A
Normalista
Adolfo Caminha
CAPÍTULO
VII
À proporção que se aproximava o dia do casamento
da Lídia com o guarda-livros, as visitas deste à casa
da viúva Campelo iam-se tornando de mais a mais freqüentes.
A Campelinho não cabia em si de contentamento; pudera! ia
enfim ver-se livre do perigo de ficar para tia. De resto o Loureiro
era um ótimo rapaz, excelente empregado, natural de bom gênio,
tolerante em extremo e senhor de seu nariz. Era como se fosse de
casa, como se já fizesse parte da família, surdo como
uma pedra aos boatos mais ou menos mentirosos que corriam sobre
a vida privada de D. Amanda. Nunca se dera ao trabalho de averiguar
se efetivamente o procedimento de sua futura sogra merecia censuras
da gente honesta, mesmo porque o seu emprego não lhe deixava
tempo para isso.
Não senhor, dizia ele, se porventura alguém procurava
abrir-lhe os olhos; a viúva era um modelo de mãe de
família, coitada, vivendo modestamente do minguado montepio
de seu finado marido, afora um negociozinho de rendas, que tinha
no Pará, e que lhe deixava para mais de cinqüenta por
cento. O mais eram palavrórios, e ele no caráter de
futuro genro da viúva, não podia consentir que ninguém
a difamasse impunemente.
João da Mata lhe dissera uma vez, ao ouvido, batendo-lhe
amigavelmente no ombro, que não se iludisse, que a Campelo
recebia fora de hora o Batista da Feira; que ele, João da
Mata, vira muitas vezes, com os próprios olhos, o negociante
entrar cosido à parede alta noite, como um gato.
Histórias. O amanuense fazia mal andar propalando suspeitas
que podiam prejudicar, muito, os créditos da pobre senhora.
Absolutamente não acreditava em tais boatos. Conhecia bem
o gênio e a vida de D. Amanda para desprezar semelhantes falsidades.
Em suma, era da escola de S. Tomé: ver para crer.
Até então só tinha motivos para louvar o procedimento
da sua futura sogra. E concluía: "- Por amor de Deus
não falassem mais em tais coisas... Tinha olhos para ver."
Todas as noites, invariavelmente, lá ia ele dar o seu dedo
de palestra com a noiva, e, depois do víspora em casa do
amanuense, ficavam os dois horas e horas na calçada, num
aconchego muito íntimo, ela apoiada nos seus ombros, fazendo-se
meiga e apaixonada, ele babando-se de satisfação ao
contato palpitante das carnes rijas e abundantes de sua futura mulher.
D. Amanda entrava propositalmente para os deixar à vontade
naquele arrebatamento de noivos sadios e vigorosos.
Uma noite o guarda-livros quis ir mais longe nas vivas demonstrações
de seu amor pela Campelinho. Com os lábios pregados à
boca da Lídia, quase abraçados, procurou com uma das
mãos apalpar alguma coisa que a rapariga ocultava religiosamente
no templo inviolável de sua castidade.
- Não, isso não! fez ela esquivando-se, toda cautelosa,
com um ar de surpresa.
Deixasse daquilo, que era muito feio entre noivos. Não havia
necessidade; tinham muito tempo, depois. Tivesse paciência,
sim?
E muito terna, derreando-se de novo sobre os ombros do guarda-livros,
beijou-o na face áspera de espinhas, sem repugnância,
e começou a cofiar-lhe carinhosamente os bigodes, devagarinho,
arregaçando-os, assanhando-os para tornar a alisá-los,
prolongando assim a delícia de Loureiro que nesses momentos
era como um escravo das mãozinhas brancas e delicadas da
Lídia.
- Mas, que tem? perguntou ele com a voz trêmula, um fluido
estranho no olhar terno.
- Não, meu bem, isso não, que é feio, tornou
a Campelinho. Tem paciência.
Não fazia mal, continuou Loureiro. Não eram noivos?
não eram quase casados? Que diabo! consentisse ao menos uma
vez. Era um instantinho. Ora! uma coisa tão simples, tão
natural... Ninguém via, deixasse, que tolice!
