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Língua grega democrática

Por Alexandra Moraes (igler@ig.com)

Pouco se fala, fora da "academia", sobre a didática do Grego no Brasil. Houve uma grande surpresa quando, em 1969, "a reforma curricular do curso de Letras introduziu as matérias optativas. (...) Viu-se então que o interesse pela Antigüidade Clássica, pela Literatura Grega e pela Língua Grega era grande, e o número de interessados foi crescendo", segundo o professor Henrique Murachco.

Para atender à expansão da demanda e, ao mesmo tempo, não desrespeitar as dificuldades dos alunos, havia poucas alternativas. "Todas as gramáticas são descritivas, historicistas, formalistas, prescritivas", diz o professor.

Um dos caminhos para a solução da formalidade, rigidez e excesso de teorização com que se trata o Grego (e as demais línguas) foi desenvolver um método que não fosse apenas uma reprodução de conceitos gramaticais tradicionais, mas um elo que permitisse a interação entre o aluno e a língua.

Lançado em meados de março deste ano, "Língua Grega - Visão Semântica, Lógica, Orgânica e Funcional", de Murachco, é o resultado de quase quarenta anos de docência de Grego Clássico.

É resultado, portanto, de um contato direto com os alunos e com suas dificuldades que permitiu a criação de um método que privilegiasse o aprendizado -e não a gramática, como de hábito.

A obra é dividida em dois volumes, um de teoria e um de prática, para que o aluno possa, como frisa o professor, "aprender grego com a mão", pois, segundo ele, só ao fazer os exercícios o estudante de Grego poderá entender, aprender e, conseqüentemente, enxergar seu progresso, tendo assim mais ânimo para continuar os estudos.

Murachco, cujo método já recebeu inclusive o epíteto de "antigramática", recomenda, a partir da sua experiência na sala de aula, que o aluno não se prenda a modelos, tabelas e à "decoreba" da gramática normativa, mas que, através do contato direto com a língua, seja desenvolvida com ela uma familiaridade e, desta maneira, se possa entendê-la.

Como é explicado na introdução do método, "a raiz - desenvolve o verbo , [que] significa em primeiro lugar "eu entendo", e daí, naturalmente, o significado se ampliou para "eu aprendo". Aprender, então, pressupõe necessariamente entender".

Para tal, a teoria é explicada não apenas a partir de conceitos tradicionais, mas buscando sempre a origem desses conceitos, muitas vezes perdida no tempo e destituída de seu caráter original, o que dificulta o aprendizado. A prática, por sua vez, é a tradução de textos de autores clássicos gregos, sem a reprodução de um Grego artificial, "para didática".

O contato direto com a língua "como ela é" possibilita que o aluno crie desde o início um vínculo mais aprofundado, verdadeiro e pragmático com o idioma, que, no caso específico do Grego, tem como utilidades primordiais (e praticamente únicas) a leitura e a tradução.

Além de ser resultado de seus anos como professor, "Língua Grega" foi também a tese de doutoramento de Murachco, em 1998. Nascido em São Paulo, em 1930, Henrique Murachco formou-se em Letras Clássicas pela então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP em 1957.

Foi para a Universidade de Montpellier, na França, dois anos depois, por iniciativa do professor Robert Aubreton, e lá obteve o Diplôme d'Études Supérieures, com uma dissertação sobre Grégoire de Nazianze: Discours funèbre pour son père.

Em 1963, foi nomeado professor assistente na Cadeira de Grego da USP. Murachco, aposentado compulsoriamente desde o ano passado, continua lecionando na USP e nos minicursos de língua grega promovidos pela SBEC (Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos).

("Lingua Grega, 2v. Visão Semântica, Lógica, Orgânica e Funcional", de Henrique Murachco, 1634 págs. , 100 reais, Editora Vozes)

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