ARRAS
POR FORO DE ESPANHA (1371-1372)
Alexandre Herculano
CAPÍTULO VI
UMA BARREGÃ
RAINHA
O Douro é
bem carregado e triste! A sua corrente rápida, como que angustiada
pelos agudos e escarpados rochedos que a comprimem, volve águas
turvas e mal-assombradas. Nas suas ribas fragosas raras vezes podeis
saudar um sol puro ao romper da alvorada, porque o rio cobre-se
durante a noite com o seu manto de névoas, e, através
desse manto, a atmosfera embaciada faz cair sobre a vossa cabeça
os raios do sol semimortos, quase como um frio reflexo de lua ou
como a luz sem calor de tocha distante. É depois de alto
dia que esse ambiente, semelhante ao que rodeava os guerreiros de
Ossian, vos desoprime os pulmões, onde muitas vezes tem depositado
já os germes da morte. Então, se, trepando a um pináculo
das ribas, espraiais os olhos para a banda do sertão, lá
vedes uma como serpente imensa e alvacenta, que se enrosca por entre
as montanhas, e cujo colo está por baixo de vossos pés.
É o nevoeiro que se acama e dissolve sobre as águas
que o geraram. O horizonte, até aí turvo, limitado,
indistinto, expande-se ao longe: recortam-nos os cimos franjados
das montanhas, que parecem engastadas na cortina azul do céu,
e a terra, a perder de vista, afigura-se-nos como um mar de verdura
violentamente agitado; porque em desenhar as paisagens do Douro
a natureza empregou um pincel semelhante ao de Miguel Ângelo:
foi robusta, solene e profunda.
Como sobre um circo convertido em naumaquia, o Porto ergue-se em
anfiteatro sobre o esteiro do Douro e reclina-se no seu leito de
granito. Guardador de três províncias e tendo nas mãos
as chaves dos haveres delas, o seu aspecto é severo e altivo,
como o de mordomo de casa abastada. Mas não o julgueis antes
de o tratar familiarmente. Não façais cabedal de certo
modo áspero e rude que lhe haveis de notar; trazei-o à
prova, e achar-lhe-eis um coração bom, generoso e
leal. Rudeza e virtude são muitas vezes companheiras; e entre
nós, degenerados netos do velho Portugal, talvez seja ele
quem guarda ainda maior porção da desbaratada herança
do antigo carácter português no que tinha bom, que
era muito, e no que tinha mau, que não passava de algumas
demasias de orgulho.
Nos fins do século décimo quarto, o Porto ia ainda
longe da sorte que o aguardava. O fermento da sua futura grandeza
estava no carácter dos seus filhos, na sua situação
e nas mudanças políticas e industriais que depois
sobrevieram em portugal. Posto que nobre e lembrado como origem
do nome desta linhagem portuguesa, os seus destinos eram humildes,
comparados com os da teocrática Braga, com os da cavaleirosa
Coimbra, com os de Santarém, a cortesã, com os de
Évora, a romana e monumental, com os de Lisboa, a mercadora,
guerreira e turbulenta. Quem o visse, coroado da sua catedral, semiárabe,
semigótica, em vez de alcácer ameiado; sotoposto,
em vez de o ser a uma torre de menagem, aos dois campanários
lisos, quadrangulares e maciços, tão diferentes dos
campanários dos outros povos cristãos, talvez porque
entre nós os arquitectos árabes quiseram deixar as
almádemas das mesquitas estampadas, como ferrete da antiga
servidão, na face do templo dos nazarenos; quem assim visse
o "burgo" episcopal do Porto, pendurado à roda
da igreja e defendido, antes por anátemas secerdotais que
por engenhos de guerra, mal pensaria que desse burgo submisso nasceria
um empório de comércio, onde, dentro de cinco séculos,
mais que em nenhuma outra povoação do Reino, a classe,
então fraca e não definida, a que chamavam burgueses,
teria a consciência da sua força e dos seus direitos
e daria a Portugal exemplos singulares de amor tenaz de independência
e de liberdade.
