O
ATENEU
Raul Pompéia
CAPÍTULO V
Devo, entretanto, à minha efeméride religiosa a maior soma
de gratidão. Suavizou-me com a complacência divina o período
de vadiação profunda e amolecimento hipnótico com
que me pesou a atmosfera do Ateneu. Toda a perseguição de
castigos, sem prejuízo da minha delicadeza moral, resvalava pelo
cilício da penitência; eu emergia forte das provações.
Que tranqüilidade, na apatia, ter por fiador a Deus!
Íamos à missa nos domingos. Todos abriam os livrinhos, para
que o diretor os visse atentos. Eu não abria o meu. Deixava apenas
fugir-me o espírito para o alto e aderir à abóbada
como as decorações sagradas, ajustar-se estreitamente aos
detalhes da arquitetura do templo como o ouro sutil dos douradores, conservar-se
lá em cima, ávido ainda de ascensão, ambicioso de
céu como a baforada dos turíbulos.
Havia acessos comunicativos de tosse que lavravam nas fileiras. Eu não
tossia. Havia convulsões de riso, mal contidas no lenço,
mal dominadas por um olhar de Aristarco, de joelhos à frente do
colégio, e mãos cruzadas sobre o castão do unicórnio;
como certa vez que um cão brejeiro e sem princípios, mesmo
ao elevar-se a santa Partícula, entrou e escapou-se com o casquete
de um fiel contrito. Eu resistia ao riso.
Cantávamos ao coro em dias solenes. Melhor organização
vocal possuiria o Orfeão do que a minha; mas se cantassem os corações
em vez dos lábios, nenhum hino evolaria mais largo, mais belo que
o meu. Traziam-nos água com açúcar num jarro de vidro
para molhar as cordas vocais. Eu rejeitava esta doçura terrena.
O Ateneu concorria para o brilhantismo das procissões. Eu embrulhava-me
amplamente na opa, encarnada como os sacrifícios, que me podia
enrolar três vezes; empunhava uma tocha que me martirizava os dedos
com os pingos ardentes de cera. E lá ia, cobiçando ainda
a força lombar dos mascates para ter às costas, eu só,
aqueles pesados andores; invejando o garbo ao presidente da Filarmônica
particular Prazer do Rio Comprido, que vinha após no préstito,
com o estandarte S.P.M.P.R.C., e o punho atlético de um equilibrista
de perchas para levar correto e rijo os balançados guiões.
Com que tristeza, ao entrar a procissão, quando o diretor nos mandava
seguir para o colégio, com que tristeza não espiava de longe,
pela porta, o interior flamejante do templo! Lá ficava a festa
de Deus... e nós para o Ateneu soturno, em marcha inexorável!
Eu sacudia a cabeça com desespero; não podia sofrer a privação
daquela alegria, gozar na alma a orgia de fogo dos altares, subir, com
o pensamento, degraus, degraus, ao trono cintilante, arrojando-se para
cima na escalada da Glória.
Depois desses entusiasmos foi-se-me a religião escurecendo.
Era meu vizinho, na sala geral do estudo, Barreto, um personagem duplo,
que representava, nas horas de recreio, a folgança em pessoa, e
tinha momentos de meditação trevosa com esgares de terror
e falava da morte, da outra vida, rezava muito, tinha figas de pau, bentinhos,
medalhazinhas em cordões, que saltavam fora do seio ao brinquedo.
Iniciara-me Sanches no Mal; Barreto instruiu-me na Punição.
Abria a boca e mostrava uma caldeira do inferno; as palavras eram chamas;
ao calor daquelas práticas, as culpas ardiam como sardinhas em
frege.
Barreto andara num seminário rigoroso, regime de nitro para congelar
as ardências da idade. Era magro, testa de Alexandre Herculano,
beiços finos, olhos pretos, refulgentes, saídos, fisionomia
geral de caveira em pele ressecada de múmia. No queixo viam-se-lhe
dois fios únicos de barba, em caracol, cada um para a sua banda.
Só ele, talvez, conheceu-me as preocupações beatas.
Senhor do meu fraco, pôs-se a informar dos pavores da fé
com a ênfase satisfeita de um cicerone. Recordo-me de um assunto:
a comunhão sacrílega! A propósito, Barreto deu-me
um livro a ler, um livro cruel, que descrevia coisas dignas de Moloc:
crianças diretamente justiçadas pela celeste cólera,
uma delas que, por haver comungado sem confissão prévia,
iludindo ao sacerdote, fora apanhada pela roupa entre dois cilindros de
aço duma máquina e reduzida a pasta, acabando impenitente,
maldita, sem tempo para um ai-jesus... Era-me incrível, que de
uma simples hóstia pudesse a taumaturgia da crendice obter tantos
efeitos de terror.