E enquanto falava muito baixo, com hesitações trêmulas
na voz embargada pela sensualidade, estendia a mão por baixo,
olhar fito nos olhos vivos e penetrantes da rapariga.
Nem um ruído na rua do Trilho, nem uma voz, nem o vôo
pesado de um morcego: tudo silêncio, e uns restos de luar
a extinguir-se esbatendo defronte nos telhados. Apenas, ao longe,
vago e indistinto quase, o ruído monótono do mar no
silêncio da noite calma.
- Oh! não... suplicou a Campelinho sentindo o contato da
mão grossa do guarda-livros. Deixa...
Houve um frufru de vestidos machucados e o baque de uma cadeira.
Momentos depois o Loureiro despedia-se triunfante, pisando devagar,
caminho do HOTEL DRAGOT.
Desde então começou a retirar-se muito tarde. Havia
noites em que só saía depois de uma hora da madrugada.
Ultimamente almoçava e jantava em casa da viúva. Era
mais econômico do que pagar no hotel, dizia D. Amanda: bastava
que ele contribuísse com trinta mil-réis mensais e
tudo se arranjaria ali mesmo em família; de modo que o Loureiro
pouco a pouco foi-se fazendo, por assim dizer, dono da casa, chefe
da família. Por fim todas as despesas corriam por sua conta
e risco. Aluguel de casa, comedoria, roupa lavada e engomada, vestidos
para a Lídia, tudo era ele quem pagava de boa vontade, sem
tugir nem mugir porque queria e tinha prazer nisso. Muito econômico,
amigo de seu dinheirinho, mas em se tratando das Campelo, não
tinha mãos a medir, era de uma prodigalidade sem limites.
Coitadas! lamentava-se consigo, eram umas pobres; cada um sabe de
si e Deus de todos; tinha quase o dever de ampará-las, tanto
mais quando estava para ser marido da pequena. E abria o seu grande
coração e a sua bolsa àquelas duas criaturas,
que se lhe afiguravam duas santas através do prisma azul
de seu amor pela rapariga. Subscritor da Sociedade de São
Vicente de Paulo, um pouco devoto, às vezes tinha rasgos
de verdadeiro filantropo. D. Amanda e a filha eram aos seus olhos
"duas vítimas da maledicência de uma sociedade
hipócrita e torpe até à raiz dos cabelos".
Agora jantava e almoçava em casa da viúva, que já
lhe sabia os gostos, as manias. Ela mesma ia preparar a comida,
os ovos quentes e a lingüiça assada ao almoço,
o feijão e o lombo assado para o jantar. D. Amanda estava
radiante com o genro. Tratava-o a velas de libra, fazia-lhe todas
as vontades, escovava-lhe a roupa, e eram cuidados de mãe
carinhosa ou de criança que tem um pássaro na mão
e receia que lhe fuja.
Aos domingos o guarda-livros ia logo cedo para o Trilho, às
vezes com a cara por lavar, metido em calças pardas, abotoado
até o pescoço. Era quando tinha algum descanso das
lidas quotidianas do armazém, da escrituração
do Caixa. Às seis horas da manhã já ele estava
de caminho para o Trilho, muito à fresca, cigarro ao canto
da boca, prelibando as delícias de um dia em companhia da
noiva, sem ter que dar satisfação à Carvalho
& Cia., com a consciência tranqüila de quem cumpriu
religiosamente o seu dever.
Nem sequer tomava café no hotel. Pulava da rede às
pressas, sem perder tempo, enfiava as botinas, as calças,
o paletó surrado, e abalava por ali afora, escadas abaixo.
Às vezes ainda encontrava a porta da viúva fechada.
Batia devagar com a ponta dos dedos: "- Sou eu, Loureiro!"
Imediatamente D. Amanda vinha abrir, embrulhada nos lençóis,
cabelos soltos, em mangas de camisa. E a faina começava.
