A
Normalista
Adolfo Caminha
CAPÍTULO X
Quando chegaria sua vez? pensava Maria do Carmo nessa noite, sem
poder conciliar o sono, com um desalento profundo no coração
apreensivo. Que tal, hein? O Sr. Zuza não se resolvia a pedi-la
em casamento, sempre com evasivas, pretextando tolices, como se
estivesse tratando com uma biraia qualquer! Por que isso? por que
não se decidia logo a dizer a verdade fosse ela qual fosse!
Era sempre melhor do que estar perdendo tempo sem tomar uma resolução
franca e definitiva. Quem sabe? talvez o padrinho não fizesse
questão agora que a tratava tão bem, que lhe fazia
todas as vontades... Uma felizarda, a Lídia!... Casara com
um guarda-livros, mas embora, casara...
E imediatamente vinha-lhe uma confiança ilimitada no estudante.
Já estava tão acostumada com ele que nem era bom pensar
em uma deslealdade. Paciência, paciência - Roma não
se fez em um dia... Consolava-se ao pensar nas confidências
íntimas do futuro bacharel, embebidas de ingênua e
tocante sinceridade, na franqueza altiva com que ele dizia todas
as suas idéias e todas as suas ações, como
se já fossem noivos. Zuza contava-lhe tudo com a maior simplicidade,
dava-lhe conta de seus passeios, de seus planos, de suas intenções.
Pode-se mesmo dizer que não havia segredo entre os dois.
Era lá possível que o Zuza, aquele Zuza tão
amável, tão sincero, tão bom a esquecesse,
ele que reprovava com frases repassadas de indignação
o procedimento de certos indivíduos para quem a mulher outra
coisa não é senão uma espécie de fruto
amargo que a gente prova e deita fora? Qual! O Zuza era incapaz
de descer até onde começa o rebaixamento do caráter
de um homem...
Animava-se ao fazer estas considerações tão
simples, tão espontâneas, saídas do mais íntimo
de sua alma enamorada. Tinha momentos em que tudo afigurava-se-lhe
uma comédia, cujo protagonista - o estudante - aprazia-se
em vê-la rendida a seus pés por um simples capricho
de rapaz do mundo que se diverte à custa de muitas raparigas
como ela, ainda não corrompidas pelos costumes modernos.
Nascida no interior de uma província essencialmente católica,
educada em um colégio religioso, o convívio com as
suas colegas da Escola Normal não lhe apagara de todo essa
bondade característica dos filhos do sertão, que se
revela em uma confiança ingênua nos outros. Por isso
é que ao mesmo tempo Maria não podia acreditar que
o Zuza faltasse à sua palavra para com ela. Duvidava às
vezes, mas não perdia de todo a confiança, porque
amava deveras, e o amor transforma a pessoa ou objeto querido numa
espécie de ídolo, que a gente adora como a um modelo
de virtudes incomparáveis.
Quando chegaria sua vez? E a figura de João da Mata surgia-lhe
aos olhos como uma visão pavorosa, que a fazia estremecer
da cabeça aos pés. Sim, o padrinho não gostava
que se falasse no Zuza, implicava com ele, odiava-o gratuitamente,
sim, gratuitamente, porque o rapaz nunca lhe fizera o menor mal,
até pelo contrário uma vez emprestara-lhe cinqüenta
mil-réis, e ela o sabia pela boca de D. Terezinha. Que infelicidade,
a sua, que caiporismo! além de o padrinho não gostar
do Zuza, aquela casa parecia agora um verdadeiro inferno: era o
padrinho para um lado e a madrinha para outro, ambos de cara fechada,
sem se trocarem palavras, e ela, Maria, para um canto, coitada,
sem amigas, sem parentes, vivendo uma vida de criminosa...
Que maldito inferno!... Antes nunca tivesse nascido.
Onze horas... meia-noite! e ela ainda velava, sem um bocadinho de
sono, a matutar na vida, a pensar em frioleiras.
Entrou a parafusar no casamento da Lídia, rememorando toda
a festa, tintim por tintim, com a pachorra de quem procura armar
um castelo de cartas. - Assim mesmo tinha ido muita gente, sim senhora,
parecia até uma festa de gente rica, inegavelmente a Lídia
estava encantadora debaixo do véu de noiva. Nunca vira a
igreja de N. S. do Patrocínio tão cheia de povo! ah!
mas fora uma coisa horrorosa o escândalo provocado pelo Guedes.
Que horror! Se fosse ela, Maria do Carmo, teria caído no
meio da rua com um ataque...
