O
Ceticismo de Gates
Marcos Prado Troyjo, colunista do iG.com
Seattle é uma cidade conhecida por seu clima irregular.
Alterna dias - mais escassos - de sol radiante com precipitações
bruscas e torturantes garoas. Mas na semana passada a mudança
mais notável em direção a um céu cinzento se deu nos humores
do homem mais rico de todos os tempos, aquele que por muitos
é considerado o maior pregador da catequese da sociedade
da informação. Bill Gates, durante a Conferência "Criando
Dividendos Digitais", sustentou que a interconectividade
e a própria lógica de mercado não trarão, necessária e inercialmente,
benefícios tangíveis para os 6 bilhões de indivíduos que
habitam este planeta.
É uma reflexão admirável por parte do autor de A Estrada
para o Futuro, que de certa forma sugere com seus pensamentos
mais recentes uma espécie de "fadiga das soluções digitais".
Gates constata que nos países mais pobres do mundo, com
rendas per capita de cerca de U$ 1 por dia, um computador
ou o acesso à Internet não fazem grande diferença. Fala
assim de uma "volta aos básicos", advogando em favor dos
investimentos mais fundamentais em alimentação e saúde.
Não
é preciso ser nenhum gênio para perceber que, onde não há
energia elétrica, puxa-se o tapete sob os pés da sociedade
da informação. E mesmo soluções tecnológicas mais avançadas
como a energia fotovoltaica (solar), não pode ser consumida
- e muito menos desenvolvida - por comunidades que vivem
à mingua de um punhado diário de dólares.
Achei
interessante que, em seus comentários durante a Conferência,
Gates tenha salientado que mesmo os computadores têm de
ser colocados "sob a perspectiva dos valores humanos", traço
de uma "ciberética" que já mencionamos nesta coluna. Esta
é uma inflexão importante, também em termos de recursos
materiais. A Bill e Melinda Gates Foundation cambiará em
breve o foco de sua atenção das tecnologias da informação
para a distribuição de medicamentos e o aperfeiçoamento
de vacinas - o que deverá consumir algo como 2/3 dos U$
21 bilhões da Fundação, como informa Sam Verhover, do New
York Times. Para fins de comparação, lembremos que o orçamento
regular anual da ONU é de apenas cerca de U$ 1 bilhão.
Vale
notar que Gates não parece ter perdido sua fé no futuro
das tecnologias da informação. Apenas confessou-se "ingênuo"
em seu entusiasmo inicial quanto às soluções que o capitalismo
global, por si só, pode oferecer aos problemas mais graves
do mundo em desenvolvimento. As distâncias sociais no campo
da saúde pública, da educação e dos direitos humanos precedem
assim o chamado "digital divide". É por isto que estas conclusões
são importantes para o próprio fortalecimento e da sociedade
da informação. Não há nova economia ou comércio eletrônico
que se sustente ao longo tempo sem a "inclusão sócio-digital"
das nações menos favorecidas, que tampouco investem ou consomem.
Gates
nos sinaliza que as tecnologias da informação não são um
fim em si. São instrumentos - utilíssimos - para construirmos
um mundo mais justo e melhor. Mas não bastam. Afinal de
contas, internauta sem renda, saúde, cidadania e passando
fome não pára em pé. (MPT)
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