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O grande
massacre de livros e jornais
(Ou,
de forma menos trágica: vai faltar embrulho para o peixe)
Por Ricardo
Besen (ricardobesen@ig.com)
"Quando
jornalistas discutem sua profissão, costumam invocar clichês
contraditórios: 'O jornal de hoje é o primeiro rascunho
da história' e 'Nada é mais morto que o jornal de
ontem'.
Ambos, de
certa forma, estão corretos. As notícias alimentam
a história com fatos, que em sua maioria, no entanto, são
esquecidos.
Suponhamos que os jornais antigos desaparecessem das bibliotecas.
A história sumiria da memória coletiva?
Esse é
o desastre denunciado por Nicholson Baker no livro 'Double Fold:
Libraries and the Assault on Paper' (Dobradura
Dupla: As Bibliotecas e o Ataque ao Papel),
um 'J' accuse' apontado diretamente à profissão de
bibliotecário(a)."
Desta maneira
o historiador Robert Darnton, um estudioso da influência dos
livros na França pré-revolucionária, inicia
sua resenha do livro de Baker, publicada na "The New York Review
of Books", edição de 26 de abril de 2001.
A acusação
de Baker: bibliotecários dos EUA começaram a livrar
suas prateleiras de jornais antigos, a partir do final da década
de 1950, levados por uma obsessão insensata de economizar
espaço.
Eles acharam
que nada havia sido perdido, já que substituíram o
papel pelo microfilme. Estes, no entanto, como verifica-se hoje,
são inadequados, incompletos e freqüentemente ilegíveis.
O massacre de
jornais espalhou-se para os livros, que também foram vendidos,
desmontados e danificados por experimentos destinados a salvá-los.
A constatação
de Baker: centenas de milhares de livros e jornais foram destruídos.
Seu veredito: os guardiães de nossa cultura a estão
destruindo.
Eis os argumentos
de Baker para defender seu ponto de vista:
1.Papel agüenta
bem. O papel produzido no final do século XIX resiste até
hoje e não há razão para que se acredite que
não durará mais 100 anos.
2.O microfilme
não é um substituto adequado para o papel. Ele contém
lacunas devido a falhas no processo de reprodução,
como páginas que faltam, pois foram "puladas" pelos
técnicos, ou reproduzidas fora de foco.
Uma biblioteca
americana livrou-se de toda sua coleção do jornal
"The Philadelphia Inquirer", após microfilmá-lo.
O conjunto custa hoje 621.515 dólares (isso mesmo: seiscentos
e vinte e um mil, quinhentos e quinze dólares).
Anos inteiros
estão faltando nas coleções de importantes
jornais e não há em qualquer parte conjuntos completos
dos originais, já que as bibliotecas se livraram deles.
3.A obsessão
com a falta de espaço nas bibliotecas gerou uma "ideologia"
que "demonizou o velho papel". Durante décadas
jamais questionou-se a destruição dos livros.
Os bibliotecários
não mediram custos para "salvar" seu acervo. Foram
feitos testes mecânicos com máquinas dobradoras de
livros e com substâncias químicas que destruiriam a
acidez do papel, de forma a preservá-lo.
Os testes mecânicos
(o double fold que dá título ao livro) consistem
em fazer o canto de uma página do livro girar um arco de
180 graus para frente e para trás, em relação
a cada lado da página (a figura acima torna mais clara essa
explicação).
Caso após dois ou três giros o papel rasgasse, o livro
seria considerado irrecuperável e programado para microfilmagem,
"antes que fosse tarde". Esses testes submeteram os livros
a esforços aos quais nenhum leitor em pleno gozo de suas
faculdades mentais submeteria.
A química,
por sua vez, apresentou um pequeno efeito colateral: ela explodia
em contato com água e queimava em contato com o ar. Foi abandonada.
A "preservação",
além de cara e desnecessária, significou, ao final
das contas, destruição. Baker estima que foram eliminados
pelas bibliotecas americanas 975 mil livros, no valor de 39 milhões
de dólares. Ele afirma que a perda cultural é inestimável
e pede: "Deixem os livros em paz".
O veredito do
resenhista: a retórica de Baker é exagerada e parcial,
pois sua principal preocupação é encontrar
os vilões da história, mas a maior parte de seu argumento
se sustenta. Eis como Darnton relativiza as conclusões de
Baker:
1.a falta de
espaço continua sendo um problema sério para os bibliotecários.
2.as bibliotecas não estão mais danificando livros
para poder microfilmá-los (o auge da prática ocorreu
na década de 80).
