A
Normalista
Adolfo Caminha
CAPÍTULO
VI
O primeiro cuidado do Zuza ao regressar da excursão presidencial
a Baturité foi ajustar contas com o redator da Matraca, ameaçando
urbi et orbi fazê-lo engolir o número do pasquim que
trazia a versalhada torpe sobre o namoro do Trilho de Ferro.
No Ceará não havia outro homem que usasse flor na
lapela, dizia; o estudante, filho de titular, que andava a cavalo
mais o presidente da província, era ele, Zuza. Estava claro,
claríssimo, que a diatribe, o insulto, a infâmia referia-se
à sua pessoa, e o único meio simples, fácil
e positivo de se ensinar um patife é dar-lhe de rebenque
na cara. Conclusão: o redator da Matraca não só
ia engolir o papelucho, mas também apanhar de rebenque no
focinho, custasse o que custasse!
- Grandissíssimo canalha!
- Mas no Ceará não se faz reparo nessas coisas, meu
Zuza. O insulto nesta terra é um divertimento como qualquer
outro, como o entrudo, por exemplo. Cada cidadão aqui é
uma verdadeira Matraca. Não te importes, não te dês
cuidado...
Isto dizia-lhe o José Pereira na redação da
Província; mas o Zuza recalcitrava:
- Eu?! Hei de tomar um desforço, custe o que custar. Se é
costume nesta terra os indivíduos se insultarem mutuamente,
com a mesma facilidade com que tomam uma xícara de café,
pílulas! é preciso dar um ensino, é preciso
que alguém se levante!
- É bobagem, filho. Toda a gente toma a defesa do réu
e aí fica a vítima do insulto com cara de besta. É
o que é. Lá diz o rifão: quem não quer
ser lobo...
Esse José Pereira fisicamente dir-se-ia irmão gêmeo
do Berredo da Escola Normal. Alto, cheio de corpo, trigueiro, a
mesma barba espessa e negra cobrindo quase todo o corpo, os mesmíssimos
olhinhos vivos e concupiscentes. Dele é que se dizia que
fora surpreendido em flagrante adultério com a mulher do
juiz municipal no Passeio Público, um escândalo que
por muitos dias serviu de pasto a boticários e bodegueiros.
Começara a vida pública no Correio, como carteiro,
e agora aí estava feito redator da Província em cujo
caráter tornou-se geralmente admirado por seus folhetins
alambicados, que o público digeria à guisa de pastilhas
de Detan. Aos sábados publicava no rodapé do jornal
fantasias literárias, contos femininos em estilo 1830, histórias
dissolutas que eram lidas com avidez, mesmo com certa gula pelo
mulherio elegante e pela burguesia sentimental e piegas.
Cedo José Pereira começou a inchar como a rã
de La Fontaine e a julgar-se, com efeito, um grande escritor, "um
talento", capaz, olá! muitíssimo capaz de fazer
as delícias de qualquer sociedade inteligente e ilustrada.
Daí certo ar autoritário, certa prosápia que
ele afetava em toda a parte, dizendo-se "contemporâneo
de Rocha Lima", "amigo de Capistrano de Abreu"; certo
aprumo pedante que não condizia com a sua velha sobrecasaca
de diagonal cujo estado incomodava deveras a alta sociedade cearense.
Que diabo! um sujeito inteligente, com ares de fidalgo avarento,
redator de um jornal, sempre trazendo a mesmíssima sobrecasaca!
E o chapéu? Sempre o mesmo também, um triste chapéu
de feltro com manchas oleosas! Oh! a respeitável sociedade
cearense exigia primeiro que tudo decência no trajar, e aquilo
assim, aquela sobrecasaca sórdida escandalizava-a como se
escandaliza uma donzela diante duma estátua nua. Pois o Sr.
José Pereira não podia, sem grandes sacrifícios,
comprar um fato novo? Então, que diabo! não aparecesse
entre pessoas de certa ordem, ficasse em casa, fosse mais modesto.
Sim, porque todo o homem de talento, na opinião da sociedade
cearense, deve acompanhar a moda em todas as suas nuances, em todos
os seus requintes, deve ter sempre uma casaca à última
moda, uma calça à última moda, e um chapéu
à última moda, conforme os figurinos, para os "momentos
solenes", deve ser enfim um sujeito "correto" na
acepção mais lata da palavra.