Barreto comentava reforçando. Metia medo aceso em iras santas de
pregador, demonstrando quão longe ainda estavam os castigos da
Providência, na terra, dos suplícios da eternidade. Descrevia
o inferno como se tivesse visto. Rúbida caverna, dragões
verde-negros, cor de limo, serpentes de ferro em brasa enroscando os condenados,
demônios fulvos revolvendo tachos de asfalto em fusão, outros
espíritos caudatos levando a chuço magotes para os tachos,
de inconsoláveis réprobos.
Li a Nova Floresta, de Bernardes. O reverendíssimo autor veio retocar
a obra do Barreto, com as suas narrativas de iluminado terrífico.
Comecei a achar a religião de insuportável melancolia. Morte
certa, hora incerta, inferno para sempre, juízo rigoroso: nada
mais negro!
Era cedo demais, para que eu pudesse pesar filosoficamente a revelação;
encontrei, todavia, embaraço invencível no ritual das cerimônias.
Eu que, nos melhores dias, não conseguira formular literalmente
uma só prece do catecismo, esbarrei definitivamente na prescrição
fastidiosa do preceito. Ir à missa, muito bem; mas o resto, e ainda
mais a dependência dos senhores ministros do culto... Em duas palavras:
a sacristia e o inferno, prováveis escândalos e horrores
inevitáveis, desgostaram-me de tudo. Demais, eu tinha por vezes
tentado dar boa conta, estudando um pouco e rezando muitíssimo,
com um pequeno jejum ainda por cima; ao dia seguinte - nota má!
Era um descrédito para o favor divino. Que custava à suma
Onipotência modificar em lição sabida uma ignorância
sofrível, como transmutara em fartura sem conta uma miséria
de cinco pães?
Ia-se por esta forma a exaltação dos meus fervores, quando
me achei envolvido no episódio dos cacos. A atribulação
do remorso reacendeu por um momento a chama decadente; o resultado da
minha súplica nesse duro transe não provara mal; muito adiantada,
porém, ia a decomposição do meu êxtase. Eu
esqueci a circunstância com a ingratidão fácil dos
pretendentes servidos. E cheguei à conclusão audaz.
Não tendo força para estacar de arranco a torrente dos séculos
cristãos, consegui ao menos ficar à margem. Ignorante do
ateísmo, limitei-me a voltar o rosto aos fantasmas do eterno. Subi
ao dormitório, tirei da gaveta Santa Rosália, guardei a
flor da última oferenda, seca, porque a minha pontualidade de culto
falseava já, depus-lhe em despedida um ósculo, e, sem mais
profanação, fi-la baixar à sala de estudo, onde lhe
cometi o modesto encargo de marcar as páginas de um volume. Estava
demitida a minha padroeira!
Pouco depois, algum apaixonado de gravuras raptou-ma, e eu lamentei apenas
perder a lembrança da saudosa prima.
Maio tinha passado e as rosas; acabaram-se as orações à
Virgem. Sem os hinos da manhã, sem o sorriso a cores de Santa Rosália,
restava-me o Deus dos novíssimos, das comunhões sacrílegas,
o Deus selvagem do Barreto. Positivamente não quis saber do carrasco;
alijei a metafísica como um pesadelo. E me achei de novo sozinho
no Ateneu; sozinho mais do que nunca. Com os astros apenas do meu compêndio,
panorama da noite consoladora.
E ainda bem, que voltava da crença pela via-láctea, como
para a crença fora. Retirada honrosa de um desengano.
Os dias de saída eram de quinze em quinze. Partia-se ao domingo,
depois da missa; voltava-se à segunda-feira, antes das nove da
manhã. Os dias santos de guarda ocasionavam saídas de véspera.
O comissário dos gêneros e despenseiro insistia com o diretor
afrouxasse mais o sistema de feriados. Os rapazes precisam passear, grifava
ele, com a liberdade de mordomo confidente. Aristarco replicava com a
invenção cordata dos gêneros de terceira, elasticidade
insensível dos orçamentos.
Havia, porém, saídas extraordinárias de prêmio
ou de obséquio.
A cada lição julgada boa, o professor assinava um papelucho
amarelo, bom ponto, e entregava ao distinto. Dez prêmios destes
equivaliam a um cartão impresso, boa nota, como dez vezes vinte
réis em cobre valem um níquel de duzentos. O sistema decimal
aplicava-se mais à conquista de um diploma honroso, equivalente
a um baralho de dez cartões de boa nota. Com tal diploma era o
estudante candidato à condecoração final de uma medalha,
de prata ou de ouro, conforme fosse mais ou menos ótimo nos diversos
superlativos do merecimento escolar. Reduzia-se assim a papel o valor
pessoal, na clearing-house da diretoria; ou, melhor: adaptava-se a teoria
de Fox ao processo das recompensas, com todos os riscos de um câmbio
incerto, sujeito aos pânicos de bancarrota, sem um critério
de justiça, a garantir, sob a ostentação do papel-moeda,
a realidade de um numerário de bem aquilatada virtude.
Fosse como fosse, certo é que, com os bilhetes de boa nota, comprava-se
uma saída, e isto era o importante, como nos países de más
finanças: desde que o papel tem curso, de que vale o valor?
