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"Mar Morto" conta histórias do
povo de Iemanjá
Por Marcela Tavares (marcela@ig.com)
"Vinde ouvir
essas histórias e essas canções. Vinde ouvir
a história de Guma e de Lívia que é a história
da vida e do amor no mar. E se ela não vos parecer bela,
a culpa não é dos homens rudes que a narram. É
que a ouviste da boca de um homem da terra, e, dificilmente, um
homem da terra entende o coração dos marinheiros.
Mesmo quando esse homem ama essas histórias e essas canções
e vai às festas de dona Janaína, mesmo assim ele não
conhece todos os segredos do mar. Pois o mar é mistério
que nem os velhos marinheiros entendem."
O medo de não
se fazer compreender contido nesse prefácio de Jorge Amado
para o romance "Mar Morto", finalizado em 1936, não
tem razão de ser. Ao narrar a vida dos pescadores do cais
da "cidade da Bahia", como chama Salvador, o autor consegue
passar com sutileza uma bela e triste história de amor.
Engana-se quem
pensa que os personagens principais do livro são o mestre
de saveiro Guma, respeitado por todos no cais, e sua amada Lívia,
que teme pela vida dele. Os verdadeiros protagonistas são
o mar e sua deusa, Iemanjá, ambos temidos e reverenciados
pelos marítimos.
Em torno desses
protagonistas é que casamentos, mortes, nascimentos, crimes
e amores acontecem. É no mar que o pai de Guma se perde,
é na festa de Iemanjá que ele vê pela primeira
vez os olhos claros de Lívia.
A grande vantagem
de "Mar Morto" é que mesmo com suas descrições
poéticas da vida dos mestres de saveiro, os personagens pensam,
sentem e se comovem com assuntos que realmente fazem parte de seu
cotidiano.
Ainda assim,
a face política de Jorge Amado pode ser percebida através
do médico Rodrigo e da professora Dulce, que esperam um dia
ver seus pacientes e alunos em melhores condições
de vida.
Mesmo vendo
a reciclagem feita pela Globo dos personagens do livro, vale a pena
mergulhar no mar de mistérios e aventuras narradas por Amado.
Uma leitura perfeita para aqueles últimos dias de verão,
fitando as águas, reino de Iemanjá
("Mar
Morto", de Jorge Amado. Editora Record, 262 págs, R$14,00)
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