Debatendo
o Digital Divide (1)
Marcos Prado Troyjo, colunista do iG.com
A divisão entre o mundo desenvolvido e em desenvolvimento
mereceu grande esforço de reflexão nos últimos cinqüenta
anos. E para cada década deste período parece haver-se concebido
uma ou duas grandes "explicações-síntese", que buscavam
esclarecer as razões para tantas disparidades do progresso
humano. Não nos soarão estranho termos como "centro-periferia",
países "maquiladores", "dívida externa", nações de "primeira"
ou "segunda" revolução industrial, etc. São termos que povoaram
o vocabulário de quem se dedicou a pensar sobre as distâncias
sócio-econômicas entre os povos.
Mas,
contemporaneamente, junto com o termo "nova economia", veio
atrelada a noção de que o principal catalisador da diferença
do desenvolvimento entre os países às portas do século XXI
é o digital divide.(continuarei utilizando a expressão em
inglês pois ainda não recebeu versão amplamente difundida
em português). Não mais falaremos de países industrializados
ou em vias de industrialização. O "golfo" agora é "pós-industrial".
São os conectados e os "em via de conexão".
É
uma questão a que se vêm lançando algumas das mais prestigiosas
instituições acadêmicas do mundo, como se vê pela realização,
em fins de outubro último, da Primeira Conferência Harvard/MIT
sobre E-Development e a "Cúpula das Nações Digitais", ambas
sediadas no Media Lab do MIT. Bem, as discussões travadas
nesses dois encontros revelam que, como sugere Mark Anderson
da revista WIRED, há uma "ampla divisão quanto ao "digital
divide".
Para
Gabriel Accascina, do Programa das Nações Unidas para o
Desenvolvimento, não é correta a expressão digital divide,
as distâncias são econômicas e socias, e a digitalidade
da sociedade da informação serve para encurtar essas distâncias.
Na sua experiência, trabalhou para conectar à Internet países
como Butão e Fiji, e mesmo o território de Timor Leste.
Mas a conexão pouco pode fazer onde o fosso econômico e
social é tão grande. Já um representante do setor privado,
David Stephens, Presidente da OnSat, referiu-se à utilização
de fontes energéticas alternativas para unir os pólos do
desenvolvimento ambientalmente sustentável e das tecnologias
da informação.
Com
auxílio da UNESCO e da OEA, sua empresa estabeleceu em Honduras
estações alimentadas à energia solar para a conexão remota
de vilarejos via satélite à Internet. Impecilhos para o
êxito do projeto: a proibitiva conta de U$ 150 mil para
sua instalação e o fato de que a inexistência de uma rede
de transportes eficiente fez com que os equipamentos tivessem
de ser carregados em viagens de até oito horas sobre o lombo
de animais de carga (burros) até a localidade do projeto.
Espera-se
que a iniciativa se torne auto-sustentável em alguns meses,
quando os moradores das vilas em que se instalar derem aulas
de espanhol online para estudantes nos EUA e cafeicultores
locais venderem suas safras diretamente a clientes no exterior
pela Internet. Durante as conferências, o Chefe Acadêmico
do Media Lab, Alex Pentland, também chamou a atenção para
o fato de que os países que não contam com quaisquer infra-estruturas
de telecomunicações apresentam uma série de vantagens inesperadas
no que toca à informatização de suas sociedades.
Tais
países não teriam de promover qualquer tipo de reconversão
tecnológica - como a dispendiosa substituição do fio de
cobre pela fibra ótica. Poderiam diretamente valer-se dos
melhores e mais acessíveis sistemas de conexão remota via
satélite, por exemplo, acoplados a mecanismos de alimentação
energética de tipo fotovoltaico, como faz o projeto da OnSat.
É interessante que John Kenneth Galbraith usou argumento
semelhante em muitos de seus livros, como a Era da Incerteza,
declarando que os países em desenvolvimento não teriam de
substituir parques industriais obsoletos.
Seriam
capazes de instalar o estado-da-arte industrial mesmo a
partir de economias agrárias mais primárias. Infelizmente,
a década de 90 mostrou-nos que os países desenvolvidos chegaram
mais rapidamente à economia tecnológica pós-industrial de
serviços do que os países em desenvolvimento a constituir
parque industrias para a produção de manufaturas tradicionais.
Na próxima coluna continuaremos examinando as muitas faces
do debate sobre o digital divide. (MPT)
Artigos
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O Ceticismo de Gates
30/10/00 A Bolha que Não
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23/10/00 A Bolha que Não Estoura
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16/10/00 Ler a Globalização: Cibernéticos,
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09/10/00 Ler a Globalização: Cibernéticos, Cibercéticos
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25/09/00 A Cidade na Nova Economia:
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11/09/00 O Dilema da Infra-Estrutura
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28/08/00 O que é nova economia? (2)
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