Inútil é dizer que me não chegavam nunca as saídas
de prêmio. Tanto melhor me sabiam as outras.
Durante a primeira quinzena de colégio, o pensamento de um feriado
e regresso à família inebriou-me como a ansiedade de um
ideal fabuloso. Quando tornei a ver os meus, foi como se os houvesse adquirido
de uma ressurreição milagrosa. Entrei em casa desfeito em
pranto, dominado pela exuberância de uma alegria mortal. Surpreendia-me
a ventura incrível de mirar-me ainda nos olhos queridos, depois
da eternidade cruel de duas semanas. Não! A magnanimidade do cataclismo
temido favorecera o meu teto. Deus permitira, na largueza pródiga
da suma bondade, que eu revisse a nossa casa sobre os alicerces, o nosso
tão lembrado teto e a chaminé tranqüila a fumar o spleen
infinito das coisas imóveis e elevadas.
Com o tempo habituei-me à feliz probabilidade de achar na mesma
os prezados lares, e ousei nos momentos da cisma colegial fundamentar
projetos de divertimento sobre a esperança de que, abusando a minha
ausência e só para me atormentar o coração,
a terra se não havia de abrir e devorar exata e exclusivamente
o que me era mais caro.
Não foram, porém, preocupações pueris de temor,
nem prospectos de folguedo que levei ao primeiro dia de saída depois
da demissão de Santa Rosália.
Vinha buscar-me um criado. Eu, adiante do portador, na minha fardeta de
botões dourados, parti do Ateneu, grave e mudo como um diplomata
a caminho da conferência. Ia efetivamente ruminando a mais séria
das intenções: afrontar uma entrevista franca com meu pai,
descrever-lhe corajosamente a minha situação no colégio
e obter um auxílio para reagir.
Meu pai acabava de deixar o leito. Nada sabia dos meus últimos
insucessos. Ficou admirado e consternado. Daí o êxito completo
da minha entrevista.
Dias depois, no colégio, eu era um pequeno potentado. Derrubei
o Sanches; consegui a revogação da disciplina das espadas;
reconquistei a benevolência de Mânlio; levantei a cerviz!
Desembaraçado do arbítrio pretensioso de um vigilante, o
trabalho agradou-me. Um conselho de casa afirmou-me que havia a nobre
opinião de Aristarco e a opinião ainda melhor da cartilha,
mas havia uma terceira - a minha própria, que se não era
tão boa, tão abalizada como as outras, tinha a vantagem
alta da originalidade. Com uma palavra fez-se um anarquista.
Daí por diante era fatal o conflito entre a independência
e a autoridade. Aristarco tinha de roer. Em compensação,
adeus esperanças de ser um dia vigilante! principalmente: adeus
indolência feliz dos tempos beatos!
Para a campanha da reação, armazenei uma abastança
inextinguível de vaidade e deliberei menosprezar do melhor modo
prêmios e aplausos com que se diplomavam os grandes estudantes.
Habituado à vida do internato, nutria a certeza de conseguir sozinho
quanto não pudera com o amparo de um amigo, nem com a ajuda de
Deus. No firme propósito de me não fazer exemplar nem me
aplicar ao cobrejamento de habilidades a que o papel de modelo obrigava,
estabeleci, contudo, a razoável mediocridade sem compromissos,
de um novo programa.
Poucos prêmios ganhava dos papeluchos amarelos; em contrapeso facilitava
aos poucos que me vinham a emancipação boêmia do cisco.
Por esta escala foram ter alguns com o meu nome ao gabinete do diretor.
Agravo de desdém que se não perdoaria jamais.
Desenvolveu-se nas alturas uma antipatia por mim, que me lisonjeava como
uma das formas da consideração. Chegava eu assim por trajeto
muito diferente do que sonhara à desejada personificação
moral de pequeno homem.
Invejosos da minha altivez, os inimigos fizeram partido. Sanches era o
chefe, na cortina; Barbalho era o líder abertamente. Eu sorria
vaidoso, levando de vencida a guerrinha, como a espuma à proa de
um barco.
Este foi o caráter que mantive, depois de tão várias
oscilações. Porque parece que às fisionomias do caráter
chegamos por tentativas, semelhante a um estatuário que amoldasse
a carne no próprio rosto, segundo a plástica de um ideal;
ou porque a individualidade moral a manifestar-se, ensaia primeiro o vestuário
no sortimento psicológico das manifestações possíveis.
Reinavam no Ateneu duas perniciosas influências que contrabalançavam
eficazmente o porejamento de doutrina a transudar das paredes, nos conceitos
de sabedoria decorativa dos quadros, e ainda mesmo a polícia das
aparições ubíquas e subitâneas do diretor.
Coisa difícil de precisar, como a disseminação na
sociedade do princípio do mal, elemento primário do dualismo
teogônico. O meio, filosofemos, é um ouriço invertido:
em vez da explosão divergente dos dardos - uma convergência
de pontas ao redor. Através dos embaraços pungentes cumpre
descobrir o meato de passagem, ou aceitar a luta desigual da epiderme
contra as puas. Em geral, prefere-se o meato.