A populosa e vasta cidade do Porto, que hoje se estende por mais
de uma légua, desde o Seminário até além
de Miragaia ou, antes, até à Foz, pela margem direita
do rio, entranhando-se amplamente para o sertão, mostrava
ainda nos fins do século décimo quarto os elementos
distintos de que se compôs. Ao oriente, o "burgo do bispo",
edificado pelo pendor do monte da Sé, vinha morre nas hortas
que cobriam todo o vale onde hoje estão lançadas a
Praça de D. Pedro e as Ruas das Flores e de S. João
e que o separavam dos Mosteiros de S. Domingos e de S. Francisco.
Do poente, a povoação de Miragaia, assentada ao redor
da Ermida de S. Pedro, trepava já para o lado do Olival e
vinha entestar pelo norte com o couto de Cedofeita e pelo oriente
com a vila ou burgo episcopal. A Igreja, o Município e a
Monarquia, entre esses limites pelejaram por séculos as suas
batalhas de predomínio, até que triunfou a Coroa.
Então a linha que dividia as três povoações
desapareceu ràpidamente debaixo dos fundamentos dos templos
e dos palácios. O Porto constituiu-se a exemplo da unidade
monárquica.
Era neste burgo eclesiástico, nesta cidade nascente, que
por formoso dia de Janeiro da era de César de 1410 (1372)
se viam varridas e cobertas de espadanas e flores as estreitas e
tortuosas ruas que pela encosta do monte guiavam ao burgo primitivo
fundado ou restaurado pelos Gascões, se não mentem
memórias remotas. Na Rua do Souto, já assim chamada,
talvez pela vizinhança de algum bosque de castanheiros, como
principal entrada da povoação, andavam as danças
judengas e folias mouriscas com músicas e trebelhos ou ogos,
por entre o povo vestido de festa, o que era indício evidente
de que se esperava el-rei, cuja vinda a qualquer povoação
era o único motivo legal para fazer dançar e foliar
judeus e mouros, que, decerto, não folgavam nada com estes
forçados e dispendiosos sinais de contentamento público.
Com efeito, uma numerosa e esplêndida cavalgada vinha da banda
do bailiado de Leça. El-rei D. Fernando ajuntara em Santarém
os seus ricos-homens e conselheiros e, amestrado por Leonor Teles
na arte de dissimular, recebera com todas as mostras de boa-vontade
o infante D. Dinis e Diogo Lopes Pacheco, ao qual, para maior disfarce,
não escasseara mercês. Depois, em folgares e caçadas
vagueara pelo Reino com Dª Leonor, até que em Eixo fizera
um como manifesto da resolução que tomara de a receber
por mulher, o que neste dia cumprira na antiga igreja daquela célebre
comenda dos Hospitalários. Era, pois, para celebrar esse
matrimónio adúltero, agourado pelas maldições
populares, que o bispo D. Afonso, menos escrupuloso que o povo de
Lisboa acerca de adultérios, vestia de festa o seu mui canónico
burgo.
A cavalgada que se vira descer ao longo do vale já atravessava
o rio da vila pela ponte do Souto e encaminhava-se para uma antiga
porta da povoação primitiva, porta conhecida ainda
hoje, como então, pelo nome de Vandoma. Ao lado direito de
el-rei ia Dª Leonor, a rainha de Portugal: ele montando em
um cavalo de guerra; ela em um palafrém branco, levado de
rédea desde a entrada da ponte pelo infante D. João,
que familiarmente falava e ria com a formosa cavaleira. Da banda
esquerda, o bispo D. Afonso, curvado e enfraquecido pela velhice,
oscilava e fazia cortesias involuntárias a cada passada da
mansíssima e veneranda mula episcopal. Junto ao velho prelado,
o infante D. Dinis caminhava em silêncio, e no aspecto melancólico
do mancebo divisava-se quão profunda tristeza lhe consumia
o coração, vendo-se como atado ao carro triunfal da
mulher que pouco a pouco se convertera em sua irreconciliável
inimiga. Após estas principais personagens, via-se uma grande
multidão de cavaleiros, clérigos, cortesãos,
conselheiros, juízes da Corte; companhia esplêndida,
por entre a qual brilhava o ouro, a prata e as variadas cores dos
trajos de festa, que sobressaíam no chão negro das
vestiduras roçagantes dos magistrados e clérigos.
