ARRAS
POR FORO DE ESPANHA (1371-1372)
Alexandre Herculano
CAPÍTULO III
UM BULHÃO E
UMA AGULHA DE ALFAIATE
O Sol, que havia
mais de meia hora subira do Oriente, cingido da sua auréola da
vermelhidão, no meio da atmosfera turva e acinzentada de um dia
dos fins de Agosto, dava de chapa no rossio ou praça onde avultava
o Mosteiro de S. Domingos, rodeado de hortas oriente, e pelo de Valverde,
ao norte. Já muitos besteiros e peões armados de ascumas
se derramavam ao longo da parede dos paços de Lançarote
Pessanha fronteiros ao mosteiro, descendo uns por entre as vinhas de Almafala,
outros do arrabalde da Pedreira ou bairro do Almirante, outros da banda
da alcáçova, outros, enfim, desembocando das ruas estreitas
e irregulares que iam dar à opulente e célebre Rua Nova.
Homens e mulheres apinhavam-se, aos dez e aos doze, no meio da praça,
e às bocas das ruas; falavam, meneavam-se, riam, chamavam-se uns
aos outros. Às vezes, aquela mó de gente, cujo vulto engrossava
de minuto para minuto, agitava-se como a superfície de um pego,
passando o tufão. Incerta, vacilante, informe, sùbitamente
se configurava, alinhava-se e, semelhante a triângulo enorme, a
quadrela gigante desfechada de trom monstruoso, vibrava-se contra a vasta
alpendrada do mosteiro, cujas portas ainda estavam fechadas. Aí
hesitava, ondeava e retraía-se, como ressaltaria a folha cortadora
de uma acha de armas quando não pudesse romper as portas chapeadas
de forte castelo. Então aquela multidão tomava a forma de
meia-luz, cujas pontas se encurvavam pelos lados de Valverde e da Mouraria
e vinham topar uma com outra por baixo do bairro ladeirento da Pedreira,
de onde, confundindo-se e irradiando-se de novo, se espalhavam pela vastidão
do terreiro. O povo, que dorme às vezes por séculos, fora
acometido de uma das suas raras insónias e vivia essa possante
vida da praça pública, em que de ordinário é
ridículo e feroz, mas em que não raro é sublime e
terrível.
Era a manhã imediata à noite em que ocorreram os sucessos
narrados antecedentemente. O povo preparava-se para uma luta moral com
seu rei; mas não se descuidara de vir prestes para uma luta física,
se D. Fernando quisesse apelas para esse último argumento. Era
a primeira vez neste reinado que a arraia-miúda dava mostras da
sua força e reivindicava o direito de dizer armada "não
quero!" O elemento democrático erguia-se para influir activamente
na monarquia; enxertava-se nela, como princípio político,
a par da aristocracia, que com a manopla de ferro arrojava a plebe contra
o trono, sem pensar que brevemente este, conhecendo assim a força
popular, se valeria dela para esmagar aqueles que ora sopravam os ânimos
para a revolta e davam nova existência ao vulgo.
A hora aprazada para a vinda de el-rei ainda não havia batido:
mas o povo orgulhoso da importância que sùbitamente se lhe
dera, embevecido na ideia de que obrigaria el-rei a quebrar os laços
adulterinos que o uniam a Leonor Teles, não media o tempo pelo
curso do Sol, mas sim pelo fervor da sua impaciência. Duas vezes
se espalhava a voz de que D. Fernando chegara, e duas vezes o povo correra
para o alpendre do mosteiro. As portas da igreja estavam, porém,
fechadas, bem como a portaria e as estreitas e agudas frestas do mosteiro
gótico que, formado apenas de um pavimento térreo e humilde,
contrastava com a magnificência do templo, em cujas portadas profundas,
sobre os colunelos pontiagudos que sustinham os fechos e chaves da abóbada,
os animais monstruosos e híbridos, os centauros, os sátiros
e os demónios, avultados na pedra dos capitéis por entre
as folhagens de carvalho e de lódão, pareciam, com as visagens
truanescas que nas faces mortas lhes imprimira o escultor, escarnecerem
da cólera popular, que, lenta como os estos do oceano, começava
a crescer e a trasbordar. Apenas, lá dentro, se ouviam de vez em
quando as harmonias saudosas do órgão e do cantochão
monótono dos frades, que ofereciam a Deus as preces matutinas.