O Sr. Pereira sabia dar um laço na gravata, lá isto
sabia, e também não ignorava como se calça
uma luva; mas (e isto é que preocupava a sociedade cearense)
o Sr. José Pereira, quer fosse a um baile de primeira ordem,
quer fosse a uma festa inaugural, quer fosse ao teatro, levava sempre
invariavelmente a mesma sobrecasaca surrada e o mesmo chapéu
ruço! Um homem de talento sem gosto é o que não
se admite. A sociedade cearense, porém, ignorava que o Sr.
José Pereira era casado, tinha filhos e ganhava apenas o
essencial para o seu sustento e o da família, cento e cinqüenta
mil-réis por mês, uma ninharia.
Os seus amigos, às vezes, gracejando, propunham-lhe abrir
uma subscrição para a compra de um paletó novo
e de um chapéu idem. José Pereira, porém, tinha
espírito e respondia-lhes ao pé da letra, mudando
logo o rumo da conversa.
Nesse tempo o redator da Província ainda era calouro em política.
Dava seu voto e nada mais. A literatura é que o absorvia.
Um livro novo era para ele a melhor novidade; caísse embora
o ministério, rebentasse uma revolução, ele
conservava-se a ler, virando páginas, devorando a obra como
um alucinado, defronte do abajur de papelão no seu modesto
gabinete de escritor pobre. Conhecia Dumas pai de cor e salteado;
fora o seu primeiro "mestre". Depois entregou-se a ler
os Miseráveis, declarando-se hugólatra incondicional
em uma apreciação que fizera do grande poeta. O artigo
concluía deste modo:
"Victor Hugo é o Cristo da legenda transfigurado em
profeta moderno. Ele é todo um século. Tudo nele é
grande como a natureza. Os Miseráveis são a apoteose
de todas as misérias humanas. Victor Hugo, o Mestre, é
o Sol da Humanidade. Amemo-lo como a um Deus!"
Isso produziu efeito entre os literatos contemporâneos que
não dispensaram elogios ao "valente folhetinista"
da Província.
A fama de José Pereira encheu depressa toda a cidade. Dizia-se
- aí vai o José Pereira! como quem diz - aí
vai um gênio. E ele saudava a todos convictamente, tocando
de leve a aba mole do chapéu preto de massa.
Em fins de 1886 José Pereira conservava-se ainda na Província,
como um dos principais redatores. A sua fama, se não decrescera,
era a mesma com uma pequena e insignificante diferença -
é que ele já não era simplesmente um "talento
fecundo", mas também um fecundíssimo canalha,
um requintado "sedutor de mulheres casadas", o que afinal
de contas não o prejudicava assaz no conceito do mulherio.
Havia as viúvas, casadas e solteiras que o defendiam tenazmente.
Não, diziam elas, o diabo não é tão
feio como o pintam. José Pereira podia ser um rapaz alegre,
divertidíssimo, jovial e espirituoso, amigo das mulheres
- vá, mas, em suma, um excelente rapaz e um belo caráter.
Porque o fato de um homem apaixonar-se facilmente por muitas mulheres
ao mesmo tempo ou em épocas diferentes não quer significar
que esse homem seja um sedutor e um patife. Demais, José
Pereira era artista, e o artista, escultor ou poeta, pintor ou músico,
não pode compreender a vida sem o amor...
- Mas é um homem casado, profligavam outras.
- Bem; mas o casamento...
E demonstravam que o casamento, longe de ser um atentado contra
o livre-arbítrio das partes, é, ao contrário,
uma instituição que concede, tanto ao homem como à
mulher, plena liberdade de amar ao próximo como a si mesmo.
Entre as que adotavam a prática destas teorias tão
abstrusas quanto originais, distinguiam-se a mulher de João
da Mata e a do Dr. Mendes.
- Então, decididamente queres quebrar a cara ao redator da
Matraca? dizia ele ao Zuza.
- Mas que dúvida!
Quem quer que fosse o verrinista havia de ficar sabendo de quantos
paus se faz uma jangada.
- Mas olha que é uma imprudência pueril, homem. Quando
o insulto vem de baixo, a gente deve responder com o desprezo. O
desprezo é a arma invencível dos espíritos
superiores. Eu é como tenho resolvido questões desta
natureza.
- Qual desprezo! Não se mata com desprezo um réptil
venenoso; pisa-se-o, reduz-se a papas. Isto é o que fazem
os espíritos superiores. Sabes quem é o biltre?
- Homem, francamente, confesso-te que não o conheço.
