Auto
Representado na Festa de São Lourenço
José de Anchieta
QUARTO ATO
Tendo o corpo de São Lourenço amortalhado e posto na
tumba, entra o Anjo com o Temor e o Amor de Deus, a
encerrar a obra, e no fim acompanham o santo à sepultura.
ANJO
Vendo nosso Deus benigno
vossa grande devoção
que tendes, e com razão,
a Lourenço, o mártir digno
de toda a veneração,
determinam, por seus rogos
e martírio singular,
a todos sempre ajudar,
para que escapeis dos fogos
em que os maus se hão de queimar.
Dois fogos trazia n'alma,
com que as brasas resfriou,
a no fogo em que se assou,
com tão gloriosa palma,
dos tiranos triunfou.
Um fogo foi o temor
do bravo fogo infernal,
e, como servo leal,
por honrar a seu Senhor,
fugiu da culpa mortal.
Outro foi o Amor fervente
de Jesus, que tanto amava,
que muito mais se abrasava
com esse fervor ardente
que co'o fogo, em que se assava,
Estes o fizeram forte.
Com estes purificado
como ouro refinado,
padeceu tão crua morte
por Jesus, seu doce amado.
Estes vos manda o Senhor
a ganhar vossa frieza,
para que vossa alma acesa
de seu fogo gastador,
fique cheio de pureza.
Deixai-vos deles queimar
como o mártir São Lourenço,
e sereis um vivo incenso
que sempre haveis de cheirar
na corte de Deus imenso.
TEMOR DE DEUS
(Dá seu recado.)
Pecador,
sorves com grande sabor
o pecado,
e não ficas afogado
com teus males!
E tuas chagas mortais
não sentes, desventurado!
O inferno
como seu fogo sempiterno,
Já te espera,
se não segues a bandeira
da cruz,
sobre a qual morreu Jesus
para que tua morte morra.
Deus te envia esta mensagem
com amor,
a mim que sou seu Temor
me convém
declarar o que contém
para que temas ao Senhor.
(Glosa e declaração do recado.)
Espantado estou de ver,
pecador, teu vão sossego.
Com tais males a fazer,
como vives sem temer,
aquele espantoso fogo?
Fogo que nunca descansa,
mas sempre provoca a dor,
e com seu bravo furor
dissipa toda a esperança
ao maldito pecador.
Pecador, como te entregas
tão sem freio ao vício extremo?
Dos vícios de que estás cheios
engolindo tão às cegas
a culpa, com seu veneno.
Veneno de maldição
tragas sem nenhum temor,
e sem sentir sua dor,
deleites da carnação
sorves com grande sabor.
Será o sabor do pecado
muito mais doce que o mel,
mas o inferno cruel
depois te dará um bocado
bem mais amargo que o fel
Fel beberás sem medida,
pecador desatinado,
tua alma em chamas ardida.
Esta será a saída
do deleite do pecado.
Do pecado que tu amas
Lourenço tanto escapou
que mil penas suportou,
e queimado pelas chamas,
por não pecar, expirou.
Ele a morte não temeu.
Tu não temes o pecado
no qual et tem enforcado
Lucifer, que te afogou,
e não ficas afogado.
Afogado pela mão
do Diabo pereceu
Décio com Valeriano,
infiel, cruel tirano,
no fogo que mereceu.
Tua fé merece a vida,
mas com pecados mortais
quase a tiveste perdida,
e teu Deus, bem sem medida,
ofendeste, com teus males.
Com teus males e pecados,
tua alma de Deus alheia,
da danação na cadeia
há de pagar com os danados
a culpa que a incendeia.
Pena sem fim te darão
dentre os fogos infernais
teus deleites sensuais.
Teus tormentos dobrarão,
e tuas chagas mortais .
Que mortais são tuas feridas
pecador. Porque não choras?
Não vês que nestas demoras,
estão todas corrompidas,
a cada dia pioras?
Pioras e te confinas,
mas teu perigoso estado,
na pressa e grande cuidado
com que ao fogo te destinas,
não sentes, desventurado?
Oh, descuido intolerável
de tua vida!
Tua alma está confundida
no lodo,
e tu vais rindo de tudo,
não sentes tua caída!
Oh, traidor!
Que negas teu Criador,
Deus eterno,
que se fez menino terno
por salvar-te.
E tu queres condenar-te
e não temes ao inferno!
Ah, insensível!
Não calculas o terrível
espanto, que causará
o juiz, quando virá
com carranca muito horrível,
e à morte te entregará.
E tua alma será
sepultada em pleno inferno,
onde morte não terá
mas viva se queimará
com seu fogo sempiterno!
Oh, perdido!
Ali serás consumido
sem nunca te consumir.
Terás vida sem viver,
com choro e grande gemido,
terás morte sem morrer.
Pranto será teu sorrir,
sede sem fim te abeberra,
fome que em comer se gera,
teu sono, nunca dormir,
tudo isto já te espera.