Escancaravam-se as portas para dar entrada livre ao arzinho fresco
da manhã que se derramava por toda a casa como um fluido
que se evaporasse de repente de um depósito aberto. O Loureiro
tirava o paletó, abria a toalha no ombro, e enquanto se punha
a ferver água para o café, refestelava-se num confortável
banho frio puxado de véspera na grande tina que havia no
"banheiro". Era tempo de cajus. O guarda-livros tinha
a mania dos depurativos. Antes do banho emborcava um copo de mocororó
"para retemperar o sangue", dizia ele. Depois o cafezinho
quente, coado pelas mãos de D. Amanda, e, finalmente, o belo
dia passado, currente calamo, tranqüilamente num longo idílio
naquele canto obscuro de Fortaleza, com a "sua santa".
O hotel servia-lhe apenas para dormir, porque o Loureiro era filho
do Rio Grande do Norte onde perdera pai e mãe, não
tinha no Ceará sequer um parente em cuja casa pudesse passar
as noites. Amigos capazes de merecerem toda a sua confiança
também não os tinha. Pacato, concentrado e pouco expansivo,
dificilmente comunicava-se a quem não o procurasse em primeiro
lugar. Sua natureza egoísta aprazia-se com a vida sedentária.
- Um esquisitão de força, uma espécie de urso!
diziam os seus camaradas de comércio.
E os dias passavam, longos e modorrentos, cheios de sol, sem nuvens
no azul, iguais sempre, eternamente monótonos.
Novembro estava a chegar. Novembro, o mês dos cajus e das
ventanias desabridas, com as suas manhãs friorentas e claras,
em que, às vezes, nuvens sombrias acumulavam-se no horizonte
e vão subindo até desmancharem-se completamente num
chuvisco ligeiro que apenas borrifa de leve a superfície
seca do solo, pondo cintilações diamantinas nas folhas
do arvoredo; novembro, o mês dos estudantes, o mês dos
exames, que passa levando consigo as ilusões cor-de-rosa
dos que deixam os bancos preparatórios e dos que começam
a vida pública.
O Zuza não tinha pressa em se formar. De resto era uma questão
de tempo o seu bacharelato. Resolvera passar mais alguns meses no
Ceará com a família, e então ir-se-ia completar
o curso. Já agora o Ceará não lhe era inteiramente
uma terra má. Habituava-se pouco a pouco a essa vida de província
pacata em que se trabalha um quase nada e fala-se muito da vida
alheia. Maria do Carmo tinha-lhe escrito uma cartinha lacônica
e expressiva confessando o seu amor. Entregou-a ela mesma, no Passeio
Público, numa quinta-feira, à noite, uma belíssima
noite de luar. A avenida Caio Prado tinha o aspecto fantástico
de um terraço oriental onde passeavam princesas e odaliscas
sob um céu de prata polida, com suas filas de combustores
azuis, encarnados e verdes, com as suas esfinges... Senhoras de
braço dado, em toaletes garridas, iam e vinham ao macadame,
arrastando os pés, ao compasso da música, conversando
alto, entrechocando-se, numa promiscuidade interessante de cores,
que tinham reflexos vivos ao luar: de um lado e de outro da avenida
duas alas de cadeiras ocupadas por gente de ambos os sexos, na maior
parte curiosos que assistiam tranqüilamente o vaivém
contínuo dos passeantes.
O plenilúnio muito alto dir-se-ia uma grande medalha de prata
reluzente com o anverso para a terra, suspensa por um fio invisível
lá em cima na cúpula azul do céu. Defronte
da avenida o mar, na sua aparente imobilidade, tinha reflexos opalinos
que deslumbravam, crivado de cintilações, minúsculas,
largo, imenso, desdobrando-se por ali afora a perder de vista, e
para o sul, muito ao longe, a luz branca do farol tinha lampejos
intermitentes, de minuto a minuto. No porto a mastreação
dos navios destacava nitidamente, inclinando-se num movimento incessante
para um e outro lado, como oscilações de um pêndulo
invertido.
