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Auto Representado na Festa de São Lourenço
José de Anchieta
 



SEGUNDO ATO


(Eram três diabos que querem destruir a aldeia com
pecados, aos quais resistem São Lourenço, São Sebastião e
o Anjo da Guarda, livrando a aldeia e prendendo os
tentadores cujos nomes são: Guaixará, que é o rei; Aimbirê
e Saravaia, seus criados)

GUAIXARÁ

Esta virtude estrangeira
Me irrita sobremaneira.
Quem a teria trazido,
com seus hábitos polidos
estragando a terra inteira?

Só eu
permaneço nesta aldeia
como chefe guardião.
Minha lei é a inspiração
que lhe dou, daqui vou longe
visitar outro torrão.

Quem é forte como eu?
Como eu, conceituado?
Sou diabo bem assado.
A fama me precedeu;
Guaixará sou chamado.

Meu sistema é o bem viver.
Que não seja constrangido
o prazer, nem abolido.
Quero as tabas acender
com meu fogo preferido

Boa medida é beber
cauim até vomitar.
Isto é jeito de gozar
a vida, e se recomenda
a quem queira aproveitar.

A moçada beberrona
trago bem conceituada.
Valente é quem se embriaga
e todo o cauim entorna,
e à luta então se consagra.

Quem bom costume é bailar!
Adornar-se, andar pintado,
tingir pernas, empenado
fumar e curandeirar,
andar de negro pintado.

Andar matando de fúria,
amancebar-se, comer
um ao outro, e ainda ser
espião, prender Tapuia,
desonesto a honra perder.

Para isso
com os índios convivi.
Vêm os tais padres agora
com regras fora de hora
prá que duvidem de mim.
Lei de Deus que não vigora.

Pois aqui
tem meu ajudante-mor,
diabo bem requeimado,
meu bom colaborador:
grande Aimberê, perversor
dos homens, regimentado.

(Senta-se numa cadeira e vem uma velha chorar junto dele.
E ele a ajuda, como fazem os índios. Depois de chorar,
achando-se enganada, diz a velha)

VELHA

O diabo mal cheiroso,
teu mau cheiro me enfastia.
Se vivesse o meu esposo,
meu pobre Piracaê,
isso agora eu lhe diria.

Não prestas, és mau diabo.
Que bebas, não deixarei
do cauim que eu mastiguei.
Beberei tudo sozinha,
até cair beberei.
(a velha foge)

GUAIXARÁ

(Chama Aimberê e diz:)

Ei, por onde andavas tu?
Dormias noutro lugar?

AIMBIRÊ

Fui as Tabas vigiar,
nas serras de norte a sul
nosso povo visitar.

Ao me ver regozijaram,
bebemos dias inteiros.
Adornaram-se festeiros.
Me abraçaram , me hospedaram,
das leis de deus estrangeiros.

Enfim, confraternizamos.
Ao ver seu comportamento,
tranqüilizei-me. Ó portento!
Vícios de todos os ramos
tem seus corações por dentro.

GUAIXARÁ

Por isso
no teu grande reboliço
eu confio, que me baste
os novos que cativaste,
os que corrompeste ao vício.
Diz os nomes que agregaste.

AIMBIRÊ

Gente de maratuauã
no que eu disse acreditaram;
os das ilhas, nestas mãos
deram alma e coração;
mais os paraibiguaras.

É certo que algum perdi,
que os missionários levaram
a Mangueá. Me irritaram.
Raivo de ver os tupis
que do meu laço escaparam.

Depois
dos muitos que nos ficaram
os padres sonsos quiseram
com mentiras seduzir.
Não vê que os deixei seguir -
ao meu apelo atenderam.

GUAIXARÁ

De que recurso usaste
para que não nos fugissem?

AIMBIRÊ

Trouxe aos tapuias os trastes
das velhas que tu instruíste
em Mangueá. Que isto baste.

Que elas são de fato más,
fazem feitiço e mandinga,
e esta lei de Deus não vinga.
Conosco é que buscam a paz,
no ensino de nossa língua.

