|
 
A Invenção
da Pornografia
Por: Alexei Preto Rodrigues (igler@ig.com)
"Se
foi inventada, a pornografia tem história". Este é
o emblemático caráter que atribui João Angelo
Oliva Neto a esta forma de expressão tão contestada.
Longe de preconceitos, atributos ou qualquer juízo de valor,
a pornografia definitivamente possui um retrospecto. E é
o que Lynn Hunt (organizadora do trabalho) neste "A Invenção
da Pornografia" demonstra.
O livro é
uma seleção dos ensaios apresentados por ocasião
do seminário "A Invenção da Pornografia",
promovido por The School of Arts and Sciences e por Annenberg Fund
do Departamento de História da Universidade da Pennsylvania,
em outubro de 1991. E se divide em quatro tomos: a Introdução,
a Parte Um (denominada O Sentido Político e Cultural mais
Antigo), a Parte Dois (chamada A Qualidade Filosófica e Formal)
e a Parte Três (intitulada As Perspectivas do Século
XVIII).
Tal menção
ao plano de abordagem da obra não é inoportuna: Demonstra
unicamente a seriedade e o cuidado no desenvolvimento do tema e
sua preocupação filosófica, cultural e social.
A pornografia não é tratada como algo jocoso ou pueril.
Acertadamente, esta manifestação é colocada
diante de todas as transformações vividas pela humanidade
nos último três séculos. E relevada em seu papel
(muito contestado) de democratização da cultura.
Em 1857, a palavra
"pornografia" encontrou seu primeiro registro no OXFORD
ENGLISH DICTIONARY (assim como os termos pornógrafo e pornográfico).
Mas o primeiro registro da palavra data de 1769, segundo informações
do TRÉSOR DE LA LANGUE FRANÇAISE, no tratado de Restif
de la Brettone intulado "Le Pornographe", que trata de
temas associados à prostituição.
Mas os primeiros
esforços literários relacionados à pornografia
são atribuídos a Pietro Aretino, que no século
XVI escreveu duas obras (uma poesia e outra em prosa): "Ragionamenti"
e "Sonnetti Lussuriosi". O primeiro estabeleceu o modelo
de prosa pornográfica do século XVII: o autor utiliza
o diálogo entre duas mulheres. A modalidade do diálogo
teve amplo uso no século XVII e aparece ainda em " La
Philosophie dans le Boudoir" (1795) do Marquês de Sade.
O primeiro ensaio de "A Invenção da Pornografia",
escrito por Paula Findlen, aborda a figura de Aretino no Renascimento
do século XVI.
Contudo, o terceiro
ensaio do livro, escrito por Rachel Weil, apresenta um novo desdobramento
da pornografia: um instrumento de crítica política
e social. A pornografia passa a ser vista como uma transgressão
a ordem social do absolutismo. A tirania do reinado de Carlos II
foi muitas vezes retratada em paráfrases sexuais. O diálogo
é deixado de lado e o romance passa a dominar a atividade
literária pornográfica. Entre os mais destacados estão
"Fanny Hill" (1748) de Cleland e "Justine" do
Marquês de Sade.
Notadamente,
o que mais impressiona é que a ascensão da pornografia
coincidiu com o apogeu do iluminismo do século XVIII. 1748,
em que se publicou "O Espírito das Leis" de Montesquieu,
é um ano marcado por grande número de publicações
pornográficas. E alguns intelectuais, como Margaret C. Jacob
em seu ensaio na Parte Dois de "A Invenção da
Pornografia", asseveram um caráter materialista para
a pornografia. Ou seja, uma espécie de iluminismo sexual.
O próprio Diderot foi encarcerado por escrever textos pornográficos.
E a Revolução
Francesa apresenta mais um caráter para a pornografia. Intensificada
no Iluminismo pré-revolucionário, a pornografia política
alcança o ápice. Como Lynn Hunt descreve em seu ensaio
na Parte Três do livro aqui estudado:
"De fato,
a Revolução Francesa e a pornografia tinham algumas
conexões muito íntimas, no plano social e pessoal.
Pelo menos dois líderes revolucionários - Mirabeu
e Saint-Just- escreveram obras pornográficas antes da Revolução.
A pornografia de motivação política ajudou
a provocar a Revolução ao abalar a legitimidade do
Antigo Regime como sistema político e social. Em 1789, quando
a Revolução começou, a pornografia não
afundou em meio ao dilúvio de novas publicações;
em vez disso, emergiu à superfície das novas práticas
políticas populares, sob a forma de ataques ainda mais virulentos
contra os principais cortesãos e, em particular, contra a
rainha Maria Antonieta".
Contudo, após
a superação do movimento revolucionário, a
pornografia política se esvaiu em um outro estilo que voltou
as questionar essencialmente valores morais.
Com efeito,
ao se mencionar temas e abordagens pornográficas não
podemos deixar de citar a figura e a obra do Marquês de Sade.
O Marquês representou o ponto máximo: abordou quase
todos os temas da pornografia moderna e se especializou na catalogação
de práticas pornográficas. Lynn Hunt assim descreveu
o Marquês:
"Em sua
obra, o estupro, o incesto, o parricídio, a profanação,
a sodomia e o tribadismo, a pedofilia e todas as mais terríveis
formas de tortura e assassinato eram associados à excitação
sexual. Ninguém foi capaz de superar Sade, pois ele explorou
realmente a derradeira possibilidade lógica da pornografia:
a aniquilação do corpo - base real do prazer- em nome
do desejo. Essa reductio ad absurdum da pornografia não seria
possível sem o estabelecimento prévio da tradição
pornográfica".
Notadamente,
a evolução da pornografia se confunde com todas as
transformações vividas pela humanidade entre 1500
e 1800, desde o Renascimento até a Revolução
Francesa. Antes de qualquer preconceito e sem estabelecer nenhum
axioma (favorável ou negativo) a pornografia certamente é
um elemento de crítica, de questionamento de valores sociais,
morais e até mesmo políticos.
Ainda, a pornografia
representou o marco inicial da renovação da literatura
francesa moderna. E seus escritores, antes de "depravados",
"heréticos", eram livres-pensadores.
Esta mesma pornografia
também contribuiu para a verificação da chamada
"Democracia da Informação" delineada a partir
de 1800. Indubitavelmente, os esforços que procuraram erradicar
a pornografia meramente serviram para fortalecer o fenômeno.
E acima de tudo,
a pornografia possui seu valor na cultura e conduta humanas. E este
não deveria ser nem atacado, nem defendido: apenas respeitado!
E "A Invenção
da Pornografia" é certamente um passo nesta direção
notadamente mais evoluída e democrática.
("A Invenção da Pornografia", de Lynn Hunt.
Editora Hedra. 372 págs., R$ 29.00)
|