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Um retrato de João Ubaldo Ribeiro
Por
Marcela Tavares (marcela@ig.com)
Nascido na Ilha
de Itaparica em 23 de janeiro de 1941 e criado em Sergipe, onde
seu pai atuava como importante advogado, João Ubaldo Ribeiro
é um dos mais francos escritores de sua geração.
Formado
em direito e mestre em ciências políticas, já
trabalhou como jornalista e professor universitário. Graças
ao amplo conhecimento de inglês, ele mesmo foi o responsável
pela tradução de duas das suas principais obras para
o idioma de Shakespeare: "Viva o Povo Brasileiro" e "Sargento
Getúlio".
Na década
de 60 era da mesma turma de Gilberto Gil, Maria Bethânia,
Glauber Rocha (que foi seu padrinho de casamento), Caetano Veloso
e Lina Bo Bardi. É no simbólico ano de 1968 que publica
o seu primeiro livro, "Setembro não tem sentido",
apoiado por Glauber e apadrinhado por Jorge Amado.
"Sargento
Getúlio", lançado em 1971, ganhou um Prêmio
Jabuti de "Revelação de Autor". Segundo
Ribeiro, "Este (livro) foi escrito sob fortes dificuldades,
porque eu precisava provar para mim e para os outros que era escritor,
mesmo morando distante de tudo, na Bahia. Minhas contas mais precisas
chegaram à conclusão de que eu escrevi o primeiro
capítulo 17 vezes. Simplesmente eu não consegui avançar.
O livro acabou sendo muito bem recebido pela crítica, mas
não teve nenhuma repercussão pública."
Esta e outras
definições de seus livros os admiradores de João
Ubaldo Ribeiro podem encontrar em seu perfil traçado pelo
jornalista Wilson Coutinho para a série "Perfis do Rio".
Coutinho também idealizou e organizou a coleção.
O livro consegue
apresentar de forma leve e divertida o escritor. Andando pelo Rio,
preparando arroz-de-hauçá ou escrevendo um polêmico
texto para o recém-reeleito Fernando Henrique Cardoso, aos
poucos a personalidade, gostos e desgostos de João Ubaldo
são revelados.
Mesmo morando
no Rio de Janeiro, o autor não dá as costas para a
sua terra natal, que é sempre citada em suas crônicas
(publicadas no carioca O Globo, no baiano A Tarde e no paulistano
O Estado de São Paulo), e cenário de seu mais recente
livro "Miséria e Grandeza do Amor de Benedita".
Talvez por seu
apego à ilha, João Ubaldo tem sérias dificuldades
em se livrar do estigma de, volta e meia, ser enquadrado no papel
de "bom selvagem do Bonfim". Já teve que afirmar
diversas vezes que nada entende de candomblé, e por essa
imagem pré moldada que muitas vezes se irrita com jornalista.
Wilson Coutinho
consegue se livrar desses estereótipos e apresenta lados
pitorescos do escritor, como a sua perfeita personificação
do músico de jazz americano Louis Armstrong, o seu medo de
avião, seus dotes culinários e sua ojeriza por Guimarães
Rosa. Uma ótima leitura.
Cronologia
Setembro não
tem sentido - 1968
Sargento Getúlio - 1971
Vencecavalo e o outro povo - 1974
História Pitorescas - 1977
Vila Real - 1979
Política: quem manda, por que manda, como manda - 1981
Vida e paixão de Pandomar, o cruel - 1983
Viva o povo brasileiro - 1984
Sempre aos domingos - 1988
O sorriso do lagarto - 1989
A vingança de Charles Tiburone - 1990
Um brasileiro em Berlim - 1995
O feitiço da Ilha do Pavão - 1997
Arte e ciência de roubar galinha - 1998
A casa dos Budas ditosos - 1999
O Conselheiro Come - 2000
Miséria e grandeza do amor de Benedita - 2000
("João Ubaldo Ribeiro - Um Estilo da Sedução",
de Wilson Coutinho. Ed. Relume Dumará, R$13.00, 126 págs.)
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