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"Shakespeare
- Uma vida"
Por Marcelo
Cid (igler@ig.com)
Se
cada época tem a biografia de Shakespeare que merece, a nossa
não deve ser muito lamentável, já que mereceu
essa escrita por Park Honan. Por outro lado, é natural que
a 'shakespereologia' (digamos assim) avance com as novas descobertas
e com as contribuições mais recentes da História,
da Lingüística e até da informática (como
no caso da estatística textual das peças, que pode
revelar, por exemplo, que papéis Shakespeare desempenhou
como ator).
Ou, nas palavras do próprio Honan: "O retrato coletivo
que criamos da vida do poeta sem dúvida se aprimora quando
muitas pessoas o testam, o criticam, o discutem ou contribuem para
a sua formação, e quando não nos deixamos levar
pela ilusão de que algum dia ele estará completo"
(pp. 503-504).
O fato é
que não sabemos muito sobre Shakespeare - ou melhor, até
que sabemos demais, para uma pessoa de sua época e principalmente
de sua condição. E o que Honan vem nos revelar, reunindo
contribuições de diversas áreas e épocas,
às quais ajunta suas próprias preciosas reflexões
e interpretações, é nada menos que o mundo
de Shakespeare, as relações sociais e familiares nas
quais se inscrevia um homem de gênio dedicado de corpo e alma
ao seu grupo - uma trupe de teatro.
Nesse quadro
amplo, o fato mais obscuro da biografia de William Shakespeare é
sua transformação em ator - guardadas as proporções,
seria como se hoje em dia o filho de um micro-empresário
resolvesse seguir o circo que passou por sua cidadezinha. O demais
em sua vida seguiu um curso natural e nada impressionante aos contemporâneos
de Shakespeare, muito menos a ele mesmo.
Como o filho
de um mestre luveiro, um rapazote bem educado, que teria um futuro
estável na comunidade de Stratford, ou talvez numa carreira
burocrática ou religiosa, deixou sua família para
ser aprendiz de uma companhia teatral de Londres - profissão
incerta e de baixo status, mas que fez dele um homem próspero
- eis o que não podemos (ainda) responder.
Uma tradição
posterior diz que Shakespeare por um tempo, antes de ser ator, foi
mestre-escola (professor primário) não- licenciado,
a serviço de algum rico empregador longe de casa, e que nessa
condição foi fisgado pela tentação do
palco. Isso tudo Honan ilumina, com dados, boas suposições
e reservas coerentes.
Mostrando como
funcionava uma escola como aquela em que o jovem William Shakespeare
aprendeu seu latim, Honan também nos faz agradáveis
revelações, como apontar na cartilha do menino passagens
que ele (talvez inconscientemente) reproduziria em suas peças.
Ou quando diz: "Até onde a escola pôde influenciá-lo,
William foi educado para ser um imitador e um assimilador - não
um homem criativo" (p. 81) - o que sabe quem já
pôde estudar as fontes utilizadas pelo dramaturgo, que raramente
criava enredos do nada, preferindo (como usual à época)
trabalhar sobre peças ou livros já conhecidos.
O casamento
e a paternidade precoces de Shakespeare, suas novas responsabilidades
e inquietude, Honan historia isso tudo com base não só
em fatos e documentos, como também - felizmente- nos textos
do próprio dramaturgo, e os ecos que encontra nas peças
e poemas são coerentes e mais que isso, emocionantes, algumas
vezes. Honan derruba vários mitos, mas revela que a realidade
é ainda mais impressionante.
"E não há por que presumir que Shakespeare,
ao sair de casa, imaginasse que a sua única chance de sucesso
estaria no teatro. Ele logo ficaria de olho em formas de ajuda diferentes
das que existiam entre atores e patronos, a julgar pelo teor cortês
de seus primeiros escritos. Poderia tirar partido de uma recomendação
feliz que alguém fizesse dele a um nobre rico, e é
improvável que não tivesse esperanças de algum
outro futuro que não o de um ator" (p. 133).