Era então que o povo escutava: e retraía-se arrastado pelas
blasfêmias e pragas que saíam de mil bocas e que eram repelidas
do santuário pelo sussuro dos cânticos que reboavam dentro
da igreja, e que transudavam por todos os poros do gigante de pedra um
murmúrio de paz, de resignação e de confiança
em Deus.
O povo, porém, era como os homens robustos do génesis: era
ímpio, porque era robusto.
O dia crescia, e crescia com ele a desconfiança. As notícias
corriam encontradas: ora se dizia que el-rei cedia aos desejos dos seus
vassalos e dos peões, e que viria anunciar ao povo a sua separação
de Leonor Teles; ora, pelo contrário, se asseverava que ele era
firme em sustentar a resolução contrária. Havia,
até, quem asseverasse que na alcáçova e no terreiro
de S. Martinho se começavam a ajuntar homens de armas e besteiros.
A cólera popular crescia, porque a atiçava já o temor.
No meio de uma pilha de galeotes, carniceiros, pescadores, moleiros, lagareiros
e alfagemas, dois homens altercavam violentamente. Eram Airas Gil e Frei
Roy: objecto da disputa Fernão Vasques; arguente o petintal; defendente
o beguino.
- Que não virá vos digo eu - gritava Airas Gil. - Disse-mo
Garciordonez, o mercador de panos que mora ao cabo da Rua Nova, aos açougues,
defronte das taracenas del-rei.
- Mentiu pela gorja, como um perro judeu - replicou Frei Roy. - Não
era Fernão Vasques homem que faltasse a este auto, tendo-o a arraia-miúda
elegido por seu propoedor.
- Medo ou dobras do paço podem tapar a boca aos mais ousados e
fazê-los dormir até desoras - retrucou o petintal.
- Que fazem falar as dobras do paço, seu eu - tornou o beguino
com riso sardónico, lembrando-se do que nessa noite passara -:
medo sabeis vós que faz fugir; inveja sabemos nós todos
que faz imaginar...
- Descaro e gargantoíce que faz mendigar - interrompeu Airas Gil,
vermelho de cólera, cerrando os punhos e descaindo para o echacorvos
como galé que vai aferrar outra em combate naval.
- Ecommunicabo vos - murmurou Frei Roy, fazendo-se prestes para resistir
ao abalroar do petintal.
E o vulgacho que estava de roda ria e batia as palmas.
Nisto os gritos de alcácer!, alcácer!" reboaram para
outro lado da praça: o povo correu para lá. Os dois campeadores
voltaram-se: era o alfaiate.
Sem dizer palavra, o beguino olhou com gesto de profundo desprezo para
Airas Gil e, tomando uma postura entre heróica e de inspirado,
estendeu o braço e o índex para o lugar onde passava Fernão
Vasques. Depois, partiu com a turbamulta que o rodeava, enquanto o petintal
o seguia de longe lento e cabisbaixo.
O alfaiate, cercado de outros cabeças do tumulto da véspera,
encaminhou-se para alpendrada de S. Domingos. Trazia vestida uma saia
de valencina reforçada, calças de bifa, sapatos de pele
de gamo, chapeirão de ingrês com fita de momperle e cinta
de couro, tudo escuro, ao modo popular. Com passos firmes subiu os degraus
do alpendre. Dali, em pé, com os braços cruzados, correu
com os olhos a praça, onde entre o povo apinhado se fizera repentino
silêncio. Depois tirando o chapeirão, cortejou a turbamulta
para um e outro lado; os seus gestos e ademanes eram já os de um
tribuno.
- Alcácer, alcácer pela arraia-miúda! Alcácer
por el-rei Dom Fernando de Portugal, se desfizer nosso torto e sua vilta,
senão!...
Esta exclamação de um alentado alfageme que estava pegado
com a balaustrada do alpendre foi repetida em grita confusa por milhares
de bocas.