Adiante de el-rei, as danças dos mouros e judeus volteavam
rápidas, ao som da viola ou alaúde árabe, das
trombetas e das soalhas. Segundo o antigo uso, seguiam-se às
danças coros de donzelas burguesas, que celebravam com seus
cantos o amor e ventura dos noivos.
Mas esse canto tinha o quer que era triste na toada. Triste era,
também, o aspecto dos populares, que, sem um só grito
de regozijo, se apinhavam para ver passar aquele préstito
real. Mil olhos se cravavam no infante D. Dinis, cujo rosto melancólico
revelava que os seus pensamentos eram acordes com os do povo, que
por toda a parte não via neste consórcio senão
um crime e uma fonte de desventuras. Os cortesãos, porém,
fingiam não perceber o que se passava à roda deles
e pareciam trasbordar de alegria. Muitos eram daqueles que mais
contrários haviam sido aos amores de el-rei, mas, que, vendo,
enfim, Dª Leonor rainha, voltavam-se para o sol que nascia
e calculavam já quantas terras e que soma de direitos reais
lhes poderia render da parte de um rei pródigo a sua mudança
de opinião.
Entre estes não se via o tenaz e astuto Pacheco. Habituado
ao trato da Corte por largos anos, experimentado em todos os enredos
dos paços, hábil em traduzir sorrisos e gestos, palavras
avulsas e discursos fingidos, não tardara em perceber que
as mercês e agrados de el-rei e de Dª Leonor encobriam
intentos de irrevogável vingança. Conhecendo que a
sedição popular fora inútil e que, ainda renovada
com mais fúria, não poderia resistir às armas
de D. Fernando, havia-se afastado da Corte e, posto que só
nos fins desse ano ele passasse a servir o seu antigo protector
e amigo, D. Henrique de Castela, buscara entretanto esquivar-se
ao ódio da nova rainha, conservando ao mesmo tempo a boa
opinião entre o vulgo.
Abandonado assim do seu guia, o infante D. Dinis sofrera resignado
um sucesso que não podia embargar; mas, digno filho de D.
Pedro, conservara intacta a sua má vontade a Dª Leonor.
Desamparado dos seus parciais, vendo, se não traída,
ao menos quase morta e inactiva a aliança de Pacheco, e,
para maior desalento, seu irmão mais velho, o infante D.
João, ligado com essa mulher, da qual este príncipe
mal pensava então lhe viria a última ruína;
no meio de tantos desenganos, o infante, a princípio tímido
e irresoluto, sentira crescer a ousadia com os perigos; sentira
girar-lhe nas veias o sangue paterno. Obrigado a seguir a Corte,
nunca Dª Leonor achara um sorriso nos seus lábios; nunca
o vira conter diante dela um só sinal de desprezo. Assim,
a cólera de el-rei contra seu irmão havia chegado
ao maior auge, e os cálculos de fria e paciente vingança
estavam resolvidos no ânimo de Leonor Teles.
A cavalgada tinha subido a encosta, atravessado a Porta de Vandoma,
que em parte ainda subsiste, e passado em frente da Sé, junto
da qual se dilatavam os paços episcopais. Aí as danças
e folias pararam e fizeram por um momento silêncio. Então
o infante D. João, tomando nos braços a formosa rainha,
apeou-se do palafrém, e, após ela, el-rei saltou ligeiro
do seu fogoso e agigantando ginete. Dentro em pouco toda a comitiva
tinha desaparecido no profundo portal dos paços, e os donzéis
conduziam os elegantes cavalos, as mulas inquietas e os mansos palafréns
para as vastas e bem providas cavalariças do mui devoto e
poderoso prelado da antiga Festabole.
O aposento principal dos paços, quadra vasta e grandiosa,
estava de antemão ornado para receber os hóspedes
reais do velho bispo D. Afonso. Um trono com dois assentos de espaldas
indicava que a ele ia subir, também, uma rainha. Dª
Leonor entrou seguida das cuvilheiras e donzelas da sua câmara;
el-rei de todos os principais cavaleiros. Viam-se entre estes o
alferes-mor Airas Gomes da Silva, ancião venerável,
que fora aio do rei, quando infante, o orgulhoso mordomo-mor D.
