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Manuel Bandeira: para sempre com a gente!

Por Mário Francisco Spanghero*, especial para o iG Ler (igler@ig.com)

"Ontem, hoje, amanhã: a vida inteira,
teu nome é para nós, Manuel, bandeira.
"
(Carlos Drummond de Andrade)


1. Pasárgada: o refúgio da poesia

Certo dia, pairando no alto do céu do Recife, um anjo sorridente, desses feitos de luz, decidiu alumbrar a Terra e disse:

Vai, Manuel, ser poeta na vida!

E assim veio para cá, no dia 19 de abril de 1886, a dar mais sentido e beleza à nossa existência, MANUEL Carneiro de Sousa BANDEIRA Filho, aquele que em "Libertinagem", livro de 1930, nos ofertaria o mundo aonde todos podemos viajar em nossas horas mais difíceis. Basta pronunciar suas palavras mágicas:

"Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

[...]

E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada.


Esse poema-desabafo é melhor compreendido quando se sabe que Bandeira, aos dezoito anos, adoeceu de tuberculose. Embora bem mais tarde estivesse curado da moléstia, seu corpo ficou para sempre fragilizado e sujeito a dolorosas crises e limitações.

O próprio poeta nos fala do texto, em "Itinerário de Pasárgada", autobiografia poética publicada em 1954:

"... quando eu morava só na minha casa da Rua do Curvelo (RJ), num momento de fundo desânimo, da mais aguda sensação de tudo o que eu não tinha feito na minha vida por motivo da doença, saltou-me de súbito do subconsciente esse grito estapafúrdio: Vou-me embora pra Pasárgada!"

2. Humildade e generosa ternura

Ao contrário de muitos de nós, que o sofrimento torna amargos e rancorosos, Bandeira filtra a dor em seu imenso coração e transforma-a em vida e poesia - sempre inseparáveis - repletas de humilde aceitação, como se lê em "Poema só para Jaime Ovalle":

Quando hoje acordei, ainda fazia escuro
[...]
Chovia uma triste chuva de resignação
Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite.
Então me levantei,
Bebi o café que eu mesmo preparei,
Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando...
- Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei!

A ternura com que olha o próprio tristonho estar-no-mundo, leva Bandeira a acolher-nos, seus parceiros na caminhada humana, sob a mesma "chuva de resignação".

Ou seja, ao invés de egoísmo, suas palavras carregam-se de generosidade e compreensão ao contemplar seus semelhantes. Confira a seguir, num outro comentário do poeta sobre "Pasárgada":

"Gosto desse poema porque vejo nele, em escorço
(= em síntese), toda a minha vida; e também porque parece que nele soube transmitir a tantas outras pessoas a visão e promessa de minha adolescência - essa Pasárgada onde podemos viver pelo sonho o que a vida madrasta não nos quis dar."

E, agora, seu olhar na contemplação solidária dos pequenos seres que sofrem, em "Meninos carvoeiros":

Os meninos carvoeiros
Passam a caminho da cidade.
[...]
Só mesmo estas crianças raquíticas
Vão bem com estes burrinhos descadeirados.
A madrugada ingênua parece feita para eles...
Pequenina, ingênua miséria!
Adoráveis carvoeirinhos que trabalhais como se brincásseis!


3. É tempo de Modernismo

Em "Meninos carvoeiros", Bandeira utiliza um refrão onde registra a fala simples do povo brasileiro:

"Eh, carvoero!"


O uso do coloquialismo, dos versos muitas vezes livres e sem rima, os assuntos e temas do dia-a-dia, tudo vai se juntando com mestria na arte de Bandeira, o que faz dele um poeta fundamental para o surgimento e consolidação do revolucionário movimento modernista em nossa terra, desde 1922.

A espontaneidade com que ele se vai modernizando tem tudo que ver com sua própria vivência, como você pode perceber no fragmento seguinte, do poema "Evocação do Recife", de 1925:

A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil

Essa postura antitradicionalista e deselitizante do poeta mostra-se, contundente, em "Poética":

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
[...]
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
[...]

- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

E confirma-se, sempre implacável, em "Nova Poética":

Sai um sujeito de casa com a roupa de brim branco muito
[bem engomada, e na primeira esquina
[passa um caminhão, salpica-lhe o paletó
[ ou a calça de uma nódoa de lama:
É a vida.

O poema deve ser como a nódoa no brim:
Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero.

4. A infância, a mulher-alumbramento, a mulher-ternura

Fase da vida protegida no aconchego familiar, anos anteriores à doença e à perda dos seres queridos, a infância é tema de numerosos e encantadores poemas de Bandeira. Só mesmo ele, com sua iluminada ingenuidade para escrever "Porquinho-da-Índia":

Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia
[..]
Levava ele pra sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele não gostava;
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas...


- O meu porquinho-da-índia foi a minha primeira namorada.

Ainda na infância, com espanto, mas sempre despido de malícia, Bandeira tem os olhos banhados pelo corpo da mulher:

Um dia eu vi uma moça nuinha no banho
Fiquei parado o coração batendo
Ela se riu
Foi o meu primeiro alumbramento

O mesmo "alumbramento", agora em êxtase elevadíssimo:

Eu vi os céus! Eu vi os céus!
Oh, essa angélica brancura
[...]
Nem uma nuvem de amargura
Vem a alma desassossegar.
E sinto-a bela... e sinto-a pura...
[...]

- Eu vi-a nua... toda nua!

A mulher, sob outro olhar, também comparece em vários poemas envolta numa aura de sublime e infinita doçura, como se lê em "O impossível carinho":

Escuta, eu não quero contar-te o meu desejo
Quero apenas contar-te a minha ternura
Ah se em troca de tanta felicidade que me dás
Eu te pudesse repor
- Eu soubesse repor -
No coração despedaçado
As mais puras alegrias de tua infância!

5. O aprendizado da morte

Em plena juventude, mesmo com a doença eliminada, o estado físico de Bandeira leva um médico a prever-lhe uma vida de incerta (provavelmente curta) duração. Como que para contrariar esse clínico pessimista, Bandeira vive até oitenta e dois anos, quando a dezena do ano natalício inverte-se: nascera em 1886, morre em 1968.

Sorte nossa ele ter tido tantos anos para criar e oferecer-nos sua poesia...
Para ele, entretanto, a vida transcorre sempre marcada pela debilidade física. Resultado: foi existindo acompanhado muito de perto pela morte, o que, lentamente, ensina-o a preparar-se para ela.

Dentre os numerosos poemas em que tematiza seu aprendizado, "Consoada", a seguir, é perfeito no expressar a força interior e a placidez com que encara o advento final:


Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável).
Talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:

- Alô, iniludível!

O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.

6. Poeta menor?!?

Certamente não é muito cortês nem correto criticar um aniversariante, ainda mais tendo sido ele o poeta que presenteou com tanta luz nossa mente, nosso coração, nosso espírito.

Mas é também certo que não podemos aceitar, sem mais nem menos, o que ele diz de si mesmo nos textos a seguir - um, do Itinerário de Pasárgada; outro, chamado "Testamento":

"Tomei consciência de que era um poeta menor; que me estaria para sempre fechado o mundo das grandes abstrações generosas."

Criou-me desde eu menino,
Para arquiteto meu pai.
Foi-se-me um dia a saúde...
Fiz-me arquiteto? Não pude!
Sou poeta menor, perdoai!

Todos sabemos o quanto é sincera e honesta sua humildade, poeta, mas nos permita discordar das palavras acima. Para contrariá-lo, receba de presente o pequeno, porém perfeito poema que segue, de seu grande colega José Paulo Paes:

"Poeta
menormenormenormenor
menormenormenormenor enorme"

(*) Mário Francisco Spanghero é Professor de Literatura no Curso e Colégio Stockler e pós-graduando em Literatura Portuguesa, na USP.

 

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