E os tapuias por folgarem,
nem quiseram vir aqui.
De dança os enlouqueci
para a passagem comprarem
para o inferno que acendi.

GUAIXARÁ

Já chega.
Que tua fala me alegra,
teu relatório me encanta.

AIMBIRÊ

Usarei de igual destreza
para arrastar outras presas
nesta guerra pouco santa.

O povo Tupinambá
que em Paraguaçu morava,
e que de Deus se afastava,
deles hoje um só não há,
todos a nós se entregaram.

Tomamos Moçupiroca,
Jequei, Gualapitiba,
Niterói e Paraíba,
Guajajó, Carijó-oca,
Pacucaia, Araçatiba

Todos os tamoios foram
Jazer queimando no inferno.
Mas há alguns que ao Padre Eterno
fiéis, nesta aldeia moram,
livres do nosso caderno.

Estes maus Temiminós
nosso trabalho destroem.

GUAIXARÁ

Vem tentá-los que se moem
a blasfemar contra nós.
Que bebam, roubem e esfolem.

Que provoquem muitas lutas,
muitos pecados cometam,
por outro lados se metam
longe desta aldeia, à escuta
dos que as nossas leis prometam.

AIMBIRÊ

É bem difícil tentá-los.
Seu valente guardião
me amedronta.

GUAIXARÁ

E quais são?

AIMBIRÊ

É São Lourenço a guiá-los,
de Deus fiel Capitão.

GUAIXARÁ

Qual? Lourenço o consumado
nas chamas qual somos nós?

AIMBIRÊ

Esse.

GUAIXARÁ

Fica descansado.
Não sou assim tão covarde,
será logo afugentado.

Aqui está quem o queimou
e ainda vivo o cozeu.

AIMBIRÊ

`Por isso o que era teu
ele agora libertou
e na morte te venceu.
Há também o seu amigo
Bastião, de flechas crivado.

GUAIXARÁ

O que eu deixei transpassado?
Não faças broma comigo
que sou bem desaforado.
Ambos fugirão logo
aqui me virem chegar.

AIMBIRÊ

Olha que vais te enganar!

GUAIXARÁ

Tem confiança, te rogo,
que horror lhes vou inspirar.

Quem como eu nas terras existe
que até Deus desafiou?

AIMBIRÊ

Por isso Deus te expulsou,
e do inferno o fogo triste
para sempre te abrasou.

Eu lembro de outra batalha
em que Guaixará entrou.
Muito povo te apoiou,
e, inda que lhes desses forças,
na fuga se debandou.

Não eram muitos cristãos.
Contudo nada ficou
da força que te inspirou,
pois veio Sebastião,
na força fogo ateou.

GUAIXARÁ

Por certo aqueles cristãos
tão rebeldes não seriam.
Mas esses que aqui estão
desprezam a devoção
e a Deus não reverenciam.

Vais ver como em nossos laços
caem, logo estes malvados!
De nossos dons confiados,
as almas cederam passo
para andar do nosso lado.

AIMBIRÊ

Assim mesmo tentarei.
Um dia obedecerão.

GUAIXARÁ

Ao sinal de minha mão
os índios te entregarei.
E à força sucumbirão.

AIMBIRÊ

Preparemos a emboscada.
Não te afobes. Nosso espia
verá em cada morada
que armas nos são preparadas
na luta que se inicia.

GUAIXARÁ

Muito bem
és capaz disso
Saravaia meu vigia?

SARAVAIA

Sou demônio da alegria
e assumi tal compromisso.
Vou longe nesta porfia.

Saravaiaçu me chamo.
Com que tarefa me aprazas?

GUAIXARÁ

Ouve as ordens de teu amo,
quero que espies as casas
e voltes quando te chame.

Hoje vou deixar que leves
os índios aprisionados.

SARAVAIA

Irei onde me carregues.
E agradeço que me entregues
encargo tão desejado.

