Debatendo
o Digital Divide (2)
Marcos Prado Troyjo, colunista do iG.com
A última semana foi mais um período dominado pelas discussões
acerca do que a comunidade internacional deve fazer sobre
o digital divide. ONU, em Nova York, UNESCO, em Paris, e
Harvard foram os pólos deste debate.
O
Secretário-Geral das Nações Unidas anunciou a composição
(estelar) de sua Força-Tarefa encarregada de encaminhar
propostas aos 189 governos do mundo sobre maneiras de se
encurtarem as distâncias digitais. Sua formação se dá em
seguimento ao chamado "Relatório do Milênio", em que Kofi
Annan reconhece o papel central que as tecnologias da informação
estão desempenhando na definição dos níveis de desenvolvimento
humano no próximo milênio. Tadao Takahashi, Diretor do Programa
Brasileiro para a Sociedade da Informação, integrará esta
equipe, a ser encabeçada pelo ex-Presidente da Costa Rica,
José Maria Figueres, que desde a Global Knowledge Conference
(Toronto, 1997) vem assumindo papel de liderança na expansão
da utilização das tecnologias da informação no mundo em
desenvolvimento. A composição da Força-Tarefa e o "Relatório
do Milênio" podem ser acessados no site da ONU (www.un.org).
Na
UNESCO, em Paris, o debate se inseriu no marco da Conferência
"Infoética 2000". Tratou basicamente do papel das autoridades
públicas no acesso à informação; na idéia de "fair use"
na sociedade da informação e na proteção da "dignidade"
na era digital. A noção de fair use é extremamente importante.
Busca alcançar o tênue equilíbrio entre, de um lado a necessidade
de democratização à informação e o acesso ampliado à Internet,
e, de outro, o indispensável direito à propriedade intelectual
e o fim da pirataria digital. A Conferência visa a reservar
espaço para que a UNESCO possa ter voz ativa nas questões
"morais"que emergem com a sociedade do conhecimento, e que
portanto devem ser debatidas na "Cúpula Mundial da Informação"
planejada para 2003.
Também
as diferenças lingüísticas foram abordadas, como ilustra
a intervenção de Christine Maxwell, da Internet Society,
lembrando o papel que a UNESCO pode desempenhar nesse campo
e o Programa UNILÍNGUA, que vem sendo empreendido pela Universidade
das Nações Unidas em Tóquio. Parte interessante da discussão
sobre o fair use tem que ver com o próprio futuro da expansão
de computadores pessoais nos países em desenvolvimento,
já que uma tendência que parece aflorar é a da utilização
de telefones celulares, mais baratos do que os PCs, para
a recepção e transmissão de dados do tipo Internet (maiores
detalhes sobre a Infoethics2000 - www.unesco.org).
Já
em Harvard, dois dos mais importantes indivíduos da economia
contemporânea, George Soros e Jeffrey Sachs abordaram o
digital divide no quadro maior do impacto que a globalização
vem surtindo nos países mais pobres. Lembraram paradoxos
como a prosperidade digital de algumas nações do hemisfério
norte (que representam apenas 1/6 da população mundial)
e o fato de que a cada ano 3 milhões de pessoas morrem vítimas
de doenças que poderiam ser evitadas por vacinas.
De
forma lúcida, e num certo sentido coincidente com as reflexões
de Bill Gates na Conferência "Criando Dividendos Digitais",
Soros e Sachs argumentam que as nações mais desenvolvidas
respondem por vezes aos problemas das nações em desenvolvimento
com o discurso da "reforma fiscal e de eleições democráticas".
Na interlocução com os países mais pobres, deveriam estar
falando de "doenças transmissíveis por insetos".
Assim,
quando esses países enfrentam dificuldades mais severas,
a solução de gaveta parece ser "chamem o FMI", instituição
versada em crises internacionais de liquidez, mas pouco
instrumentalizada para energizar o combate à miséria mundial.
Soros e Sachs comparam a maneira com que o FMI trata o Terceiro
Mundo ao modo que o Reino Unido relacionava-se com suas
colônias há um século. Dois importantes textos de referência
sobre essas observações são Open Society (PublicAffairs,
New York, 2000), de George Soros, e Helping the World's
Poorest (www.cid.harvard.edu/cidsocialpolicy),
de Jeffrey Sachs.
Com
o acompanhamento desses debates, cristaliza-se, cada vez
mais, a percepção de que o digital divide não é nada mais
do que a expressão tecnológica de um mundo dramaticamente
dividido do ponto de vista sócio-econômico. Não é causa;
é conseqüência das desigualdades mais elementares em setores
como educação, saúde, transporte - o que poderíamos chamar
de "infra-estrutura básica para a competitividade".
O
digital divide, como a febre, não é uma doença em si. É
sintoma de uma enfermidade mais profunda que aflige o organismo
da sociedade internacional. (MPT)
Artigos
anteriores:
13/11/00
Debatendo o Digital Divide (1)
06/11/00 O Ceticismo de Gates
30/10/00 A Bolha que Não
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23/10/00 A Bolha que Não Estoura
(1)
16/10/00 Ler a Globalização: Cibernéticos,
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09/10/00 Ler a Globalização: Cibernéticos, Cibercéticos
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11/09/00 O Dilema da Infra-Estrutura
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04/09/00 A (i)lógica
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28/08/00 O que é nova economia? (2)
21/08/00 O que é nova economia?
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