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Ler a Globalização: Cibernéticos, Cibercéticos e Ciberéticos (1)

Marcos Prado Troyjo, colunista do iG.com

O debate sobre globalização torna-se cada vez mais interessante - e acirrado. Essa série de revoluções nas comunicações, nos transportes e - sobretudo - nas mentalidades produz adeptos de um lado e de outro, que por vezes se comportam com paixão futebolística. Para os "cibercéticos", pessimistas, cada queda no índice da Nasdaq é um gol marcado contra o adversário globalizado, otimista.

Nos anos 60, a medida do protesto eram as flores nos canos das armas. Nos 70 e 80, o "cercamento" de dependências militares onde se abrigavam armas nucleares. Daí em diante, nos 90, abraçar árvores e a retórica ambientalista. Ao final do milênio, o ponto de discórdia, o vilão ou o herói, é esta inédita vertente tecnológica e de operação de negócios (business): a nova economia.

Não é à toa que um hoje dos cursos mais populares de Harvard, parodiando Freud, se intitule "A Globalização e seus Descontentes" ministrado por Stanley Hoffmann e Thomas L. Friedman. As torcidas se antagonizam - Cibernéticos versus Cibercéticos, otimistas versus pessimistas: uns vestem a camisa das pontocom; outros perfilam-se à baderna de Seattle e Praga.

Para os primeiros, globalização é uma força espontânea e libertária, capaz de oferecer ao mundo níveis de conhecimento e riqueza nunca alcançados de forma tão democratizante. Para os segundos, globalização é ideologia, traz consigo um sistema de valores, e, portanto, "serve mais a uns que a outros". A irmã-gêmea da "prosperidade digital" dos países desenvolvidos é a crescente "exclusão digital" da periferia subdesenvolvida.

Mas para nós, que desejamos manter um conhecimento mais do que apenas "opinativo" sobre matéria tão atual, já é possível relacionar uma série de textos que podem nos ajudar a subsidiar perspectivas mais bem-fundadas. Falo aqui da importância de conhecermos uma "bibliografia introdutória à globalização e à nova economia". É claro que, para o bem do conhecimento, não podemos nos afiliar a apenas uma ou outra vertente de interpretação. Portanto, o que sugiro é um bom "coquetel" para os que desejam se tornar participantes - ou ao menos "espectadores engajados" - dessa nova e apaixonante caraterística da sociedade contemporânea.

O texto mais abrangente por onde se pode começar é Information Age: Economy Society and Culture (Blackwell, 1999) de Manuel Castells. Sou fã de Castells há muito tempo. Ele tem a virtude de não cair no "tecnicismo otimista", na "tecnologia como panacéia", que caracteriza livros mais superficiais, mas não deixa de reconhecer que a nova economia está aí para ficar.

No campo da "cibercautela", temos Carl Shapiro e Hal Varian com seu "Information Rules" (Harvard Business School Publishing, 1998), onde se argumenta que as "tecnologias se transformam, mas as leis econômicas são imutáveis". Um elogio aos parâmetros da "velha economia". Em linha semelhante, Tom Standage compara em "The Victorian Internet" (Penguin Putnam,1999) o impacto da invenção do telégrafo na Inglaterra do século XIX ao aparecimento da internet. Ambos, telégrafo e internet, reduziram drasticamente o custo das comunicações e ampliaram o montante de informação disponível a toda a sociedade.

Mas ao telegráfo não se reputa a fundação de uma nova ordem econômica. Já Dan Schiller, maior porta-voz dos cibercéticos, joga uma ducha de água fria nos otimistas e defende em seu "Digital Capitalism" (MIT Press, 2000) que a economia da informação oferece instrumentos sutis para consolidar o poder de empresas transnacionais de comunicações. Na medida em que se alastram as diferenças sociais, a nova economia consolida uma "cultura consumista" de grupos privilegiados.

Schiller argumenta que o capitalismo digital apenas fez aumentar os dois mais perversos subprodutos da lógica de mercado: a desigualdade e a dominação. Na semana que vem, veremos um pouco da bibliografia do "ciberentusiasmo" e a importância de nos guiarmos por uma "ciberética" no debate sobre globalização e nova economia. (MPT).

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02/10/00 Harvard: Usina da Pré-competitividade
25/09/00 A Cidade na Nova Economia: do Silicon Valley ao Silicon Alley
18/09/00 Regulamentando o E-commerce Internacional
11/09/00 O Dilema da Infra-Estrutura Tecnológica
04/09/00 A (i)lógica do novo mercado de ações
28/08/00 O que é nova economia? (2)

21/08/00 O que é nova economia? (1)

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