As máximas, o diretor, a inspeção dos bedéis,
por exemplo, eram três espinhos; as referidas influências
eram mais dois. A mocidade ia transigindo do melhor jeito com as bicudas
imposições das circunstâncias.
Representavam-se as influências dissolventes por duas espécies
de encarnação, fundidas em hibridismo de disparate - a da
forma feminina personificada em Ângela, a canarina, ou antes a camareira
de D. Ema; e a de um encontro de tábuas humildes, conjuntadas às
pressas, por força do prosaísmo incivil de um episódio
da economia orgânica.
Falavam assim à imaginação, impressões de
relance, um olhar banhado de lascívia, a tempestade galopante das
roupas, em desordem de fuga, calculada para efeitos de irritação,
um descuido de alças afrouxadas ao corpinho, um propósito
de poças d'água em dias de chuva, obrigando a saias curtas
e canelas nuas; ora a uma porta em rápida passagem, ora através
do parque frondoso; ou ao escritório, por motivo de recados de
D. Ema cuja freqüência desesperava o diretor; ou sobre o muro
da natação, ou a qualquer canto com os copeiros, em dueto
de idílio que se espiava; ou em graçola aventurada aos inspetores,
que se babavam.
Os grandes pilheriavam, os pequenos, sérios, olhavam como quem
aprende.
Depois, a conspiração dos sarrafos, o favor ao vício
à sombra do pinho alcatroado, a penúria do fumo, a mendicidade
das fumaças concedidas por beneplácito de dedicação,
a pontinha do bird's-eye de boca em boca, como o chimarrão do Rio
Grande, mordida, salivada, saboreada com todo o gosto acre do que se esconde
e que é vedado; e a lembrança solitária, devastadora
das imagens do mal, distantes, inalcançadas, dança de flores
doidas ao vento; a correspondência covarde acolhida num interstício
de traves como em asilo de ínfima miséria; as obscenas leituras;
e o alvoroço do receio perpétuo, adubo cáustico de
prazer mau, a vaidade de iludir, a secreta mofa, o apetite de cupim pela
demolição invisível do que está constituído,
a urdidura preocupada, extenuante de uma tramazinha de hipocrisias mínimas
e complicadas - vivescência vermicular dos estímulos torpes,
respirada no ambiente corrompido do retiro, nascida de baixo, de um buraco,
propaganda obscura da lama.
E diluía-se pelos semblantes a palidez creme, cavavam-se olhares
vítreos das regiões do impaludismo endêmico.
Soavam-me ainda aos ouvidos as prédicas de ascetismo do Barreto.
Para ele o mal era fêmea. O Sanches entendia que era macho. Amarrava-lhe
um rabo ao cóccix e criava o Satanás bilontra, imoral e
alegre. A cauda do demônio do Barreto era de rendas. Na Rua do Ouvidor,
faria o Satanás - fanfreluche. Uma coisa horrível, com dois
olhos, destinados à perdição dos homens. Saia digna
de consideração, só a de padre, que, por sinal, é
batina, não é saia. O mais não passava de pretexto
da moda parisiense para disfarçar o pé de cabra. Cuidado
com Satanás sorriso! um sorriso com duas pernas, um abraço
com dois seios, uma pantomima do inferno, faceira e traidora, graciosa
e comburente, donde por descuido e por acaso vai-se desprendendo a humanidade,
como as cobrinhas pirotécnicas de Faraó. O menor descuido,
desgraça eterna!
Contou-me que o porteiro do seminário em que estivera, para não
ser despedido, fora intimado a separar-se da própria irmã.
Deus, para vir ao mundo, tinha severamente elaborado o mistério
excepcional de uma virgindade sem mancha. E, se não fossem as profecias,
que não podiam ficar comprometidas, o veículo a Conceição,
por amor da insexual pureza teria sido o carapina José, ou mesmo
o velho Zacarias, ainda mais respeitável pela calva.
A teologia do Barreto me calara fundo, e eu resolvera piedoso enxotar
quanta imagem de sorriso viesse pousar-me à idéia. Virando
a página dos fervores, a teoria ficou-me de resto, do Satanás
feminino. Com a pureza a mais, natural da idade, ia zombando de Ângela
e pompas adjacentes. Fechado o peito como a paz de Jano; e exteriormente
a vaidade me amparava.
Para me prevenir ainda mais, veio uma ocorrência provar pelo fato
que o Barreto tinha razão acerca da influência feminina;
uma ocorrência que ensangüentou os anais do estabelecimento,
entristecendo o diretor, embora afinal se lhe tornasse agradável
pelo muito que fez falar do Ateneu.
Tínhamos acabado de jantar e corria como sempre a recreação,
que precedia a hora da ginástica. Das bandas da copa, ordinariamente
sossegada, chegou-nos subitamente um rumor de algazarra. Era estranho.