João Afonso Telo, Gil Vasques de Resende, aio do infante
D. Dinis, o prior da Ordem do Hospital, Álvaro Gonçalves
Pereira, e muitos outros fidalgos que ou seguiam a Corte ou tinham
vindo assistir às bodas reais.
Guiada por D. Fernando, Leonor Teles subiu com passo firme os degraus
do trono. Como o navegante, que, afrontando temporais desfeitos
por mares incógnitos e aprocelados e chegando ao porto longínquo,
quase que não crê pisar a terra de seus desejos, assim
esta mulher ambiciosa e audaz parecia duvidar da realidade da sua
elevação. A alma sorria-lhe a mil esperanças;
a vida trasbordava nela. A seu lado um rei, a seus pés um
reino! Era mais que embriaguez; era delírio. Ela sentia um
novo afecto, um como desejo de perdão aos seus inimigos!
Tremeu de si mesma e, convocando todas as forças do coração,
salvou a sua ferocidade hipócrita, que parecia querer abandoná-la.
Era severo o seu aspecto quando esses pensamentos estranhos lhe
passaram pelo espírito; mas o sorriso tornou a espraiar-se-lhe
no rosto quando o instinto de tigre pôde fazê-la triunfar
desse momento em que a generosidade costuma acometer com violência
as almas vingativas e ferozes, o momento em que se realiza a suma
ventura por largo tempo sonhada.
Do alto do trono e em pé, D. Fernando estendeu a mão:
o tropel de cortesãos e cavaleiros, de donas e donzelas formaram
aos lados da espaçosa sala fileiras esplêndidas, imóveis
e silenciosas: e el-rei volveu olhar lentos para um e outro lado
e disse:
- Ricos-homens, infanções e cavaleiros de Portugal,
um dos mais nobres sacramentos que Deus neste mundo ordenou foi
o matrimónio: como para os outros homens, para os reis se
instituiu ele; porque por ele as coroas se perpetuam na linhagem
real. É por isso que eu desposei hoje a mui ilustre Dona
Leonor, filha de Dom Afonso Telo, descendente dos antigos reis e
ligada com os mais nobres de entre vós pelo dívido
do sangue. Assim, a rainha de Portugal será mais um laço
que vos una a mim como parentes, que de hoje avante sois meus. Leais,
como tendes sido a vosso rei pelo preito que lhe fizestes, muito
mais o sereis por este novo título. Em que pês a traidores,
Dona Leonor Teles é minha mulher! Fidalgos portugueses, beijai
a mão à vossa rainha.
O velho alferes-mor, Airas Gomes, aproximou-se então do trono,
à voz do seu moço pupilo; ajoelhou e beijou à
mão a Dª Leonor; mas o olhar que lançou para
el-rei era como o de pedagogo que de mau humor se acomoda ao capricho
infantil de um príncipe. Ao volver de olhos do ancião,
D. Fernando corou e voltou o rosto.
O infante D. João, porém, dobrando o joelho aos pés
da formosa rainha, parecia trasbordar de alegria. Contemplando-o,
Leonor Teles deixou assomar aos lábios um daqueles ambíguos
e quase imperceptíveis sorrisos que, vindos dela, sempre
tinham uma significação profunda. Porventura que no
infante D. João ela já não via mais que o precursor
da humilhação de D. Dinis, do seu capital inimigo.
Após o infante, os fidalgos vieram sucessivamente curvar-se
ante Dª Leonor. Boa parte deles era como capitães vencidos
seguindo ao capitólio um triunfador romano. Podia com efeito
dizer-se que, mau grado desses que se rojavam a seus pés,
ela conquistara o trono.
Toda a comprida fileira de nobres oficiais da Coroa tinha passado
e ajoelhado no estrado real. Faltava um; e era este, que, menosprezando
tantas frontes ilustres por valor ou ciência, por fidalguia
ou riqueza, inclinadas perante ela, a mulher orgulhosa e implacável
esperava cogitando no momento em que o mancebo ainda impúbere,
sem renome, sem poderio, célebre só por seu berço
e pelo desgraçado drama da morte de Dª Inês, viesse
tributar homenagem à que representava uma papel análogo
ao daquela desventurada, salvo na sinceridade do amor e na inocência
da vida.