Oh, morfio!
Pois tu veras de continuo
ao horrendo Lucifer,
sem nunca chegar a ver
aquele molde divino
de quem tiras todo o ser.
Acaba já de temer
a Deus, que sempre te espera,
correndo por sua esteira,
pois não lhes vai pertencer
se não lhe segues a bandeira.
Homem louco!
Se teu coração já toco,
mudar-se-ão alegrias
em tristezas e agonias.
Olha que te falta pouco
para fenecer teus dias.
Não peques mais contra Aquele
que te ganhou vida e luz
com seu martírio cruel
bebendo vinagre e fel
no extremo lenho a cruz.
Oh, malvado!
Ele foi crucificado,
sendo Deus, por te salvar.
Pois, que podes esperar,
se foste tu o culpado
e não cessas de pecar?
Tu o ofendes, ele te ama.
Cegou-se por dar-te a luz.
Tu és mau, pisas a cruz
sobre a qual morreu Jesus.
Homem cego,
porque não começas logo
a chorar por teu pecado?
E tomar por advogado
a Lourenço que, no fogo,
por Jesus morreu queimado?
Teme a Deus, juiz tremendo,
que em má hora te socorra,
em Jesus tão só vivendo,
pois deu sua vida morrendo
para que tua morte morra.
AMOR DE DEUS
(Dá seu recado)
Ama a Deus, que te criou,
homem, de Deus muito amado!
Ama com todo cuidado,
a quem primeiro te amou.
Seu próprio Filho entregou
à morte, por te salvar.
Que mais te podia dar,
se tudo o que tem te dou?
Por mandado do Senhor,
te disse o que tens ouvido.
Abre todo teu sentido,
porque eu, que sou seu Amor,
seja em ti bem imprimido
(Glosa e declaração do recado)
Todas as coisas criadas
conhecem seu Criador.
Todas lhe guardam amor,
pois nele são conservadas,
cada qual em seu vigor.
Pois com tanta perfeição
sua ciência te formou
homem capaz de razão,
de todo o teu coração
ama a Deus, que te criou!
Se amas a criatura
por se parecer formosa,
ama a visão graciosa
desta mesma formosura
por sobre todas as coisas.
Dessa divina lindeza
deves ser enamorado.
Seja tua alma presa
daquela suma beleza
homem, de Deus muito amado!
Aborrece todo o mal,
com despeito e com desdém,
E pois, que é racional,
abraça a Deus imortal,
todo, sumo e único bem.
Este abismo de fartura,
que nunca será esgotado;
esta fonte viva e pura,
este rio de doçura,
ama com todo cuidado.
Antes que criasse nada
já a alma majestade
te havia a vida gerado.
e tua alma, abrasada
com eterna caridade.
Por fazer-te todo seu
com amor te cativou
e, pois que tudo te deu,
dá tu todo o maior que é teu
a quem primeiro te amou.
E deu-te alma imortal
e digna de um Deus imenso,
para que fosses suspenso
nele, esse bem eternal,
que é sem fim e sem começo.
Depois, que em morte caíste
com vida te levantou.
Porque sair não conseguiste
da culpa em que te fundiste,
seu próprio filho entregou.
Entregou-o por escravo,
deixou que fosse vendido,
para que tu, redimido
do poder do leão bravo
fosses sempre agradecido.
Para que não morras, morre
com amor bem singular.
Pois, quanto deves amar
a Deus que entregar-se quer
à morte, por te salvar.
O Filho, que o Padre deu,
a seu Pai te dá por pai,
e sua graça te infundiu,
e quando na cruz morreu,
deu-te por mãe sua Mãe.
Deu-te fé com esperança,
e a si mesmo por manjar,
para em si te transformar
pela bem aventurança.
Que mais te podia dar?
Em paga de tudo isto,
oh, ditoso pecador,
pede apenas teu amor.
Despreza pois todo o resto
por ganhar a tal Senhor.
Dá tua vida pelos bens
que Sua morte te ganhou.
És seu, nada tens de teu,
Dá-lhe tudo quanto tens,
pois tudo o que tem te deu!
DESPEDIDA
Levantai os olhos ao céu, meus irmãos.
Vereis a Lourenço reinando com Deus,
por vós implorando junto ao rei dos céus,
que louvais seu nome aqui neste chão!
Daqui por diante tende grande zelo,
que Deus seja sempre temido e amado,
e, mártir tão santo, de todos honrado.
Terei seus favores e doce desvelo.
Pois que celebrai com tal devoção
seu claro martírio, tomai meu conselho:
sua vida e virtudes tende por espelho,
chamando-o sempre com grande afeição.
Tereis, por seus rogos, o santo perdão,
e sobre o inimigo perfeita vitória.
E depois da morte vós vereis na glória
a cara divina, com clara visão.
(LAUS DEO)
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