Palpitavam-lhe na imaginação, como num sonho, os menores
acidentes daquela noite, em que todos tomaram o seu cálice
de vinho e só ela, irresistivelmente mordida de inveja por
ver a sua maior amiga num trono de felicidade, ela somente se deixara
ficar esquecida como qualquer lagalhé, na impotência
da sua tristeza. Entretanto, se não fora o padrinho, ela
também podia breve estar de caminho para a igreja, ao lado
de seu noivo, metendo inveja às outras. Então é
que a festa seria de estrondo! O coronel Souza Nunes abriria o seu
salão iluminado como um palácio real, e haveria dança
e música e um banquete lauto. E iria o presidente da Província
e toda a gente grande do Ceará. Que bom seria!...
Nisto adormeceu e logo tornou-lhe a aparecer em sonho o negro Romão
com as calças arregaçadas, um barril na cabeça,
a gritar - Arre corno! cercado de garotos que lhe atiravam pedras
e sacudiam-lhe punhados de farinha-do-reino na carapinha, por detrás,
no meio de gritos e assobios.
Depois o preto deixou cair o barril, que se derramou, inundando
a calçada de imundícias, e ei-lo montado num cavalo
magro, a fazer de palhaço de circo, uivando uma porção
de asneiras, que a molecagem replicava sempre com o mesmo estribilho,
a uma voz: - É sim sinhô!
Depois... (não se lembrava do resto).
Davam duas horas no relógio do vizinho, quando acordou muito
assustada e nervosa a olhar para todos os lados, sem consciência
exata do ambiente que a cercava. Teve um sobressalto ao ver sobre
uma cadeira, perto da rede, o vestido com que fora ao casamento.
- Credo, que susto!
A luzinha da vela de carnaúba agonizava numa poça
de cera derretida.
E essa! Era a segunda vez que sonhava com o Romão, sem quê
nem pra quê... Com certeza estava para lhe suceder alguma
desgraça. Que esquisitice! Um-um...
A porta do quarto, que se conservara entreaberta, rangeu nas dobradiças,
como se alguém a empurrasse de manso. Apoderou-se de Maria
um pavor terrível; arrepiaram-se-lhe os cabelos, e uma extraordinária
sensação de frio percorreu-lhe o sangue. Ficou assombrada,
sem se mexer, com o ouvido alerta e os olhos fechados, numa prostração
de quem está sem sentidos. Pareceu-lhe ouvir chamar por seu
nome e então subiu de ponto o terror que lhe tapava a boca
como uma mordaça de ferro. Abriu os olhos para verificar
se com efeito estava acordada e tornou a fechá-los mais que
depressa. Instintivamente fez um esforço supremo para gritar,
para chamar alguém, mas não podia abrir a boca, estarrecida.
- Maria! repetiu a mesma voz, que ela julgara ouvir, uma voz fina,
mas abafada, como se saísse das entranhas da terra.
E logo:
- Sou eu, Maria. É o padrinho...
De feito, João da Mata vinha se chegando, pé ante
pé, sutilmente, segurando-se à parede, equilibrando-se
na ponta dos pés, como um ladrão, sem o menor ruído,
com estalinhos de juntas.
Maria encolheu-se toda debaixo do lençol, duvidando. Tremia
como um doente de sezões embiocada que nem caracol.
- Não grites, Maria, olha que sou eu, teu padrinho, tornou
João da Mata agora quase ao ouvido da afilhada, agarrando-se
ao punho da rede.
A rapariga respirou forte, como se saísse de dentro de um
buraco, e pôde abrir os olhos, meio aliviada, presa ainda
de uma grande comoção. Ao medo sucedera-lhe uma apreensão
dolorosa, que o seu espírito repelia como impossível.
Não teve tempo de associar idéias, porque o amanuense
foi-se sentando na rede, a seu lado. - O padrinho por ali, no quarto
dela, àquelas horas?... Estaria sonhando?
- Padrinho...
- Sou eu mesmo, minha flor... Olha, queres saber uma coisa?... Deixa-me
descansar um bocadinho e eu te direi, ouviste?... Espera...
- Mas, padrinho!...
- Olha, não fales alto... Sou eu, estás ouvindo, eu,
teu padrinho mesmo... Bico...
Maria do Carmo não compreendeu logo a presença de
João da Mata ali, no seu quarto, àquela hora.
Fez-se uma confusão inextricável, caótica,
no seu espírito subitamente assaltado por um turbilhão
de idéias sem nexo, disparatadas; o coração
pulsava-lhe forte, como se tivesse acabado de fazer um grande esforço;
operava-se em seu duplo ser moral e físico um desses abalos
extraordinários, que deixam a gente numa prostração
invencível. Pela primeira vez em sua vida achava-se frente
a frente com um homem, alta noite, no silêncio de um quarto
escuro. Mal acordada do terrível pesadelo que acabava de
ter, vendo ainda esboçada na sua imaginação
a figura hedionda do negro com os bugalhos injetados, a boca abrindo-se
num riso nervoso e alvar, o peito à mostra, a venta chata,
ela permanecia imóvel, olhando para o escuro como uma idiota.
