O
ATENEU
Raul Pompéia
CAPÍTULO II
Abriam-se as aulas a 15 de fevereiro.
De manhã, à hora regulamentar, compareci. O diretor, no
escritório do estabelecimento, ocupava uma cadeira rotativa junto
à mesa de trabalho. Sobre a mesa um grande livro abria-se em colunas
maciças de escrituração e linhas encarnadas.
Aristarco, que consagrava as manhãs ao governo financeiro do colégio,
conferia, analisava os assentamentos do guarda-livros. De momento a momento
entravam alunos. Alguns acompanhados.
A cada entrada, o diretor lentamente fechava o livro comercial, marcando
a página com um alfanje de marfim; fazia girar a cadeira e soltava
interjeições de acolhimento, oferecendo episcopalmente a
mão peluda ao beijo contrito e filial dos meninos. Os maiores,
em regra, recusavam-se à cerimônia e partiam com um simples
aperto de mão.
O rapaz desaparecia, levando o sorriso pálido na face, saudoso
da vadiação ditosa das férias. O pai, o correspondente,
o portador, despedia-se, depois de banais cumprimentos, ou palavras a
respeito do estudante, amenizadas pela gracinha da bonomia superior de
Aristarco, que punha habilmente um sujeito fora de portas com o riso fanhoso
e o simples modo impelido de segurar-lhe os dedos.
A cadeira girava de novo à posição primitiva; o livro
da escrituração espalmava outra vez as páginas enormes;
e a figura paternal do educador desmanchava-se, volvendo a simplificar-se
na esperteza atenta e seca do gerente.
A este vaivém de atitudes, feição dupla de uma mesma
individualidade e contingência comum dos sacerdócios, estava
tão habituado o nosso diretor, que nenhum esforço lhe custava
a manobra. O especulador e o levita ficavam-lhe dentro em camaradagem
íntima, bras dessus, bras dessous. Sabiam, sem prejuízo
da oportunidade, aparecer por alternativa ou simultaneamente; eram como
duas almas inconhas num só corpo.
Soldavam-se nele o educador e o empresário com uma perfeição
rigorosa de acordo, dois lados da mesma medalha; opostos, mas justapostos.
Quando meu pai entrou comigo havia no semblante de Aristarco uma pontinha
de aborrecimento. Decepção talvez de estatística,
o número dos estudantes novos não compensando o número
dos perdidos, as novas entradas não contrabalançando as
despesas do fim do ano... Mas a sombra de despeito apagou-se logo, como
o resto de túnica que apenas tarda a sumir-se numa mutação
à vista; e foi com uma explosão de contentamento que o diretor
nos acolheu.
Sua diplomacia dividia-se por escaninhos numerados, segundo a categoria
de recepção que queria dispensar. Ele tinha maneiras de
todos os graus, segundo a condição social da pessoa. As
simpatias verdadeiras eram raras. No âmago de cada sorriso morava-lhe
um segredo de frieza que se percebia bem. E duramente se marcavam distinções
políticas, distinções financeiras, distinções
baseadas na crônica escolar do discípulo, baseadas na razão
discreta das notas do guarda-livros. Às vezes, uma criança
sentia a alfinetada no jeito da mão a beijar. Saía indagando
consigo o motivo daquilo, que não achava em suas contas escolares...
O pai estava dois trimestres atrasado.
Por diversas causas a minha recepção devia ser das melhores.
Efetivamente; Aristarco levantou-se ao nosso encontro e nos conduziu à
sala especial das visitas.
Saiu depois a mostrar o estabelecimento, as coleções em
armários dos objetos próprios para facilitar o ensino. Eu
via tudo curiosamente, sem perder os olhares dos colegas desconhecidos,
que me fitavam muito ancho na dignidade do uniforme em folha. O edifício
fora caiado e pintado durante as férias, como os navios que aproveitam
o descanso nos portos para uma reforma de apresentação.
