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"Lembranças de Lennon"
Por Marcela Tavares (marcela@ig.com)
As
"Lembranças de Lennon" registradas na entrevista
não são das melhores. Ressentimento, raiva e uma postura
sempre defensiva permeiam as 138 páginas de transcrição.
Ainda assim, é leitura imprescindível para beatlemaníacos
e admiradores em geral.
A entrevista,
concedida ao editor da revista americana Rolling Stone, Jann S.
Wenner, aconteceu em dezembro de 1970, pouco tempo depois da separação
oficial dos Beatles. É, portanto, o primeiro depoimento de
um dos Fab Four após o rompimento.
Em outubro de
2000, Wenner decidiu lançar uma nova edição
da entrevista, que foi publicada em duas partes na revista americana.
A reedição traz trechos que foram suprimidos, segundo
Wenner, por discrição. A ordem das perguntas e as
intervenções de Yoko foram restauradas.
Se hoje - depois
de todas as biografias, estudos, matérias e reportagens sobre
as brigas, os calotes e o fim dos Beatles - a entrevista consegue
chocar acima de tudo por uma ferina sinceridade, suponho que o impacto
em 1971 deva ter sido grandioso.
O mesmo cara
que pregou a paz mundial deitado na cama de sua lua-de-mel em Amsterdã,
um protesto ingênuo e "hippongo", aparece dissipando
a imagem de inocência dos Beatles sem poupar ex-colegas e
amigos de verdadeiros safanões verbais.
Paul McCartney
aparece como ditador, Mick Jagger é "invejoso",
George Martin era um mero "tradutor" para os músicos
de estúdio, John Eastman (irmão de Linda, a mulher
de Paul) é um "WASP judeu".
O fim ainda
recente dos Beatles pode ser uma das causas da agressividade do
depoimento de John. Ele não poupa esforços em macular
a aura de perfeição e harmonia que circulava o conjunto
(ver trechos). Fala de orgias nas turnês, de roubos na Apple,
de disputas de egos, do desprezo da imprensa e de todos por Yoko.
Certas horas
pode-se questionar o estado de consciência de Lennon durante
a entrevista. Ele mesmo diz que há momentos em que "saio
respondendo, e uma parte faz sentido, a outra é bobagem."
Seria desprezo pelo que fazia antes o fato de perguntar ao entrevistador
a ordem dos discos dos Beatles?
Talvez a franqueza
com que Lennon responde às perguntas de Wenner atordoe à
primeira leitura da entrevista. Longe de ser irônico ou sutil,
ele não tem medo de revelar seus sentimentos mais obscuros.
Quase ao fim da entrevista, ele diz que não gostaria de falar
sobre o rompimento dos Beatles "não só porque
me faz mal, mas também porque sempre acaba parecendo que
estou fazendo intriga e atacando todo mundo. E não quero
isso!" Tarde demais.
Em uma apresentação
para a nova edição do livro, Yoko Ono diz que "John
está tentando revidar e não se sai bem. Não
é sutil ou sensato e, como exceção à
regra, nem mesmo particularmente esperto. É uma surpresa
que ainda se mostre doce e bem-humorado, sem tentar ser. Esse é
o John. Tome um gole de sua energia!"
Confesso que
é difícil falar sobre os aspectos do livro, não
por limitação de espaço, mas pela densidade
do texto. O que citei e os trechos selecionados dão apenas
uma idéia do conteúdo do livro. O jeito é ir
até a livraria mais próxima, respirar fundo e tentar
entrar na cabeça de uma das principais personalidades do
século XX.
("Lembranças
de Lennon", editado por Jann Wenner. Editora Conrad. 160 págs.,
R$ 19.80)
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