- Uma noite admirável, hein, Maria? dizia Lídia de
braço com a amiga, levada pela onda dos diletantes.
A normalista, porém, não deu atenção
à Campelinho, muito distraída, caminhando maquinalmente,
a pensar no estudante. Decididamente entregava-lhe a carta, fosse
como fosse. Eram oito horas já e o Zuza ainda não
havia chegado. Estava aflita, inquieta, impaciente. E se ele não
fosse ao Passeio nessa noite? Ela rasgaria a carta e nunca mais
havia de o procurar. O seu coração batia com força.
Ia e vinha, cansada de esperar, com ímpetos de voltar para
casa.
- Tem paciência, menina, disse a outra. O rapaz não
tarda. Está no clube, talvez.
Qual clube. Era necessário acabar com aquilo. Começava
a desconfiar do Zuza. Certo que ele queria passar o tempo folgadamente,
por isto fingira aquela comédia de amor. Não era possível,
não acreditava na sinceridade do Zuza. Se ele fosse outro
procurá-la-ia sempre, em toda parte, nos passeios, no teatro,
nos bailes. E ela é que estava fazendo uma figura ridícula
a procurá-lo, como se ele fosse o único homem do Ceará
com quem ela pudesse ser feliz!
E lá veio o maldito nervoso, uma vontade de fechar os olhos
a tudo e viver para si, egoisticamente, como o bicho-da-seda, no
seu casulo. Incomodava-lhe o zunzum de vozes e as pisadas da multidão,
a própria música começou a fazer-lhe mal à
cabeça. Que horror! Nem sequer podia passear!
Nisto ouviu uma voz que lhe pareceu a do estudante.
- Boa-noite, minhas senhoras!
Era realmente ele, que vinha chegando ao lado de José Pereira,
muito correto, de chapéu alto, calça de casimira clara,
croisé aberto, grandes colarinhos lustrosos de ponta virada
e infalível flor na botoeira.
Maria voltou-se aturdida e um suspiro largo e bom escapou-lhe do
peito.
Até que enfim! Ele ali estava, inteiro, completo, absoluto!
Agora, pensava em como entregar a carta sem que ninguém visse,
sem escândalo.
A Lídia sugeriu-lhe uma idéia - iriam à outra
avenida, mais sombria e menos freqüentada; ele naturalmente
havia de ir também e então passava-lhe a carta num
aperto de mão franco e amigável.
- Sim, vamos...
E dirigiram-se para a avenida Carapini, ensombrada pelos castanheiros,
que formavam uma como abóbada compacta de ramagens através
das quais o luar coava-se aqui e ali, pelas clareiras.
Puseram-se por ali a esperar, em pé defronte dos gnomos de
louça, à beira dos reservatórios de água
onde cruzavam gansos e marrequinhas vadias que grasnavam alegremente,
inundadas de luar, ou caminhando devagar, iam contando os minutos,
enquanto a música, no coreto, executava trechos alegres de
operetas em voga. No botequim, rodeado de toscas mesinhas de madeira,
abriam-se garrafas de cerveja com estrondo, e havia um movimento
desusado de gente. As normalistas afastaram-se para mais longe.
- Eles não vêm, disse Maria desanimada, enquanto a
outra procurava com o olhar o estudante, que se confundira na multidão.
- Tem paciência, tolinha. Por que não hão de
vir?
Com efeito, daí a pouco assomou no extremo oposto da avenida
a figura corpulenta de José Pereira, alta, larga, colossal,
ao lado do Zuza, que lhe ficava pelo ombro, apesar de alto também,
com o seu corpo fino em contraste frisante com o todo asselvajado
do amigo. Vinham passo a passo, discretamente. Pararam no botequim,
numa roda de rapazes que discutiam calorosamente sobre política.
De braço dado, ombro a ombro, as duas raparigas tinham procurado
o lugar mais sombrio da avenida onde não podiam ser reconhecidas
facilmente pelos passeantes da Caio Prado.
Esperemo-los aqui, disse Lídia, sentando-se com um vago suspiro.