Das paredes pendiam as cartas geográficas, que eu me comprazia
de ver como um itinerário de grandes viagens planejadas. Havia
estampas coloridas em molduras negras, assuntos de história santa
e desenho grosseiro, ou exemplares zoológicos e botânicos,
que me revelavam direções de aplicação estudiosa
em que eu contava triunfar. Outros quadros vidraçados exibiam sonoramente
regras morais e conselhos muito meus conhecidos de amor à verdade,
aos pais, e temor de Deus, que estranhei como um código de redundância.
Entre os quadros, muitos relativos ao Mestre; os mais numerosos; e se
esforçavam todos por arvorar o mestre em entidade incorpórea,
argamassada de pura essência de amor e suspiros cortantes de sacrifício,
ensinando-me a didascalolatria que eu, de mim para mim, devotamente, jurava
desempenhar à risca. Visitamos o refeitório, adornado de
trabalhos a lápis dos alunos, a cozinha de azulejo, o grande pátio
interno dos recreios, os dormitórios, a capela... De volta à
sala de recepção, adjacente à da entrada lateral
e fronteira ao escritório, fui apresentado ao Professor Mânlio
da aula superior de primeiras letras, um homem aprumado, de barba toda
grisalha e cerrada, pessoa excelente, desconfiando por sistema de todos
os meninos.
Durante o tempo da visita, não falou Aristarco senão das
suas lutas, suores que lhe custava a mocidade e que não eram justamente
apreciados. "Um trabalho insano! Moderar, animar, corrigir esta massa
de caracteres, onde começa a ferver o fermento das inclinações;
encontrar e encaminhar a natureza na época dos violentos ímpetos;
amordaçar excessivos ardores; retemperar o ânimo dos que
se dão por vencidos precocemente; espreitar, adivinhar os temperamentos;
prevenir a corrupção; desiludir as aparências sedutoras
do mal; aproveitar os alvoroços do sangue para os nobres ensinamentos;
prevenir a depravação dos inocentes; espiar os sítios
obscuros; fiscalizar as amizades; desconfiar das hipocrisias; ser amoroso,
ser violento, ser firme; triunfar dos sentimentos de compaixão
para ser correto; proceder com segurança, para depois duvidar;
punir para pedir perdão depois... Um labor ingrato, titânico,
que extenua a alma, que nos deixa acabrunhados ao anoitecer de hoje, para
recomeçar com o dia de amanhã... Ah! meus amigos, concluiu
ofegante, não é o espírito que me custa, não
é o estudo dos rapazes a minha preocupação... É
o caráter! Não é a preguiça o inimigo, é
a imoralidade!" Aristarco tinha para esta palavra uma entonação
especial, comprimida e terrível, que nunca mais esquece quem a
ouviu dos seus lábios. "A imoralidade!"
E recuava tragicamente, crispando as mãos. "Ah! mas eu sou
tremendo quando esta desgraça nos escandaliza. Não! Estejam
tranqüilos os pais! No Ateneu, a imoralidade não existe! Velo
pela candura das crianças, como se fossem, não digo meus
filhos: minhas próprias filhas! O Ateneu é um colégio
moralizado! E eu aviso muito a tempo... Eu tenho um código..."
Neste ponto o diretor levantou-se de salto e mostrou um grande quadro
à parede. "Aqui está o nosso código. Leiam!
Todas as culpas são prevenidas, uma pena para cada hipótese:
o caso da imoralidade não está lá. O parricídio
não figurava na lei grega. Aqui não está a imoralidade.
Se a desgraça ocorre, a justiça é o meu terror e
a lei é o meu arbítrio! Briguem depois os senhores pais!..."
Afianço-lhes que o meu tremeu por mim. Eu, encolhido, fazia em
superlativo a metáfora sabida das varas verdes. Notando a minha
perturbação, o diretor desvaneceu-se em afagos. "Mas
para os rapazes dignos eu sou um pai!... os maus eu conheço: não
são as crianças, principalmente como você, o prazer
da família, e que há de ser, estou certo, uma das glórias
do Ateneu. Deixem estar..." Eu tomei a sério a profecia e
fiquei mais calmo.