De repente, do lado da Rua de Gileanes, sentiu-se um tropear de cavalgaduras,
que parecia correrem à rédea solta. Todos os olhos se volveram
para aquela banda: muitos rostos empalideceram.
Uma voz de terror girou pelo meio das turbas. "São homens
de armas de el-rei!" Aquele oceano de cabeças humanas redemoinhou,
a estas palavras, e começou a dividir-se como o mar Vermelho diante
de Moisés. Num momento viu-se uma larga faixa esbranquiçada
cortar aquela superfície móvel e escura: era ampla estrada
que se abria por entre ela, desde a Rua de Gileanes até S. Domingos.
As paredes dessa estrada adelgaçavam-se ràpidamente. Para
as bandas da Mouraria e da Pedreira, os becos e encruzilhadas apinhavam-se
de gente, e os reflexos dos ferros das ascumas populares, que erguidas
cintilavam ao sol, começaram a descer e a sumir-se, como as luzinhas
das bruxas em sítio brejoso aos primeiros assomos do alvorecer.
Fernão Vasques olhou em redor de si: estava só. Descorou,
mas ficou imóvel.
Entretanto, o tropear aproximava-se cada vez com mais alto ruído.
Os besteiros do concelho postados ao longo dos Paços do Almirante
eram, talvez, os únicos em quem o terror não fizera profunda
impressão: alguns já haviam estendido sobre o braço
da besta os virotes ervados e, revolvendo a polé, faziam encurvar
o arco para o tiro. Os besteiros de garrucha tinham já o dente
desta embebido na corda, prontos a desfechar ao primeiro refulgir dos
montantes nus dos cavaleiros e escudeiros reais. Do resto do povo, os
ousados eram os que recuavam; porque o maior número voltava as
costas e internava-se pelas azinhagas dos hortos de Valverde e das vinhas
de Almafala ou trepava pelas ruas escuras e mal-gradadas do bairro do
Almirante.
Mas, no meio deste susto geral, aparecera um herói. Era Frei Roy.
Ou fosse imprudente confiança no cargo oculto que lhe dera Dª
Leonor, ou fosse robustez de ânimo, ou fosse, finalmente, a persuasão
de que o hábito de beguino lhe serviria de broquel, longe de recuar
ou titubear, correu para a quina da rua de onde rompia o ruído
e, mirando pela aresta do ângulo um breve espaço, voltou-se
para o povo e, curvando-se com as mãos nas ilhargas, desatou em
estrondosas gargalhadas.
Tudo ficou pasmado; mas, vendo e ouvindo o rir descompassado do echacorvos,
o povo começou a refluir para a praça. Aquelas risadas produziam
mais ânimo e entusiasmo que os "quarenta séculos vos
contemplam" de Napoleão na batalha das Pirâmides. Os
amotinados recobraram num instante toda a anterior energia.
Esta cera tinha sido rapidíssima: todavia, ainda grande parte dos
populares hesitava entre o ficar e o fugir, quando se reconheceu claramente
a causa daquele temor que apertara por algum tempo todos os corações.
Era a Corte que chegava.
Montados em mulas possantes, os oficiais da casa real, os ricos-homens,
conselheiros e juízes do Desembargo vinham assistir ao auto solene
em que da boca de el-rei a nação devia ouvir ou uma resolução
conforme com os desejos tanto da arraia-miúda como dos senhores
e cavaleiros, ou a confirmação de um casamento mal agourado
por muitos nobres e por todos os burgueses, e condenado, de não
duvidoso modo, por estes últimos. No meio das variadas cores dos
trajos cortesões negrejavam as garnachas dos letrados e clérigos
do paço, e entre o reduzir dos esplêndidos arreios das mulas
alentadas e fogosas dos vassalos seculares, dos alcaides-mores e senhores
viam-se rojar os gualdrapas dos mestres em leis e degredos, dos sabedores
e letrados que constituíam o supremo tribunal da monarquia, a cúria
ou desembargo de el-rei.
A numerosa cavalgada atravessou o terreiro por entre o povo apinhado.