Em resumo, Shakespeare nunca se viu como um 'homem de letras': quando
'achou o seu lugar' - e era o de sócio, ator e roteirista
de um grupo teatral - envolveu-se nele inteiramente. Seu grupo tinha
coesão e lealdade fortes, e os colegas respeitaram em Shakespeare
sua agilidade e vivacidade (era o 'pau pra toda obra' da companhia),
sua presteza no colaborar, sua abertura para dar e receber palpites,
sua dedicação a escrever peças viáveis
- só o que lhes interessava era que a casa estivesse cheia,
e a Shakespeare também, como sócio.
Nem o próprio nem seus pares viam, digamos, Hamlet e Otelo
como obras de arte imortal, mas sim como sucessos de público,
peças das quais eram muito ciumentos.
Honan, desse
modo, coloca em perspectiva, contextualiza, por assim dizer, um
dos maiores artistas de todos os tempos, para nos lembrar que seria
um erro considerar tão boa a primeira peça quanto
a última de Shakespeare - na verdade, é bem possível
que a primeira peça de Shakespeare nem tenha sido encenada,
por ter sido considerada muito fraca pelos atores da companhia (peça
que, por isso mesmo, não chegou até nós).
E o contexto revela muito do homem William Shakespeare, também.
Honan nos apresenta fatos interessantes: à época de
Shakespeare, Londres tinha menos de 200 mil habitantes e mais de
cem bordéis (seus colegas atores o freqüentavam, mas
Shakespeare geralmente pretextava uma dor de dente para não
ir); aprendemos também sobre as disputas religiosas da época,
e como o dramaturgo as via; sobre o variado público dos teatros;
a voraz necessidade de textos novos (um a cada dois dias, em média)
para o palco; a disputa entre 'verdadeiros' literatos (vindos das
universidades) e esses dramaturgos, e tanto mais.
Desse tanto
mais é muito interessante descobrir em que ambiente vivia
Shakespeare, que tipos eram seus colegas e sócios: "As
brigas nos bastidores eram notórias. Os atores da trupe de
Shakespeare não eram particularmente perigosos, mas casos
extremos provavelmente sugerem um traço subjacente de comportamento.
John Heminges casara-se com uma viúva de dezesseis anos cujo
falecido marido, um ator, fora assassinado por outro ator. O ator
mais tarde assassinado por Ben Jonson havia, ele próprio,
matado um homem. Robert Dawes foi morto por um colega ator. John
Singer, que na época estava trabalhando como 'cobrador',
matou um espectador que protestou contra o preço do ingresso"
(p. 257). Shakespeare chegou a ser um 'líder conservador'
desses homens e meninos (os meninos faziam os papéis femininos).
Outro modo de
iluminar a grandeza de Shakespeare é aprender mais sobre
a linguagem que usava ou que inventava. Por exemplo, 'will' era
também uma gíria para 'vagina', de modo que, ao se
referir à 'large will' de uma dama, no Soneto 135, o poeta
não está se referindo exatamente (ou apenas) à
'larga vontade' dessa mulher.
Os sonetos, aliás, são um capítulo à
parte: há séculos vêm causando maravilhamento
e espanto, não só por sua beleza, mas também
porque parecem aludir a uma complicada história de amor,
até mesmo homossexual. Honan, porém, com todas as
reservas ("Os Sonetos são por demais paradoxais e diversificados
para que possamos rotulá-los"), lembra que fazer 'sonetos
misteriosos' era moda à época.
As interpretações
das tragédias propostas por Honan, particularmente de Hamlet
e Otelo, são excelentes, explicam muito, deixando ainda todo
o espaço necessário ao inexplicável, ao milagre
que representam na história universal da dramaturgia. Enfim,
"Shakespeare - Uma Vida" é leitura fascinante,
que torna mais claros os contornos da grandeza do bardo de Stratford.
("Shakespeare-Uma
Vida", de Park Honan, 560 págs., 44 reais, Companhia
das Letras)
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