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Nada mais
foi dito nem perguntado
Por Ricardo
Besen (ricardobesen@ig.com)
Você
provavelmente já está cansado de assistir a cenas
de julgamento em filmes de Hollywood. Nada como uma boa sala de
tribunal para que astros como Tom Cruise ("Questão de
honra") e Keanu Reeves ("O advogado do diabo") possam
exercer (ou, ao menos, tentar) sua verve.
Essa quase fixação
pelos tribunais nas telas de cinema talvez esteja ligada ao fato
de que, nos Estados Unidos, se alguém espirrar ao seu lado,
você pode pedir uma indenização de milhares
de dólares e tem boas chances de ganhar.
Assim,
não é exagero afirmar que nossa idéia do que
ocorre dentro de um tribunal é também forjada por
Hollywood. Você poderia perguntar: e daí, o que não
é?
Bem, temos a
idéia de que a Justiça no Brasil não funciona
- e isso não foi forjado por Hollywood. De qualquer forma,
nossos tribunais estão operando. Luís Francisco Carvalho
Filho, advogado criminalista e articulista da "Folha de S.
Paulo" conta, em "Nada mais foi dito nem perguntado",
casos dos tribunais brasileiros.
Neles o Brasil
sai por todos os poros, no embate de cidadãos acima de qualquer
suspeita contra aqueles abaixo de qualquer suspiro, que nem ao menos
sabem que possuem direitos.
Eles saem dos
subterrâneos cada vez menos subterrâneos das cidades,
periferias, favelas, morros, hospitais. Subterrâneos já
íntimos de todos, pois não é possível
escondê-los eternamente.
Já na
superfície, todas as desigualdades, preconceitos, falhas
e vícios entram na sala sempre pela mesma porta. Como querer
que a balança da Justiça alcance o ponto de equilíbrio?
O estilo do
autor é rápido, incisivo, sucinto - tudo que a Justiça
não é. Nada mais foi dito nem perguntado - e muito
menos resolvido. Mas os casos contados no livro mostram ser aquilo
que ocorre dentro da sala dos tribunais somente um espelho do que
há do lado de fora.
Alguns automóveis
em São Paulo circulam com o seguinte adesivo: "Sem advogado
não se faz justiça". A leitura desse livro sugere
a confecção urgente de novos adesivos: "Sem engenheiros
não se fazem plataformas de petróleo", "Sem
médicos não se fazem hospitais públicos",
"Sem jornalistas não se faz uma imprensa livre",
etc.
("Nada mais foi dito nem perguntado", de Luís Francisco
Carvalho Filho, 86 págs., 15 reais, Editora 34)
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