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Os lugares e os livros de Hemingway

Alessandra Blanco*, especial para o iG Ler (igler@ig.com)

O mínimo a esperar das festividades de cem anos de nascimento do escritor Ernest Hemingway era o relançamento de sua obra. No Brasil, isso começou a ocorrer um ano depois das comemorações de fato, quando chegaram às lojas uma nova edição de "O Velho e o Mar" e de "Paris É Uma Festa" e o inédito "Verdade ao Amanhecer".

Considerado um dos maiores escritores americanos do século 20, Hemingway sempre carregou um diferencial - seja para o bem ou para o mal - que marcou sua carreira a ponto de ser definitivo sobre a leitura ou não de sua obra:

* Enquanto vivo, tomou parte de todas as guerras de seu tempo em que
seu País esteve envolvido e ainda cobriu outras como jornalista;
* Dedicou-se a caçadas de animais e touradas;
* Teve quatro casamentos;
* Nunca escondeu sua paixão por jogos e corridas de cavalos;
* E ainda cultivou uma reputação como poucos, ligada a bebidas, mulheres e algumas brigas eventuais.

Criou com isso uma fama de machão que fez feministas boicotarem a leitura de seus livros. A julgar pela leitura de "Paris É Uma Festa", entretanto, Hemingway sempre quis apenas viver seus dias da maneira mais prazerosa e escrever da forma mais simples que conseguisse atingir.

Recém-chegado a Paris nos anos 20, ele ansiava por um dia conseguir escrever um romance. Mas ainda não se considerava preparado para isso, por não ter chegado a um consenso sobre um tema de que gostasse o suficiente para levá-lo a escrever páginas e páginas.

Pelo contrário, sofria todas as manhãs para conseguir tirar de sua caneta uma "frase verdadeira" que terminasse em um bom conto. "Levantava-me, punha-me a contemplar os telhados de Paris e pensava: `Não se aborreça. Você sempre escreveu antes e vai escrever agora. Tudo o que tem a fazer é escrever uma frase verdadeira. Escreva a frase mais verdadeira que puder.'" Essa era a receita diária do jovem Hemingway.

O velho Hemingway, de "Verdade ao Amanhecer", já fica aborrecido ao receber em pleno acampamento na África uma correspondência de uma senhora americana que pergunta "por que antes de morrer o senhor não escreve ALGUMA COISA que valha a pena?".

Engraçado os dois livros terem sido lançados assim, um seguido do outro, no Brasil. E é essa mesma a melhor maneira de lê-los. O primeiro, Hemingway escreveu no final de sua vida como uma memória do início dela: os seus "dias de festa em Paris". O segundo, ele não terminou de escrever e nunca quis publicar porque não o considerava à altura dos seus demais livros. Ironicamente, considerava-o simples demais. Após sua morte, indo contra ao seu desejo, seu filho Patrick decidiu editá-lo e levá-lo a público. É realmente um livro mais tosco, mas são sempre os diálogos de Hemingway.

(*) Alessandra Blanco é diretora de conteúdo do portal iG

Confira a resenha de "Paris é uma Festa", de Ernest Hemingway
   
  Leia a resenha de "Verdade ao Amanhecer", de Ernest Hemingway
   
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