A luz tinha-se apagado completamente. Ouvia-se a respiração
asmática da criada no quarto pegado à sala de jantar.
Longe, em algum quintal, ladrava um cão. Ao calor insuportável
sucedia o friozinho bom da madrugada.
João estava em ceroula, nu da cintura para cima. Desde que
chegara da festa do Loureiro não fechara os olhos, a fumar
no seu cachimbo curto, que preferia às vezes aos cigarros
e andava-lhe na cabeça o plano, há muito formado,
de ir ao quarto da afilhada uma noite. Nada mais fácil: da
sala de jantar, onde dormia agora, ao quarto eram dois passos; o
diabo era se a menina abrisse a goela a chamar por gente, isto é
que era o diabo!... Qual! ela não tinha coragem para tanto,
mormente sabendo logo que era ele, o padrinho. - Mãos à
obra, João; nada de pensar em asneiras. Isso a gente inventa
uma história de embalar crianças, diz que a vida é
esta, e... foi um dia uma donzela. Oh! pois ela não é
tua afilhada? Demais, meu besta, já lhe pegaste umas tantas
vezes no bico dos seios, sem que ela reagisse, a Maria, naturalmente
porque sabes encampar a tua autoridade de padrinho. E depois, que
diabo! quem arrisca... Um, dois...
E, com um salto, o amanuense levantou-se, dirigindo-se ao quarto
da rapariga, cosendo-se às paredes, macio, cauteloso, todo
agachado, pisando devagar, no bico dos pés descalços.
A fresca da madrugada arrepiava-lhe o tronco magro e cabeludo.
Ah! como se sentia bem agora, sentado na mesma rede em que ela dormia,
sozinho com ela, adivinhando, no escuro, toda a incomparável
perfeição de suas formas rechonchudinhas de rapariga
nova! O calor brando do corpo dela comunicava-se agora a seu corpo,
infiltrando-lhe no sangue um fluido bom e vigoroso.
Sentia-se forte como um touro, ali, assim a seu lado, ele, um pobre
homem sem força, um magricela sem carnes.
E Maria esperava, numa aflição, o desenlace daquela
trapalhada, que ela não compreendia bem.
Estiveram ambos calados alguns minutos até que o amanuense,
escorregando para o fundo da rede, pousou a mão sobre o ombro
da afilhada, segredando-lhe - se ela estava com frio?
- Frio?... não...
- Pois olha, na sala de jantar faz um frio dos demônios. Por
isso eu vim para junto de ti...
Maria não disse nada.
Então o amanuense começou uma lengalenga, um despropósito
de palavras murmuradas como uma oração, numa voz que
mal se ouvia, inclinado sobre a afilhada, sufocando-a com seu hálito
nauseabundo, roçando-lhe no rosto a ponta da barba.
- Olha, Maria, dizia-lhe, tu não sabes quanto eu abomino
o Zuza... Há muito que estava para te dizer umas certas coisas,
mas era preciso segredo, muito segredo... Agora, que estamos sós,
deixa que te fale com franqueza... Tu amas o rapaz, não é
assim? Não mintas... sei que gostas muito dele, e até
já se fala, na rua, em casamento. Ainda hoje alguém
afirmou-me que vocês se beijam na Escola Normal. Eu sei de
tudo, minha afilhada, eu sei de tudo. Mas, olha bem o que te digo,
tudo depende de ti, só de ti...
Maria estremeceu no fundo da rede, debaixo do lençol, e sentiu-se
irresistivelmente presa às palavras de João da Mata.
Se ele a quisesse deixar, nesse momento, ela não consentiria,
tão viva era a sua curiosidade, agora que o padrinho lhe
falara no Zuza; e o movimento quase imperceptível da rapariga
não passou despercebido a João da Mata.
- Sim, minha cabocla, tudo depende de ti, porque eu também
te quero muito bem e não consentiria nunca nesse casamento,
se... Olha, deixa dizer-te ao ouvido...
E, colando a boca ao ouvido de Maria:
- ...se não fosses boa para teu padrinho.
Pouco a pouco o amanuense ia-se deitando ao lado da rapariga, acotovelando-a,
machucando-a com o seu corpo ossudo, devagar, cautelosamente:
"- Estava bem armada a rede? Era preciso comprar outra, mais
larga, mais rica..."