E continuava a chegar gente e a encher o Passeio por todas as avenidas
do primeiro plano, cruzando-se em todos os sentidos, acotovelando-se,
confundindo-se. Na Mororó, mais larga que as outras, havia
uma promiscuidade franca de raparigas de todas as classes: criadinhas
morenas e rechonchudas, com os seus vestidos brancos de ver a Deus,
de avental, conduzindo crianças; filhas de famílias
pobres em trajes domingueiros, muito alegres na sua encantadora
obscuridade; mulheres de vida livre sacudindo os quadris descarnados,
com ademanes característicos, perseguidas por uma troça
de sujeitos pulhas que se punham a lhes dizer gracinhas insulsas.
Toda uma geração nascente, ávida de emoções,
cansada de uma vida sedentária e monótona, ia espairecer
no Passeio Público aos domingos e quintas-feiras, gratuitamente,
sem ter que pagar dez tostões por uma entrada, como no teatro
e no circo.
Ali não havia distinção de classes, nem camarotes,
nem cadeiras de primeira ordem: todos tinham ingresso para saracotear
nas avenidas ao ar puro das noites de luar.
Apenas quem não tivesse três vinténs estava
proibido de sentar-se, porque, nesses dias, as cadeiras eram alugadas,
havia assinaturas baratas. Lia-se mesmo na Província o seguinte
anúncio: "No estabelecimento Confúcio e no Clube
vendem-se cartões de assinatura de cadeiras no Passeio Público,
com abatimento nos preços." Mas, ora, toda a gente possuía
dois vinténs para alugar uma cadeira, e, ademais, ia-se ao
Passeio Público para andar, para se mostrar aos outros como
numa vitrine, não valia a pena ir para ficar sentado, casmurro,
a ver desfilar o quê? o mesmo carnaval de todos os domingos
e quintas-feiras, as mesmas caras, as mesmas toaletes. Não
valia a pena decerto.
Quando a música parava, um realejo fanhoso, ao som do qual
rodavam cavalinhos de pau, em um dos ângulos do jardim, gemia,
num tom dolente e irritante, o Trovador, atordoando os ouvidos delicados
do Zuza que achava aquilo simplesmente insuportável e medonho
como um assassinato em plena rua.
Como é que se consentia semelhante importunação
em uma capital que tinha foros de civilizada?
Oh! em Pernambuco o italiano que se lembrasse de tocar realejo à
porta de uma república era imediatamente punido a batatas
e a cascas de laranja. Estava muito atrasadinho o Ceará!
Gostava pouco de ir ao Passeio, o que fazia raríssimas vezes
a convite de José Pereira, que comparava aquilo a um paraíso.
- O Passeio Público? dizia ele; o Passeio Público
é um dos mais belos do Brasil, é a coisa mais bem-feita
que o Ceará possui. Que vista, que magnífico panorama
se aprecia da Avenida Caio Prado, à tarde! Nem o Passeio
Público do Rio de Janeiro!
E justificava o antibairrismo do estudante.
- É que tu tens passado a melhor parte da tua vida na Corte
e em Pernambuco, menino, dizia ele. Se vivesses algum tempo nesta
terra, havias de gostar extraordinariamente. Mas o que te posso
afirmar é que no Brasil não há uma cidade tão
bem alinhada como esta, uma iluminação mais rica do
que a nossa e um Passeio Público assim como este.
"- Não duvidava, não duvidava, mas o Ceará
ainda estava muito atrasadinho, lá isso estava."
Afinal, chegou o momento que Maria do Carmo aguardava com a impaciência
febril de um desesperado. O redator da Província e o Zuza
tinham deixado o grupo de políticos e aproximavam-se a passos
lentos. Ao passarem pelas normalistas a Campelinho levantou-se e,
muito desembaraçada, com esse tic indizível das raparigas
habituadas à convivência dos homens e à vida
elegante, dirigiu-se aos dois amigos, saudando-os rasgadamente com
um belo sorriso aristocrata:
- Como passou, Sr. José Pereira?... Sr. Zuza...
