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Há
20 anos morria a unanimidade "Nelson Rodrigues"
Por Jefferson
de Lima (jeff@ig.com.br)
A frase do Otto vale mais que todo Machado de Assis: o mineiro
só é solidário no câncer
Vinte e um de dezembro de 1980 foi o dia em que a única
unanimidade do teatro brasileiro - como diz Antunes Filho
- morreu: o crítico das unanimidades Nelson Rodrigues.
Filho da aristocracia decadente do Pernambuco de Manuel Bandeira
e Lins do Rego, o menino, que tinha uma cabeçorra enorme,
trouxe para a suburbana Aldeia Campista, no Rio, a relação
de homem com mulher, de pai com filho, de patrão com empregado,
que aprendeu no universo ainda feudal do Recife.
Contava
com seis anos. Tempo de acrescentar à visão
criada entre os escombros do que um dia foi Casa Grande e Senzala,
o olhar implacável de quem senta na guia de rua para destrinchar
Dostoievski.
Na retina do
menino, o bicheiro mequetrefe, mal ajambrado, virava o Drácula
de Madureira: o carismático e mítico Boca de Ouro.
O atropelado do trânsito equivocado do Rio tinha cara de esposa
de industrial, e com queda para morrer vestida de noiva. O repórter
que joga o verde para colher aspas era em tudo o fabricante de manchetes:
O Beijo no Asfalto foi crime!!!, com três pontos de exclamação
e em oito colunas.
Trágico,
jocoso, melífluo, abjeto, sórdido. Os termos das delícias
do "menino que adorava ver o amor pelo buraco da fechadura"
aos 70 anos, serviram para reconhecê-lo em pêlo aos
33, quando explodiu o Teatro Municipal carioca com Vestido de Noiva.
A seqüência de incestos, suicídios e homicídios
do sucesso seguinte, Álbum de Família, coroou a marca.
O bastante para nos anos 60, o conservadorismo do Recife só
faltar derrubá-lo, a pauladas, como "uma ratazana doente,
trágica, jocosa, melíflua, abjeta e sórdida"
no meio da rua. O teatro daqueles anos tinha Vianinha (Chapetuba
Futebol Clube) e Gianfrancesco Guarnieri (Eles não usam Black-tie)
e o socialismo na rebarba, embalando as possiblidades.
Mas como ensina
até o hit mais cafona: o que tiver que ser será (ui!).
E quando o mundo "deseideologizou", a estética
de Nelson, as frases curtas, o vocativo bem colocado (Oh, nossa
amizade...), o pé no subúrbio do Rio (Coração,
escuta, ouve, olha. O importante é que eu te amo, compreende?)
e o pé em Eurípides, Ésquilo e Sófocles
falou por si.
Com licença
ao responsável pelo "retorno" Antunes Filho, em
1980 morria a única unanimidade na "literatura"
brasileira depois de Machado de Assis. E nascia o texto que mais
influencia a geração 90's.
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