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A leitura
na idade do texto eletrônico
Por Ricardo Besen (ricardobesen@ig.com)
Em
brilhante conferência proferida para uma surpreendente sala
cheia na Bienal do Livro no Rio de Janeiro, o historiador francês
Roger Chartier falou com elegância e clareza (em espanhol)
sobre passado e futuro do livro e das línguas.
Chartier, um
especialista em história da leitura, do livro e da escrita,
começa refletindo sobre as línguas na idade do texto
eletrônico.
Ele cita
fartamente fábulas de J. L. Borges para mostrar que a busca
de uma língua universal é absurda, dada a diversidade
do mundo, e que acabar com a multiplicidade seria algo inquietante.
Uma só língua representaria a perda da história,
das identidades, das diferenças.
Chartier faz
essa pequena introdução para entrar efetivamente no
tema: Borges ajuda-nos a entender a cada vez maior comunidade eletrônica
e sua língua-mundo, o inglês, que é a língua
dominante na Internet e na comunicação de cunho científico.
Essa situação
reflete também o poder das empresas multimídia dos
EUA e pode, segundo ele, levar à destruição
da diversidade.
O surgimento
do texto eletrônico reintroduz algo das línguas formais,
de caráter simbólico, que já haviam sido pensadas
pelo filósofo francês Condorcet no século XVIII.
Condorcet pensou em uma língua de signos, de métodos
que permitissem captar a relação entre os objetos
e as operações do conhecimento.
Podese
dizer que os ícones que abundam em nossos PCs criam um novo
idioma formal, que transportam registros de alegria (uma carinha
redonda sorrindo), tristeza, raiva, etc. Essa linguagem pictográfica
permite comunicar o universo dos sentimentos, o sentido do discurso.
Chartier não
demora em mostrar o outro lado: o inglês-eletrônico
é uma espécie de língua nova, de léxico
reduzido, cheia de abreviaturas (Exemplo: C U = See you). A matriz
é de uma linguagem já existente, mas essa nova língua
tem convenções originais.
O historiador
nota que nos EUA somente 8% dos universitários estudam uma
língua estrangeira, mas ressalta que o número de usuários
de outras línguas está crescendo, ainda que a distância
seja grande (48% do conteúdo da Internet está em inglês).
Ele refere-se
a Umberto Eco e sua idéia de um poliglotismo moderno, que
permitiria algum entendimento de outras línguas - ainda que
sem um domínio completo -, o que evitaria a ditadura de uma
só língua. Chartier observa que na Europa e na América
Latina aprendem-se outras línguas.
<b>O livro</b>
Chartier lembra
que a desconfiança frente à multiplicação
dos livros é mais antiga que pensamos. Após o advento
da imprensa já havia quem dissesse que um grande número
de livros traria mais confusão que saber, e que a multiplicação
dos livros não produziu novos gênios.
Que dizer hoje,
quando a multiplicação do texto eletrônico é
incomparavelmente maior que a trazida pelo surgimento da imprensa?
Chartier detecta três tipos de ruptura, que descrevemos a
seguir.
1)Livros, revistas,
jornais, cada um destes suportes possui seu caráter específico.
Ele acrescenta: em toda a sua história o livro sofreu mutações,
mas foi sempre um objeto material e intelectual, que possuía
em si uma unidade.
Isso muda com
o texto eletrônico: no PC, diversas classes de texto são
lidas em um mesmo suporte. Não há mais uma distinção
de uma obra como obra. A leitura passa a ser descontínua,
não se percebe a coerência da totalidade textual.
Todas as entidades
textuais viram bancos de dados, fragmentos, o que não permite
a compreensão de uma obra em sua identidade singular. Isso
já ocorria com a reprodução de fotocópias,
mas com o texto eletrônico a tendência se multiplica.
O leitor contemporâneo
fica assim obrigado a abandonar suas heranças, pois o texto
eletrônico revoluciona as percepções e as estruturas
de suporte da cultura escrita.
2)Com o texto
eletrônico o leitor pode consultar não só textos,
mas também imagens e sons. Pode também ter acesso
aos documentos utilizados pelos pesquisadores, o que muda a técnica
tradicional da prova nos textos científicos, com seu uso
de notas, citações, referências.
3)A questão
do copyright, do direito autoral, é bastante afetada. O texto
passa a ser móvel, o leitor pode intervir, recortar, etc.
O nome do autor pode ser apagado e substituído por uma escrita
coletiva.
Em suma: o texto
eletrônico é instável, enquanto que os textos
tradicionais sempre foram obras singulares, desde o século
XVIII.
Chartier afirma
que a proteção e remuneração dos autores
pede reorganização. Ele considera que essa situação
levará a dois tipos de textos: de um lado, publicações
que oferecem textos abertos, para leitura na tela; de outro lado,
o e-book, de acesso restrito, editado, e que não permite
a cópia.
Comentando as
rupturas acima mencionadas, o historiador afirma que no deslocamento
da forma impressa para a eletrônica haverá uma perda
da continuidade material das publicações impressas.
Um exemplo:
um artigo em uma revista. Na revista o sentido se constrói
em relação aos outros textos, há uma intenção
editorial. Já o texto eletrônico está solto,
dentro de uma classificação temática hierarquizada
na Web, a qual se presta bem para enciclopédias, pois disponibiliza
ao leitor textos sem necessidade de contexto.
Chartier cita
a polêmica aberta pelo livro "Double
Fold: Libraries and the Assault on Paper" (Dobradura Dupla:
As Bibliotecas e o Ataque ao Papel) para afirmar que é contra
a destruição de originais impressos, mesmo que estejam
supostamente salvos em outros suportes, como o microfilme. Ele afirma
que os originais devem ser mantidos, pois o leitor deve ter acesso
aos textos como foram impressos.
Concluindo,
ele pergunta: qual será o futuro do livro?
Para Chartier
o texto eletrônico muda a relação do leitor
com a escrita. A leitura descontínua parece perturbadora
para textos que exigem atenção, percepção
e que são criações originais.
O texto eletrônico
superará a tendência à fragmentação?
Ninguém sabe a resposta, diz ele, mas o
fato é que a estamos construindo a cada dia.
PS: Este fragmentado texto eletrônico, escrito logo após
a conferência, mostra palidamente as idéias de Chartier. Mas
nem tudo está perdido: o texto completo da conferência será brevemente
publicado em livro (impresso) pela Editora Unesp.
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