Como Saravaia sou,
aos índios que me aliei
enfim aprisionarei.
E neste barco me vou.
De cauim me embriagarei.

GUAIXARÁ

Anda logo! vai ligeiro!

SARAVAIA

Como um raio correrei!
(Sai)

GUAIXARÁ
(Passeia com Aimbirê e diz:)

Demos um curto passeio
Quando volte o mensageiro
a aldeia destroçarei.
(Volta Saravaia e Aimberê diz:)

AIMBIRÊ

Danado! Voltou voando!

GUAIXARÁ

Demorou menos que um raio!
Foste mesmo, Saravaia?

SARAVAIA

Fui. Já estão comemorando
os índios nossa vitória.

Alegra-te!
Transbordava o cauim,
o prazer regurgitava.
E a beber, as igaçabas
esgotam até o fim.

GUAIXARÁ

E era forte?

SARAVAIA

Forte estava.
E os rapazes beberrões
que pervertem esta aldeia,
caiam de cara cheia.
Velhos, velhas, mocetões
que o cauim desnorteia.

GUAIXARÁ

Já basta. Vamos mansinho
tomá-los todos de assalto.
Nosso fogo arda bem alto.
(Vem São Lourenço com dois companheiros. Diz Aimbirê:)


AIMBIRÊ

Há um sujeito no caminho
que me ameaça de assalto.

Será Lourenço, o queimado?

SARAVAIA

Ele mesmo, e Sebastião.

AIMBIRÊ

E o outro, dos três que são?

SARAVAIA

Talvez seja o anjo mandado,
desta aldeia o guardião.

AIMBIRÊ

Ai! Eles me esmagarão!
Não posso sequer olhá-los.

GUAIXARÁ

Não te entregues assim não,
ao ataque, meu irmão!
Teremos que amedrontá-los,
As flechas evitaremos,
fingiremos de atingidos.

AIMBIRÊ

Olha, eles vêm decididos
a açoitar-nos. Que faremos?
Penso que estamos perdidos.
(São Lourenço fala a Guaixará:)

SÃO LOURENÇO

Quem és tu?

GUAIXARÁ

Sou Guaixará embriagado,
sou boicininga, jaguar,
antropófago, agressor,
andirá-guaçu alado,
sou demônio matador.

SÃO LOURENÇO

E este aqui?

AIMBIRÊ

Sou jibóia, sou socó,
o grande Aimbirê tamoio.
Sucuri, gavião malhado,
sou tamanduá desgrenhado,
sou luminosos demônio.

SÃO LOURENÇO

Dizei-me o que quereis desta
minha terra em que nos vemos.

GUAIXARÁ

Amando os índios queremos
que obediência nos prestem
por tanto que lhes fazemos.
Pois se as coisas são da gente,
ama-se sinceramente.

SÃO SEBASTIÃO

Quem foi que insensatamente,
um dia ou presentemente?
os índios vos entregou?

Se o próprio Deus tão potente
deste povo em santo ofício
corpo e alma modelou!

GUAIXARÁ

Deus? Talvez remotamente
pois é nada edificante
a vida que resultou.

São pecadores perfeitos,
repelem o amor de Deus,
e orgulham-se dos defeitos.

AIMBIRÊ

Bebem cuim a seu jeito,
como completos sandeus
ao cauim rendem seu preito.

Esse cauim é que tolhe
sua graça espiritual.
Perdidos no bacanal
seus espíritos se encolhem
em nosso laço fatal.

SÃO LOURENÇO

Não se esforçam por orar
na luta do dia a dia.
Isto é fraqueza, de certo.

AIMBIRÊ

Sua boca respira perto
do pouco que Deus confia.

SARAVAIA

É verdade, intimamente
resmungam desafiando
ao Deus que os está guiando.
Dizem: "Será realmente
capaz de me ver passando?"

SÃO SEBASTIÃO
(Para Saravaia:)

Serás tu um pobre rato?
Ou és um gambá nojento?
Ou és a noite de fato
que as galinhas afugenta
e assusta os índios no mato?