3.o papel às vezes se danifica. Microfilmes preservam ao
menos uma parte do acervo histórico, ainda que não
sejam um substituto adequado para os originais (Darnton explica
adiante o porquê).
4.Baker volta sua indignação para práticas
já abandonadas, com uma notável exceção:
em 1999 a British Library se desfez de toda sua coleção
de jornais americanos impressos após 1850. O próprio
Baker arrecadou fundos e conseguiu comprar uma parte dela.
O leitor é
levado a concluir, diz Darnton, que bibliotecários mal preparados
fizeram um diagnóstico errado de um problema, o que levou
a uma catástrofe de grandes proporções quando
uma informação falsa obteve ampla circulação.
Baker, entretanto,
deixa de colocar algumas questões básicas: O que estava
em jogo em todo esse processo? Mera estupidez? Instituições
relapsas? O apelo de algumas idéias aparentemente brilhantes?
Questões
como essas, afirma Darnton, diferenciam a história do jornalismo
(ao menos o grosso do jornalismo). Baker não as faz; ele
simplesmente aponta os dedos para os supostos culpados, alguns dos
principais bibliotecários e bibliotecas do país, entre
os quais inclui a Biblioteca do Congresso.
Darnton aprofunda
a discussão: será que os bibliotecários podem
também ser condenados por ter destruído a história?
Talvez, se jornais puderem ser realmente considerados como o primeiro
rascunho da história. Mas, observa Darnton, da mesma forma
que os microfilmes não podem ser confundidos com as fontes
originais em papel, a história não pode ser confundida
com suas fontes. A história é um argumento baseado
em provas, e não as provas em si.
Os jornais não
são uma janela transparente para o mundo que perdemos, como
Baker parece pensar. Ainda assim, se tomados como histórias
- histórias de notícias (aqui ficaria melhor a antiga
palavra estória), uma espécie peculiar de narrativa
- eles carregam em seu bojo a maneira como os contemporâneos
construíram os eventos e encontraram significado em meio
à confusão e ao burburinho do mundo ao seu redor.
Pensemos na
primeira página do "The New York Times". O estilo
das estórias (que seja!) e o próprio layout
(desculpe, deputado Aldo Rebelo) da página mudam ao longo
do tempo, sugerindo mudanças sutis na maneira de ver-se o
mundo - nada que possa ser captado com precisão, mas que
serve para dar sustentação aos estudos do passado.
O historiador jamais poderá ter esse entendimento se tiver
que examinar, em vez da primeira página original de um jornal,
uma página microfilmada.
Concluindo,
Darnton afirma que o livro de Baker merece ser lido, ainda que seja
mais um lamúrio jornalístico que um relato equilibrado
da história das bibliotecas nos últimos 50 anos. E
as quatro recomendações de Baker para uma política
de bibliotecas merecem, segundo Darnton, todo o apoio:
1.as bibliotecas
norte-americanas que recebem verbas públicas devem colocar
mensalmente na Internet as listas de livros que pretendem descartar,
de forma que o público saiba quais delas agem responsavelmente
com relação ao seu acervo.
2.a Biblioteca
do Congresso deve construir ou alugar um prédio na região
de Washington. D.C., que abrigue todo o material que ela não
pode ou não quer manter em sua sede. Caso a Biblioteca não
queira cumprir essa função básica de repositório
nacional, o Congresso deve designar um outro arquivo para fazê-lo.
3.bibliotecas
nos EUA devem começar a guardar a produção
contemporânea de jornais em papel.
4.a microfilmagem
deve ser abolida a não ser que (1) toda microfilmagem ou
reprodução digital seja não-destrutiva e (2)
todos os originais sejam salvos.
Quanto às
maravilhosas coleções de jornais que desapareceram
das prateleiras? A grande maioria está irremediavelmente
perdida. Darnton encontra uma moral para a história, uma
correção para a velha máxima jornalística:
não há nada mais morto que o jornal de ontem, exceto
o jornal de ontem destruído.
("Double
Fold: Libraries and the Assault on Paper", de Nicholson
Baker, 288 págs, 21 dólares, Random House)
PS: O Conselho
Nacional de Recursos para Biblioteca e Informação,
sediado em Washington, recentemente recomendou um esforço
nacional, apoiado pelo Congresso Americano, para salvar os originais
de livros e jornais. Suas propostas coincidem com algumas das recomendações
de Baker e representam uma condenação das políticas
que ele repudiou.
Clique aqui
para ler sobre a situação do acervo brasileiro.
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