O alarido cresceu; uma altercação violenta; depois fragor
de luta, o estrondo de uma mesa tombando. Depois gritos de socorro; mais
gritos; a voz de Aristarco aguda, dando ordens como em combate. Estávamos
atônitos.
De repente vimos assomar à porta que dominava o pátio sobre
a escada de cantaria, um homem coberto de sangue. Um grito de horror escapou
a todos. O homem precipitou-se em dois pulos para o recreio. Trazia um
ferro na mão gotejando vermelho, uma faca de lâmina estreita
ou um punhal.
"Matou! matou! gritavam da copa; pega o assassino!"
Sobre os passos do fugitivo vinham diversas pessoas. João Numa,
gordinho, lívido e trêmulo, ao descer a escada, rolou, partindo
os óculos na pedra.
Aristarco, a uma janela, bem certo da inviolabilidade pessoal, ao peitoril,
desenvolvia uma energia sem limites, mandando pegar o homem da faca. Os
inspetores do recreio tinham azulado. Os rapazes berravam como loucos.
Inesperadamente reaparece o Silvino, muito branco, com as suíças
mais pretas, pelo contraste do medo:
"Esperem! esperem! dizia convulso, como quem traz na algibeira um
expediente salvador. Esperem!"
Exatamente no meio do pátio abriu as imensas pernas de Rodes magro,
e levou à boca um apito.
Infelizmente, com a força do sopro engasgou-se o assobio, depois
de dois chilros falhos.
Cercado pelos criados que o perseguiam com trancas e cacetes, o homem
da faca, cuja intenção era escapulir para o jardim, encostou-se
a uma parede. "Deixem-me passar, que mato mais um", rosnava,
com a fisionomia faiscante. "Caminho para mim!" repetia, agitando
o ferro num frêmito de cascavéis.
Alguns moços destemidos tinham-se avizinhado e completavam o imprudente
cerco.
"Abre!" rugiu praguejando o criminoso acuado. E, de um salto
de fera, arremessou-se contra os sitiantes, brandindo a faca.
Com a milagrosa destreza do instinto de conservação, cada
um safou-se como pôde; o perseguido passou como um tiro. "Fugiu!"
clamavam de todos os lados.
Quando o vimos cair de bruços.
Alguém se precipitara inesperadamente ao seu encontro e, escorando-o
com o joelho e empolgando-o pelo gasnete, com o punho o fizera rodar por
terra.
Era o Bento Alves!... Com uma das mãos, o bravo colega oprimia
a cara ao sujeito contra o solo, ralando-a na areia, com a outra, por
um prodígio de vigor, imobilizava-lhe o braço armado. Com
o esquerdo livre, o criminoso firmava, tentando erguer-se. Esmagava-o
a pressão de um monólito.
Quando foram em auxílio, já o Bento Alves desarmara o adversário,
coagindo por meio da tenaz dos dedos com que lhe ferrava o congote.
De toda parte, aclamavam-no herói. À janela, de longe, Aristarco,
entusiasmado, esquecia o divino aprumo e bracejava como um moinho de vento,
sem conseguir dar voz à emoção.
Bento Alves retirou-se com a faca em troféu, deixando o criminoso
sob uma pilha de valentes da última hora e criados que o sufocavam.
Quando o pobre-diabo pôde tomar pé, manietado, amarrado de
mil maneiras por cintas de couro, como as múmias no envoltório
de tiras, acercou-se dele o Silvino e o agrediu covardemente com sermão
de moral.
Era criminoso dizia-se. De que crime? Dentro de alguns momentos o colégio
inteiro o sabia.
O homem da faca era um dos jardineiros do Ateneu. Durante o jantar enfrentara-se
de razões com um criado da casa de Aristarco e o matara. Havia
algum tempo que disputavam os dois a primazia no coração
de Ângela; uma terrível pendência. O criado de Aristarco
julgava-se na legítima posse desse escrínio de afetos, pela
convivência ao lado da bela, consorciados maritalmente na intimidade
dos alguidares, onde as mãos se confundiam como as louças,
ou na sociedade afetuosa do serviço dos aposentos do diretor e
da senhora, permutando entre si dichotes açucarados, à flagelação
dos tapetes.
O jardineiro, patrício da camareira, dava por si a razão
de nacionalidade, o fato de haverem chegado à América na
mesma turma de imigrantes e uma autuação completa de juramentos
idôneos da sedutora.
Levados a tal aperto os nós da paixão não se desatam;
cortam-se. O jardineiro cortou. Por mor azedume da situação
dizem que Ângela de parte a parte estimulava os adversários
declarando a cada um por sua vez preferi-lo exclusivamente.
Confiado o assassino aos urbanos, tornou-se a vítima o objeto das
atenções.
Era este um rapagão de trinta anos, pardo e simpático. O
assassino era mais escuro, espécie de andaluz de touradas, baixo,
sólido, grosso como um cepo de açougue.
