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Remembranças
da poesia e da arte de João Guimarães Rosa
Por Simone Montoto* (igler@ig.com)
A
busca pelos processos de criação presentes e constitutivos
do universo dos escritores tem mobilizado grande parte dos críticos
desde a segunda metade do século XX, sobretudo, após
preciosas e elucidativas publicações de pesquisadores
pertencentes ao estudo da crítica genética.
Como num passo
perfeito, sedutor e defensivamente ofensivo de um casal ao som do
tango, essa preocupação também atinge os escritores,
na direção oposta e composta. Os pesquisadores buscam
as origens, a gênese, a (de) composição do momento
criador; os escritores empenham-se numa velocidade freneticamente
distinta, na destruição de seus "originais",
com medo de, como disse em diversas ocasiões, o escritor
colombiano Gabriel García Márquez e o poeta Carlos
Drummond de Andrade, que suas obras valham menos que seus manuscritos.
Esse aparente
paradoxo de avanços e de recuos parece só encontrar
o equilíbrio diante da apaixonada batuta empunhada por um
terceiro e decisivo personagem: o leitor. É na fragmentação
do seu olhar que todas as possibilidades ganham corpo: um corpo
de baile. Porque somos todos leitores: críticos e escritores
e fazemos de cada texto literário uma "remembrança"
de tempos não vividos e nostálgicos. E porque no processo
criador não há inspiração, mas trabalho:
e duro. Para cada dez linhas, outras trinta são escritas
sob forma de correções. Palimpsesto sobre palimpsesto,
pensamento (trans) cruzado e tecido sobre pensamento. Eis do que
é feita a Literatura e das boas. Eis do que é feito
João Guimarães Rosa: não de sangue, ossos e
outras substâncias perecíveis, mas de poesia, muita
poesia vertida nas palavras e nas imagens de um universo em constante
transformação.
A fortuna crítica
de Guimarães Rosa é uma das mais vastas e fecundas
de toda a Literatura Brasileira, abarcando quase todas as áreas
do conhecimento, tais como a Teologia, a História e a Antropologia.
Mas ainda restam lacunas a serem preenchidas no estudo roseano e
a crítica genética vem responder e preencher alguns
destes hiatos. Esta é a linha do acurado trabalho de pós-doutorado
da Profa. Dra. Maria Célia Leonel, intitulado: Guimarães
Rosa: Magma e gênese da obra (Ed. Unesp, 1999).
Dividido em
três capítulos, o livro destina-se a acompanhar o processo
criador de e em João Guimarães Rosa, partindo dos
manuscritos originais (duas versões são analisadas)
e da edição publicada em 1997, de seu livro de poesia,
Magma. Este livro foi ganhador em 1937 do concurso literário
criado pela Academia Brasileira de Letras, com o autor assinado
sob o pseudônimo Viator.
Os capítulos
encontram-se assim conformados: no primeiro podem ser observadas
proposições de natureza teórica, abordando
conceitos como "transtextualidade", "auto-intertextualidade"
e "intratextualidade", bem como a descrição
dos manuscritos, a publicação pela Nova Fronteira
e o surgimento de Magma e a relação conflituosa do
escritor com o livro. Utiliza-se amplamente dos estudos de Gérard
Genette, Roman Jakobson, Laurent Jenny e Graciela Reyes.
As características
gerais dos poemas, no tocante à forma e à expressão,
passando pelos principais temas da obra roseana (natureza, amor,
manifestações e temas populares e questões
filosóficas) são discutidos de maneira clara e com
um profundo conhecimento do objeto em questão, colocando
nas mãos do leitor mesmo que leigo, todo o universo de construção
e de maturação de um escritor, pois como a autora
mesma cita (referindo-se à uma entrevista de Gabriel García
Márquez), "como os papagaios, os literatos não
aprendem a falar depois de velhos".
Encerrando o
estudo (mas ao mesmo tempo abrindo-se e abrindo seu estudo para
outras e novas perspectivas vindouras, pois Rosa é infindo),
Maria Célia analisa a intertextualidade e a intratextualidade
na obra de Guimarães Rosa, por meio de relações
estabelecidas e tecidas entre Magma e alguns de seus contos posteriores,
tais como: "Sarapalha", "O burrinho pedrês",
"Reza Brava", "A hora e a vez de Augusto Matraga"
e "Maleita".
A autora justifica
a escolha do objeto (Magma) e da abordagem propostos uma vez que
"...trata-se de material em estágio de criação
bastante avançado; o fato de ser poesia é um ponto
a mais no interesse por esse objeto e (...), a data, pelo menos
do seu surgimento é conhecida, o que nos dá a garantia
de trabalharmos com textos que se colocam entre os primeiros de
Guimarães Rosa". Ainda que aponte de maneira constante
e incisiva que a poesia de Rosa não está nos poemas
e sim na prosa, Maria Célia diz que estes poemas "...deram
sementes para frutos de pequeno porte com sabor concentrado (...)
como em Primeiras Estórias e páginas de Tutaméia.
E de tamanho maior, desdobrando-se em cachos maduros de pura polpa
poética, como em Corpo de Baile e Grande Sertão: Veredas".
Este "esboço"
poético para uma prosa tecida a plenos pulmões de
(im) pura poesia aparece aos olhos do leitor apaixonado por Rosa,
do crítico, que leitor, também apaixonado por Rosa
(pois não há, e mentem os que dizem o contrário,
crítica sem paixão pelo objeto, mesmo que seja uma
crítica pouco favorável, uma vez que como mostrou
o poeta espanhol Antonio Machado, "a blasfêmia é
uma outra forma de oração") e do escritor. Sobre
tudo do escritor, pois creio que João Guimarães Rosa
foi o primeiro a perceber, apresentar e representar em Magma, sua
poesia em construção constante: magma é qualquer
substância pastosa e viscosa, como a lava e o vidro derretido.
Ele sabia que não era um produto acabado, mas uma massa,
que moldada ao longo do tempo, tornar-se-ia cristal da mais fecunda
rara poesia: a prosa de Rosa.
("Guimarães Rosa: Magma e Gênese da Obra",
de Maria Célia Leonel. Editora Unesp, 284 págs, R$
25.00)
*Simone Montoto é professora do depto de Letras das Faculdades
Teresa D`Ávila, em Lorena
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