Mas esse para quem Dª Leonor mais de uma vez volvera ràpidamente
os olhos considerava com os braços cruzados aquele espectáculo
em perfeita imobilidade, de que ùnicamente saíra quando
Gil Vasques de Resende, que estava a seu lado, se afastara, caminhando
para os degraus do estrado. O mancebo apertara a mão do idoso
aio, trémula da idade, com a mão ainda mais trémula
de cólera. Na conta de pai o tinha; venerava-o como filho,
e a ideia de o ver prostituir os seus cabelos brancos aos pés
de uma adúltera o levara a esse movimento involuntário;
involuntário, porque ele naquela postura e naquela hora não
fazia senão coligir todas as forças da alma para salvar
a honra do nome de seus avós, do nome dos reis portugueses,
esquecida por um de seus irmãos e, talvez, mercadejada por
outro em troco de valimento infame. O velho entendeu o que significava
este convulso apertar de mão: duas lágrimas lhe caíram
pelas faces; mas obedeceu a el-rei.
Só faltava D. Dinis, que continuara a ficar imóvel.
Houve um momento de silêncio sepulcral na vasta sala, e este
silêncio era para todos indefinido, mas terrível.
D. Fernando pôs-se a olhar fito para seu irmão, enleado,
ao que parecia, em cismar profundo.
Dentro de pouco, poder-se-ia crer que todos os fidalgos que povoavam
aquela vasta quadra estavam convertidos em pedra semelhante à
das colunas góticas que sustinham as voltas pontiagudas do
tecto, se não fosse o respidar ansiado e rápido que
lhes fazia ranger sobre os peitos e ombros os seus ricos briais.
Os lábios de el-rei tremeram, como a superfície do
mar encrespada pela leve e repentina aragem que precede imediatamente
o tufão. Depois, entreabrindo-os, com os dentes cerrados,
murmurou:
- Infante Dom Dinis, beijai a mão à vossa rainha.
Foi um só o volver de todos os olhos para o moço infante:
o sussuro das respirações cessara.
D. Dinis não respondeu; encaminhou-se para o meio do aposento:
parou defronte do trono e, olhando em redor de si, perguntou com
sorriso de amargo escárnio:
- Onde está aqui a rainha de Portugal?
- Infante Dom Dinis! - disse el-rei, cujo rosto o furor mal reprimido
demudara. - Sofredor e bom irmão tenho sido por largo tempo:
não queirais que seja hoje só juiz inflexível
do filho querido daquele que também me gerou! Infante Dom
Dinis!, beijai a mão da mui nobre e virtuosa Dona Leonor
Teles, como fez vosso irmãos mais velho, de quem deveríeis
haver vergonha.
- Nunca um neto de Dom Afonso do Salado - replicou o infante, com
aparente tranquilidade - beijará a mão da que el-rei
seu irmão e senhor que chamar rainha. Nunca Dom Dinis de
Portugal beijará a mão da mulher de João Lourenço
da Cunha. Primero ela descerá desse trono e virá ajoelhar
a meus pés; que de reis venho eu, não ela.
- De joelhos, dom traidor! - gritou D. Fernando, pondo-se em pé
e descendo dois degraus do estrado. - De joelhos, vil parceiro de
revéis sandeus! Se a taberna de Folco Taca vos ouviu fazer
preito infame aos peões de Lisboa, quebra-lo-eis diante do
vosso rei: quebra-lo-eis, que vo-lo digo eu!
D. Dinis viu então que todos os seus passos estavam descobertos:
achava-se, por isso, à borda de um abismo. Hesitou um momento;
mas lembrou-se de que era neto do herói do Salado e precipitou-se
na voragem.
- Vil é a mulher barregã e adúltera, e essa
é ambas as cousas. Traidor seria um rei de Portugal que assentasse
o adultério no trono, e vós o fizestes, rei desonrado
e maldito de vosso Deus e do vosso povo! Quem neste lugar é
o vil e o traidor?