Dizem ser um tal Guedes, vulgo Pombinha, um sujeito reles, troca-tintas,
um miserável que nem vale a pena de um escândalo...
- Não vale a pena? Quebro-lhe a cara, ora se quebro... Onde
fica a tipografia do jornaleco?
- Na rua de São Bernardo, creio eu, uma espécie de
toca imunda com ares de latrina.
- Guedes (Pombinha)... rua de São Bernardo. Muito bem!
E o Zuza tomou nota do seu canhenho, guardando-o resolutamente.
- Diabos me levem se eu não fizer uma estralada hoje.
Mudando de tom:
- Quero que publiques hoje o meu soneto A Volta; deve sair hoje
infalivelmente.
- É dedicado à mesma?
- Certamente. Sabes que eu sempre fui muito correto nos meus amores.
A pequena está pelo beicinho. Há de cair como uma
mosca, eu te garanto.
- Um divertimento, hein?
- Não sou muito capaz de casar. Aquele arzinho ingênuo,
aqueles olhos de madona traduzindo uma alma cheia de sentimentos
bons... - tudo nela enfim, agrada-me.
- Mas é uma pobretona, filho. Aquilo é para a gente
namorar, encher de beijos e - pernas para que te quero! És
muito calouro ainda nisso de amores. Aproveita a tua mocidade, deixa-te
de pieguismo, menino. A vida é uma comédia, como lá
disse o outro...
Então o Zuza, acendendo um cigarro, disse que estava aborrecido
de mulheres que se entregavam facilmente. Em Pernambuco namorara
a filha de um barão, e, se não fosse esperto, àquelas
horas estaria talvez às voltas com o minotauro de que fala
Balzac. Era uma rapariga esplêndida, mas tão depravada,
tão impoluta que acabou fugindo com um jóquei do Prado
pernambucano, um negro!
Quanto às mulheres de vida alegre, detestava-as; tinha gasto
muito dinheiro, precisava casar, mas casar com uma menina ingênua
e pobre, porque é nas classes pobres que se encontra mais
vergonha e menos bandalheira. Ora, Maria do Carmo parecia-lhe uma
criatura simples, sem essa tendência fatal das mulheres modernas
para o adultério, uma menina que até chorava na aula
simplesmente por não ter respondido a uma pergunta do professor!
Uma rapariga assim era um caso esporádico, uma verdadeira
exceção no meio de uma sociedade roída por
quanto vício há no mundo. Ia concluir o curso, e,
quando voltasse ao Ceará, pensaria seriamente no caso. A
Maria do Carmo estava mesmo a calhar: pobrezinha, mas inocente...
- É o que tu pensas, retorquiu o outro. Hoje não há
que fiar em moças, pobres ou ricas. Todas elas sabem mais
do que nós outros. Lêem Zola, estudam anatomia humana
e tomam cerveja nos cafés. Então as tais normalistas,
benza-as Deus, são verdadeiras doutoras de borla e capelo
em negócio de namoros. Sei de uma que foi encontrada pelo
professor de história natural a debuchar um grandíssimo
falo com todos os seus petrechos...
- O quê, homem?
- É o que estou a dizer-te, por sinal acabou amigando-se
com um bodegueiro de Arronches e lá vive muito bem com o
sujeito. Creio até que já tem filhos.
- Ó senhor, então, ao que me vai parecendo, está
muito adiantada a nossa pequena sociedade! exclamou o Zuza muito
admirado, cavalgando o pince-nez. Pois olha, eu supunha isto aqui
uma santidade.
- É que há muito tempo não vinhas ao Ceará.
Por cá também se dão escândalos, como
em Pernambuco, e escândalos de pasmar a um sacerdote da moral,
como o filho de meu pai.
O escritório da Província estava quase deserto. Apenas
o José Pereira e o estudante conversavam amigavelmente, sentados
defronte um do outro à mesa dos redatores, fumando enquanto
lá dentro, nos fundos onde ficavam as oficinas, os tipógrafos
compunham atarefados a matéria do dia.
Seriam duas horas da tarde. O calor abafava.
Um rapazinho raquítico, em mangas de camisa, com manchas
de tinta no rosto e um ar amolentado, veio trazer as provas do expediente
do governo.
- Falta matéria? perguntou José Pereira, encarando-o.
"Não sabia, não senhor, ia ver." E saiu
voltando imediatamente: que o jornal estava completo.
- Bem, disse o Zuza levantando-se, vou à casa do Sr. Guedes.
Preciso acabar com isso.