Quando meu pai saiu, vieram-me lágrimas, que eu tolhi a tempo de
ser forte. Subi ao salão azul, dormitório dos médios,
onde estava a minha cama, mudei de roupa, levei a farda ao número
54 do depósito geral, meu número. Não tive coragem
de afrontar o recreio. Via de longe os colegas, poucos àquela hora,
passeando em grupos, conversando amigavelmente, sem animação,
impressionados ainda pelas recordações de casa; hesitava
em ir ter com eles, embaraçado da estréia das calças
longas, como um exagero cômico, e da sensação de nudez
à nuca, que o corte recente dos cabelos desabrigara em escândalo.
João Numa, inspetor ou bedel, baixote, barrigudo, de óculos
escuros, movendo-se com vivacidade de bácoro alegre, veio achar-me
indeciso, à escada do pátio. "Não desce, a brincar?"
perguntou bondosamente. "Vamos, desça, vá com os outros."
O amável bácoro tomou-me pela mão e descemos juntos.
O inspetor deixou-me entre dois rapazinhos, que me trataram com simpatia.
Às onze horas, a sineta deu o sinal das aulas. Os meus bons companheiros,
de classes atrasadas, indicaram a sala de ensino superior de primeiras
letras, que devia ser a minha, e se despediram.
O Professor Mânlio, a quem eu fora recomendado, recomendou-me por
sua vez ao mais sério dos seus discípulos, o honrado Rabelo.
Rabelo era o mais velho e tinha óculos escuros como João
Numa. O vidro curvo dos óculos cobria-lhe os olhos rigorosamente,
monopolizando a atenção no interesse único da mesa
do professor. Como se fosse pouco, o zeloso estudante fazia concha com
as mãos às têmporas, para impedir o contrabando evasivo
de algum olhar escapado ao monopólio do vidro.
Este luxo de aplicação não provinha do simples empenho
de fazer atitude de exemplar. Rabelo sofria da vista, tanto que muito
tarde pudera entregar-se aos estudos. Recebeu-me com um sorriso benévolo
de avô; afastou-se um pouco para me dar lugar e esqueceu-me incontinenti,
para afundar-se na devoradora atenção que era o seu apanágio.
Os companheiros de classe eram cerca de vinte; uma variedade de tipos
que me divertia. O Gualtério, miúdo, redondo de costas,
cabelos revoltos, motilidade brusca e caretas de símio - palhaço
dos outros, como dizia o professor; o Nascimento, o bicanca, alongado
por um modelo geral de pelicano, nariz esbelto, curvo e largo como uma
foice; o Álvares, moreno, cenho carregado, cabeleira espessa e
intonsa de vate de taverna, violento e estúpido, que Mânlio
atormentava, designando para o mister das plataformas de bonde, com a
chapa numerada dos recebedores, mais leve de carregar que a responsabilidade
dos estudos; o Almeidinha, claro, translúcido, rosto de menina,
faces de um rosa doentio, que se levantava para ir à pedra com
um vagar lânguido de convalescente; o Maurílio, nervoso,
insofrido, fortíssimo em tabuada: cinco vezes três, vezes
dois, noves fora, vezes sete?... Lá estava Maurílio, trêmulo,
sacudindo no ar o dedinho esperto... olhos fúlgidos no rosto moreno,
marcado por uma pinta na testa; o Negrão, de ventas acesas, lábios
inquietos, fisionomia agreste de cabra, canhoto e anguloso, incapaz de
ficar sentado três minutos, sempre à mesa do professor e
sempre enxotado, debulhando um risinho de pouca-vergonha, fazendo agrados
ao mestre, chamando-lhe bonzinho, que não correspondia com um sopapo,
aventurando a todo ensejo uma tentativa de abraço que Mânlio
repelia, precavido de confianças; Batista Carlos, raça de
bugre, valido, de má cara, coçando-se muito, como se incomodasse
a roupa no corpo, alheio às coisas da aula, como se não
tivesse nada com aquilo, espreitando apenas o professor para aproveitar
as distrações e ferir a orelha aos vizinhos com uma seta
de papel dobrado. Às vezes a seta do bugre ricochetava até
à mesa de Mânlio. Sensação; suspendiam-se os
trabalhos; rigoroso inquérito. Em vão, que os partistas
temiam-no e ele era matreiro e sonso para disfarçar.