- Oh! minha senhora... fizeram os dois ao mesmo tempo.
E a Lídia, depois de perguntar a José Pereira, com
quem tinha alguma familiaridade, se vira, por ali, D. Amélia,
e com uma ponta de cinismo, dirigiu-se ao Zuza.
- Que tal o passeio, Sr. Zuza?
- Esplêndido, minha senhora! Está de encantar!
- Isto é um inimigo do Ceará, D. Lídia, atalhou
José Pereira rindo, com a sua voz muito grossa, os dentes
muito brancos e pequeninos. Isto é um vândalo!
- Vândalo, não. Sou apenas um admirador, um amante
do progresso. A meu ver, repito, o Ceará tem muito ainda,
mas mesmo muito (e deu umas castanholas com o dedo) que andar para
ser uma capital de primeira ordem.
- Eu já sabia que o Sr. Zuza não gostava da terra
de Iracema, disse a normalista.
Maria tinha se deixado ficar à distância, sentada num
banco de madeira encostado a uma árvore, na meia sombra que
havia de um lado da avenida, quieta, imóvel, acaçapada,
como uma coisa à toa... Sentia-se cada vez mais tola, mais
matuta e insociável.
A presença do acadêmico punha-lhe calafrios na espinha,
e vinha-lhe logo um desejo vago de isolar-se e não dizer
palavra. Não sabia o que aquilo era; o certo é que
a presença do Zuza hipnotizava-a, fazia-lhe perder a cabeça,
como se estivesse diante de um monstro, de uma criatura misteriosa,
cujo poder sobre ela fosse enorme.
Zangava-se consigo mesma nesses momentos. Já estava em idade
de perder todo o acanhamento, e, que diabo! atirar-se à vida,
à sociedade, sem medo, sem receios infundados, sem pieguismos.
Bolas! De si para si tornava a jurar nunca mais ter medo de homem
algum, mas no outro dia era a mesma da véspera, fraca, impotente
para dominar-se.
- Pois estamos distraindo o espírito, tornou a Lídia.
A avenida Caio Prado está muito cheia; vimos apreciar o movimento
daqui, da Avenida dos Charutos.
O Zé Povinho denominava Avenida dos Charutos a avenida Carapinin
por ser mais freqüentada por gente de cor, e Lídia achava
muita graça naquilo, não podia acertar com o verdadeiro
nome da sombria aléia, ponto dileto de cozinheiras e raparigas
baratas da rua da Misericórdia.
- Ah! fez o Zuza. Então V. Exª não veio só...?
- Não, não. Vim com a minha amiga inseparável.
E voltou-se para Maria, que fingia olhar para o coreto da música.
- Quem, D. Maria do Carmo? perguntou José Pereira voltando-se
também.
- Sim, a Maria...
- Oh! exclamou o redator dirigindo-se para a normalista. Está
triste hoje, D. Maria? Uma moça bonita não se deixa
ficar assim, na sombra. Como vai, como tem passado, boazinha? Sempre
acanhada!... Venha, faz favor? quero lhe apresentar a um moço
muito chique e que lhe aprecia muito.
Quem, o Sr. Zuza? Ela já conhecia. Estava descansando.
- Ó Zuza!
O acadêmico e a Lídia aproximaram-se.
E José Pereira num tom de cortesia:
- Apresento-te aqui a Sra. D. Maria do Carmo, normalista, e uma
das moças mais distintas da nossa sociedade, uma flor!
Riram-se todos àquele disparate premeditado, pondo uma nota
alegre nesse obscuro recanto do Passeio.
- Oh! Já se conheciam? Não sabia, por Deus! Então
já conheces a moça mais bonita do Trilho de Ferro,
hein? Uma coisa que não sabes: faz versos também...
Maria cumprimentou o estudante com um modo muito discreto, conservando-se
sentada, aflita.
A música deu começo a um tango repinicado, saltitante
e carnavalesco, espécie de Chorado Baiano, com rufos de tambor,
em que sobressaía o clarinete cujas notas, muito prolongadas
e queixosas, morriam languidamente.
