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A Bolha que Não Estoura (1)

Marcos Prado Troyjo, colunista do iG.com

A semana que passou encerrou-se com uma significativa recuperação dos índices da nova economia, particularmente com a subida da Nasdaq, capitaneada pelo anúncio de resultados melhores do que os esperados no exercício operacional da Microsoft. Essa melhora no patamar da nova economia também foi auxiliada pela percepção, por parte dos investidores, de que muitas das ações de empresas de alta tecnologia encontravam-se de fato "baratas", em razão das sucessivas quedas verificadas nos últimos meses.

Para alguns analistas, as oscilações dos papéis high-tech, muito mais bruscas dos que as inflexões do Dow Jones, apenas refletem a própria natureza cambiante de um mercado ainda radicalmente novo, que ao se ajustar produz "ondas curtas" de otimismo (e realização de lucros) ou pessimismo (amargurando-se perdas). No entanto, outra classe de analistas jamais deixa de associar as atividades que conformam a nova economia, e particulamente sua bolsa eletrônica, ao chamado "efeito bolha", ou bolha especulativa.

A expressão marcou a memória recente dos economistas com a conhecida "bubble economy", fenômeno que caracterizou um Japão nos anos 80 que produzia demais, poupava demais e consumia de menos. Isto levou a uma grave "ascensão e queda" dos ativos japoneses e a uma razoável perda de competitividade, sobretudo no campo dos produtos "intangíveis" de tecnologias da informação.

Segundo esses cataclísmicos observadores, há uma certa "inevitabilidade" de que em algum momento um tremor de terra mais avassalador irá banir da cena grande parte das pontocom e ridicularizar os entusiastas da nova economia, da mesma forma que um dia os movimentos do magma produzirão o "big one", terremoto que provocará grande destruição e separará a Califórnia dos EUA continentais.

Por que se realizam tais previsões? Por que a idéia da "bolha" aparece sempre unida por um cordão umbilical à nova economia?

Entendo que isso se deve à convencional explicação de que é insustentável, no médio prazo, que investidores continuem apostando, via bolsas eletrônicas, em empresas que, sustentadas unicamente por uma "promessa para o futuro", não produzem lucros operacionais concretos. A lógica é esta: a teoria econômica nos ensina a figura dos lucros "supra-normais". Isto é, um determinado setor da economia, em virtude da inovação tecnológica, ou mesmo da mudança psicológica ou comportamental dos consumidores, começa a produzir lucros maiores para as empresas que ali chegarem primeiro que a taxa média de lucratividade da economia com um todo.

No entanto, o lucro supra-normal gerado naquele setor é tão atraente que mais e mais empresas acabam direcionando suas atividades para lá, fazendo então cair aqueles lucros excepcionalmente altos. Apenas para ater-nos ao exemplo norte-americano, quando o setor de ferrovias auferia lucros supra-normais com a consolidação da "Conquista do Oeste" no século XIX, os EUA chegaram a ter cerca de 5.000 empresas ferroviárias. Com o "boom" do automóvel no início do século XX, os EUA contaram 2.000 indústrias automobilísticas. Desnecessário dizer que hoje, nestes dois ramos, soma-se apenas uma dezena de empresa nos EUA.

Na mesma medida, a supra-lucratividade dos primeiros anos da nova economia teria atraído investimentos em demasia, devendo agora necessariamente sofrer um signficativo esfriamento. Uma das maneiras de se promover tal queda de temperatura no termomêtro da nova economia seria um expressivo aumento da taxa de juros por parte do Fed (Federal Reserve Board) o Banco Central norte-americano.

Contudo, já começam a circular nos EUA teses que sustentam que uma elevação dos juros acarretaria, nos próximos anos, efeitos semelhantes aos da "Reaganomics" nos anos 80. Aumentaria o grau de endividamento público e de empresas. Mas prosseguiriam a prosperidade e a inovação da economia norte-americana, com a migração de ativos para os EUA, precipitando assim efeitos incertos para o resto do mundo. Instrumentalizada pela "Reaganomics", a bolha (norte-americana) não estouraria.

É a tese que exploraremos na semana que vem. (MPT)

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