Dignos de nota havia ainda o Cruz, tímido, enfiado, sempre de orelha
em pé, olhar covarde de quem foi criado a pancadas, aferrado aos
livros, forte em doutrina cristã, fácil como um despertador
para desfechar as lições de cor, perro como uma cravelha
para ceder uma idéia por conta própria; o Sanches, finalmente,
grande, um pouco mais moço que o venerando Rabelo, primeiro da
classe, muito inteligente, vencido apenas por Maurílio na especialidade
dos noves fora vezes tanto, cuidadoso dos exercícios, êmulo
do Cruz na doutrina, sem competidor na análise, no desenho linear,
na cosmografia.
O resto, uma cambadinha indistinta, adormentados nos últimos bancos,
confundidos na sombra preguiçosa do fundo da sala.
Fui também recomendado ao Sanches. Achei-o supinamente antipático:
cara extensa, olhos rasos, mortos, de um pardo transparente, lábios
úmidos, porejando baba, meiguice viscosa de crápula antigo.
Era o primeiro da aula. Primeiro que fosse do coro dos anjos, no meu conceito
era a derradeira das criaturas.
Entretinha-me a espiar os companheiros, quando o professor pronunciou
o meu nome. Fiquei tão pálido que Mânlio sorriu e
perguntou-me brando, se queria ir à pedra. Precisava examinar-me.
De pé, vexadíssimo, senti brumar-se-me a vista, numa fumaça
de vertigem. Adivinhei sobre mim o olhar visguento do Sanches, o olhar
odioso e timorato do Cruz, os óculos azuis do Rabelo, o nariz do
Nascimento, virando devagar como um leme; esperei a seta do Carlos, o
quinau do Maurílio, ameaçador, fazendo cócegas ao
teto, com o dedo feroz; respirei no ambiente adverso da maldita hora,
perfumado pela emanação acre das resinas do arvoredo próximo,
uma conspiração contra mim da aula inteira, desde as bajulações
de Negrão até a maldade violenta do Álvares. Cambaleei
até a pedra. O professor interrogou-me; não sei se respondi.
Apossou-se-me do espírito um pavor estranho. Acovardou-me o terror
supremo das exibições, imaginando em roda a ironia má
de todos aqueles rostos desconhecidos. Amparei-me à tábua
negra, para não cair; fugia-me o solo aos pés, com a noção
do momento; envolveu-me a escuridão dos desmaios, vergonha eterna!
liquidando-se a última energia... pela melhor das maneiras piores
de liquidar-se uma energia.
Do que se passou depois, não tenho idéia. A perturbação
levou-me a consciência das coisas. Lembro-me que me achei com o
Rabelo, na rouparia, e o Rabelo animava-me com um esforço de bondade
sincero e comovedor.
Rabelo retirou-se e eu, em camisa, acabrunhado, amargando o meu desastre,
enquanto o roupeiro procurava o gavetão 54, fiquei a considerar
a diferença daquela situação para o ideal de cavalaria
com que sonhara assombrar o Ateneu.