Um grilo abriu a cantar monotonamente num canto do quarto - testemunha
oculta daquela cena inacreditável.
Entretanto Maria não dava palavra, com as pálpebras
pesadas de sono, respirando a custo, numa espécie de inconsciência
muda, como hipnotizada. Este estado porém durou pouco; espreguiçou-se,
repuxando o lençol para se cobrir melhor; e começou
a achar certo encanto naquela intimidade secreta, ombro a ombro
com o padrinho. Seu instinto de mulher nova acordara agora obscurecendo-lhe
todas as outras faculdades, ao cheiro almiscarado que transudava
dos sovacos de João da Mata. Coisa extraordinária!
aquele fartum de suor e sarro de cachimbo produzia-lhe um efeito
singular nos sentidos, como uma mistura de essências sutis
e deliciosas, desconcertando-lhe as idéias. Uma coisa impelia-a
para o padrinho, sem que ela compreendesse exatamente essa força
oculta e misteriosa.
E quando ele, num tom paternal e amoroso, lhe falou no Zuza, Maria
teve um frêmito bom, como se tivesse caído por terra
o paradeiro que mediava entre ela e o estudante. Tudo dependia dela,
somente dela... Ficou a pensar nestas palavras, sem atinar com o
seu verdadeiro sentido, alheada, os olhos fitos, quase sem pestanejar,
na telha de vidro por onde escoava agora uma claridade tênue
de alvorada.
João respirou, e passando-lhe o braço por trás
do pescoço:
- Então?...
- É quase dia, padrinho, podem nos ver assim...
- E que tem! já nos têm visto tantas vezes? Agora espera,
só me vou se me deres uma boquinha...
E, sem esperar resposta, o amanuense beijou-a na face, apertando-a
contra si, numa impaciência de quem não tem tempo a
perder.
Maria repeliu-o brandamente.
- Juro-te, continuou ele, juro-te que casarás com o Zuza,
mas, por amor de Deus, deixa... ou não contes mais comigo
para coisíssima alguma. Por alma de tua mãe, que está
no céu. Olha, sou eu quem te pede... Ninguém saberá,
o próprio Zuza não poderá saber nunca... É
como se não tivesse havido nada, são segredos que
não aparecem, sabes? Eu te peço...
Tinha-se feito a verdade aos olhos da normalista, como um clarão
que de repente iluminasse todo o quarto, ao mesmo tempo que uma
luta medonha travava-se dentro de si, sem lhe dar tempo a pensar.
Estava justamente em vésperas de ter incômodo. Toda
ela vibrava como uma lâmina de aço ao contato daquele
homem que comunicava-lhe ao corpo um fluido misterioso, transformando-a
numa criatura inconsciente atraída por um poder extraordinário
como o da cobra sobre o rato.
As palavras do padrinho, embebidas de voluptuosidade e ternura,
o nome do Zuza pronunciado naquele instante, e, mais que tudo isso,
a invocação feita à alma de sua mãe,
confundiam-lhe os sentidos, acordando no seu coração
de donzela o que ele tinha de mais delicado. Teve piedade de João,
como se ele fosse na verdade o mais desgraçado de todos os
homens, sentia-o a seu lado, humilde como um ser desprezível
que reconhece a sua baixeza, com uma tremura na voz, rendido, suplicante,
e não teve coragem de o enxotar, de dar-lhe com a mão
na cara e de desaparecer para sempre daquela casa imoral onde ela
vivia tristemente com as doces recordações de seu
passado, como uma flor que vegeta num montão de ruínas.
Ao contrário disto, a visível submissão do
padrinho, doera-lhe nalma como a ponta duma lanceta. Sem o saber,
João da Mata encontrou a afilhada numa dessas extraordinárias
predisposições de corpo e alma, em que, por mais forte
que seja, a mulher não tem forças para resistir às
seduções de um homem astuto e audacioso. Conhecia
suficientemente o gênio de Maria - nada mais, e isto lhe bastava
para que a vitória fosse certa, infalível.
De resto algumas palavras à toa murmuradas à surdina,
o contato morno de um corpo viril... e Maria do Carmo aumentava
o número de suas dores.
A madrugada veio encontrá-la de joelhos, mãos juntas,
duas grandes lágrimas no olhar, como um anjo de sepultura,
defronte da oleografia de Cristo abrindo o coração
à humanidade. Nunca o doce e meigo olhar de Jesus pareceu-lhe
tão doce e meigo.
Era domingo. Cantavam galos de campina nas ateiras do quintal. E
enquanto, lá fora, a cidade acordava e a vida recomeçava
o seu eterno poema de alegrias e dores, Maria procurava no coração
de Jesus um conforto para o seu doloroso arrependimento.