIMBIRÊ

Boa! Me fazes contente!
À força os castigarei,
e no fogo os queimarei
como diabo eficiente.
Meu ódio satisfarei.

ANJO

Eia, depressa a afogá-los.
Que para o sol sejam cegos!
Ide ao fogo cozinhá-los.
Castiga com teus vassalos
estes dois sujos morcegos.

AIMBIRÊ

Pronto! Pronto!
Sejam tais ordens cumpridas!
Reunirei meus demônios.
Saravaia, deixa os sonhos,
traz-me de boa bebida
que temos planos medonhos!

SARAVAIA

Já de nego me pintei,
ó meu avô jaguaruna,
e o cauim preparei,
verás como beberei
nesta festa da fortuna.

Que vejo? Um temiminó?
Ou filho de guaianá?
Será esse um guaitacá
que à mesa do jacaré
sozinho vou devorar?
(Vê o Anjo e espanta-se.)

E este pássaro azulão,
quem será que assim me encara?
Algum parente de arara?

AIMBIRÊ

É o anjo que em nossa mão
põe duas presas bem raras.

SARAVAIA

Meus capangas, atenção!
Tataurana, Tamanduá,
vamos com calma por lá,
que esses monstros quererão
por certo me afogar.

AIMBIRÊ

Vamos!

SARAVAIA

Ai, os mosquitos me mordem!
Espera, ou me comerão!
Tenho medo, quem me acode.
Sou pequenino e eles podem
tragar-me de supetão.

AIMBIRÊ

Os índios que não se fiam
nesta conversa e se escondem
se os mandam executar.

SARAVAIA

Têm razão se desconfiam,
vivem sempre a se lograr.

AIMBIRÊ

Cala a boca, beberrão,
só por isso és tão valente,
moleirão impertinente!

SARAVAIA

Ai de mim, me prenderão,
mas vou por te ver contente.
E a quem vamos devorar?

AIMBIRÊ

A algozes de São Lourenço.

SARAVAIA

Aqueles cheios de ranço?
Com isto eu vou mudar
meu nome, de que me canso.

Muito bem! Suas entranhas
sejam hoje o meu quinhão.

AIMBIRÊ

Vou morder seu coração.

SARAVAIA

E os que não nos acompanham
sua parte comerão.
(Chama quatro companheiros para que os ajudem.)

Tataurana,
traze a tua muçurana.
Urubu, jaguaruçu,
traz a ingapema. Sús
Caborê, vê se te inflama
pra comer estes perus.
(Acodem todos os quatro com suas armas)

TATAURANA

Aqui estou com a muçurana
e os braços lhe comerei;
A Jaguaraçu darei
o lombo, a Urubu o crânio,
e as pernas a Caborê

URUBU

Aqui cheguei!
As tripas recolherei,
e com os bofes terei
a panela a derramar.
E esta panela verei
minha sogra cozinhar.

JAGUARUÇU

Com esta ingapema dura
as cabeças quebrarei,
e os miolos comerei.
Sou guará, onça, criatura,
e antropófago serei.

CABORÊ

E eu que em demandas andei
aos franceses derrotando,
para um bom nome ir logrando,
agora contigo irei
estes chefes devorando.

SARAVAIA

Agora quietos! De rastros,
não nos viram. Vou à frente.
Que não escapem da gente.
Vigiarei. No tempo exato
ataquemos de repente.
(Vão todos agachados em direção a Décio e Valeriano
que conversam)

DÉCIO

Amigo Valeriano
minha vontade venceu.
Não houve arte no céu
que livrasse do meu plano
o servo do Galileu.
Nem Pompeu e nem Catão
nem Cesar, nem o Africano,
nenhum grego nem troiano
puderam dar conclusão
a um feito tão soberano.

VALERIANO

O remate, grão-Senhor
desta tão grande façanha
foi mais que vencer Espanha.
Jamais rei ou imperador
logrou coisa tão estranha.

Mas, Senhor, esse quem é
que vejo ali, tão armado
com espadas e cordel,
e com gente de tropel
vindo tão acompanhado?

DÉCIO

É o grande deus nosso amigo,
Júpiter, sumo senhor,
que provou grande sabor
com o tremendo castigo
da morte deste traidor.

E quer, para reforçar
as penas deste rufião,
nosso império acrescentar
com sua potente mão,
pela terra e pelo mar.

VALERIANO

Mais me parece é que vem
a seus tormentos vingar,
e a nós ambos enforcar.
Oh! que cara feia tem!
Começo a me apavorar.