Como tardava o criado, apanhei aborrecido um folheto que ali estava à
mesa dos assentos, entradas de enxoval, registros de lavanderia. Curioso
folheto, versos e estampas... Fechei-o convulsamente com o arrependimento
de uma curiosidade perversa. Estranho folheto! Abri-o de novo. Ardia-me
à face inexplicável incêndio de pudor, constringia-me
a garganta esquisito aperto de náusea. Escravizava-me, porém,
a sedução da novidade. Olhei para os lados com um gesto
de culpado; não sei que instinto acordava-me um sobressalto de
remorso. Um simples papel, entretanto, borrado na tiragem rápida
dos delitos de imprensa. Arrostei-o. O roupeiro veio interromper-me. "Larga
daí! disse com brutalidade, isso não é para menino!"
E retirou o livrinho.
Esta impressão viva de surpresa curou-me da lembrança do
meu triste episódio, crescendo-me na imaginação como
as visões, absorvendo-me as idéias. Zumbia-me aos ouvidos
a palavra aterrada de Aristarco... Sim, devia ser isto: um entravamento
obscuro de formas despidas, roupas abertas, um turbilhão de frades
bêbados, deslocados ao capricho de todas as deformidades de um monstruoso
desenho, tocando-se, saltando a sarabanda diabólica sem fim, no
empastado negrume da tinta do prelo; aqui e ali, o raio branco de uma
falha, fulminando o espetáculo e a gravura, como o estigma complementar
do acaso.
A rouparia ocupava grande parte do subchão do imenso edifício,
entre o vigamento do soalho e a terra cimentada. Outra parte era destinada
aos lavatórios, centenas de bacias, ao longo das paredes e pouco
acima num friso de madeira os copos e as escovas de dentes. Terceiro compartimento,
além destes, acomodava o arsenal dos aparelhos ginásticos
e o dormitório da criadagem. Da rouparia para o recreio central
atravessava-se obliquamente o saguão das bacias. Logo a sair ao
pátio encontrei o benévolo Rabelo, que me esperava. Insistiu
com um requinte importuno de complacência sobre o meu incidente,
desculpando-me, explicando-me, absolvendo-me; tornou-se insuportável.
Para mudar de conversa pedi informações acerca do nosso
professor. Deu-mas ótimas, nem outras daria um aluno exemplar como
ele. Nenhum mestre é mau para o bom discípulo, afirmava
uma das máximas de parede.
Era hora de descanso, passeávamos, conversando. Falamos dos colegas.
Vi, então, de dentro da brandura patriarcal do Rabelo, descascar-se
uma espécie de inesperado Tersito, produzindo injúrias e
maldições. "Uma cáfila! uma corja! Não
imagina, meu caro Sérgio. Conte como uma desgraça ter de
viver com esta gente." E esbeiçou um lábio sarcástico
para os rapazes que passavam. "Aí vão as carinhas sonsas,
generosa mocidade... Uns perversos! Têm mais pecados na consciência
que um confessor no ouvido; uma mentira em cada dente, um vício
em cada polegada de pele. Fiem-se neles. São servis, traidores,
brutais, adulões. Vão juntos. Pensa-se que são amigos...
Sócios de bandalheira! Fuja deles, fuja deles. Cheiram a corrupção,
empestam de longe. Corja de hipócritas! Imorais! Cada dia de vida
tem-lhes vergonha da véspera. Mas você é criança;
não digo tudo o que vale a generosa mocidade. Com eles mesmos há
de aprender o que são... Aquele é o Malheiro, um grande
em ginástica. Entrou graúdo trazendo para cá os bons
costumes de quanto colégio por aí. O pai é oficial.
Cresceu num quartel no meio da chacota das praças. Forte como um
touro, todos o temem, muitos o cercam, os inspetores não podem
com ele; o diretor respeita-o; faz-se a vista larga para os seus abusos...
Este que passou por nós, olhando muito, é o Cândido,
com aqueles modos de mulher, aquele arzinho de quem saiu da cama, com
preguiça nos olhos... Este sujeito... Há de ser seu conhecido.
Mas faço exceções: ali vem o Ribas, está vendo?
feio coitadinho como tudo, mas uma pérola. É a mansidão
em pessoa. Primeira voz do Orfeão, uma vozinha de moça que
o diretor adora. É estudioso e protegido. Faz a vida cantando como
os serafins. Uma pérola!"