Em todos os rostos transluzia o receio acerca de qual seria o desfecho
deste drama terrível e imenso, em que entravam representantes de
todas as classes sociais.
Entre os membros daquela lustrosa companhia distingui-a por seu porte
altivo o conde de Barcelos, D. João Afonso Telo, tio de Dª
Leonor, a quem nos diplomas dessa época se dá por excelência
o nome de "fiel conselheiro". Quando os amores de el-rei com
sua sobrinha começaram, ele fizera, sincera ou simuladamente, grandes
diligências para desviar o monarca de levar avante os seus intentos.
D. Fernando persistia, todavia, neles, e então o conde, juntamente
com a infanta Dª Beatriz e com Dª Maria Teles, irmã de
Dª Leonor, suscitara a ideia de a divorciar de João Lourenço
da Cunha. O povo sabia isto e, posto que houvesse estendido a sua má
vontade a todos os parentes de Leonor Teles, odiava principalmente o conde,
como protector daqueles adúlteros amores. Foi, portanto, nele que
se cravaram os olhos dos populares, que, tendo-se em poucas horas elevado
até à altura do trono, ousavam, também, dar testemunho
público do seu ódio contra o mais distinto membro da fidalguia.
- Velha raposa, em que te pese, não será a adúltera
rainha da boa terra de Portugal! - gritava um carniceiro, voltando-se
para uma velha que estava ao pé dele, mas olhando de través
para o conde, que perpassava.
- Leal conselheiro de barreguices, por quanto vendeste a honra do compadre
Lourenço? - perguntava um alfageme, fingindo falar com um vizinho,
mas lançando também os olhos para D. João Afonso
Telo.
- Que tendes vós com o lobo que empece ao lobo? - acudiu um lagareiro
calvo e curvado debaixo do peso dos anos. - Deixai-os morder uns aos outros,
que é sinal de Deys se amercear de nós.
- O que eles mereciam - interrompeu uma regateira - era serem atagantados
com boas tiras de couro cru.
- E ela, tia Dordia? - acrescentou um ferreiro. - Conheceis vós
a comborça? Às vezes a quisera eu: uma do alcaide no chumaço;
outra do coitado nas costas dela!
- É costume, ergo direita a pena - notou um procurador, que gravemente
contemplava aquele espectáculo e que até ali guardara silêncio.
Estas injúrias, que, como o fogo de um pelotão, se disparavam
ao longo das extensas e fundas fileiras dos populares, iam ferir os ouvidos
do conde de Barcelos, que, fingindo não lhes dar atenção,
empalidecia e corava sucessivamente e mordia os beiços de cólera.
De quando em quando, o vociferar afrontoso da gentalha era afogado no
ruído de risadas descompostas, mais insolentes cem vezes que as
injúrias; porque no rir do vulgo há o que quer que seja
tão cruel e insultuoso, que faz dar em terra o maior coração
e o ânimo mais robusto.
Entre os parciais de Dª Leonor que vinham naquela comitiva viam-se,
porém, muitos fidalgos e letrados que ou eram pessoalmente seus
inimigos ou, pelo menos, desaprovavam alta e francamente a sua união
com el-rei. Diogo Lopes Pacheco era o principal entre eles, e o povo,
ao vê-lo passar, saudou-o com um murmúrio que foi como a
recompensa do velho pelas desventuras da sua vida, desventuras que devera
a um caso análogo, a morte de Dª Inês de Castro.
Quando os fidalgos, cavaleiros e letrados da casa e conselho de el-rei
se apearam junto aos degraus do alpendre do mosteiro, o alfaiate, que
viera misturar-se com o povo logo que desembocaram na praça, subiu
após eles e esperou que se sentassem no extenso banco de castanho
que corria ao longo da alpendrada. Depois voltou-se para a multidão
apinhada em redor:
- Se el-rei ainda não é presente - disse em voz inteligível
e firme - aí tendes para ouvir vossos agravamentos os senhores
de seu conselho: porventura que eles poderão dar-vos resposta em
nome de sua senhoria, e ele virá depois confirmar o seu dito.
- Senhor Fernão Vasques, sois o nossos propoedor: a vós
toca falar - replicou um do povo.
