Busca por notícias

Nossas Fontes












As Terças de Greenspan

Marcos Prado Troyjo, colunista do iG.com

Como acontece oito vezes a cada ano, a terça-feira, 19 de dezembro próximo, será data de mais um anúncio por parte do FED - Federal Reserve Board - o banco central norte-americano, da taxa de juros Prime, que baliza em grande medida as políticas monetárias ao redor do globo. Sempre que uma dessas terças-feiras se aproxima, começa em todo o mundo, e particularmente nos Estados Unidos, uma série de cogitações sobre os destinos da mais poderosa economia do planeta.

Já se brincou certa vez que quando o Presidente do FED, Alan Greenspan, espirra, o mundo pega um resfriado. Mas o anúncio do próximo dia 19 torna-se ainda mais especial, pois está envolvido por circunstâncias, econômicas e políticas, que poderão determinar a maneira pela qual a economia mundial ingressará no século XXI. Afinal de contas, como já tive ocasião de ressaltar em outra coluna, o ano 2000 representou o fim da "era da inocência" para a nova economia. De acordo com Floyd Norris, do New York Times", a Nasdaq fechou a semana passada com uma desvalorização média das ações lá negociadas de quase 50% desde seu ápice em março último.

É interessante que em seu pronunciamento do próximo dia 19, Greenspan também estará comemorando o quarto aniversário de seu termo "exuberância irracional", que caracterizou a fase de "mega-expansão" da nova economia nos EUA combinada com consumo doméstico aquecidíssimo, balança comercial no vermelho, superávit do setor público, baixas taxas de poupança interna e alto endividamento privado e corporativo.

Na mesma linha, Greenspan opera numa economia que já mostra sinais de uma "aceitável desaceleração", com o desaquecimento do setor industrial norte-americano e um PIB projetado para 2000 de algo como 2,5%. Crescimento, ma non troppo.

Complica esses dados o fato de que muitos dos empregos gerados em empresas da nova economia estão passando por inéditas metamorfoses, que deverão repercutir num aumento, ainda que pequeno, do desemprego doméstico nos EUA. No entanto, aparentemente sumiram do mapa ameaças mais graves de inflação interna, sobretudo em razão da contração do setor de manufaturas. Associam-se a este cenário mercados de ações que ainda se sensibilizam com a falta de definição do pleito presidencial.

Assim, se por um lado os indicadores econômicos parecem estar oferecendo a Greenspan os elementos de que necessita para a tão almejada "aterrisagem suave", por outro a política terá de ser levada em ampla consideração no próximo anúncio da taxa. Não fora a indefinição das urnas na Flórida, talvez o FED pudesse apertar ainda mais a política monetária. Ao contrário, para aumentar o entusiasmo na economia norte-americana em meio à batalha político-jurídica que se desenrola, o FED deverá anunciar uma ligeira queda na taxa.

Mas ao lado da avaliação fria que se faz em torno dos números e índices, vale examinar como Greenspan já alcançou categoria quase mítica na vida pública, com sua maneira ora aberta, ora enigmática de atuar. Ultrapassa o establishment burocrático de Washington, o estrelato político norte-americano. Na análise de alguns, sua influência sobre a economia torna-o a pessoa mais importante do mundo. Em conseqüência, cresce a cada dia o interesse sobre a trajetória e a maneira de pensar deste nova-yorkino que desde 1987 chefia o FED, já tendo passado por Reagan, Bush e dois mandatos de Clinton, e projeta sua permanência à frente do FED até 2004.

Nesse sentido, vale a pena ler Maestro: Greenspan's FED and the American Boom (Simon & Schuster, NY, 2000), de Bob Woodward, colaborador do Washington Post e da CNN e autor das reportagens que retrataram o escândalo de Watergate, mais tarde condensadas em Todos os Homens do Presidente, também de sua autoria.

Woodward nos mostra um perfil de Greenspan que, na condição de economista da "velha escola" e combatente ardoroso contra a inflação, foi dos primeiros a perceber o potencial inovador e de alta produtividade da nova economia, ajudando a levar os EUA a uma década de contínua prosperidade. (MPT)

Artigos anteriores:

27/11/00 A Lei Internacional sobre o Cibercrime
20/11/00 Debatendo o Digital Divide (2)
13/11/00 Debatendo o Digital Divide (1)
06/11/00 O Ceticismo de Gates
30/10/00 A Bolha que Não Estoura (2)
23/10/00 A Bolha que Não Estoura (1)
16/10/00 Ler a Globalização: Cibernéticos, Cibercéticos e Ciberéticos (2)
09/10/00 Ler a Globalização: Cibernéticos, Cibercéticos e Ciberéticos (1)

02/10/00 Harvard: Usina da Pré-competitividade
25/09/00 A Cidade na Nova Economia: do Silicon Valley ao Silicon Alley
18/09/00 Regulamentando o E-commerce Internacional
11/09/00 O Dilema da Infra-Estrutura Tecnológica
04/09/00 A (i)lógica do novo mercado de ações
28/08/00 O que é nova economia? (2)

21/08/00 O que é nova economia? (1)

Confira outros artigos dos colunistas:

Aleksandar Mandic - Terça-feira
Adonis Alonso - Quarta-feira
Marcio Chleba - Quinta-feira
Paul Singer - Sexta-feira


TV iG Business
Assista à entrevista de Luiz Carlos Urquiza, Presidente do Banco1.net