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A Indústria
do Holocausto
Por Ricardo Besen (ricardobesen@ig.com)
O
historiador norte-americano Norman Finkelstein afirma sem meias
palavras, no livro "A Indústria do Holocausto",
que o holocausto foi transformado pela elite judaica americana em
uma indústria, um instrumento para a realização
de seus interesses políticos e econômicos.
Esse repórter
pensou em começar a leitura munido de luvas, tal a má
fama da obra. O livro teve pouquíssimas resenhas nos Estados
Unidos e os principais jornais americanos, "The New York Times"
e "Washington Post", massacraram-no.
No entanto,
apesar de discordar em vários pontos importantes das idéias
do autor, é necessário reconhecer que muitas das questões
presentes na obra devem ser mais abertamente discutidas.
A principal
acusação de Finkelstein é relacionada ao uso
- por parte das principais organizações judaicas norte-americanas-
do drama das vítimas do holocausto, para extorquir dinheiro
de empresas e do governo alemão, bem como dos bancos suíços,
onde estaria depositada grande soma de dinheiro das vítimas.
Finkelstein,
judeu e filho de sobreviventes de campos de concentração,
parte de premissas bastante polêmicas e, para muitos, inaceitáveis:
1)O holocausto
não é um acontecimento único na história
da humanidade.
2)O interesse
pelo estudo do holocausto só surgiu nos EUA após a
vitória de Israel na Guerra dos Seis Dias em 1967, quando
o país passou a ser um aliado estratégico dos EUA
na região. Só a partir daí a elite judaica
americana teria começado a estreitar laços com o país,
o que antes evitava por medo de ter que manifestar uma dupla lealdade.
Ou seja, tanto o apoio a Israel como a lembrança do holocausto
obedeceriam unicamente aos interesses políticos atuais dessa
elite.
3)O holocausto
passou a ser utilizado como argumento último e irrefutável
que permitiria a Israel justificar ações militares
contra os países árabes e os palestinos e, ao mesmo
tempo, como estratégia para desmoralizar qualquer crítica
aos judeus, que é imediatamente vista como manifestação
de anti-semitismo.
O grande problema
do livro é que nenhuma das três premissas acima é
bem trabalhada por Finkelstein, principalmente a primeira, o que
dá campo à crítica de que teria escrito o livro
como vingança pessoal contra as organizações
judaicas americanas, pelas dificuldades que sua mãe teve
para receber sua indenização de guerra.
O tema da singularidade
do holocausto foi trabalhado por filósofos e historiadores
alemães que nunca tiveram motivações políticas,
como Theodor Adorno, o qual afirmou que, após Auschwitz,
a poesia não seria mais possível.
Finkelstein, que discute o tema da singularidade de forma brevíssima,
passa a usar sua conclusão para jogar com os números
propostos pelas organizações judaicas para as vítimas
que devem receber indenização: se o holocausto foi
realmente um evento único na história, como é
possível que haja tantos sobreviventes, que inflacionam o
cálculo das indenizações?
Quanto à
segunda, ele se baseia em argumentos de Peter Novick, autor do livro
"The Holocaust", para chegar a conclusões opostas.
Novick propõe que a vitória de Israel em 1967 acabou
com o estereótipo dos judeus como vítimas fracas e
passivas, permitindo que o holocausto emergisse a partir de então
na vida americana. O tema merece discussão, mas Finkelstein
trata-o também em poucas páginas.
A terceira premissa
não é de autoria de Finkelstein, mas poderia ser fundamentada
se ele utilizasse exemplos concretos para embasar o que afirma e
isso ele não faz. Fica apenas na afirmação
genérica. Ele poderia também fazer referência
ao discurso feito em 1998 por um dos maiores escritores alemães
vivos, Martin Walser, que causou grande polêmica na Alemanha
e que trata da "instrumentalização" do holocausto
(clique aqui para ler a esse respeito).
Entretanto,
ainda que as posições de Finkelstein sejam muito discutíveis,
o fato é que quando ele se refere aos números que
foram apresentados para a indenização das vítimas
do nazismo, a argumentação fica mais convincente.
Se os seus números estão errados, por que não
são rebatidos?
Por exemplo:
ele cita cálculos do governo americano, publicados em 1999,
que estimaram um número máximo de 18 mil trabalhadores
escravos judeus sob o nazismo que ainda estariam vivos. Nas negociações
com a Alemanha, no entanto, foi exigida indenização
para 135 mil.
Finkelstein afirma também que o valor da indenização
a ser paga pelos bancos suíços é bem maior
que aquele que os bancos inicialmente propunham, mas muito menor
que o valor exigido pelo Congresso Judaico Mundial.
O tema certamente
é complexo e o livro curto demais. Ainda assim, quem se interessa
pelo tema deve lê-lo.
Confira na entrevista
como Finkelstein responde às críticas feitas aqui.
Leia também a opinião dos historiadores Raul
Hilberg e Maria Luiza Tucci Carneiro,
especialistas no tema, e que têm visões bastante divergentes
sobre a obra. A polêmica, como se vê, está longe
do fim.
("A Indústria
do Holocausto", de Norman Finkelstein, 160 págs., 20
reais, Ed. Record). Compre aqui
este livro.
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