De quando em quando os instrumentos faziam uma pausa e rompia um
coro de vozes grossas. - Quem comeu do boi?... que a molecagem,
lá fora, repetia numa desafinação irritante
de vozes finas.
- Vamos tomar alguma coisa, insistiu José Pereira oferecendo
o braço a Lídia cortesmente. Ó Zuza, você
dá o braço a D. Maria do Carmo.
E, dois a dois, dirigiram-se para o botequim, José Pereira
à frente com a Campelinho.
A ocasião era oportuna.
Maria a princípio desanimou completamente, mas, num ímpeto
decisivo e franco, fazendo um esforço supremo sobre si mesma,
nervosa, mais tímida que nunca, sacou a carta, passou-a ao
estudante, com a mão trêmula, sem proferir palavra,
e imediatamente veio-lhe um arrependimento profundo de se ter comprometido
daquele modo, como se houvesse cometido um grande crime, como se
naquela carta fosse toda a sua honra, todo o seu pudor de rapariga
honesta. Estava perdida! Pensou, e já lhe parecia que toda
a gente, - o Passeio Público em peso - seguia-lhe as pegadas
observando-lhe todos os movimentos.
- Ah! fez o Zuza satisfeito. Pensei que não respondesse...
E sentindo-se dono daquela prenda, com um frêmito de pálpebras
através dos óculos de ouro, aconchegou a si o braço
roliço da normalista meio descoberto.
Maria conservou-se calada, sentindo cada vez mais forte o poder
misterioso do estudante sobre seu coração extremamente
sensível e bom. Deixou-se ir automaticamente, como uma sonâmbula.
Sentaram-se. José Pereira quis saber o que desejavam tomar.
Havia sorvete, cidra, cerveja, vinho do Porto, chocolate...
- Cerveja, acudiu a Lídia.
Todos assentaram, depois de alguns minutos de indecisão,
em tomar cerveja, e o redator da Província, sempre alegre
e cortês, enfiando a cabeça para dentro do botequim,
pediu três garrafas de Carls Berg, gelo e quatro copos.
O serviço do botequim era feito por um menino que entrava
e saía sem descanso, numa azáfama dos diabos, suado,
com os cabelos empastados na testa, sem paletó, uma toalha
nauseabunda e úmida no ombro, acudindo, ele só, a
todos os chamados.
Rapazes impacientes, de chapéu caído para a nuca,
tresandando ixora, muito arrebitados, batiam com as bengalas sobre
as mesinhas.
- Uma garrafa de cerveja, menino!
- Ó pequeno, aqui! Olha dois cafés!
O pobre caixeirinho não tinha trégua com a cara enfarruscada,
resmungando.
De vez em quando, esfregava a toalha nas mesas com força,
salpicando restos de bebidas nos janotas.
- Ó burro, estás cego?
O menino zangava-se e corria a outra mesa.
Vinha de dentro do quiosque um cheiro ativo de café requentado.
Saíam bandejinhas com chocolate e pão-de-ló.
- Muito mal servido isto, objetou Zuza com o seu ar afetado de fidalgo,
limpando os bigodes. Tenho notado mesmo que aqui, no Ceará,
não se usa guardanapo...
- É objeto de luxo, disse José Pereira, atirando também
o seu dichote.
E pouco a pouco a conversação foi-se animando, pouco
a pouco foi-se estabelecendo uma como intimidade entre todos, ao
passo que os copos se esvaziavam.
Pediram mais uma garrafa de cerveja.
A própria Maria do Carmo tinha o rosto em fogo. Foi perdendo
o acanhamento e ria também com os outros quando o redator
dizia uma pilhéria.
A Lídia, essa lambia os beiços a cada copo que virava
de dois tragos. Era a sua bebida predileta - a cerveja. Bebera pela
primeira vez ali mesmo, no passeio, por sinal o alferes Coutinho,
do batalhão, é que tinha pago. Estava em meio do terceiro
copo. - "Aquilo é que era bebida agradável e
higiênica", dizia ela. Não gostava de licores
e bebidas adocicadas. A champanha mesmo enjoava-lhe.