Apenas desapareceu o criminoso, o colégio inteiro assaltou a escada,
desejosos de ver o assassinado. À porta do refeitório, porém,
Aristarco despachou: "não têm que ver!" Ao mesmo
tempo a sineta importuna badalava chamando à forma. O Professor
Bataillard, de branco, no cinturão vermelho, apareceu ao lado do
diretor. Os rapazes morderam-se de raiva. E não houve nunca no
mundo dois superiores mais odiados.
Mas a teia da disciplina tinha malhas de maior largura. Alguns rapazes
acharam meio de se esgueirar até à copa; e eu também
com eles.
Desde muito, andava querendo ver um cadáver, espetáculo
real, de mãos contraídas, revirados beiços. As cartas
iconográficas de parede deixavam-me impassível, com as estampas
teóricas de cérebros a descoberto, globos oculares exorbitados,
ventres golpeados em abas, mostrando vísceras, figuras humanas
de pé, descansando a um quadril, movendo a supinação
num jeito de complacência passiva, esfolados para que lhes víssemos
as veias, modelos vivos da ciência em pose de suplício, constâncias
de brâmane, como à espera que houvéssemos aprendido
de cor a circunvolução do sangue, para vestir de novo a
pele e os músculos deslocados. Não me bastava.
Nos grandes armários havia melhor: peças anatômicas
de massa, sangrando verniz vermelho, legítima hemorragia; corações
enormes, latejantes, úmidos à vista, mas que se destampavam
como terrinas; olhos de ciclope, arrancados, que pareciam viver ainda
estranhamente a vida solitária e inútil da visão;
mas olhos que se abriam como formas de projéteis de entrudo. Mas
eu queria a realidade, a morte ao vivo.
Lembrava-me de ter visto um anjinho, entre velas, no caixão agaloado,
simples carinha amarelenta, sombreada de azul em nódoas dispersas,
as mãos crispadas numa fita, cobrindo-se de flores a imobilidade
do último sono. Vira ainda uma velha, na essa elevada, uma opulenta
velha que morrera sem herdeiros. Ao redor, choravam muito as tochas pranto
de cera cor de mel, inconsoláveis, espichando compridas chamas,
que pareciam subir ao teto com um filete de fumo. Distinguiam-se bem os
dois pés para dentro, em botinas de pano; e o nariz pronunciando-se
sob o lenço de rendas.
Isto não era ter visto cadáver. Eu queria o cadáver
flagrante, despido dos artifícios de armação e religiosidade,
que fazem do defunto simples pretexto para um cerimonial de aparato. O
que me convinha era o galho por terra, ao capricho da queda, decepado
da árvore da existência, tal qual.
O cadáver do criado estava em condições; com a vantagem
do adereço dramático do sangue e do crime, como nos teatros.
Encaminhava-me, pois, para a cozinha e sentia palpitações
fortes, abalando-me certo modo de agradável pavor. A cozinha do
Ateneu, além dos alojamentos da copa, era espaçosa como
um salão. Às paredes cintilava o trem completo de cobre
areado, em linha as peças redondas como uma galeria de broquéis.
No centro uma comprida mesa servia de refeitório à criadagem.
Naquela ocasião havia muita gente perto da mesa. Vi pelas costas
pessoas alheias ao estabelecimento. Disseram-me que estava presente a
autoridade e tratava de remover o morto. Aquela gente toda devia ser,
de costas, a autoridade policial, feição do poder público
que eu não discriminava ainda bem, mas já considerava. Caído
ao soalho, vi o cadáver sobre uma esteira de sangue.
Guardava ainda a contorção esquerda da agonia; à
boca fervia-lhe um crivo de espuma rosada; trajava colete fechado, calças
de casimira grossa. Os ferimentos não se viam. Os olhos estavam-lhe
inteiramente abertos e de tal maneira virados que me fizeram estremecer.
Alguns minutos depois de minha entrada, chegaram dois sujeitos com uma
rede. Os copeiros ajudaram a apanhar o corpo; os homens da rede o levaram.
Impressionou-me para sempre o desfalecimento flácido dos membros,
quando levantaram o cadáver, a moleza da cabeça, rodando
nos ombros, com um movimento próprio dos que padecem intolerável
angústia, e um choque súbito para trás que me gelou
o sangue, empinando-se o queixo e o nó da garganta, rasgando-se
a boca, brusco, como se o ferido vomitasse um resto tenaz da vida.
Após a rede, pela escada da cozinha, saíram todos; eu fiquei.
Examinava ainda o chão alagado de sangue quando alguém,
passando, afagou-me os cabelos: era Ângela!
- Morió, disse, indicando o sangue, arregalando as sobrancelhas,
e desapareceu com o andar de bamboleio.
Primeira vez que reparei que era bonita a canarina. Sim, senhor! E para
o demônio culpado de tão horrível incidente fui de
uma benevolência tal de opinião que me nasceram remorsos.