- Ali está um de joelhos...?
- De joelhos... Não há perguntar; é o Franco. Uma
alma penada. Hoje é o primeiro dia, ali está de joelhos
o Franco. Assim atravessa as semanas, os meses, assim o conheço
nesta casa, desde que entrei. De joelhos como um penitente expiando a
culpa de uma raça. O diretor chama-lhe cão, diz que tem
calos na cara. Se não tivesse calos ao joelho, não haveria
canto do Ateneu que ele não marcasse com o sangue de uma penitência.
O pai é de Mato Grosso; mandou-o para aqui com uma carta em que
o recomendava como incorrigível, pedindo severidade. O correspondente
envia de tempos a tempos um caixeiro, que faz os pagamentos e deixa lembranças.
Não sai nunca... Afastemo-nos que aí vem um grupo de gaiatos.
Um tropel de rapazes atravessou-nos a frente, provocando-me com surriadas.
"Viu aquele da frente, que gritou calouro? Se eu dissesse o que se
conta dele... aqueles olhinhos úmidos de Senhora das Dores... Olhe;
um conselho: faça-se forte aqui, faça-se homem. Os fracos
perdem-se.
"Isto é uma multidão; é preciso força
de cotovelos para romper. Não sou criança, nem idiota; vivo
só e vejo de longe; mas vejo. Não pode imaginar. Os gênios
fazem aqui dois sexos, como se fosse uma escola mista. Os rapazes tímidos,
ingênuos, sem sangue, são brandamente impelidos para o sexo
da fraqueza; são dominados, festejados, pervertidos como meninas
ao desamparo. Quando, em segredo dos pais, pensam que o colégio
é a melhor das vidas, com o acolhimento dos mais velhos, entre
brejeiro e afetuoso, estão perdidos... Faça-se homem, meu
amigo! Comece por não admitir protetores."
Ia por diante Rabelo com os extraordinários avisos, quando senti
puxarem-me a blusa. Quase caí. Voltei-me; vi à distância
uma cara amarela, de gordura balofa, olhos vesgos sem pestanas, virada
para mim, esgarçando a boca em careta de riso cínico. Um
sujeito evidentemente mais forte do que eu. Não obstante apanhei
com raiva um pedaço de telha e arremessei. O tratante livrou-se,
injuriando-me com uma gargalhada, e sumiu-se. "Muito bem", aplaudiu
Rabelo. E à pergunta que fiz, informou: aquele desagradável
rapaz era o Barbalho, que havia de ser um dia preso como gatuno de jóias;
nosso companheiro da aula primária, do número dos esquecidos
nos bancos do fundo.
O Professor Mânlio teve a bondade de adiar o meu exame, e, para
salvar-me das conseqüências de escárnio do desastrado
incidente da primeira aula, obsequiou-me na seguinte com as melhores palavras
de animação. Os rapazes foram generosos. Maurílio
acariciou-me a cabeça mimosamente, provando que sabia ser bom o
dedinho implacável dos argumentos. Só o amarelo dos olhos
vesgos teimava em fazer gaifonas à socapa.
Depois do jantar não tornei a ver o Rabelo. Como freqüentava
algumas aulas extraordinárias do curso superior, recolhia-se a
certas horas para as salas de cima.
A sala do Professor Mânlio era ao nível do pátio,
em pavilhão independente do edifício principal; com duas
outras do curso primário, o alojamento da banda de música
e o salão suplementar de recreio, vantajoso em dias de chuva. Formando
ângulo reto com esta casa, uma extensa construção
de tijolo e tábuas pintadas, sala geral do estudo no pavimento
térreo e dormitório em cima, concorria para fechar metade
do quadrilátero do pátio, que o grande edifício completava,
estendendo-se em duas alas, como os braços da reclusão severa.