- E que tal acha o peru? perguntou maliciosamente José Pereira.
Isso era outra coisa: O peru era uma excelente bebida; bastava ter
sido inventada pelo presidente da Província, um moço
de educação muito fina, viajado. Diziam até
que tinha ido à Rússia...
Então falou-se do presidente, que José Pereira não
perdia ocasião de elogiar exageradamente.
Um homem superior, gabava ele, um gentleman, um fidalgo de raça,
uma dessas criaturas que a gente ficava querendo bem por toda a
vida. Pois não! Excelente amigo, dedicado até, jogador
de florete, sabendo montar a cavalo "divinamente" e atirando
ao alvo com uma perfeição ultra! E que educação,
que finíssima educação social! O homem falava
francês como um parisiense, entendia inglês e tinha
um modo excepcional de se portar em qualquer ocasião, solene.
Com tudo isto, acrescentava pigarreando, era muito bom democrata,
sim senhores. Passeava sem ordenança, a pé; ia ao
mercado pela manhã "ver aquilo" como qualquer plebeu,
e jogava bilhar na Maison Moderne... Que queriam mais? De um homem
assim é que o Ceará precisava. Ele ali estava na pessoa
do Castro.
Tratava o presidente familiarmente, como a um amigo de muita intimidade.
Por sua vez o Zuza elevava o presidente aos cornos da lua. A sua
opinião resumida era a seguinte: "Todos os cearenses
juntos, trepados uns sobre os outros, não chegavam aos pés
do fidalgo paulista."
A Lídia achava os olhos do presidente "simplesmente
adoráveis".
- Eu o que mais admiro nele é o pescoço, a brancura
escultural do pescoço, disse Maria.
O presidente foi analisado escrupulosamente da cabeça aos
pés, como uma estátua grega, ao sabor da cerveja Carls
Berg.
Já não havia quase ninguém no Passeio, quieto
agora, sem o ruído tumultuoso dos passeantes, sem música,
todo iluminado pela claridade branda e melancólica do luar.
Apenas se ouvia o grasnar áspero dos gansos nos reservatórios,
a grita estridente das marrequinhas e a toada dos soldados no quartel,
rezando.
José Pereira tinha pedido mais uma garrafa de cerveja e instava
para que Maria do Carmo tomasse "um bocadinho só".
A normalista, porém, cobria o copo com a mão, recusando.
Que não: estava muito cheia, sentia uma pontinha de dor de
cabeça. Botasse para a Lídia...
Ora, fizesse favor, aceitasse, por vida de seus magníficos
olhinhos de princesa encantada, suplicou o redator da Província
fixando os olhos em Maria que esperava o assentimento do Zuza.
- Por que não toma, D. Maria? perguntou este num tom quase
imperativo. O José Pereira pede-lhe com tão bons modos...
Maria aceitou com um gesto de repugnância.
- À sua saúde, fez José Pereira tocando o copo
no da normalista.
Houve um tilintar de cristais chocando-se de leve, e todos beberam
ruidosamente.
- Agora vamo-nos chegando que se faz tarde, propôs Lídia
levantando-se.
Mal sustinha-se em pé. José Pereira ofereceu-lhe o
braço.
Uma languidez extrema tinha-se apoderado de Maria, cujas pálpebras
pesavam como chumbo. Foi preciso amparar-se ao estudante para não
cair redondamente.
- Uma tonteira! queixou-se ela fechando os olhos.
Não era nada, disse o outro passando-lhe o braço pela
cintura; e enquanto o redator seguia pela avenida com Lídia,
deixavam-se ficar naquela posição, em pé ambos
e quase abraçados.
- Olhe, D. Maria...
A rapariga tentou abrir os olhos, e nesse momento, naquele silencioso
recanto do Passeio estalou um beijo. Depois seguiram também,
e, juntos, todos quatro foram tomar café no Restaurante Tristão.