Ângela tinha cerca de vinte anos; parecia mais velha pelo desenvolvimento
das proporções. Grande, carnuda, sanguínea e fogosa,
era um desses exemplares excessivos do sexo que parecem conformados expressamente
para esposas da multidão - protestos revolucionários contra
o monopólio do tálamo.
Atirada de modos, como o ditirambo do amor efêmero; vazia como as
estátuas ocas; sem sentimentos, material e estúpida, possuía
entretanto um segredo satânico de graduar os largos olhos de sépia
e ouro, animar expressões no rosto que dir-se-ia viver-lhe na face
uma alma de superfície, possante, capaz dos altos martírios
da ternura e de interpretar os poemas trágicos da dedicação.
Gostava de arregaçar as mangas para mostrar os braços, luxo
de alvura, braços perfeitos de princesa, que davam que pensar ao
espanador humilde no serviço da manhã. Exposta às
soalheiras, revestira-se a cor branca do rosto de um moreno cálido,
tom fugitivo de magnólias fanadas, invulnerável aos rigores
de ar livre, como deve ter sido outrora a epiderme de Ceres. Ferissem-lhe
a tez os dardos corrosivos da insolação, vinha-lhe apenas
ao rosto um rubor mais belo, e não lhe tirava mais o sol à
mocidade da carne do que à própria terra, sob a calcinação
dos ardores: uma primavera de rosas.
Consciente da formosura, Ângela abusava.
E era do mal livrar-se. Começava por um jogo de virtude. Enxugava
em ar de seriedade os lábios úmidos; as pálpebras,
de longas pestanas, baixavam sobre os olhos, sobre o rosto, viseira impenetrável
do pudor. Convidava à adoração colhendo aos ombros
o manto da candura, refugiando-se na indiferença hierática
das vestais. Depois, uma pontinha de ingênuo sorrir, olhos fechados
ainda; gradação de infantilidade que substituía à
vestal uma criança esquiva e tímida, rindo, voltando a cara.
Os olhos, por fim, aventuravam-se de relance, uma temeridade de noiva
possível, nada mais, volvendo ao retraimento cismador. Depois,
a contemplação confiada; romance inteiro, linha por linha,
de uma virgindade. Até que súbito, meu castíssimo
Barreto! aquela virtude, aquela meiguice, aquela esquiva candura, aquela
nubilidade melancólica, aquela fisionomia honesta, pesarosa talvez
de ser amável, fendia-se em dois batentes de porta mágica
e rodava em explosão o sabbat das lascívias.
Os olhos riam, destilando uma lágrima de desejo; as narinas ofegavam,
adejavam trêmulas por intervalos, com a vivacidade espasmódica
do amor das aves; os lábios, animados de convulsões tetânicas,
balbuciavam desafios, prometendo submissão de cadela e a doçura
dos sonhos orientais. Dominava então pela oferta abusiva, de repente;
abatia-se à derradeira humilhação, para atrair de
baixo, como as vertigens. Ali estava, por terra, a prostituição
da vestal, o himeneu da donzela, a deturpação da inocente,
três servilismos reclamando um dono; apetite para esta orgia rara
sem convivas!
Não escolhia amores. Era de todos como os elementos; como os elementos,
sem remorso das desordens e depredações. Franqueava-se à
concorrência. Havia lugar para todos à sombra dos cabelos
castanhos, que lhe podiam vestir as copiosas formas, fartos, perpetuamente
secos, que ela sacudia a correr como uma poeira de feno.
Aquele modo de olhar, passando, de Ângela, clarificou-me a imaginação
das sombras de terror em que me enleara o alvoroço do acontecimento
da tarde e a vista horrível do cadáver.
Depois da façanha, Bento Alves, o herói, sumiu-se; comentavam-lhe
demais a bravura. Nem aos exercícios do campo compareceu.
Bento Alves era um misterioso. Misteriosos são no colégio
os que não andam a atravancar o espaço com as gatimanhas
das suas expansões. Freqüentava as aulas superiores; sem que
fosse um estudante de rumoroso mérito, fazia-se respeitar dos mestres
e condiscípulos. Sisudo como certos rapazes de inteligência
menor que se arreceiam do ridículo, não somente pela sisudez
se impunha ao respeito. Consideravam-no principalmente pela nomeada de
hercúleo. Os fortes constituem realmente uma fidalguia de privilégios
no internato. No tumulto da existência em comum, fundem-se as distinções
de classe na democracia do coleguismo, as cambiantes de fortuna apagam-se
no figurino geral das blusas pardas. Os títulos de superioridade
prevalecem primitivamente no critério semibárbaro dos verdes
anos; o punho valido chega a fazer vantagem sobre a própria vantagem
do favoritismo.
Alves não alardeava de forte; evitava disputas, não jogava
o pulso, preferia exercitar-se à ginástica sem espectadores.