SARAVAIA

No anseio de devorar
as almas, sequer dormi.

GUAIXARÁ

Cala-te! Fale eu por ti.

SARAVAIA

Não vás me denominar,
pra que não me mate aqui.

Esconda-me, antes, dele.
Eu por ti vigiarei.

GUAIXARÁ

Cala-te! Te guardarei!
Que a língua não te revele,
depois te libertarei.

SARAVAIA

Se não me viu, safarei.
Inda posso me esconder.

SÃO SEBASTIÃO

Cuidado que lançarei
o dardo em que o flecharei.

GUAIXARÁ

Deixa-o. Vem de adormecer.

SÃO SEBASTIÃO

A noite ele não dormiu
para os índios perturbar

SARAVAIA

Isso não se há de negar.
(Açoita-o Guaixará e diz:)

GUAIXARÁ

Cala-te! Nem mais um pio,
que ele quer te devorar.

SARAVAIA

Ai de mim!
Por que me bates assim,
pois estou bem escondido?
(Aimbirê com São Sebastião.)

AIMBIRÊ

Vamos! Deixa-nos a sós,
e retirai-vos que a nós
meu povo espera afligido.

SÃO SEBASTIÃO

Que povo?

AIMBIRÊ

Todos os que aqui habitam
desde épocas mais antigas,
velhos, moças, raparigas,
submissos aos que lhes ditam
nossas palavras amigas.

Vou contar todos seus vícios,
Em mim acreditarás?

SÃO SEBASTIÃO

Tu não me convencerás.

AIMBIRÊ

Têm bebida aos desperdícios,
cauim não lhes faltará.
De ébrios dão-se ao malefício,
ferem-se, brigam, sei lá!

SÃO SEBASTIÃO

Ouvem do morubixaba
censuras em cada taba,
disso não os livrarás.

AIMBIRÊ

Censura aos índios? Conversa!
Vem logo o dono da farra,
convida todos à festa,
velhos, jovens, moçocaras
com morubixaba à testa.

Os jovens que censuravam
com morubixaba dançam,
e de comer não se cansam,
e no cauim se lavam,
e sobre as moças avançam.

SÃO SEBASTIÃO

Por isso aos aracajás
vivem vocês freqüentando,
e a todos aprisionando.

AIMBIRÊ

Conosco vivem em paz,
pois se entregam aos desmandos.

SÃO SEBASTIÃO

Uns aos outros se pervertem
convosco colaborando.

AIMBIRÊ

Não sei. Vamos trabalhando,
e ao vícios bem se convertem
à força do nosso mando.

GUAIXARÁ

Eu que te ajude a explicar.
As velhas, como serpentes,
injuriam-se entre dentes,
maldizendo sem cessar.
As que mais calam consentem.

Pecam as inconseqüentes
com intrigas bem tecidas,
preparam negras bebidas
pra serem belas e ardentes
no amor na cama e na vida.

AIMBIRÊ

E os rapazes cobiçosos,
perseguindo o mulherio
para escravas do gentio...
Assim invadem fogosos...
dos brancos o casario.

GUAIXARÁ

Esta história não termina
antes que desponte a lua,
e a taba se contamina.

AIMBIRÊ

E nem sequer raciocinam
que é o inferno que cultuam.

SÃO LOURENÇO

Mas existe a confissão,
bem remédio para a cura.
Na comunhão se depura
da mais funda perdição
a alma que o bem procura.

Se depois de arrependidos
os índios vão confessar
dizendo: "Quero trilhar
o caminho dos remidos".
- O padre os vai abençoar.

GUAIXARÁ

Como se nenhum pecado
tivessem, fazem a falsa
confissão, e se disfarçam
dos vícios abençoados,
e assim viciados passam.

AIMBIRÊ

Absolvidos
dizem: "na hora da morte
meus vícios renegarei".
E entregam-se à sua sorte.

GUAIXARÁ

Ouviste que enumerei
os males são seu forte.