O infante, acabando de proferir estas palavras, abaixou a cabeça
e deixou descair os braços. Ele bem sabia que se seguia o
morrer.
Apenas el-rei se alevantara, Dª Leonor, cujas faces se haviam
tingido da amarelidão da morte, tinha-se erguido também.
Naquele rosto, semelhante ao de uma estátua de sepulcro,
apenas se conhecia o viver no profundar, cada vez maior, das duas
rugas frontais que se lhe vinham juntar entre os sobrolhos.
Ouvindo as derradeiras e fulminantes palavras de D. Dinis, el-rei
soltara um destes rugidos de desesperação e cólera
humanas que nem o rugido da mais brava fera pode igualar; grito
de ventríloquo, que é como o estridor de todas as
fibras do coração que se despedaçam a um tempo;
gemido como o do rodado ao primeiro giro do instrumento do suplício:
rugido, grito, gemido, conglobados num só hiato, fundidos
num som único pela raiva, pelo ódio, pela angústia
- brado que só terá eco pleno no bramido que há-de
soltar o réprobo quando no derradeiro juízo o julgador
dos mundos lhe disser: "Para ti as penas eternas."
O brado de D. Fernando fizera tremer os mais esforçados cavaleiros
que se achavam presentes: o movimento que o seguiu fez gelar o sangue
em todas as veias.
Como um relâmpago ele tinha arrancado da cinta o agudo bulhão
e, com os olhos desvairados, encaminhava-se para o meio da sala,
onde seu irmão o esperava imóvel, com a mão
sobre o peito, como se dissesse: "Aqui!"
Mas D. Fernando não pôde oferecer nas aras do adultério
um fratricídio; uma barreira se tinha alevantado a seus pés.
Era um velho de fronte calva e de longas melenas brancas e desbastadas
pelos anos: era aquele que lhe fora mais que pai e que ele respeitava
mais que a memória deste; era o seu alferes-mor, o venerável
Airas Gomes, que, ajoelhado, lhe clamava com vozes truncadas de
soluços e lágrimas:
- Senhor!, que é vosso irmão!
- É um covarde traidor, que deve morrer! Irmão!? Mentes,
velho! Ele já o não é!
À palavra "mentes!" um relâmpado de vermelhidão
passou pelas faces cavadas do antigo cavaleiro: abaixou os olhos
e correu-os pela espada. Fora esta a primeira vez que ela ficara
na bainha depois de tão funda afronta. Mas aquele era o momento
dos grandes sacrifícios. Airas Gomes replicou, alimpando
as lágrimas:
- Nunca vos menti, senhor, nem quando éreis na puerícia,
nem depois que sois meu rei. Sabei-lo. Criminoso ou inocente, Dom
Dinis é filho de meu bom senhor Dom Pedro. A vosso pai servi
com lealdade; por vós já me andou arriscada a vida.
Hoje tendes por defensores todos os cavaleiros de Portugal, ele
é que não tem, talvez, um só. Senhor rei, ficai
certo de que, para assassinar vosso irmão, vos é mister
passar por cima do caáver de vosso segundo pai.
Atalhado assim o primeiro ímpeto, o carácter do moço
monarca revelou-se inteiro neste momento. Comoveu-o a postura do
venerando ancião, que pela primeira vez via a seus pés,
e, com a irresolução pintada nos olhos, fitou-os em
Leonor Teles.
Por uma reflexão instantânea, a hiena previra que o
sangue derramado pelo fratricida não cairia sòmente
sobre a cabeça deste, mas também sobre a dela. Naquele
rosto, então semelhante ao de uma estátua, D. Fernando
não pôde ler a sentença do infante, bem que
lá no fundo do coração ela estivesse escrita
com sangue.
Entretanto os cortesãos, que no furor rompente de el-rei
haviam ficado estupefactos e quedos, vendo-o vacilar, rodearam o
infante. O velho Gil Vasques de Resende, que ia interpor-se, também,
entre D. Dinis e el-rei, quando este arrancara o punhal, parara
ao ver a heróica resolução do alferes-mor;
mas, ao hesitar de D. Fernando, correra a abraçar-se com
o seu pupilo, que, no meio de tantos ânimos agitados por paixões
diversas, era quem ùnicamente parecia tranquilo e alheio
ao terror que se pintava em todos os semblantes.