DÉCIO

Enforcar?
Quem a mim pode matar,
ou mover meus fundamentos?
Nem a exaltação dos ventos,
Nem a braveza do mar,
nem todos os elementos!

Não temas, que meu poder,
o que os deuses imortais
me quiseram conceder,
não se poderá vencer
pois não há forças iguais.

De meu cetro imperial
pendem reis, tremem tiranos.
Venço a todos os humanos,
e posso ser quase igual
a esses deuses soberanos.

VALERIANO

Oh, que terrível figura!
Não posso mais aguardar,
que já me sinto queimar!
Vamos, que é grande loucura
tal encontro aqui esperar.

Ai! ai! que grandes calores!
Não tenho nenhum sossego.
Ai, que poderosas dores!
Ai, que férvidos ardores,
que me abrasam como fogo!

DÉCIO

Oh, paixão!
Ai de mim, que é o Plutão
chegando pelo Aqueronte,
ardendo como tição
a levar-nos de roldão
ao fogo do Flegetonte.

Oh, coitado
que me queimo! Esse queimado
me queima com grande dor!
Oh, infeliz imperador!
Todo me vejo cercado
de penas e de pavor,

pois armado
o diabo com seu dardo
mais as fúrias infernais,
vêm castigar-nos demais.
Já nem sei o que hei falado
com angústias tão mortais.

VALERIANO

O Décio, cruel tirano!
Já pagas, e pagará
Contigo Valeriano,
porque Lourenço cristão
assado, nos assará.

AIMBERÊ

Ô Castelhano!
Bom Castelhano parece!
Estou bem alegre mano,
que Espanhol seja o profano
que no meu fogo padece.

Vou fingir-me castelhano
e usar de diplomacia
com Décio e Valeriano,
porque o espanhol ufano
sempre guarda a cortesia.

Oh, mais alta majestade!
Beijo-vos a mão mil vezes,
por vossa grã-crueldade
pois justiça nem verdade
guardastes, sendo juizes.

Sou mandado
por São Lourenço queimado,
levá-los à minha casa,
onde seja confirmado
vosso imperial estado
em fogo, que sempre abrasa.

Oh, que tronos e que camas
eu vos tenho preparadas,
nessas escuras moradas
de vivas e eternas chamas
de nunca ser apagadas!

VALERIANO

Ai de mim!

AIMBIRÊ

Vieste do Paraguai?
Que falais, em Carijó.
Sei todas línguas de cor.
Avança aqui, Saravaia!
Usa tu golpe maior!

VALERIANO

Basta! Que assim me assassinas,
não tenho pecado nada!
Meu chefe é a presa acertada.

SARAVAIA

Não, és tu que me fascinas,
ó presa bem cobiçada.

DÉCIO

Ó miserável de mim,
que nem basta ser tirano,
nem falar em castelhano!
Que é do mando em que me vi,
e o meu poder soberano?

AIMBIRÊ

Jesus, Deus grande e potente,
que tu, traidor, perseguiste,
te dará sorte mais triste
entregando-te em meu dente,
a que, malvado, serviste.

Pois me honraste,
e sempre me contentaste
ofendendo ao Deus eterno.
É justo pois que no inferno,
palácio que tanto amaste,
não sintas o mal do inverno.

Porque o ódio inveterado
do teu duro coração
não pode ser abrandado,
se não for já martelado
com a água do Flegeton.

DÉCIO

Olha que consolação
para quem se está queimando!
Sumos deuses, para quando
adiais minha salvação,
que vivo estou me abrasando?

Ai, ai! Que mortal desmaio!
Esculápio, não me acodes?
Oh, Júpiter, porque dormes?
Que é do vosso raio?
Por que é que não me socorres?

AIMBIRÊ

Que dizeis?
De que mal vós padeceis?
Que pulso mais alterado.
É grande dor de costado
este mal, que morreis!
Haveis de ser bem sangrado!

Há dias que esta sangria
se guardava para vós
que sangráveis, noite e dia,
com dedicada porfia
aos santos servos de Deus.
Muito desejo eu beber
vosso sangue imperial.
Oh, não me leveis a mal
que com isso quero ser
homem de sangue real.

DÉCIO

Que dizeis? Que disparate,
e elegante desvario!
Joguem-me dentro de um rio
antes que o fogo me mate,
ó deuses em que confio!

Não quereis
socorrer-me, ou não podeis?
Ó malditos fementidos,
ingratos desconhecidos,
que pouco vos condoeis
de quem fostes tão servidos!

