|
 
48
Variações sobre Bach
Por Marcelo Cid (igler@ig.com)
Se
um só livro sobre Bach tiver de ser escolhido pelo leitor
não especialista, que quer saber mais sobre o compositor,
este de Rueb serve muito bem.
Em seus 48 capítulos, que são ensaios ou 'variações',
nada de importante é deixado de lado - mas fique claro que
Rueb fala ao público leitor em geral como historiador da
cultura: nele não há interpretações
musicais, sociológicas ou psicológicas em profundidade,
o que é, aliás, um dos pontos fortes de seu livro,
que de outro modo seria uma biblioteca e não um volume.
Tampouco esse
livro é a história de um homem, uma biografia que
esmiuça aspectos do coração e da mente do biografado,
quanto possível. Nesses termos, não se pode comparar
as '48 variações sobre Bach' com um livro tocante
e profundo como 'Mozart - a life', de Maynard Solomon.
Mas, de qualquer
maneira, os 48 ensaios contêm biografia, história,
psicologia, musicologia, sociologia e muito mais. Dos mais interessantes
são os que mostram como variou, ao longo do tempo, a apreciação
da obra de Bach, do esquecimento quase completo à adoração
no século XX.
A primeira variação é exatamente esta, 'Esquecimento':
"A época não tinha a menor idéia da
grandeza de Bach. Seus filhos quase não executaram obras
dele; quando nelas puseram as mãos foi para um ato de pilhagem:
em troca de dinheiro, venderam partituras e anotações
musicais de seu pai" (p. 18).
Rueb descreve os fatores musicais e sociais que levaram a esse esquecimento,
que, aos fervorosos bachianos de hoje, fazem lembrar passagens do
Evangelho de João: "E a luz resplandeceu nas trevas,
e as trevas não a compreenderam". Essa linguagem religiosa,
aliás, é quase inevitável quando se fala da
música de Bach, e está ao longo de todo o livro, nas
citações de artistas, filósofos e compositores
falando da obra do Kantor.
Essas citações
abrem cada 'variação', e iluminam a nossa compreensão
da importância do compositor. "Bach é um dos maiores
amigos da humanidade", disse Shostakovich.
"A humanidade reconhece na música de Bach algo que é
maior do que ela própria", disse Yehudi Menuhin.
"Johann Sebastian Bach é o ponto central da música.
Sua obra reúne em si o espírito do norte, a sensualidade
do sul, a força do leste e a segurança formal do oeste",
Werner Egk.
"Johann Sebastian Bach foi um desses heróis da arte.
Nele tiveram origem tantas coisas novas e tão perfeitas em
seu gênero que o tempo anterior a ele como que emergiu em
trevas e fez com que, curiosamente, seu contemporâneo Händel
parecesse pertinente a outra época", Carl Maria von
Weber.
É curioso notar que os compositores - Berlioz, Debussy, Rossini,
só para citar alguns nomes - os que mais entendem do assunto
e que poderiam mencionar inovações técnicas
e coisas parecidas, sejam os que mais falam de 'milagre', 'Deus',
'luz e trevas' ao se referirem a Bach, como registrado nas epígrafes
que Rueb escolheu. Schumann é mais comedido mas não
surpreende menos:
"Com o
tempo, as fontes ficam cada vez mais próximas. Beethoven,
por exemplo, não precisou estudar tudo o que Mozart precisou.
Mozart, por sua vez, nem tudo o que Händel estudou. Händel,
nem tudo o que Palestrina precisou estudar. Isso porque cada um
já tinha assimilado o seu antecessor. Só um compositor
continuou a ser fonte inesgotável de ensinamentos para a
criação de todos os outros: Johann Sebastian Bach."
Rueb historia essa verdade, por exemplo quando relata que Schönberg
considerava Bach "o primeiro compositor dodecafônico".
O autor observa, no entanto, como alguém de bom senso poderia
esperar, que "no processo de adoração e de
deturpação de Bach, houve aqueles que pilharam suas
obras, outros que sobre ele formularam frases-clichês e até
mesmo aqueles que se excederam em adorá-lo" (p.
324).
Assim, temos
ao longo dos 48 capítulos também uma história
da recepção da música de Bach, como o público
e os especialistas foram deixando de ouvi-la como antiquada, depois
expressiva, genial (o Romantismo alemão criou uma imagem
de Bach ainda não de todo esvanecida), e até ultra-moderna,
mas enfim, eterna.
Como biografia,
ficamos sabendo tudo o que importa: Bach como filho e depois como
pai (casado duas vezes, teve vinte filhos e perdeu dez deles ainda
crianças), como funcionário público, como luterano,
como homem de temperamento forte, como patriarca e burguês
respeitado - como artista incompreendido, também: os maravilhosos
'Concertos de Brandenburgo', compostos sob encomenda para um nobre,
não puderam ser executados porque os músicos o acharam
muito difíceis. Aos contemporâneos, Bach era mais um
especialista em órgãos - que ele podia projetar e
reparar - do que um grande compositor.
Enfim, o livro
de Rueb, por ser de escopo tão vasto, nos faz saber muito
sobre Bach e pensar muito nas relações do artista
com o seu meio social.
("48 Variações sobre Bach", de Franz Rueb, 376 págs, 33
reais, Editora Companhia das Letras)
|