Às vezes, por brinquedo, cingia o braço a um colega entre
o polegar e o médio e fechava-lhe sob a manga um bracelete roxo
dolorido. Aqueles que se sujeitavam ao formidável ensaio de tatuagem
por compressão, acercavam-se, daí por diante, de Bento Alves
com os escrúpulos da mais reservada prudência.
Entretanto era mole, da preguiça monumental dos animais pujantes.
Veloz, detestava a carreira; alegre, fugia aos folguedos. Gostava do seu
sossego; desviava os incômodos da convivência distribuída,
transbordante dos estimados. Não se falava dele no Ateneu. Limitavam-se
a temê-lo em silêncio.
Depois da valorosa façanha a que o tinha levado a casualidade,
teve de ver-se herói à força. Um desespero. Se algum
companheiro caía na tolice de dizer-lhe alguma coisa relativamente
ao crime do jardineiro, Bento Alves rasgava a conversa com um monossílabo
de impaciência, encrespando-se como um javali. Apesar de tudo foi
o pobre modesto percutido, laminado sobre a bigorna da notoriedade.
Felizmente o barulho da entrada para o Ateneu de um moço célebre
veio modificar a odiosa voga.
Acabava de matricular-se Nearco da Fonseca, pernambucano de ilustre estirpe.
Apresentou-se com o pai, vulto político em galarim no tempo. Era
um mancebo de dezessete anos, rosto cavado, cabelos abundantes, de talento
não comum, olhar vivo, moroso de importância, nariz adunco,
avançado, seco, quase translúcido como um nariz de vidro.
Franzino como a infância desvalida, magro como uma preleção
de osteologia, surpreendeu-nos, entre outras, uma recomendação
a seu respeito, pelo próprio diretor às barbas do pai: -
Nearco da Fonseca era um grande ginasta!
Talentoso que fosse, concebíamos, se por nada mais, ao menos pela
cabeleira... Mas um ginasta aquele espectro da necessidade!
A juventude, entretanto, é a eterna esperança: nós
esperamos por uma exibição comprobante.
Abalou-se a tribo dos acrobatas, dos atletas; toda a rapaziada de brio,
o Luís à frente, que localizava na protuberância nodosa
dos bíceps o pundonor supremo da criatura, preparou na mais vasta
admiração um aposento considerável para acolher o
confrade.
Formados trezentos, à tarde, diante dos aparelhos, foi em movimento
de avidez que ouvimos Bataillard com o cavalheirismo que o distinguia,
convidar a exibir-se o grande Nearco.
Estava presente o diretor; estava presente o respeitável progenitor
de Blondin. O Ateneu olhava.
Nearco deixou a forma, rompendo a marcha com o pé esquerdo segundo
a regra, mãos à ilharga, sério como um bispo, e encaminhou-se
para o trapézio com o passo medido das emas, imperturbável
como quem sabe profundamente a técnica do marchar. Perto do aparelho,
sempre de mãos à cinta, volta a volver! virou-se para o
colégio, teso, e quebrou para nós um duro salamaleque, conservando
por segundos a efracção angular das figurinhas delineadas,
representando a lavoura, na cantaria histórica do Egito.
Assuntávamos ansiosos.
Depois do cumprimento, Nearco empunhou a barra do trapézio, polegar
para baixo, segundo a pragmática das posições. E
fez uma flexão. Ah! não sabeis, profanos que sois, quanto
vale a flexão dos membros superiores! A fórmula no mundo
ideal da mecânica é a alavanca de Arquimedes; a aplicação
prática e contundente é o murro britânico. Consiste
nisto: encolher as munhecas.
Nearco fez uma, fez duas, fez cinco! Seguiu-se uma viravolta, e Nearco
ao trapézio, de cócoras, pôde perambular sobre o pasmo
circunstante o pausado beque... Não era tudo, porém! Nearco
arranjou mais umas fantasias de cambalhotas, capazes de transformar radicalmente
os princípios firmados da arte dos trambolhões, e beneficiou-nos,
suando, com um sorriso triunfal.
Faltava a sorte do fim. Nearco espichou quanto pôde a lamentável
ausência de músculos e deu-nos... uma sereia! A sereia é
tudo que há de mais elementar, de mais pulha, de mais tolamente
ostentoso em matéria de aparelhos. O sujeito segura-se às
cordas, levanta os pés da barra, mete os pés pelas mãos
e de cabeça para a terra empurra o ventre. O pobre Nearco, desbarrigado,
não tinha ventre para empurrar.
Não empurrou coisa nenhuma; quando muito uns ossinhos que lhe saíam
à altura do umbigo como cabos de faca. Pulou ao chão.
Estava exibido o acrobata! Nós olhávamos uns para os outros,
bestificados, em compostura abatida de caras-de-asno. Aristarco percebeu
e repreendeu-nos com o sobrecenho. Nós compreendemos delicadamente:
estava ali o respeitável pai de um colega...
Uma roda de palmas, claras, estrepitantes, inacabáveis, percorreu
as fileiras com a eletricidade comunicativa das aclamações.
Nearco, altivo, agradeceu com o nariz.
|
|