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Saramago não comenta crítica à sua obra

Por Ricardo Besen (ricardobesen@ig.com)


O escritor português José Saramago, prosseguindo sua série de encontros com o público brasileiro, esteve na quarta-feira no teatro do Sesc Pompeia São Paulo, onde o ator Raul Cortez leu um trecho de "A Caverna", livro mais recente do autor português.

Em curta entrevista coletiva antes do início do evento, Saramago disse que o fato de ter ganho o prêmio Nobel não o intimidou na escritura de "A Caverna".

"Há pessoas que têm a idéia de que o livro próximo tem que estar à altura do prêmio que ganharam e que não podem escrever um livro que seja menos bom do que aqueles escritos antes. Admito que isso possa criar uma situação, digamos, de relativo bloqueio, em que o autor se sente obrigado a ser mais do que aquilo que sempre foi até aí. No meu caso, por uma questão de temperamento próprio, como eu não dramatizo nada em relação às coisas que têm a ver com o meu trabalho, fí-lo com a mesma tranqüilidade de espírito como quando tinha escrito todos os outros livros. ( O prêmio) não influiu em nada, nem bloqueou, nem desbloqueou, fí-lo com a mesma naturalidade de antes", disse o escritor.

Perguntado pelo iGLer a respeito de uma crítica à sua obra que considera ser esta muito boa estilisticamente, mas ultrapassada ideologicamente, ele preferiu não comentar: "Eu não comento críticas, como (você) deve calcular".

Sobre a caverna que dá título a sua obra, Saramago foi mais prolífico: "Não acho que vivemos em uma caverna. Nossa forma de viver se assemelha bastante à proposta, digamos assim, que Platão apresenta em "A República", livro 7, uma situação em que as pessoas confundem as sombras com a realidade. Eu creio que estamos muito próximos dessa situação. Quanto à semelhança com cavernas, é preciso levar em conta que no meu livro uma das personagens principais é um centro comercial, ou isso que vocês chamam de shopping center, nunca consegui entender por que dizem em inglês quando poderiam dizê-lo em português, enfim, é uma questão vossa. Realmente, o centro comercial é como uma caverna e normalmente esses centros não têm janela. São uma coisa oca, povoada de cores, luzes e sons, onde as pessoas, tal como a vida está, se estão a refugiar. No fundo, o centro comercial é o lugar onde as pessoas se refugiam. Há 30 anos - ou menos ainda - os espaços públicos eram a praça, o jardim, a rua e hoje já ninguém se reúne nas praças, nem nos jardins e em certas horas da noite, nem pensar nisso. Então esse é o único lugar seguro que as pessoas encontram, pois nem sequer a própria casa é segura, porque a rodeiam de grades e arames farpados e às vezes eletrificados até. Estranhamente, o centro comercial se parece com uma caverna, nada mais. Daqui o leitor tirará suas conclusões."


"Corações Sujos" é o nome do livro que Fernando Morais acaba de lançar. Ele narra a história da Shindo Renmei, organização fundamentalista japonesa no Brasil que não acreditava na derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial

Confira algumas imagens do evento que reuniu José Saramago e Raul Cortez em São Paulo
Leia a resenha de "A Caverna"