- Assim o queremos! Assim o queremos! - bradou a turbamulta.
O alfaiate voltou-se então para os cortesãos, conselheiros
e letrados do Desembargo de el-rei e disse:
- Senhores, a mim deram carrego estas gentes que aqui estão juntas
de dizer algumas cousas a el-rei nosso senhor que entendem por sua honra
e serviço; e porque é direito escrito que, sendo as partes
principais presentes, o ofício de procurador deve cessar no que
elas bem souberem dizer, vós outros que sois principais partes
neste feito, e a que isto mais tange que a nós, devíeis
dizer isto, e eu não: porém, não embargando que assim
seja, eu direi aquilo de que me deram carrego, pois vós outros
em elo não quereis pôr mão, mostrando que vos doeis
pouco da honra e do serviço de el-rei...
- Cala-te, vilão! - bradou, erguendo-se, o conde de Barcelos, com
voz afogada da cólera, que já não podia conter -,
se não queres que seja eu quem te faça resfolgar sangue,
em vez de injúrias, por essa boca sandia.
O velho Pacheco pôs-se também em pé, exclamando:
- Conde de Barcelos, lembrai-vos de que os burgueses têm por costume
antigo o direito de dizerem aos reis seus agravamentos, de se queixarem
e de os repreenderem. Nós somos menos que os reis.
Fernão Vasques tinha-se entretanto voltado para o povo apinhado
ao redor do alpendre, com o rosto enfiado, mas era de indignação,
e havia feito um sinal com a cabeça. No mesmo instante o povo abrira
uma larga clareira, e quando os fidalgos e conselheiros, atentos para
o conde e para Diogo Lopes, voltaram os olhos para o rossio, ao tropear
da multidão, um semicírculo de mais de quinhentos besteiros
e peões armados fazia uma grossa parede em frente dos populares.
Fernão Vasques encaminhou-se então para D. João Afonso
Telo e, com a mão trémula de raiva, segurando-o por um braço,
disse-lhe:
- Senhor conde, vós sois que doestais os honrados burgueses desta
leal cidade em minha pessoas; porque eu nada fiz, senão repetir
em voz alta o que cada um e todos me ordenaram repetisse. O que propus
não é meu. Eis seus autores! Pelo que a mim toca, senhor
conde, não receio vossas ameaças. Quando o nobre despe o
gibão de ferro para vestir o de tela, não sei eu se este
é mais forte que o do peão e se, também, a sua boca
não pode golfar sangue, como a de um pobre vilão.
D. João forcejava por desasir-se do alfaiate, procurando levar
a mão à cinta, onde tinha o punhal; mas Fernão Vasques
era mais forçoso, e o conde já tinha entrado na idade em
que costuma minguar a robustez do homem. Não pôde chegar
com a mão ao cinto.
- Conde de Barcelos - prosseguiu o alfaiate, com um sorriso -, não
recorrais a esse argumento; porque eu também estou habituado a
lidar com ferros azerados, ainda que mais delgados e curtos que o vosso
bulhão.
Estas últimas palavras, ditas em tom de escárnio, mal foram
ouvidas: a grita na praça era já espantosa; ares, produziam
aquele rouco e grande brado da fúria abismando-se por cavernas
imensas.
Os fidalgos e letrados tinham rodeado os dois contendores: os parciais
de Dé Leonor, o conde; os outros, cujo número era muito
maior, o alfaiate. E tanto estes como aqueles trabalhavam em apaziguá-los,
posto que todos os ânimos estivessem quase tão irritados
como os dos dois contendores.
Finalmente, o conde cedeu. O aspecto da multidão, que se agitava
furiosa, contribuiu, porventura, mais para isso que todas as razões
e rogativas dos fidalgos e cavaleiros, atónitos com o espectáculos
da ousadia popular: desta ousadia que, menoscabando as ameaças
do primeiro entre os nobres, era mais incrível que a da véspera,
a qual apenas se atrevera ao trono.
Que fazia, porém, o nosso beguino no meio destes prelúdios
de uma eminente assuada? É o que o leitor verá no seguinte
capítulo.