SÃO LOURENÇO

Se com ódio procurais
tanto assim prejudicá-los,
não vou eu abandoná-los.
E a Deus erguerei meus ais
para no transe ampará-los.

Tanto confiaram em mim
construindo esta capela,
plantando o bem sobre ela.
Não os deixarei assim
sucumbir sem mais aquela.

GUAIXARÁ

É inútil, desista disso!
Por mais força que lhes dês,
com o vento, num dois três
daqui lhes darei sumiço.
Deles nem sombra vereis.

Aimbirê
vamos conservar a terra
com chifres, unhas, tridentes,
e alegrar as nossas gentes.

AIMBIRÊ

Aqui vou com minhas garras,
meus longos dedos, meus dentes,

ANJO

Não julgueis, tolos dementes,
por no fogo esta legião,
Aqui estou com Sebastião
e São Lourenço, não tentem
levá-los à danação.
Pobres de vós que irritastes

de tal forma o bom Jesus
Juro que em nome da cruz
ao fogo vos condenastes.
(Aos santos.)

Prendei-os donos da luz!
(Os santos prendem os dois diabos.)

GUAIXARÁ

Basta!

SÃO LOURENÇO

Não! Teu cinismo me agasta.
Destes provas que sobejam
de querer destruir a igreja.

SÃO SEBASTIÃO
(A Aimberê:)

Grita! Lamenta! Te arrasta!
Te prendi!

AIMBIRÊ

Maldito Seja!
(Preso os dois fala o Anjo a Saravaia que ficou escondido)


ANJO

E tu que está escondido
será acaso um morcego?
Sapo cururu minguá,
ou filhote de gambá,
ou bruxa pedindo arrego?

Sai daí seu fedorendo,
abelha de asa de vento,
zorrilho, maritaca,
seu lesma, tamarutaca.

SARAVAIA

Ai vida, que me aprisionam!
Não vês que morro de sono?

ANJO

Quem és tu?

SARAVAIA

Sou Saravaia
Inimigo dos franceses.

ANJO

Teus títulos são só estes?

SARAVAIA

Sou também mestre em tocaia,
porco entre todas as reses.

ANJO

Por isso és sujo e enlameias
tudo com teu negro rabo.
Veremos como pateias
no fogo que a gente ateia.

SARAVAIA

Não! Por todos os diabos!
Eu te dou ovas de peixe,
farinha de mandioca,
desde que agora me deixas,
te dou dinheiro aos feixes.

ANJO

Não te entendo, maçaroca.
As coisas que me prometes
em troca, de onde roubaste?
Que morada assaltaste
antes que aqui te escondeste?
Muito coisa tu furtaste?

SARAVAIA

Não, somente o que falei.
Da casa dos bons cristãos
foi bem pouco o que apanhei;
Tenho o que trago nas mãos,
por muito que trabalhei.
Aqueles outros têm mais.
Para comprar cauim
aos índios, em boa paz,
dei o que tinha, e demais,
pois pobre acabei assim.

ANJO

Vamos! Restitui-lhes tudo
o que tiveres roubado.

SARAVAIA

Não faças isto, estou bêbedo,
mais do que o demo rabudo
da sogra do meu cunhado.

Tem paciência, me perdoa,
meu irmão, estou doente.
Das minhas almas presente
farei a ti, prá que em boa
hora as cucas lhes rebentes,

Leva o nome destes monstros
e famoso ficarás.

ANJO

E onde lhes foste ao encontro?

SARAVAIA

Fui pelo sertão a dentro,
lacei as almas, rapaz.

ANJO

De que famílias descendem?

SARAVAIA

Desse assunto pouco sei.
Filhos de índios talvez.
Na corda os enfileirei
presos todos de uma vez.
Passei noites sem dormir,
nos seus lares espreitei,
fiz suas casas explodir,
suas mulheres lacei,
pra que não possam fugir.
(Amarra-o o anjo e diz:)

ANJO

Quantas maldades fizeste!
Por isso o fogo te espera.
Viverás do que tramaste
nesta abrasada tapera
em que pro fim te pilhaste.