- Mas olha, recomendou o redator, não vás fazer asneiras,
hein?
- Não, não. A coisa é simples. Addio.
E retirou-se fazendo piruetas com a bengala no ar.
- É um criançola esse Zuza, murmurou José Pereira
molhando a pena.
Imediatamente entrou o Castrinho, outro colaborador da Província,
também poeta e amigo particular de José Pereira, autor
das Flores Agrestes publicadas há dias e que tinham sido
muito bem recebidas pela crítica indígena. Vinha trazer
a resposta ao crítico do Cearense que o chamara - plagiador
de obras alheias.
- Então temos polêmica? perguntou José Pereira
sem levantar a cabeça, revendo as provas.
- Por que não! Hei-de provar à evidência que
não preciso plagiar ninguém. Aqui está o primeiro
artigo. É de arromba!
O Castrinho sacou do bolso do paletó de alpaca um calhamaço
de tiras de papel gordurosas e sacudindo-as, como quem toma o peso
a alguma coisa:
- Aqui está: hei-de rebater uma a uma, sem dó nem
piedade, todas as asserções do meu invejoso contendor.
- Já te falo, disse o outro continuando o trabalho. Tem paciência
um pouquinho. O diabo das provas...
- Sim, continua; não te quero interromper...
Plagiador ele, que tinha talento para dar e emprestar a toda a caterva
de versejadores cearenses! Havia de provar o contrário, porque
tanto sabia burilar um soneto como manejar a prosa.
Até estimara a provocação do Cearense, porque
desse modo o público ficaria sabendo quem eram os imitadores,
os parasitas da poesia nacional. Aí estava o juízo
da imprensa fluminense, aí estava o juízo de toda
a imprensa do Brasil, do Amazonas ao Prata, sobre as Flores Agrestes.
Um jornal do Sul - O Cometa - comparara-o até a Olavo Bilac
e a Raimundo Corrêa!
- Inveja, murmurou José Pereira. O verdadeiro talento é
sempre vítima do despeito das mediocridades.
E terminando a revisão:
- Vejamos o que escreveste.
- Somente isto, disse o Castrinho entregando a papelada. Hei-de
convencer ao zoilo do Cearense, por a mais b, que ele é o
plagiador, o invejoso, o ignorante, a besta, e eu o poeta consciencioso
e moderno que não se limita a cantar Elviras e a copiar Lamartine.
José Pereira derreou-se na cadeira de espaldar, um velho
traste que fora da Perseverança e Porvir, "atestado
eloqüente de uma luta de heróis" como dizia o Zuza,
e, depois de acender a ponta do cigarro, que estava à beira
da mesa, devorou com olhar protetor a série de argumentos
mais ou menos esmagadores com que o outro pretendia aniquilar o
articulista da folha adversa. Tinha a epígrafe - As Flores
Agrestes e a Inveja Furiosa, e concluía nestes termos: "Voltarei
à questão para esmagar com a lógica irrefutável
da verdade o ousado e néscio criticista que me acoimou de
plagiador. O público verá qual de nós tem razão;
eu que tive o aplauso de quase totalidade da imprensa brasileira,
ou o zoilo do Cearense, que pretendeu obscurecer o meu merecimento."
- Magnífico! exclamou José Pereira levantando-se.
Dá cá um abraço, homem.
E estreitando o Castrinho, contra o peito:
- Tens talento como um bruto, menino. Olha que quem escreveu isto
vale o que escreveu, caramba! Continua, Castrinho, continua, que
ainda hás de vir a ser um grande poeta. Desta massa é
que se fazem os Byron e os Victor Hugo... E logo, paternalmente:
- Queres jantar comigo?
- Obrigado. Hás-de permitir que te agradeça, hein?
Adeusinho. Não esqueça o artigo.
- Absolutamente, não. Amanhã impreterivelmente, vê-lo-ás
na segunda página, todo, inteirinho. Adeus.
Vendedores de jornais esperavam a Província, à porta
da redação, inquietos, turbulentos, a questionar por
dá cá aquela palha, e já se ouvia o barulho
do prelo lá dentro, imprimindo a folha governista. Empregados
públicos voltavam das repartições taciturnos,
em sobrecasacas sórdidas, mordendo cigarros Lopes Sá,
amarelos, linfáticos, o estômago a dar horas. Pouco
movimento na rua do Major Facundo: um ou outro transeunte macambúzio,
de chapéu de sol, caixeiros que atravessavam a rua ligeiros,
em mangas de camisa, e alguns pobres-diabos arrastando-se a pedir
esmola.
