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Quando a leitura vai de mala a pior

Redação (igler@ig.com)

No bojo da publicação pelo iG do especial "Dia do Mala" o iG Ler saiu a campo para tentar entender o que causa tanta ojeriza a um sem número de estudantes brasileiros: o livro chato ou "mala".

Entrevistamos dois professores de literatura de dois conceituados colégios brasileiros, Carlos Minchillo, do Colégio Bandeirantes, em São Paulo, e José Gomes Filho, do Instituto Social da Bahia, em Salvador.

Procuramos entender por que determinadas obras - a maioria das quais são indicadas como leitura preparatória para o vestibular - são consideradas chatas pelos alunos, descobrir quais são os autores mais "mala" e verificar como os professores enfrentam o problema.

Para começar, o professor Minchillo explica a importância das obras indicadas aos alunos: "De modo superficial e geral, o valor de uma leitura pode estar (a) na importância histórica da obra, o que ela representou em um dado momento da história cultural/política/religiosa; (b) na originalidade ou representatividade da linguagem/da estrutura da obra; (c) no impacto que a obra provoca pelo conjunto de idéias por ela veiculado; (d) na importância (sempre questionável) e na complexidade (sempre demonstrável) que o conteúdo da obra representa do ponto de vista filosófico, religioso, humano, social; enfim, quais as questões que a obra suscita e qual o valor dessas questões."

Na opinião do professor José Gomes Filho, diversos motivos fazem com que os alunos rejeitem as leituras indicadas no ensino médio: "Muitas vezes o aluno ainda não é maduro o suficiente para perceber a ironia em um Machado de Assis, o existencialismo de Sartre em "A Hora da Estrela", de Clarice Lispector. O tamanho, o português de Portugal e as diferenças entre a realidade retratada no livro e a do aluno podem também limitar a leitura".

Carlos Minchillo adiciona que muitas vezes o novo assusta: "Ao menos em parte, é missão da escola conduzir os estudantes até um Machado, até um Proust, até um Saramago".

Indicar livros que os alunos gostem é uma solução? Não para o professor Minchillo, que afirma que não se pode fazer populismo às custas da literatura. "Gosto é algo que se educa e a escola tem um papel nessa tarefa. O primeiro passo é facilitar o acesso," diz. José Gomes concorda: "O professor deve auxiliar o aluno a ler e entender a importância e relevância desses livros".

E os campeões de protestos em sala de aula? "Varia", diz Minchillo. Dentre os apontados pelo professor estão nomes como Eça de Queirós, Oswald de Andrade, Guimarães Rosa e José Lins do Rego. Já os alunos de José Gomes reclamam bastante do estilo introspectivo de Clarice Lispector. "Mas depois de explicar o porquê da importância da autora os alunos começam a admirar a escritora".

Minchillo concorda. Segundo ele, com a ajuda do professor os alunos podem perceber que o trabalho de interpretação pode ser divertido, não por fornecer respostas prontas, mas por levantar debates. "O 'bom', o 'prazeroso' não é uma categoria universal; o 'chato' tampouco."

José Gomes explica que as universidades selecionam certas leituras para o vestibular para que os alunos cheguem à faculdade conscientes da formação social, cultural e étnica brasileiras. "Além disso, os livros indicados pelas faculdades deviam, idealmente, ser lidos ao longo dos três anos do ensino médio, não no último ano, onde se acumulam as revisões," argumenta.

Minchillo aponta que com a aproximação da fase adulta, espera-se que os jovens conheçam um pouco do universo literário considerado relevante pelos estudiosos do ramo. "Mesmo que seja para o adolescente discordar.Mesmo que seja para amanhã o jovem contestar, parodiar, inventar uma nova literatura. Só não vale desprezar sem conhecer," diz.

O professor do Bandeirantes defende que uma das missões da escola é ampliar o universo de referências culturais dos estudantes, sem impor um gosto, mas sim pondo o estudante em contato com obras e conhecimentos que ele não encontra necessariamente em seu cotidiano.

"Para resolver o problema da leitura nos vestibulares, as universidades deveriam indicar livros mais próximos à realidade, ao cotidiano do aluno. Livros mais informativos, quem sabe", diz José Gomes. Os professores baianos se uniram para mostrar às universidades os problemas enfrentados pelos alunos, não só na área literária. Um conselho com professores de segundo grau dos principais colégios de Salvador entregou no final do ano 2000 às duas maiores universidades da cidade, a Universidade Federal da Bahia e a Universidade Católica de Salvador, um relatório com sugestões para o melhor aproveitamento e medição da capacidade dos vestibulandos.


Até mesmo os professores concordam que certos livros não são adequados para seus alunos. Sem citar títulos, Minchillo fala que certos romances que não são do gosto dele algumas vezes até são admirados por alunos."Em qualquer caso, o professor tem uma função: fazer do seu objeto de trabalho a coisa mais interessante do mundo," diz. José Gomes opina que Memorial do Convento, de José Saramago, não devia ser indicado para alunos do ensino médio. "Além de todas as complicações estilísticas e as inúmeras referências filosóficas, os alunos ainda enfrentam as expressões idiomáticas portuguesas", diz o professor baiano.

E se os alunos pudessem escolher os livros? Os dois professores acreditam que alguns alunos trariam sugestões interessantes, mas a maioria tenderia a escolher os livros em voga na mídia. O professor Minchillo defende o lugar dos clássicos nas listas de leituras: "De modo geral, por opção, todo mundo escolhe aquilo que sabe que oferecerá prazer sem grandes sacrifícios." Ele acredita que a maior parte dos alunos preferiria ler revistas, livros, HQ, fanzines, sites e até mesmo jornais. "Tudo é leitura e é lícito que se trabalhem na escola essas outras modalidades de registro escrito," complementa.

Essas leituras forçadas podem diminuir ou mesmo acabar o interesse por livros? Os professores discordam. Minchillo acredita que a obrigatoriedade da leitura não é o que a torna irrelevante ou desinteressante. "O que faz mal é não ter orientação de como aquilo que é difícil pode ser apreendido, de como aquilo que custa esforço pode ser recompensador, de como aquilo que não fazia sentido pode ser altamente significativo," argumenta.

José Gomes é taxativo: "Não existe livro difícil, só livro mal trabalhado". Segundo ele, ler por obrigação e sem um acompanhamento, leituras em classe, trabalhos de grupo e uma boa contextualização nunca traz um bom resultado. "Todo tipo de obstáculo à leitura é superável," acredita.

"Essa é a missão do professor: não apenas ensinar um conteúdo, mas na melhor das hipóteses tentar ensinar o respeito, a paixão por esse conteúdo, fazendo os jovens perceberem a importância de a humanidade ter desenvolvido os conhecimentos e obras que são o foco da sala de aula", emenda Minchillo.

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