No fundo desta caixa desmedida de paredes, dilatava-se um areal claro,
estéril, insípido como a alegria obrigatória; algumas
árvores de cambucá mostravam, em roda, a folhagem fixa,
com o verdor morto das palmas de igreja, alourada a esmo da senilidade
precoce dos ramos que sofrem, como se não coubesse a vegetação
no internato; a um canto, esgalgado cipreste subia até as goteiras,
tentando fugir pelos telhados.
Sem o Rabelo achei-me aí como perdido, em meio dos rapazes. Os
conhecidos da aula desapareciam no tumulto que as salas todas despejavam.
Nem um só de quem me pudesse aproximar. Rente com a parede para
que me não dessem atenção, insinuei-me até
o lugar donde o inspetor Silvino, um grande magro, de avultado nariz e
suíças dilaceradas, olhar miúdo e vivo como chispas,
em órbitas de antro, fiscalizava o recreio, graduando a folgança,
à mercê de um temível canhenho. Sentava-se à
entrada do portão do lavatório. Um pouco além da
cadeira do Silvino, fiquei a salvo. Do seguro retiro avistava, no terreiro,
fresco das largas sombras da hora, o movimento dos colegas.
Num ponto e noutro formavam-se pequenos sarilhos, condensando irregularmente
a dispersão dos alunos. Eram os pobres novatos que os veteranos
sovavam à cacholeta, fraternalmente.
Perto de mim vi o Franco. Sempre de penitência; em pé, cara
contra a parede. Como Silvino dava-lhe as costas, divertia-se a pegar
moscas para arrancar a cabeça e ver morrer o bichinho na palma
da mão. Perguntei-lhe por que estava de castigo. Sem olhar, de
mau modo: "Lá sei! disse ele. Porque me mandaram." E
continuou a pegar as moscas. Franco era um rapazola de quatorze anos,
raquítico, de olhos pasmados, face lívida, pálpebras
pisadas. À fronte, com a expressão vaga dos olhos e a obliqüidade
dolorida dos supercílios, pousava-lhe uma névoa de aflição
e paciência, como se vê no Flos Sanctorum. A parte inferior
do semblante rebelava-se; um canto dos lábios franzia-se em contração
constante de odiento desprezo. Franco não ria nunca. Sorria apenas,
assistindo a uma briga séria, interessando-se pelo desenlace como
um apostador de rinha, enfurecendo-se quando apartavam. Uma queda alegrava-o,
principalmente perigosa. Vivia isolado no círculo da excomunhão
com que o diretor, invariavelmente, o fulminava todas as manhãs,
lendo no refeitório perante o colégio as notas da véspera.
Os professores já sabiam. À nota do Franco, sempre má,
devia seguir-se especial comentário deprimente, que a opinião
esperava e ouvia com delícia, fartando-se de desprezar. Nenhum
de nós como ele! E o zelo do mestre cada dia retemperava o velho
anátema. Não convinha expulsar. Uma coisa destas aproveita-se
como um bibelô do ensino intuitivo, explora-se como a miséria
do ilota, para a lição fecunda do asco. A própria
indiferença repugnante da vítima é útil.
Três anos havia que o infeliz, num suplício de pequeninas
humilhações cruéis, agachado, abatido, esmagado,
sob o peso das virtudes alheias mais que das próprias culpas, ali
estava, - cariátide forçada no edifício de moralização
do Ateneu, exemplar perfeito de depravação oferecido ao
horror santo dos puros.
Várias vezes nessa tarde fui assaltado pela chacota impertinente
do Barbalho. O endemoninhado caolho puxava-me a roupa, esbarrava-me encontrões
e fugia com grandes risadas falsas, ou parava-me de súbito em frente,
e, revestindo-se de quanta seriedade lhe era suscetível o açafrão
da cara, perguntava: "Mudou as calças?" Um inferno. Até
que afinal o meu desespero estourou.
Foi à noite, pouco antes da ceia. Estávamos a um canto mal
iluminado do pátio, quase sós. O biltre reconheceu-me e
arreganhou uma inexprimível interjeição de mofa.