A cidade permanecia na sua costumada quietação provinciana,
muito cheia de claridade, bocejando preguiçosamente de braços
cruzados, à espera do Progresso. Suava-se por todos os poros
e respirava-se a custo, debaixo de uma atmosfera equatorial, acabrunhadora.
Estalava à distância, num ritmo cadenciado e monótono,
o canto estridente e metálico duma araponga, cujo eco repercutia
em todo o âmbito da pequena capital cearense.
Ao dobrar a rua da Assembléia, o Zuza parou, à espera
que o bonde passasse, e esteve considerando um instante. - De que
lhe servia ir onde estava o Guedes e quebrar-lhe as costelas a bengaladas?
O rapaz podia repelir a agressão e aí estava um conflito
sério, em que um dos dois necessariamente havia de sair ferido.
Afinal de contas era provocar um escândalo inútil,
vinha a polícia e a vergonha era dele, Zuza, unicamente dele,
um rapaz de posição, amigo do presidente... Não
valia a pena abrir luta com um pasquineiro. O melhor era, como aconselhara
o José Pereira, dar ao desprezo o cão. Se ele, porém,
o abocanhasse outra vez, então, decididamente, quebrava-lhe
a cara. Apelava para a reincidência do foliculário.
Província estúpida! Estava doido por se ver livre
de semelhante canalhismo. E aquilo é que se chamava terra
da luz!
Seguiu para casa preocupado com essas idéias com um nojo
do Ceará.
O coronel divertia-se tranqüilamente com a passarada do viveiro,
metido no inseparável gorro de veludo bordado a ouro e retrós.
Era amigo de pássaros e tinha-os magníficos em gaiolas
de arame penduradas na sala de jantar, além do viveiro, também
de arame, em forma de quiosque chinês, com uma bola de vidro
no alto, colocado no quintal, defronte da casinha de banhos.
Uma vidinha estúpida aquela! pensava o estudante estendendo-se
na rede. Morria-se de tédio e calor. Vieram-lhe saudades
do Recife. Oh! o Recife, o Prado aos domingos, os passeios, belos
piqueniques a Caxangá... Lembrou-se de sua última
conquista amorosa - a Rosita, uma espanhola com quem estivera seguramente
seis meses. Um peixão! Morava na Madalena. Vira-a uma vez
no teatrinho da Nova Hamburgo, sozinha num camarote, muito bem vestida,
com um rico leque de plumas, anéis de brilhantes, esplêndida:
era argentina.
Que de cerveja e ceatas e passeios de carro e pagodeiras nos hotéis!
Relembrava a primeira noite que passara com a Rosita, por sinal
tinha tomado muita champanha, tinha feito um figurão. A rapariga
compreendeu que tratava com gente fina e entregou-se. Uma noite
deliciosa! Começou por uma ceia em casa dela na Madalena,
um chalezinho de porta e janela com varanda, forrado a papel sangue
de boi e jardinzinho na frente. A sala de visitas era um mimo com
a sua mobília mignon de assento estufado, piano, quadros
do paganismo, bibelô... E a alcova? Um ninho, um perfeito
ninho de amores. Zuzinha - era como ela o tratava com toda ternura,
cobrindo-o de beijos, suspendendo-o nos braços como se levantasse
uma criança, sentando-o no colo - ela de peignoir de fustão
com fitinhas azuis, uns olhos matadores, úmidos de sensualidade,
e ele à frescata, em mangas de camisa, sem colarinho - um
deboche!
E uma saudade imensa invadia-o. Saudade da Rosita, saudade da república
- uma troça alegre de rapazes endinheirados e limpos - saudade
dos banhos de mar em Olinda...
Depois veio-lhe à mente a normalista, a cearense do Trilho
de Ferro. Muito bonitinha, é verdade, mas uma tola que não
sabia tratar com rapazes educados. Lá por ser pobre não;
mas parecia-lhe tão atrasadinha, assim como apalermada, indiferente
a tudo. Além disso um nome de matuta - Maria do Carmo. Ainda
se fosse Maria Luíza, mas Maria do Carmo!...
Começou então a fazer considerações
sobre Maria. Achava-a até parecida com a Francina, uma rapariga
de Pernambuco, também morena e de olhos cor de azeitona,
baixinha e sem-vergonha, "passada" por todos os estudantes
de academia. Mas mesmo muito parecida, agora é que se lembrava:
era a Francina. Um horror! No Ceará não se encontravam
mulheres públicas de certa ordem. Tudo era uma récua
de meretrizes imundas, carregadas de sífilis até aos
olhos. Os rapazes viviam se queixando de moléstias secretas.