SARAVAIA

Aimberê!

AIMBIRÊ

Oi!

SARAVAIA

Vem logo dar-me a mão!
Este louco me prendeu.

AIMBIRÊ

A mim também me venceu
o flechado Sebastião.
Meu orgulho arrefeceu.

SARAVAIA

Ai de mim!
Guaixará, dormes assim,
sem pensar em me salvar?

GUAIXARÁ

Estás louco, Saravaia
Não vês que Lourenço ensaia
maneira de me queimar?

ANJO

Bem junto, pois sois comparsas,
ardereis eternamente.
Enquanto nós, Deo Gratias!,
sob a luz da minha guarda
viveremos santamente.
(Faz uma prática aos ouvintes)

Alegrai-vos, filhos meus,
na santa graça de Deus,
pois que dos céus eu desci,
para junto a vós estar
e sempre vos amparar
dos males que há por aqui.
Iluminado esta aldeia
junto de vós estarei,
por nada me afastarei -
pois a isto me nomeia
Deus, Nosso Senhor e Rei!

Ele que a cada um de vós
um anjo seu destinou.
Que não vos deixe mais sós,
e ao mando de sua voz
os demônios expulsou.

Também
São Lourenço o virtuoso,
Servo de Nosso Senhor,
vos livra com muito amor
terras e almas, extremoso,
do demônio enganador.

Também São Sebastião
valente santo soldado,
que aos tamoios rebelados
deu outrora uma lição
hoje está do vosso lado

E mais - Paranapucu,
Jacutinga, Morói,
Sariguéia, Guiriri,
Pindoba, Pariguaçu,
Curuça, Miapei

E a tapera do pecado,
a de Jabebiracica,
não existe. E lado a lado
a nação dos derrotados
no fundo do rio fica.

Os franceses seus amigos,
inutilmente trouxeram
armas. Por nós combateram
Lourenço, jamais vencido,
e São Sebastião flecheiro.

Estes santos, em verdade,
das almas se compadecem
aparando-as, desvanecem
(Ó armas da caridade!)
Do vício que as envilece.

Quando o demônio ameaçar
vossas almas, vós vereis
com que força hão de zelar.
Santos e índios sereis
pessoas de um mesmo lar.

Tentai
velhos vícios extirpar,
e as maldades cá da terra
evitai, bebida e guerra,
adultério, repudiai
tudo o que o instinto encerra.


Amai vosso Criador
cuja lei pura e isenta
São Lourenço representa.
Engrandecei ao Senhor
que de bens vos acrescenta.

Este mesmo São Lourenço
que aqui foi queimado vivo
pelos maus, feito cativo,
e ao martírio foi infenso,
sendo o feliz redivivo.

Fazei-vos amar por ele,
e amai-o quanto puderdes,
que em sua lei nada se perde.
E confiando mais nele,
mais o céu se vos concede.

Vinde
à direita celestial
de Deus Pai, ireis gozar
junto aos que bem vão guardar
no coração que é leal,
e aos pés de Deus repousar.
(Fala com os santos convidando-os a cantar e se
despede.)

Cantemos todos, cantemos!
Que foi derrotado o mal!
Esta história celebremos,
nosso reino inauguremos
nessa alegria campal!
(Os santos levam presos os diabos os quais, na última
repetição da cantiga choram.)

CANTIGA

Alegrem-se os nossos filhos
por Deus os ter libertado.
Guaixará seja queimado,
Aimbirê vá para o exílio,
Saravaia condenado!

Guaixará seja queimado,
Aimbirê vá para o exílio,
Saravaia condenado!
(Voltam os santos)

Alegrai-vos, vivei bem,
vitoriosos do vício,
aceitai o sacrifício
que ao amor de Deus convém.
Daí fuga ao Demo-ninguém!
Guaixará seja queimado,
Aimbirê vá para o exílio,
Saravaia condenado!
Primeiro
Segundo
Terceiro
Quarto
Quinto