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Ao Vivo do Corredor da Morte

Por Valdomiro Neto (igler@ig.com)

O leitor desavisado costuma assustar-se com uma notícia muito comum na mídia ocidental: a condenação de um inocente à morte, nos Estados Unidos.

A aplicação da pena capital é causa de grandes polêmicas nos EUA, onde a autonomia dos estados permite legislações diversas sobre o assunto. No estado da Pensilvânia a pena de morte é largamente utilizada.

É nessa região que localiza-se a prisão de Huntingdon, onde está detido, desde julho de 1982, Mumia Abu-Jamal, jornalista negro condenado à morte pelo assassinato de um policial branco, em um processo recheado de irregularidades e com nítida conotação racial.

Abu-Jamal descreve com pungência, no livro "Mumia Abu-Jamal Ao Vivo do Corredor da Morte" sua lenta agonia no que ele denomina de "Vale da Sombra da Morte".

Sua narração dos processos de revista dos detentos antes das visitas demonstra cabalmente como alguns carcereiros americanos nada perdem para os torturadores das Febems e congêneres brasileiras.

O gradativo afastamento da família, com as visitas esporádicas e fraturadas com vidros que impedem o contato, mostram o nível de desumanidade com que os presos são tratados.

Conhecido como a "Voz dos Sem-Voz", o jornalista, que nasceu na
cidade de Filadélfia, foi membro-fundador dos Panteras Negras, partido
que defendia os direitos dos negros nos Estados Unidos.

Durante o tempo em que se exerceu o jornalismo escreveu artigos críticos ao Departamento de Polícia da Filadélfia e chegou a trabalhar como taxista ao perder o emprego por denunciar uma agressão praticada por mais de seiscentos policiais contra membros do MOVE (outra organização negra em que todos os filiados utilizam o sobrenome Africa).

A principal atração do livro é o relato dos casos de violação a outros condenados à morte em processos viciados. Abu-Jamal conta, em um dos trechos mais eloqüentes da obra, que os afro-americanos constituem 9% da população da Pensilvânia, sendo, porém, 60% dos prisioneiros nos corredores da morte.

Com essa citação, o autor procura fortalecer sua tese de que a Justiça americana padece de um racismo antigo. Os fatos parecem corroborar o fraseado do jornalista: em abril passado, os eleitores do Mississipi (estado do Sul dos EUA) decidiram manter em sua bandeira - por meio de um plebiscito - a cruz azul pontuada de estrelas brancas, símbolo dos confederados do sul durante a Guerra Civil, em que os estados sulistas lutavam, entre outras coisas, pela manutenção da escravidão.

A edição brasileira conta com a inserção de uma carta do senador
Eduardo Suplicy endereçada à Procuradora-Geral dos Estados Unidos Janet Reno, pedindo uma "investigação sobre a violação dos direitos civis e constitucionais de Mumia Abu-Jamal".

Detalhes sobre o processo do jornalista, que atualmente aguarda a resposta da Justiça a um pedido de habeas-corpus para seja realizado um novo julgamento, enriquecem a obra.

Nelson Mandela, líder sul-africano que lutou contra o Apartheid (política de segregação racial) passou 26 anos preso por conta de segregação aberta.

Abu-Jamal foi vítima de uma segregação encoberta. Na África do Sul, o
regime era explícito. Em alguns estados americanos, parece que ele é
implícito.

("Ao Vivo do Corredor da Morte", de Mumia Abu-Jamal, 208 págs., 27 reais, Editora Conrad)
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