Finalmente, el-rei meteu vagarosamente o punhal no cinto e, com
voz pausada, mas trémula e presa, disse:
- Que esse mal-aventurado sai de ante mim.
O tom em que estas poucas palavras foram proferidas fez vergar o
ânimo de D. Dinis, cujo coração, antes disso,
parecera de bronze. Os olhos arrasaram-se-lhe de água. Sentira
que, até então, era uma cólera cega, repentina,
insensata, que o ameaçava: agora, porém, no modo e
na expressão de D. Fernando vira claramente que era um amor
de irmão que expirava.
Com a cabeça pendida em cima do ombro de Gil Vasques de Resende,
saiu do aposento.
Era, talvez, o velho o único amigo que lhe restava no mundo.
Dª Leonor levou ambas as mãos ao rosto, e via-se-lhe
arquejar o colo formoso, agitado por mal contido suspiro.
"Coração compadecido e generoso!", pensou
lá consigo o alferes-mor, que havia pouco a tratara de perto
pela primeira vez.
"Hora maldita e negra, em que perdi metade de minha tão
espera vingança", pensava Leonor Teles, e o choro rebentou-lhe
com violência.
- Não te aflijas, Leonor - disse D. Fernando, apertando-a
ao peito. - Que nunca mais eu o veja, e viva, se puder, em paz!
Mas as lágrimas correram ainda com mais abundância
e amargura.
O resto daquele dia foi triste: triste o banquete e o sarau. A atmosfera
em que respirava a nova rainha tinha o que quer que fosse pesado
e mortal, que resfriava todos os corações.
À meia-noite, por um claro luar de céu limpo de Inverno,
uma barca subia com dificuldade a corrente rápida do Douro:
à popa viam-se reluzir, nas toucas e mantos negros de dois
cavaleiros que aí iam sentados, as orlas e bordaduras de
ouro e prata: um dos remeiros cantava uma cantiga melancólica,
a que respondia o companheiro, e dizia assim:
"Mortos me são padre e madre:
Eu tamanho fiquei.
Irmãos meus mal me quiseram.
Eu mal não lhes quererei.
Vou-me correr
esse mundo;
Sabe Deus se o correrei!
A alma deixo-a cá presa;
O corpo só levarei.
De meus avós
nos solares
Nasci: dous dias passei:
Meus irmãos, nada vos tenho
Senão o nome que herdei."
Esta cantiga,
cuja toada monótona repercutia nos rochedos aprumados das
margens, foi interrompida por doloroso suspiro. Um dos cavaleiros
o dera.
Os remeiros calaram-se: arrancaram da voga com mais ânsia
e, depois, continuaram:
"Se fui rico, ora sou pobre:
Choro hoje, se já folguei:
Vilas troquei por desvios;
Muito fui: nada serei.
Sem padre,
madre ou irmãos
A quem me socorrerei?
A ti, meu Senhor Jesus:
Senhor Jesus, me acorrei!"
Um gemido mais
angustiado, que saiu envolto em soluços, cortou de novo a
cantiga: era do mesmo que já a interrompera. O seu companheiro
bradou aos barqueiros, com a voz trémula e cansada de um
ancião:
- Calai-vos aí com vossas trovas malditas!
Os remeiros vogaram em silêncio; mas pensaram lá consigo
que muito danadas deviam ser as almas de cavaleiros que assim maldiziam
tão devoto trovar.
Repararam, porém, que, dos dois desconhecidos, o que suspirava
e gemera lançara os braços ao pescoço do que
falara, e que este, afagando-o, lhe dizia:
- Quando todos, senhor, vos abandonarem não vos abandonarei
eu; que o devo ao amor com que vos criei e à esclarecida
e santa memória de vosso virtuoso pai.
Então os barqueiros, bem que rudes, desconfiaram de que podia
muito bem ser que não fossem duas almas danadas aquelas,
mas sim mal-aventuradas.