Não esperei por mais. Estampei-lhe uma bofetada. Meio segundo depois,
rolávamos na poeira, engalfinhados como feras. Uma luta rápida.
Avisaram-nos que vinha o Silvino. Barbalho evadiu-se. Eu verifiquei que
tinha o peito da blusa coberto de sangue que me corria do nariz.
Uma hora mais tarde, na cama de ferro do salão azul, compenetrado
da tristeza de hospital dos dormitórios, fundos na sombra do gás
mortiço, trincando a colcha branca, eu meditava o retrospecto do
meu dia.
Era assim o colégio. Que fazer da matalotagem dos meus planos?
Onde meter a máquina dos meus ideais naquele mundo de brutalidade,
que me intimidava, com os obscuros detalhes e as perspectivas informes
escapando à investigação da minha inexperiência?
Qual o meu destino, naquela sociedade que o Rabelo descrevera horrorizado,
com as meias frases de mistério, suscitando temores indefinidos,
recomendando energia, como se coleguismo fosse hostilidade? De que modo
alinhar a norma generosa e sobranceira de proceder com a objeção
pertinaz do Barbalho? Inutilmente buscara reconhecer no rosto dos rapazes
o nobre aspecto da solenidade dos prêmios, dando-me idéia
da legião dos soldados do trabalho, que fraternizavam no empenho
comum, unidos pelo coração e pela vantagem do coletivo esforço.
Individualizados na debandada do recreio, com as observações
ainda mais da crítica do Rabelo, bem diverso sentimento inspiravam-me.
A reação do contraste induzia-me a um conceito de repugnância
que o hábito havia de esmorecer, que me tirava lágrimas
àquela noite. Ao mesmo tempo oprimia-me o pressentimento da solidão
moral, fazendo adivinhar que as preocupações mínimas
e as concomitantes surpresas inconfessáveis dariam pouco para as
efusões de alívio, a que corresponde o conselho, a consolação.
Nada de protetor, dissera Rabelo. Era o ermo. E na solidão conspiradas,
as adversidades de toda a espécie, falsidade traiçoeira
dos afetos, perseguição da malevolência, espionagem
da vigilância; por cima de tudo, céu de trovões sobre
os desalentos, a fúria tonante de Júpiter-diretor, o tremendo
Aristarco dos momentos graves.
Lembranças da família desviaram-me o curso às reflexões.
Não havia mais a mão querida para acalentar-me o primeiro
sono, nem a oração, tão longe nesse momento, que
me protegia à noite como um dossel de amor; o abandono apenas das
crianças sem lar que os asilos da miséria recolhem.
A convicção do meu triste infortúnio lentamente,
suavemente aniquilou-me num conforto de prostração e eu
dormi.
Pela noite adentro, comparsas de pesadelo, perseguiram-me as imagens várias
do atribulado dia; a pegajosa ternura de Sanches, a cara amarela do Barbalho,
a expressão de tortura do Franco, os frades descompostos do roupeiro.
Sonhei mesmo em regra. Eu era o Franco. A minha aula, o colégio
inteiro, mil colégios, arrebatados, num pé-de-vento, voavam
léguas afora por uma planície sem termo. Gritavam todos,
urravam a sabatina de tabuadas com um entusiasmo de turbilhão.
O pó crescia em nuvens do solo; a massa confusa ouriçava-se
de gestos, gestos de galho sem folhas em tormenta agoniada de inverno;
sobre a floresta dos braços, gesto mais alto, gesto vencedor, a
mão magra do Maurílio, crescida, enorme, preta, torcendo,
destorcendo os dedos sôfregos, convulsionados da histeria do quinau...
E eu caía, único vencido! E o tropel, de volta, vinha sobre
mim, todos sobre mim! sopeavam-me, calcavam-me, pesados, carregando prêmios,
prêmios aos cestos!
A sineta, tocando a despertar, livrou-me da angústia. Cinco horas
da manhã.
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