Levantou-se em ceroulas, para acender um cigarro, espreguiçando-se.
O quarto era pequeno, mas arranjado com certo decoro e bom gosto.
O Zuza herdara essa qualidade característica dos Souza Nunes
- o amor à ordem. Tudo dele era arrumado e limpo. Adorava
a boemia, mas a boemia que não cospe no assoalho e que toma
banho ao menos uma vez por dia. Nisto de asseio, como em muitas
outras coisas, era correto e o pai o louvava por essa qualidade
especial de se portar com a máxima inteireza, no asseio do
corpo, como no das ações. Toda a mobília do
pequeno compartimento consistia numa estante envidraçada,
cadeiras, um sofá e uma mesinha redonda, colocada no centro
e coberta com um pano azul, de lã. Comunicava com outro quarto
menor onde estava a cama de ferro e uma rede. Ma cabine à
coucher, dizia o Zuza mostrando aos amigos esse interior confortável
de boêmio rico. A claridade entrava pela varanda e ia morrer
em penumbra lá dentro no segundo quarto. No papel claro das
paredes destacavam litografias encaixilhadas de poetas célebres
e o retrato de Gambeta na postura habitual em que o grande orador
falava ao povo. Em política era o seu ídolo, dizia
o estudante, e no auge do entusiasmo, colocava-o acima de Mirabeau.
Em cima da mesa números avulsos da Revista Jurídica
confundindo-se com jornais ilustrados, e um porta-retratos com as
fotografias do coronel e da esposa, olhando para os lados, em sentidos
opostos. Tal o "gabinete" do Zuza, o seu remanso de estudante
cuidadoso.
Tinha aberto ao acaso o seu romance querido, A Casa de Pensão.
Um livro importante, gabava; um livro que revelava o grau de adiantamento
da literatura brasileira, não deixando a desejar os melhores
dos escritores naturalistas portugueses. Este exagero do Zuza deve
se levar em conta do ódio injusto que ele votava a tudo quanto
cheirasse a lusitanismo.
O estudante, porém, nunca passara a vista sequer num romance
de Eça ou numa crítica de Ramalho. - "Não
queria, não podia tragar coisas que lhe provocassem vômitos."
Preferia um churrasco à baiana ao "tal" Sr. Camilo
Castelo Branco, um sujeito inimigo do Brasil, que não perdia
ocasião de nos ridicularizar. De Portugal, Camões
exclusivamente, isso mesmo porque o grande épico era uma
"glória universal". Certas palavras tinham um encanto
particular a seus ouvidos. Gostava de frases cheias e retumbantes.
Os Lusíadas? eram uma "epopéia imortal",
dizia ele. Pronunciava a palavra epopéia com a boca cheia,
a acentuando muito o é. Uma obra de arte reconhecidamente
boa era a seu ver uma epopéia, fosse qual fosse o gênero
- O Cristo e a Adúltera, de Bernardelli? Uma epopéia
nacional!!!
Começou a ler A Casa de Pensão em voz alta, em tom
de recitativo, pausadamente, repetindo frases inteiras, aplaudindo
o romancista com entusiasmo, exclamando de vez em vez: - Bonito,
seu Zuza! como se fosse ele próprio o autor do livro. Depois
sacudindo o romance sobre uma cadeira, levantou-se espreguiçando-se
com estalinhos nas articulações, escancarando a boca
num bocejo largo. Que horas seriam? O despertador de níquel
marcava quatro e meia. Ó diabo! tinha-se descuidado. Estava
convidado para jantar com o presidente às cinco pontualmente.
Começou a vestir-se assobiando trechos de música seródia.
De repente: "- E a normalista que não lhe tinha respondido
a carta!" Muito atrasadinhas as cearenses, pensava. Que mais
queria ela? E defronte do espelho, pondo a gravata: - "Era
um rapaz chique, dava muita honra à Sra. D. Maria do Carmo
escrevendo-lhe uma carta amorosa, pois não? Era o que faltava,
a Sra. D. Maria do Carmo não lhe dar atenção!
Mas havia de cair por força. Era uma questão de tempo."
Cinco horas. O Zuza enfiou a sobrecasaca às pressas, perfumou-se,
endireitou a gravata e - até logo - foi-se como um raio.