Se agora voar pudesse,
vos iria derrocar
dos vossos tronos celestes,
feliz, se a mim me coubesse
no fogo vos projetar.

AIMBIRÊ

Parece-me que é chegada
a hora do frenesi,
e com chama redobrada,
a qual será descuidada
dos deuses a quem servis.

São armas
dos audazes cavaleiros
que usam palavrório humano.
E por isso, tão ufano,
hoje vindes acolhê-los
no romance castelhano.

SARAVAIA

Assim é.
Pensava dar, de revés,
golpes de afiados aços
mas enfim, nossos balaços
se chocaram através
com bem poucos canhonaços.

Mas que boas bofetadas
lhes reservo para dar!
Os tristes, sem descansar,
à força de tais pauladas
com cães hão de ladrar.

VALERIANO

Que ferida!
Tira-me logo esta vida
pois, minha alta condição,
contra justiça e razão
veio a ser tão abatida
que morro como ladrão!

SARAVAIA

Não é outro o galardão
que concedo aos meus criados,
senão morrer enforcados,
e depois, sem remissão,
ao fogo ser condenados!

DÉCIO

Essa é a pena redobrada
que me causa maior dor:
que eu, universal senhor,
morra morte desonrada
na forca como traidor.

Ainda se fosse lutando,
dando golpes e reveses,
pernas e braços cortando,
como fiz com os franceses,
acabaria triunfando.

AIMBIRÊ

Parece que estais lembrando,
poderoso imperador,
quando, com bravo furor,
matastes, traição armando,
Felipe, vosso senhor.
Por certo que me alegrais
e se cumpre meus anseios
ante desabafos tais,
porque o fogo em que queimais
provoca tais devaneios.

DÉCIO

Bem entendo
que este fogo em que me acendo
merece-me a tirania,
pois com tão feroz porfia
aos cristãos martirizando
pelo fogo os consumia.

Mas que em minha monarquia
acabe com tal pregão
pois morrer como ladrão
é muito triste agonia
e dobrada confusão.

AIMBIRÊ

Como? Pedis confissão?
Sem asas quereis voar?
Ide, se quereis achar
aos vossos atos perdão,
à deusa Pala rogar.

Ou a Nero,
esse cruel carniceiro
do fiel povo cristão.
Aqui está Valeriano,
vosso leal companheiro,
buscai-o por sua mão!

DÉCIO

Esses amargos chistes
e agressões
me acrescentam em paixões
e mais dores,
com tão profundos ardores
como de ardentes tições

E com isto crescem mais
os fogos em que padeço.
Acaba, que me ofereço
em tuas mãos, Satanás,
ao tormento que mereço.

AIMBIRÊ

Oh, quanto vos agradeço
por esta boa vontade!
Eu, com liberalidade
quero dar-lhe bom refresco
para vossa enfermidade.

Na cova
onde o fogo se renova
com ardores perenais,
os vossos males fatais
aí terão grande prova
das agruras imortais.

DÉCIO

Que fazer, Valeriano,
bom amigo!
Testemunharás comigo
desta pena
envolvido na cadeia
de fogo, deste castigo.

VALERIANO

Em má hora! Já são horas...
Vamos logo
deste fogo ao outro fogo eternal,
lá onde a chama imortal
nunca nos dará sossego.

Sús, asinha!
Vamos à nossa cozinha,
Saravaia!

AIMBIRÊ

Aqui deles não me afasto.
Nas brasas serão bom pasto,
maldito quem nelas caia.

DÉCIO

Aqui abrasado estou!
Assa-me Lourenço assado!
De soberano que sou
vejo que Deus me marcou
por ver seu santo vingado!

AIMBIRÊ

Com efeito
quiseste abrasar a jeito
o virtuosos São Lourenço.
Hoje te castigo e venço
e sobre as brasas te deito
para morrer, segundo penso.
(Sufocam-nos e entregam aos quatro beleguins, e cada
dois levam o seu.)

Vinde aqui
e aos malditos conduzi
para em bom queimarem,
seus corpos sujos tostarem,
na festa em que os seduzi
para cozidos bailarem
(Ficam ambos os demônios no terreiros com as coroas
dos imperadores na cabeça.)

SARAVAIA

Sou o grande vencedor,
o que as más cabeças quebra,
sou um chefe de valor
e hoje me decido por
me chamar Cururupeba.

Como eles,
mato os que estão em pecado,
e os arrasto em minhas chamas.
Velhos, moços, jovens, damas,
tenho sempre devorado.
De bom algoz tenho fama.
Primeiro
Segundo
Terceiro
Quarto
Quinto