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Desilusão Digital: Onde anda a Nova Economia? (1)

Marcos Prado Troyjo, colunista do iG.com

Será que alguém tem ouvido ultimamente o termo "nova economia"? Ou será que esta expressão está caindo algo em desuso, fora de moda? Em Davos e Porto Alegre, ouvimos claras referências à sua irmã maior - a globalização - com as tomadas de posição num maniqueísmo que não faz bem nem para a alma, nem para uma melhor compreensão do mundo contemporâneo.

A capital gaúcha ouve argumentos que remetem aos mais variados "tempos de contestação". Certo participante do encontro em Porto Alegre observava que a reunião tinha um sentido "plural", já que contava com manifestantes dos séculos XVIII, XIX e XX.

Há a antiga lamúria da substituição do homem pela máquina, típica dos "luddistas" do século XVIII, que esquece que a tecnologia não elimina o trabalho, transforma-o. Escuta-se a exaltação do nacionalismo como forma de resistência à globalização, o que eleva o "nacionalista" à categoria de herói romântico, característico do século XIX. Há também uma legítima voz, muito ouvida no século XX, que se ergue contra a desigualdade e a exclusão, essa sim "transepocal", válida através dos tempos, mas que esquece que a globalização não inventou as injustiças sociais.

O pior perigo da realização simultânea dos dois encontros é a simplificação demasiada; a "basse vulgarisation". Por um lado, arautos da globalização que agora têm de explicar porque o avião da nova economia baixa sua altitude de vôo e todos nós, no mundo desenvolvido ou no bolsão de privilegiados do mundo em desenvolvimento, não mais ficaremos ricos da noite para o dia com ações de empresas high-tech. Por outro, o regresso à dicotomia "burguês x proletário", "particular x universal", em que globalização seria mero sinônimo de "alto capitalismo financeiro", que, vivendo uma de suas crises cataclísmicas, estaria prestes a anunciar uma nova era, uma volta a utopias não realizadas durante a Guerra Fria.

Mas temos necessariamente de diferenciar a sobrevalorização das ações de algumas empresas de alta tecnologia, em especial na bolsa eletrônica da Nasdaq, o que se encerrou com o esgotamento da "era da inocência" no ano passado, com o tema mais amplo da nova economia, que está aí para ficar. Como já vimos em colunas anteriores, nova economia não é a montanha-russa de uma mercado acionário insensível aos fundamentos da economia e anárquico em relação às leis de oferta e procura.

A nova economia não acabou. É o resultado inequívoco da crescente aplicação das novas tecnologias de informação e comunicação à atividade produtiva, seja no setor agrícola, industrial, de serviços ou mesmo no chamado setor "quaternário" de alto agregado tecnológico. Estima-se, por exemplo, que em 2005, tempo em que se prevê a conclusão da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), 10% da economia global será negociada online, algo em torno de 3 trilhões de dólares.

No entanto, a revolução digital não é apenas afeta à idéia de nova economia. Diagnósticos à distância e informações em sites médicos melhoram a vida de pacientes no mundo todo a custos baixos. Organizações Não-Governamentais, minorias étnicas e mesmo culturas locais também podem expandir sua voz e reforçar a idéia de cidadania a baixos custos por meio da Internet. Isso para não mencionar os gigantescos ganhos de produtividade - esta sim econômica - e de tempo para lazer, para família ou o que seja, que advêm das novas tecnologias da informação.

Ainda que Davos e Porto Alegre apresentem interpretações e receituários diferentes, parece inegável que com linhas telefônicas mais baratas e acessíveis, o investimento maciço em comunicação e a prática da governança transparente - possível mediante a aplicação do conceito de e-government - as sociedades ficarão menos vulneráveis às intempéries da globalização.

Na semana que vem, examinaremos um pouco as opiniões de Davos e Porto Alegre - análises da "desilusão digital" do ano 2000. (MPT)

troyjo@ig.com.br

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